Essa é a minha tradição
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Cavalgando até o centro de Londres pensei em tudo que desenrolou ao longo desses três meses. Houve um tempo em que eu acreditava em tudo. Em mentiras, em promessas, em destino feito por nós mesmos, em estrelas cadentes, em sorte e azar. Mas uma pessoa mudou isso em mim. Mudou o que eu pensava sobre tudo, minha visão sobre o mundo.
Mudou meus planos, meus princípios e verdades, meus desejos e vontades. Mudou minha vida, me mudou. Eu acreditava que nós fazíamos o que quiséssemos, mas aprendi que nada é por acaso. Tudo acontece por uma razão. Mas... e agora? Como funciona?
Anne me estimulava a pensar, direito. Quase não tinha meu tempo de descanso. No começo, eu passa muito mais tempo com minha mãe, por isso tantas mudanças drásticas nos meus modos, mas não aconteceu o mesmo com Chris pelo visto. Minha mãe prometeu que quando eu tivesse a idade que ela conheceu Graph eu ia me apaixonar. Também prometeu que nunca iria faltar nada para mim, ainda mais sendo da nobreza. E bem... pelo visto, agora faltam muitas coisas. E logo quem disse que não faltaria nada, é a que mais falta para mim.
Antes eu não imaginaria o peso que é tudo isso. Eu até poderia dizer que eu preferiria estar...
– Calma! – Gritou uma voz, segurando as rédeas de Safira.
Eu estava tão ocupada pensando no passado que acabei esquecendo o presente. E o fato de não estar em um bom lugar para sonhar acordada. Eu estava prestes a cair da Safira.
– Senhorita, acalma-se – Disse-me o jovem. Bem galante e perfeitamente vestido.
O jovem estava sentado em seu próprio cavalo enquanto me segurava. Seu cabelo é loiro e liso, mas um pouco arrumado demais. Sua blusa azul clara combina com seus olhos. Era bonito, mas não de uma maneira selvagem como Thales, mas de um modo mais galante e bem vestido. Consegui me ajeitar em cima de sela e observa-lo melhor. Ele sorriu, tinha uns dentes perfeitos assim como o sorriso.
– Desculpe-me, senhor. – Tentei não ficar vermelha da estupidez que eu quase fiz. – Eu estava sonhando acordada, tenho esse péssimo costume.
– Você não pode fazer isso. – Disse-me, aparentando estar bravo. – Tem que olhar por onde anda. – E todo seu efeito de príncipe passou como um raio e virou um ignorante idiota, boçal e ultrajante.
– Obrigada pela preocupação, senhor. – Finjo um sorriso. Quando estou preste a puxar as rédeas, o jovem as segura.
– Qual seu nome, mileide? – Pergunta me encarando.
– Qual o seu nome, Senhor? – Pergunto poucos segundos depois, sem o responder.
– Me chamo Lance. – Seu sorriso parece mais forçado agora e até um pouco mesquinho, com o nariz empinado. – Quer ajuda para conseguir voltar para casa? Seu vestido está horrível. – Sua falta de delicadeza me deixo irritada.
– Não estou indo para casa. – Digo. – O senhor é o Lorde Lance?
– Sim. – O lorde me olha desconfiado. – Por que, já nos conhecemos?
– Não. Por nada. – Digo e puxo as rédeas com força e sigo ao longo dos quarterões, até chegar no casino Sweet Demons. Estou com a confiança desafiada e com esperança de encontrar meu tio Kev antes que ele perca muito do nosso dinheiro.
Desço da Safira e a amarro em uma árvore, perto do casino. Olho para o meu vestido destruído e depois para a lua no céu, não é aconselhado uma garota andar sozinha a essa hora da noite. Porém, hoje não é um dia diferente de outros, os desafios das noites só estão começando e eu passo por isso sempre que quero ir no casino.
Estar sozinha não é o pior que se pode acontecer com uma garota na minha idade, o mais aterrorizante e horrível é o casamento imposto a nós. Não tenho nem um pouco de medo dos homens entorno de mim. Sei como são, uns são grosseiros e porcos, já outros doces e serenos querendo sempre algo que não dizem. Não sou de cair na conversa de nenhum dos dois tipos que encontro. Estou atrás de Kev, de dinheiro e de comida agora. Foco é algo difícil com tantas luzes nesses salões, mas meu esforço será impecável.
Um homem gordo e barbudo está na porta com roupa formal. Um segurança novo? Chego perto dele e sinto que estou sendo avaliada. Seu olhar passa por todo meu corpo, minhas roupas reduzidas a trapos e estou descalça. Sinto o desprezo em seus olhos e percebo que o segurança não abriu a porta para mim.
– Estou esperando – Digo em reprovação a sua atitude, esperando que ele seja gentil. Contudo sou ignorada. – Se você não que abrir essa porta, dê uma explicação, ou a destruirei. — Como se notasse que minha presença era real ele falou, rápido demais para se entender. – Qual é? Você pode fazer melhor que isso.
– Olha como fala comigo. – Sua voz era grave e severa. – Não a conheço, você não é acompanhante, não é meretriz, você é apenas uma menina. O que acha que fará aqui, garotinha?
– Qual seu nome? – Pergunto me esticando para mostra-lo que não sou nenhuma menina. – Você so pode ser novo aqui, senhor. Principalmente, por toda essa arrogância
– Bem vinda ao Sweet Demons, Lonny. – Ouso a voz do filho do dono do casino, Wast. – O que faz ai fora no frio, vestida assim? – Olho para o rapaz, moreno com os olhos idênticos aos meus. Sou sua protegida desde que ganhei dele mais de dez partidas seguidas no Poker.
O segurança olhou-me incrédulo por longos minutos antes de me dar passagem. Sorri triunfante e depois meu sorriso morreu quando senti pena. Agora não é hora de ficar de conversa com Wast, preciso achar Kev e recuperar o dinheiro. Dou o braço ao rapaz bem vestido com terno que sorri.
– Cade aquela meretriz de semana passada, Wast? – Finjo interesse enquanto procuro com delicadeza meu tio. – Ela era bem bonita. Uma das mais linda que já vi com você.
– Meretrizes existem para serem apreciadas. – Seu sorriso não é arrogante, contudo, sua voz é triste. Já estamos quase perto da minha mesa cotidiana, mas nada de Kev – Não me lembro nem do nome dela... Ela não deveria ser realmente tão linda. Já pensou em minha proposta, Lonny?
– Sabe, Sr. Mcguee, eu não estou com muito tempo. Tenho que voltar para casa depois de fazer a refeição. – Solto rápido a informação e com isso percebo que se meu tio esteve lá, já se fora um bom tempo. – Na verdade, nem vou fazer uma grande refeição. Só vou beber um pouco de café. Com licença. – Ao tentar sair de perto sinto meu pulso sendo apertado.
– Não vai me responder, Lonny? – Sua voz parecia mau-humorada, ou talvez tenha sido eu chama-lo pelo sobrenome.
Sempre fui dessa cidade, não digo o mesmo de Wast Mcguee, ele é filho de um hoteleiro o qual comprou esse casino de presente ao filho. Wast é rico, mas sem título. Moreno, alto, olhos claros. Chama atenção de quase qualquer garota da nossa cidade, mas não é de ter amantes, apenas meretrizes. Diz ele que quando estiver com uma mulher de verdade, aquela que será tudo para ele não irá querer ter desvirginado outras. Meretrizes é para o prazer insaciavel dos homens. Apesar, não passar dos vinte seis anos, sua idade para casar já foi ultrapassada.
Sua proposta nada mais era que um pedido em casamento não desenvolvido. Qualquer homem que preste pediria em casamento por sentimento e não apenas pela sociedade. O Sr. Mcguee, pai de Wast se cativou de mim bem antes que o filho, sei que a proposta foi ideia dele. Não quero me casar assim. Mesmo não ligando para títulos, me limito a dizer que Wast não serve para ser meu marido.
– Você sempre foi enfeitiçado pela curiosidade. – Depois que pisco para ele procuro a saída mais próxima. – Mas, também pela sinceridade. Não é fácil saber o que você quer, Wast. – Antes que ele me puxasse novamente, saío rápido porém antes eu pego uma cesta de pães do balcão do bar, sem pagar é claro.
Estando já fora da movimentação, desamarro Safira e subo em suas costas. Já se passam da meia noite. O som do vento está cada vez mais forte. A chuva está para chegar eu não tenho muito tempo para me encontrar com aos Heads. A esperança de todos estarem curtindo as estrelas não é muito grande. O pensamento da possível decepção de meu pai me faz cavalgar na maior velocidade possível para uma égua.
Está escuro, já tinha passado mais de duas horas de cavalgada, eu tinha certeza mas, ainda não tinha sentido os Head. Até que a chuva apertou e a trilha ficou mais escura. Agucei meus sentidos o máximo que consegui, então escutei um uivo. Hannah. Eu finalmente estava perto. Senti meu coração apertar, da ultima vez que havia visto o majestoso animal, ele quase me atacou. Thales. Ele deve estar por perto, e poderá me ajudar a encontrar minha família.
Antes mesmo de chegar a ver alguma luz, Hannah estava ao meu lado correndo comigo. Se fosse possível isso ocorrer, eu diria que ela sorria. Na luz da lua, seu pelo estavam ainda mais brilhante. Parecia ser de fios de prata. Reluzia como uma estrela e foi ai que eu tive certeza, aquela loba não podia ser real.
Foi tudo muito de repente, eu estava apenas tentando tocar em seu pelo. Querendo saber se eu estava acordada ou dormindo. Me abaixei muito de Safira, não tive tempo de perceber o que iria acontecer. Quando notei a possibilidade de cair, eu já estava no entre as pedras e cascalhos, ralada, sangrando e em poucos minutos, tudo ficou escuro. Pensei ser o fim.
Meus olhos piscavam com dificuldade. Tentavam se adaptar a luz, ou a falta dela. Não estava de dia, a luz que sentia era mais fraca. Alguém tocava minha testa e meus braços. Parecia dizer algo, mas não consegui distinguir do que falava. Ao longe ouvi um choro fino e baixo, como se estivesse sendo abafado. É Christina. Minha irmã falava meu nome, baixo e choroso. Ainda com os olhos fechados tentava entender o que se passava. Um pano molhado foi posto em minha testa e uma mão era empurrada em meu peito. Senti uma respiração perto de meu pescoço. Alguém está tentando ver se eu ainda estou viva. Não parecia uma respiração preocupada, apenas fria, terna, quase triste.
– Por favor, não pode ser porque ela é Kirst! Ela é tão Head quanto eu! Minha irmã não pode ter a maldição! Anne sobreviveu por quase cinquenta anos, mais que a maioria admito, mas como Avalon poderia ser tão fraca e em um terço da sua vida ela está... – Chris chorava desesperada. Senti sua voz ficando mais forte e eu não entendia suas palavras. Como alguém como Christina entenderia sobre a maldição, se é que existia, já que eu apenas supunha com poucas palavras que isso era real? Ela tem apenas dez anos, não pode saber tanto. – No caderno que minha mãe me deu... minha avó Avalon diz que não viveria muito mais para escrever e explicar tudo, se ela sabia... por que minha irmã não... – Depois de umas frases desisti de entender. Senti dois punhos pequenos contra minha barriga, foi ai que ouvi Cloe.
– Se afaste Christina, não deixe ninguém chegar perto dessa parte da floresta. Thalio, comesto loscane? – Não entendi, o que Cloe disse na língua de Thales, mas ouvi seus passos se afastando.
A toalha gelada foi retirada de minha testa e eu senti os lábios de tia Cloe em meus ouvidos. – Você não está morta. Não ainda. Depende se você lutar. Kirst normalmente não lutam. Eu lutei. Não sou mais da família de sua mãe, mas eu era. Você tem que entender que as palavras tem força. Elas tem poder. – Sua voz me assustou, me lembrou da crença de Anne. – E sua irmã disse que você não se lembra do seu verdadeiro nome. Temo te dizer, mas era nisso que eu acreditava que você tinha que se prender. Pois seu verdadeiro nome, faz com que você seja reconhecida como uma Head, eu não tive a sorte que você tem. Eu não era forte o suficiente sozinha. Eu tive ajuda.
Eu me arrepiei, ou pelo menos foi o que pensei. Não havia aberto os olhos ainda, o temor que correu por mim foi forte o suficiente para me lembrar. Bem no fundo, talvez eu nunca tivesse esquecido. Minha mãe tinha dúvidas, não escolheu um nome para ser aquele que tinha que me dar. Anne escolheu três, mesmo eu não sabendo porque. Eu não entendi porque eu não me lembrava de nada até agora. Ioná. Íris. Isabel. E ainda no escuro lembrei o simbolo que eu via no teto do berço. O laço infinito. Tinha três pontas.
– O laço – Me escuto dizer.
O silencio permanece por longos minutos até Cloe dizer o que eu mais temia. – Você se lembra. Isso tem três significados.
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