Essa Estranha Atração
29 Esse estranho plano
Notas iniciais
Esse estranho plano
Capítulo 28
Ikki fechou os olhos depois que Kanon saiu e quando acordou novamente já passava das duas. Tomou um banho e bebeu suco de laranja, vestiu-se e saiu. Foi para sua casa, onde passou o dia descansando e sofrendo com as dores e náuseas de uma bela ressaca. Pensava no que Kanon lhe dissera. Talvez o amigo tivesse razão e ele devesse procurar Shaka e dizer que o tempo acabou, que o amava e precisava dele, mas ainda não se sentia forte o suficiente para fazer isso. Ainda não, e por isso continuava naquela vida vazia e infeliz. Até quando? Não sabia.
A verdade era que chegara a conclusão de que o grande problema da relação era ele próprio. Não, a culpa não era de Shaka. Compreendia o que o loiro dissera; que ocultara ser Virgo para estar mais próximo dele e se fosse sincero até mesmo os ciúmes que possuía de Mu sabia ser infundados. Tudo fora fruto da sua inexperiência e insegurança e também do seu egocentrismo que queria o loiro apenas para si. Não conseguiu administrar muito bem o sentimento egoísta de não dividi-lo nem mesmo com um amigo. Sim, foi egoísmo, e aquele sentimento o sufocou tanto que o deixou paranóico. Ele achava que perderia o indiano e pensar em perdê-lo era desesperador. Ele errou desde o início. Sentia-se devedor do loiro por todas as palavras ditas a ele antes do romance, e depois da traição, achava-se ainda mais em dívida, mais culpado, e isso fez com que ficasse doentiamente inseguro. A culpa nunca foi de Shaka.
E o ápice de tudo foi a frase dita por Shaka ao se passar por Virgo. Ele mesmo o aconselhou a terminar a relação, e isso doía demais. Doía tanto que o deixara incapaz de compreender que aquilo foi resultado do ciúme que o loiro sentia da relação fênix e virgo. Mais ainda era difícil aceitar isso. Seu orgulho não admitia aquela frase e não achava justificativas para ela. Precisava ser paciente consigo mesmo, precisava se fortalecer, entender seus próprios motivos. Sim; precisava de um tempo.
O dia de descanso rendeu ótimos resultados. Pois à noite, ele estava novo em folha. Vestiu-se totalmente de negro. Aliás, se fosse reparar, passara a usar muito aquela cor nos últimos tempos. Talvez ela refletisse seu estado de espírito, mas não estava disposto a pensar nessas frescuras. Checou o relógio de pulso e saiu em direção à Elíseos. A noite seria tão cansativa quanto lucrativa. E assim os dias foram seguindo. Ele estava muito ocupado com a atração mega badalada da boate para pensar em alguma coisa, embora as palavras de Kanon não saíssem da sua cabeça. Deveria voltar atrás? Perdoar Shaka? Pedir perdão por seus erros também?
Balançou a cabeça fugindo dessas indagações, mas essa ideia já começava a ganhar força dentro de si. Não estava bem, claro que não estava bem!, sem ele. Precisava admitir. Iria procurá-lo, só precisava pensar na ocasião perfeita, no momento oportuno. Era isso! Já sabia exatamente o dia e como fazer. Teria que ter algo que não era muito de si: paciência para esperar. Esperar que aquela vontade e aquela ideia amadurecessem e criassem a oportunidade. Esperar sentir-se forte realmente. Precisava expurgar seus sentimentos negativos antes de tomar aquela importante decisão.
Shaka acordou com uma baita dor de cabeça na manhã seguinte e nem havia colocado uma só gota de álcool na boca. Ele nunca ouvira falar de alguém que tivera ressaca por sofrer e chorar. Ele não chorou na frente de Mu e Aiolia. Não mesmo. Só quando estava na segurança da sua cama foi que permitiu-se chorar. O loiro não queria mais sofrer por Ikki, mas foi demais vê-lo com aquelas mulheres. Shaka não havia se recuperado, e pensava que jamais conseguiria se recuperar, e Ikki estava lá, dançando, bebendo, beijando todas... Como se nada tivesse acontecido. Aquilo foi a certeza de que o moreno já não o amava.
Ele virou o corpo e abraçou as próprias pernas. Estava na hora de erguer a cabeça e seguir em frente. Ikki o esquecera. Deveria fazer o mesmo. Continuaria seu tratamento. Estava infinitamente melhor da sua fobia, mas não curado, sabia, Mu tinha razão. Mas talvez estivesse na hora de tentar se relacionar com outras pessoas. Virar a página como o ex havia virado. Mas como? Não se imaginava com outra pessoa, pensar nisso lhe causava asco.
– Acorda dorminhoco! – o loiro quase pulou da cama de puro susto quando ouviu a voz do editor adentrando seu quarto.
– Enlouqueceu, Mu? – Shaka trovejou. – Quem te deu permissão para entrar no meu apartamento?
– Ainda tenho a chave, esqueceu? – o tibetano balançou levemente os ombros. Shaka estreitou os olhos enquanto apertava o travesseiro e precisou de todo seu autocontrole para não expulsar o editor à almofadadas.
– O que você quer? – ele perguntou em um tom sem qualquer emoção.
– Conversar – Mu sentou-se na ponta da cama. Jack, que dormia ao lado de Shaka, acordou e começou a rosnar baixinho. – Jack não tem jeito. Não gosta de mim mesmo! E ainda fica protegendo a cama! Afasta todo mundo que tenta se aproximar. – Comentou o tibetano, rindo.
– Acho que ele espera que o Ikki volte a ocupá-la... – Shaka murmurou enquanto segurava o cachorrinho para acalmá-lo.
– Que ele espere, eu até entendo, fidelidade canina, sabe, mas você... Você não pode continuar assim, Shaka! – Mu exasperou-se. – Você ficou melancólico o tempo todo ontem! Nem aproveitou mais a noite.
Depois que eles foram embora do show, seguiram até um barzinho com música ao vivo. Shaka permaneceu tão introspectivo e quieto que Mu e Aiolia acabaram se sentindo culpados por estarem felizes e obrigarem o amigo a presenciar a alegria deles. Por isso, encerram a noite e foram para casa. Shaka foi direto para o próprio apartamento enquanto Mu e Aiolia seguiram para o apartamento do editor.
– Eu estava justamente pensando nisso... Em encontrar outra pessoa para substituir o Ikki e... talvez... quem sabe... Eu consiga. – Falou sem convicção alguma, somente para parecer mais forte.
Mu riu debochado.
– Como se eu acreditasse nisso. – Ele estreitou os olhos, mirando o indiano. –Você é louco por aquele cara! Sinceramente não sei o que você viu nele, mas tudo bem.
– E o que você viu no Aiolia? – Shaka irritou-se com intromissão do ariano. – E de que adianta eu ser louco por ele? Você viu que ele já me esqueceu!
– O que eu vi foi um cara tentando sobreviver – Mu disse em um tom sério, e Shaka teve vontade de rir.
– Ah, tá! Se aquilo é sofrer então imagina como é ficar feliz! – o loiro ironizou. – Acho que essa tinta que você usa nos cabelos está matando seus neurônios!
Mu revirou os olhos, sem se abalar.
– Eu não pinto meus cabelos, eles são assim mesmo, só pra constar. E se quer saber, ele está sofrendo sim, Shaka. Você não vê porque é um teimoso e acha que só você está ferido nisso tudo, que só você está apaixonado! Ele te ama ainda, eu sei!
– Para, Mu! Eu não quero saber! – Shaka levantou-se e foi até a janela para abrir as cortinas. Ficou observando o pouco movimento da rua. Mu só queria confundi-lo! Aquilo era coisa que ele dissesse sabendo como se sentia? Era um intrometido pedante mesmo!
– Você é egoísta, Shaka! – Mu acusou. – Não deveria ter revelado a ele que era Virgo da forma que fez! Você só pensou em si mesmo! Você só consegue enxergar seu próprio umbigo!
Shaka o encarou com o olhar de um demônio.
– Você está querendo que eu te expulse daqui a ponta pés? – rosnou, e Jack também.
– É só falar algumas verdades para ser ameaçado! Você errou, Shaka! Admita isso. – Mu não tinha nenhum resquício de medo das ameaças do amigo.
– Ele estava apaixonado por Virgo e tentou me usar como substituto! – o indiano se defendeu.
– Pelo amor de Shiva, Bramha e Vishnu ! Você e Virgo são a mesma pessoa! Pare de tentar encontrar diferenças! Você ficou procurando chifre em cabeça de cavalo nessa história. Eu acho que você nunca o perdoou por ele ter pulado a cerca com aquela alemã daquela vez e por isso deu um jeito de terminar.
– Eu não queria terminar com ele! Ikki disse que queria o Virgo que não suportava mais estar longe dele! Eu não inventei nada disso, Mu. Ele disse isso pra mim e depois inventou que eu queria você só para se ver livre de mim. Como acha que me sinto? – O loiro explodiu, sentindo toda a dor vir à tona. Mu não o entendia e ainda o acusava. Ninguém conseguia perceber o quanto ele sofria com tudo aquilo.
– Ele estava com ciúme e falou sem pensar. Shaka, você é tão racional... Mas quando o assunto é Ikki Amamiya você fica mais cego, burro e retardado que uma porta empenada.
O loiro o mirou com vontade de esganá-lo, mas apenas respirou fundo e deixou sobre o rosto seu semblante mais insolente e blasé.
– Essa é a sua opinião sobre o caso. Eu não concordo. – Falou friamente.
– É claro que não concorda. Está cego de tanta paixão que não consegue ver um palmo diante do seu nariz. Ontem aquele cara estava se afogando naquela vida que você me disse que ele tinha antes, exatamente para fugir das lembranças e da saudade. Eu penso isso.
– E você viu tudo isso naquela distância que estávamos? – os lábios de Shaka se curvaram em um sorriso sarcástico.
– Não estávamos tão longe assim. Para completar, ele estava tão bêbado que mal se aguentava de pé. Pelo o que eu sei, uma pessoa só bebe daquele jeito se for alcoólatra ou se estiver tentando esquecer algo.
– Ele não me ama! – Shaka insistia e deixava Mu a beira de cometer um assassinato. – Tudo bem, talvez, escute bem que é TALVEZ, eu tenha errado sobre a história do Virgo... Mas ainda assim, Ikki não sente mais nada por mim!
Mu suspirou. Sabia que o amigo era a teimosia personificada e que não adiantaria insistir naquilo.
– Então talvez seja mesmo a hora de você partir para outra. – Ele disse, fazendo Shaka o encarar chocado.
– C-Como assim?
– Se você acha que não tem mais volta, chegou a hora de se relacionar com outra pessoa, Shaka. Acho que nisso você tem razão. Sai com outras pessoas, vê se consegue. Você já está com a doença controlada, não é? Não custa nada tentar se divertir um pouco... Sexo...
– Mu, cala a boca – Shaka murmurou, atônito.
– Isso é o curso natural da sua nova vida sem TOC, meu amigo. Vai se fechar nesse apartamento novamente? – o tibetano provocou.
Shaka suspirou e voltou a se sentar na cama.
– Não sou capaz. Ainda não.
– Precisa tentar.
– Como, Mu? Eu nem sequer conheço pessoas! O que espera que eu faça? Coloque um anúncio: escritor maníaco procura parceiro? Isso é ridículo! – irritou-se.
Mu mordeu os lábios, pensativo.
– Realmente não conhecemos muita gente... Mas... Talvez Aiolia conheça! Ele está dormindo, mas já, já acorda e podemos...
– Esquece essa ideia, Mu, isso não vai acontecer! – Shaka riu, incrédulo.
– Faça uma tentativa – Mu propôs. – Eu ainda digo mais, com isso, você pode matar dois coelhos com um golpe só, cara.
– Como assim? – O loiro franziu a testa, confuso.
– Chame alguém para sair. Vá com essa pessoa à boate do Ikki, não foi lá que tudo começou? Vamos ver se ele será indiferente a isso. – Mu sorriu, achando sua ideia muito interessante. – Você diz que ele não te ama mais, certo. Se isso for verdade, ele não vai se importar, e você pode esquecê-lo sem dramas de consciência.
Shaka balançou a cabeça, ainda mais chocado.
– E você diz que é meu amigo... Quer que eu vá sangrar bem no território do inimigo. Como acha que vou me sentir chegando lá e vendo o Ikki cercado de mulheres? Acorda, Mu, isso não vai dar certo! Eu só vou me magoar ainda mais!
– Mas estará livre! Finalmente livre. Aí sim poderá, quem sabe, se relacionar com alguém de verdade, Shaka. Eu estou cansado de vê-lo sofrer, meu amigo.
– Eu não conheço ninguém, Mu. – o indiano suspirou, cansado. – Meus únicos amigos são você e Aiolia, e Ikki já conhece os dois. E sinceramente não estou com vontade de sair para conhecer ninguém. Não quero sair com ninguém.
– Oh! não foi você a dizer há pouco que deveria por alguém no lugar do Ikki? – riu o tibetano com ironia. – Vamos lá, Shaka, faça um esforço.
– Foi um blefe. – Confessou o indiano. – Eu nem consigo pensar em outra pessoa me tocando!
– Pois precisa tentar. Não pode viver a vida inteira assim. Precisa tentar ser feliz. Vamos lá, você sai com alguém legal e ainda tem a chance de dar o troco no Ikki por ele ter ido àquele show com as garotas.
– Isso é absurdo! – Shaka disse chocado. Como Mu poderia ter ideias tão idiotas?
– Não é não! – o outro insistiu. – Olha só... Eu mesmo senti na pele o quanto o Ikki é ciumento. Se olhar matasse, eu estaria a sete palmos do chão agora. Se ele ainda sentir algo por você, e eu sei que sente, não vai suportar te ver com outro. Aí é só você pedir desculpas pelo que fez! É perfeito.
– E o cara, Mu? Como o pobre coitado que sairia comigo, caso eu aceitasse essa ideia louca, ficaria? Isso na hipótese do Ikki realmente ficar com ciúmes.
– Hum... Morto? – Mu indagou, mas depois riu. – É só jogar limpo com a pessoa. Vocês sairão como amigos somente, inicialmente, pelo menos, o que acha? Ele nem precisa tocá-lo, ao menos até você se decidir se parte pra outra ou corre atrás do seu ex psicopata.
– Chega. Eu não quero mais ouvir essas asneiras! – Shaka decidiu ignorar solenemente aquela ideia ridícula do amigo . Não cairia naquela conversa, não se permitiria ter esperanças. Já doía suficiente sem que tivesse esperanças frustradas. – Vamos ao supermercado, Jack? – perguntou ao cachorrinho que estava esparramado no seu colo, encerrando a conversa com o amigo de forma abrupta.
– Shaka! – Mu exclamou, exasperado.
– Você está ouvindo alguma coisa, Jack? – Shaka segurou o cão no colo e o levou até a tigela com ração. – Vamos sair já. – Falou, deixando o quarto, ignorando completamente o outro que o seguiu, fazendo questão de dizer o quanto o “plano” era perfeito.
– Mu, por que você não sai do apartamento do Shaka? – Aiolia trovejou ao abrir a porta do apartamento vizinho e entrar sem pedir licença.
– Por que não saem os dois e me deixam em paz?! – disse o loiro, girando os olhos e indo tomar banho.
Durante todo o tempo do banho, que não foi pouco, ouviu a discussão acalorada dos amigos na sua sala. Sentiu até um pouquinho de inveja. Tinha saudade até mesmo das suas discussões sem sentido com Ikki. Era bom ter alguém, nem que fosse para implicar – pensou e riu de si mesmo.
Quando ele saiu, Mu e Aiolia já tinham feito as pazes e estavam “fuçando” em algo no computador. Shaka trincou os dentes e teve vontade de expulsá-los, mas achou melhor continuar ignorando, foi para o quarto, trocou-se e saiu com o cão, deixando os amigos onde estavam.
Ele aproveitou a manhã fria e foi ao supermercado que ficava um pouco mais longe de casa. Estava precisando andar e pensar no que tinha visto na outra noite. Ikki estava tão bonito, tão sexy e...
"Pare de se torturar!" Repreendeu-se mentalmente.
Como Jack não poderia entrar com ele no supermercado, o deixou no pet shop para a tosa e o banho semanal. O cachorrinho não gostou de ficar lá e tentou segui-lo quando o loiro deu as costas para ir embora. Mas o dono o ignorou, mesmo que gostasse de sua companhia.
Fazer compras sempre o distraia então ele pouco pensou em Ikki enquanto escolhia os produtos que levaria para casa, concentrado nos rótulos que eram lidos detalhadamente. Era algo que não gostava de fazer, mas como era necessário, aprendeu a fazer com calma. Estava tranquilo, escolhendo a mercadoria até que uma pessoa veio em direção contrária e esbarrou nele, fazendo-o derrubar os legumes que tinha em mãos.
– Oh me desculpe! – disse a voz masculina e jovial.
O loiro o encarou e engoliu em seco. Com certeza era a pessoa que ele menos gostaria ver nessa vida ou em qualquer outra: o barmen da Santuário.
– Ah, o namorado... Ops! Ex-namorado do chefe! Foi mal, cara. Eu não te vi! – Seiya exclamou enquanto abaixava para ajudar a reunir o que ele havia derrubado. – Como vai? Espero que melhor que o patrão. Sabe, o chefe anda insuportável desde que vocês terminaram, ninguém sabia muito no começo o que tinha acontecido, ele vivia com uma cara de quem comeu bosta de cavalo aí o Shi foi lá conversar com jeitinho e acabou descobrindo que o namoro tinha terminado, o chefe nunca foi um cara muito fácil de agradar, mas depois que vocês terminaram a carroça desgovernou e vez. Ninguém aguenta!
Shaka estava começando a ficar tonto com a velocidade com a qual o rapaz despejava as informações. Cavalo, carroça? Ninguém merece! E ali na sua frente ao que parecia estava o burro!
– Você que deve ter se dado bem, já que agora pode voltar a vender o endereço dele para as mulheres interessadas – volveu o loiro, cáustico.
– Ah, não mesmo – o outro pareceu nem se abalar. – Eu não sou tão doido assim. Foi uma sorte ele ter revogado minha demissão. Mas, de qualquer forma, eu não conseguiria porque o chefe se mudou e ninguém sabe pra onde. Parece que agora ele fez a casa de santuário e ninguém pisa lá. Ele não leva nenhuma garota. Na verdade eu o tenho visto com poucas garotas na boate. Ele afundou no trabalho, abriu a boate nova... Quando aparece com uma garota é muito raro e... O engraçado é que quase sempre é uma loira de olhos azuis – Seiya deu um sorrisinho sapeca que irritou ainda mais o indiano.
Shaka terminou de pegar os legumes das mãos dele e, irritado, colocou tudo no carrinho.
– Certo. Obrigado por me ajudar a pegar as coisas que você derrubou. Até outro dia, rapaz – disse em um tom seco e afastou-se antes que Seiya tentasse falar mais alguma coisa.
– Eu hein! Tão mal-humorado quanto o outro! – resmungou o barman e continuou suas compras.
O indiano tentou continuar as compras como se nada houvesse acontecido, mas as palavras de Seiya ficaram rodopiando em sua mente, misturadas ao que Mu propôs. Ikki sentia sua falta? Ainda sentia algo por si? Aquilo o atormentaria pelo resto da vida caso não tirasse aquela história toda à prova.
Ele comprou o que já estava no carrinho, pegou Jack no pet shop e voltou para casa. Durante todo o trajeto sua mente trabalhava freneticamente. Ora ele decidia-se por aceitar aquele plano sem noção de Mu, ora desistia pensando que aquilo jamais daria certo. Ao chegar a casa, ainda confuso e indeciso, deu de cara com Mu e Aiolia que ainda estavam ao computador.
– Por Buda! – o loiro exclamou, irritado. – Por que vocês não vão para o canto de vocês?
– Achamos o cara perfeito, Shaka! – Mu exclamou animado e fez o indiano girar os olhos. – É um amigo do Aiolia, você vai adorá-lo, tem tudo a ver com você!
– Duvido muito – riu o loiro com desdém, indo colocar as compras na cozinha.
– Ele é mais velho! – gritou Mu. – Acho que faz seu tipo!
– Ninguém faz meu tipo, Mu – falou sem se abalar, mas uma pequena curiosidade já se imiscuía em seu íntimo. – Quem é ele?
– O nome dele é Raphael, Raphael Shura.
– Na verdade, ele é amigo do meu irmão, mas eu sei que está solteiro. Ele é chato, deve ser uma boa companhia pra você! – provocou Aiolia, rindo.
– Vocês não vão desistir disso, não é? – Shaka perguntou cansado, mas acabou se aproximando deles, mirando a tela do computador, curioso, para ver a foto do tal amigo.
– Ninguém aguenta mais o seu mau humor. É a sua felicidade, Shaka. Esforce-se para reconquistá-la! – Mu disse friamente. – Veja bem, é um cara honesto, limpo e divertido...
– Divertido? ‘Tá falando mesmo do Shura, Mu? – Aiolia perguntou chocado.
– Cala a boca, Aiolia! – volveu Mu. – Você vai gostar dele, ele faz o tipo intelectual e suporta o irmão retardado do Aiolia, então eu acho que ele vai te suportar.
– Não chama meu irmão de retardado, Mu! – reclamou o leonino, e eles começaram mais uma guerra fria; frias da parte de Mu.
– Vocês vão me deixar em paz se esse plano idiota não der certo? – o indiano perguntou resignado, interrompendo a discussão deles. Na verdade, ele estava decidido a ir até a boate para ver o moreno, e ir acompanhando poderia melhorar a sua autoestima.
– Prometemos! – Mu exclamou, animado. – Mas vai dar certo! Você vai ver como você e o Ikki vão voltar! Aiolia disse que se fosse contra ele, o plano funcionaria.
– Eu mataria o idiota que ousasse colocar as mãos em cima do meu namorado – Aiolia resmungou irritado.
Shaka balançou levemente a cabeça. – Ex-namorado. – Replicou e foi para a cozinha guardar as compras. Mu aproveitou para pedir para Aiolia ligar para o tal Shura. Esperava que tudo desse certo.
Três dias depois, eles se encontravam com o advogado, essa era a profissão de Shura, num café no centro da cidade. Mu muito animado, Shaka nem tanto.
Aiolia “armou” aquele encontro com o amigo do seu irmão de forma que parecesse um encontro amigável, sem nenhuma segunda intenção. Claro que o tal Shura desconfiou, afinal, o irmão do seu melhor amigo nunca foi muito amigável consigo, mas se ele queria uma trégua, lá estava ele junto a Aiolia, o namorado e ao que parecia um amigo. Ao ver Shaka, Shura teve certeza que havia caído numa armadilha, mas... Até que a armadilha era interessante, então ele acabou seguindo com aquilo.
A noite foi agradável, mesmo que todos à mesa tivessem interesses diferentes. Shaka e Shura conversaram bastante sobre a profissão um do outro e a dado momento, Mu inventou uma desculpa qualquer e arrastou Aiolia para longe, deixando-os sozinhos.
– Mu, o Shaka vai surtar por você tê-lo deixado lá – reclamou Aiolia olhando para trás, preocupado.
– Você não percebeu que eles estão se entendendo, Aiolia? Talvez o plano dê certo além das nossas expectativas. – Disse o astuto ariano.
– Como assim?
– Talvez Shaka se entenda mesmo com o Shura e esqueça o Ikki. Quem sabe ele não comece a ter uma vida normal, com um cara maduro, inteligente, centrado, e não um furacão como o Amamiya? Você sabe como são as coisas... Paixão demais às vezes estraga tudo. – Ponderou o editor.
– Eu discordo! – Aiolia falou, zangado. – Na vida temos que ter paixão. Não acredito em relacionamentos “racionais e centrados”, isso é papo de gente covarde demais para enfrentar um sentimento de verdade.
– Ele enfrentou, Aiolia – o tibetano disse com certa tristeza. – Não deu certo. Eu fico pegando no pé do Shaka, dizendo que ele tem culpa, somente para que ele não se sinta vítima demais, porque esse sentimento também é prejudicial, mas na verdade, eu acho que o Ikki foi um escroto! Shaka o perdoou por crime bem mais grave, por que ele não poderia perdoar uma pequena mentira? Eu adoraria que meu amigo se entendesse mesmo com Shura e esquecesse aquele moreno problemático.
– Bem, eu não conheço a história deles tão bem quanto você, então nem posso opinar. Mas se você acha que Shura é bom pro Shaka, vamos apostar nessa Shusha – riu Aiolia.
– Shusha... Ah como você é idiota! – Mu acabou rindo com as bobagens do namorado, e eles foram caminhar um pouco na praia, dando liberdade para um possível casal se formar.
Eles já estavam conversando há algumas horas. Shaka realmente gostou da conversa do rapaz. Ele era inteligente, um tanto sério demais, mas nada que o tornasse desagradável. Era bom ouvinte e curioso, sempre perguntava detalhes da vida do escritor e não era do tipo que jogava charme de forma barata, ele era naturalmente charmoso e sensual.
– Confesso que quando entendi o que Aiolia estava planejando, pensei em dar uma desculpa e ir embora. – Ele confessou. – Acabei de sair de um relacionamento e desde então, meus amigos estão tentando me “casar”. – Riu de leve, fazendo o loiro sorrir.
– Confesso que o mesmo aconteceu comigo. Eu não queria esse encontro, mas eles insistiram. Também saí de um relacionamento tem pouco tempo.
– Sei. Eu fiquei feliz em não ter ido embora – o moreno sorriu com o canto dos lábios. – Fiquei quando te vi.
Shaka sorriu também.
– Eu sei que provoco muito impacto visual. – Comentou convencido.
– Nada modesto... – Shura comentou.
– Gostaria que eu fingisse ser? – Replicou o loiro.
– Adoro pessoas sinceras.
– Que bom. Eu fiquei feliz também que não tenha ido embora. Você é alguém muito agradável. É bom conversar com você – Shaka falou, encarando os olhos escuros do outro.
– Eu também. Mas conte-me a sua história, o porquê de alguém tão bonito e inteligente estar sozinho a ponto de ceder à loucura dos amigos.
O indiano suspirou. – Eu amo uma pessoa que aparentemente não me ama mais. – Sorriu com os lábios fechados, uma expressão meio triste pousando em seu rosto. – Acho que é sempre a mesma história, não é? Gostamos de alguém, vivemos um tempo com esse alguém e um dia o amor acaba, geralmente o amor de apenas uma das partes.
– E você tem certeza que o dele acabou?
– Bem, eu o vi recentemente, ele parecia bem... Mas não sei... Às vezes acho que ele ainda pensa em mim.
– Então por que não o procura?
– Ele pediu um tempo. Estou dando esse tempo a ele. Na verdade, acho que acabou mesmo.
Shura ponderou por um tempo, mirando os olhos lindos e tristes do loiro.
– Quer tirar isso a limpo?
– Como? – Shaka o encarou atento.
– Acha que se você tiver um namorado, ele ficará com ciúmes? Voltará a procurá-lo? – o advogado indagou como se refletisse muito sobre isso.
– Talvez... Ele é bem ciumento – Shaka disse, meio confuso, lembrando-se da ideia de Mu de ir com uma pessoa à boate de Ikki.
– Então por que não tentamos? – Shura sorriu levemente.
– Quê? – O loiro riu. – Você não sabe quem é o Ikki, ele-
– Ikki? Ikki Amamiya? – o advogado perguntou, parecendo meio surpreso.
– Você o conhece? – Shaka arregalou os olhos, agora sim estava surpreso.
O moreno sorriu, tendo ideias nada ortodoxas.
– Não, não o conheço. Conheço as boates dele, na verdade... – suspirou. Não gostava de compartilhar muito sua vida, mas já que de certa forma, ele e Shaka foram envolvidos numa trama estranha, ele falaria. Não havia nada de normal naquela noite. – Meu ex-namorado é um rato de boate e cliente vip da boate do seu ex. Mas eu achava que o Amamiya fosse heterossexual, sempre o via com algumas garotas por lá.
– Sei... – Shaka torceu os lábios com desgosto. – Ele era...
– Entendo – Shura riu de leve. – Então vamos visitar uma boate um dia desses? Eu tenho certeza que meu ex também estará lá. Como pode ver, não sou simplesmente altruísta, Shaka.
O indiano hesitou. Não estava muito certo daquilo e temia só complicar tudo.
– Eu não sei se é uma boa ideia, Shura...
– Dá pra ver de longe que você ainda o ama, Shaka – ele disse. – E confesso que eu ainda... gosto muito do sacana do meu namorado. Nos resta descobri se eles ainda sentem algo por nós dois.
– Eu posso pensar no assunto? – indagou.
– Pode, claro. Vou deixar meu cartão, se você quiser, nos encontramos e vamos fazer uma visitinha à boate. Agora precisa ser um dia badalado, uma atração boa para atrair o meu ex.
– Certo, combinamos então.
Aiolia e Mu voltaram à mesa, e a noite terminou de forma agradável.
No dia seguinte, Shaka contou a Mu e Aiolia sobre a conversa com Shura.
– Eu não acredito que vocês aproveitaram o tempo falando dos seus ex-amores! Dois idiotas mesmo! – riu Aiolia e levou um tapa no braço do namorado.
– Então vocês vão à boate? – Mu indagou, esperançoso e ao mesmo tempo decepcionado por não ter surgido nada entre o amigo e o moreno.
– Eu disse que iria pensar.
– Ah, Shaka, vamos! Se o Ikki não ligar a mínima, ainda assim tem o Shura, quem sabe vocês não se entendem?
– O Shura está indo atrás do ex, Mu, acorda. – Shaka suspirou entediado.
– Vai que o ex dele não dê a mínima também? – continuou o editor.
– Não sei...
– Vamos, eu estarei lá se algo der errado, eu ajudo! – Insistiu Mu.
Shaka o encarou, incrédulo com tanta ingenuidade.
– Se o Ikki te ver por lá, Mu, não creio que você saia vivo dessa situação. – Falou com ironia, coisa que o amigo ignorou.
– Eu não tenho medo do seu ex, nunca tive – Mu debochou. – Além disso, Aiolia estará comigo.
– Ele odeia até as cervejas do Aiolia – riu o loiro.
– Tem cerveja aí? – Aiolia, que até então já tinha desistido da conversa, se manifestou.
– Não, Aiolia – Shaka revirou os olhos. – Mu, você tem consciência de que o Ikki pode ficar com raiva e tentar partir Shura em dois?
– Isso demonstraria que ele não te esqueceu – Mu disse piscando os olhos afetadamente. – Além disso, tenho certeza que o advogado tem bons reflexos.
– Ah, por Buda! O que eu faço com você?! – Acabou rindo.
– Comigo, nada, mas te recomendo ligar agora mesmo pro Raphael, e marcar essa noitada! – Disse, pegando o telefone e entregando ao loiro.
Shaka, meio hesitante, ligou para o advogado e, sim, marcou o encontro. Depois, lançou um olhar aborrecido a Mu.
– Eu não sei como você conseguiu me convencer disso, mas eu preciso dizer que eu devo estar louco!
O editor riu gostosamente.
– Shaka, depois quando você estiver novamente entre aqueles braços morenos e musculosos, vai ter que me agradecer de joelhos! – piscou o tibetano.
O loiro suspirou; só havia duas alternativas àquele plano louco: ou Ikki ficaria louco de ciúmes e mataria ele e Shura lá mesmo na boate, ou ele os ignoraria, sem qualquer rancor. Em qualquer uma das opções, estava ferrado. Fato.
E assim os dias foram passando e o grande dia chegou. Shaka agora se preparava para sair. Mu havia ido até a Santuário e Aiolia para a Elíseos, a nova boate de Ikki. Assim que o moreno aparecesse em uma delas, o amigo ligaria para avisar, e Shaka iria até lá com Shura que já estava pronto, mais bonito que nunca em um terno bem cortado e elegante.
– Está nervoso? – advogado indagou enquanto entrava no carro. Eles iriam no carro dele.
– Um pouco, estou temendo por nossas vidas – Shaka falou, mas na verdade o que mais o apavorava era a possibilidade de ser ignorado por Ikki.
– Relaxe, ele não é louco, é? – replicou Shura, dando partida no carro.
– Sabe que nunca me perguntei isso? – riu de leve o indiano. – Mas ele é bem esquentadinho.
– Adoro os esquentadinhos... – sorriu de canto o moreno, acelerando para o centro da cidade.
Shaka tentava se distrair com a paisagem noturna e as luzes da cidade, mas era difícil, muito difícil. O loiro estremeceu quando celular começou a tocar e ele viu o rosto de Aiolia no visor. Hesitou em atender, pensando que poderia simplesmente desistir naquele momento e evitar uma humilhação pública.
–Não vai dar pra trás agora, não é? – Shura, perguntou demonstrando um pouco de preocupação. – Já soube que meu ex está na Elíseos, se Amamiya estiver na Santuário, vamos para uma e depois para a outra, pode ser?
– Sim, sim, pode ser. Não vou dar pra trás, fique tranquilo. – Shaka respirou fundo e atendeu a ligação.
– Ele acabou de chegar à Elíseos... – Aiolia falou direito, enquanto observava o movimento, sentado no balcão do bar da casa noturna. – Venha logo, antes que ele saia.
– Certo – a voz do indiano foi quase um fio, mas estava decidido. Ele iria até o fim. Era hora de colocar o plano em prática.
Continua...
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