Essa Estranha Atração

30 Essa estranha encenação


Notas iniciais
Olá, queridos, leitores! Nyah de volta e capítulo novo no ar. Esse é o penúltimo dessa história que nos acompanhou por tanto tempo. Tudo precisa ter um fim, não é? Espero que gostem. Bem, perdoem os erros, eu realmente não revisei o texto, pois estava ansiosa para postá-lo, revisarei e consertarei os erros depois. Ainda assim, espero que gostem. Beijos e boa leitura a todos! Sion

Essa estranha encenação

Penúltimo capítulo

Ikki chegou à Elíseos quando o público já ocupava o local. Geralmente chegava cedo para ver como tudo estava andando, mas tivera alguns compromissos naquele dia que impossibilitaram isso. Assim que chegou, deu uma olhada rápida em tudo e foi para o escritório. Não estava em um dia muito tranquilo, aliás, não andava nada tranquilo nos últimos tempos, embora quem o visse não percebesse, sempre foi ótimo em disfarçar seus sentimentos. A boate já estava cheia e o DJ da casa mantinha o público animado até a entrada triunfal do DJ francês que era a grande atração da noite.

Quando adentrou seu escritório, checou novamente se tudo estava ali, como havia pedido antecipadamente. A cesta de frutas, o vinho, as flores, tudo. Sorriu, sentindo o coração bater forte com aquela possibilidade. Esperara tanto, bem, o momento oportuno finalmente chegara. Sentia-se forte agora, sentia-se livre, equilibrado para, talvez, retomar uma relação que em seu íntimo, nunca havia terminado. Decidira-se por procurar Shaka àquela noite e levá-lo para um jantar em sua nova casa. Como tivera um dia corrido, tudo acabou ficando ali mesmo, mas ele sairia assim que possível e, com sorte, encontraria o loiro em casa e sozinho. Seu maior medo era tê-lo perdido de vez. Perdê-lo para seus próprios fantasmas. Mas ele precisava daquele tempo distante, precisava voltar a ser quem era.

A boate estava apinhada. O loiro admirou o local, bem maior e mais luxuoso que a Santuário. Shaka realmente admirava o talento que Ikki tinha para os negócios. Só que aquele “Tum, Tum, Tum” começava a deixá-lo com dor de cabeça, e eles mal haviam entrado no lugar.

Shura seguia elegante ao seu lado, evitando virar a cabeça como se procurasse alguém, mas seus olhos corriam o salão inteiro e não demorou muito a encontrar o que procurava. No centro da pista, cercado de homens e mulheres lá estava ele.

– Aquele é meu ex – ele gritou ao ouvido de Shaka, guiando o rosto do loiro para que mirasse na direção que ele queria.

Shaka examinou o rapaz que se sobressaia na pista, mesmo ao lado de outros homens igualmente atraentes.

– Uau! – o loiro exclamou, mirando o ex-namorado de Shura. Ele vestia uma calça jeans justa e uma camiseta regata branca que fazia um contraste incrível com sua pele morena que refletia a luz azulada dos globos da boate. Os cabelos eram platinados, rebeldemente repicados, e ele dançava de uma maneira máscula e sexy, sem olhar muito ao redor.

– Aquele é o desgraçado do Ângelo – Shura disse, num suspiro e puxou Shaka para o bar.

– Ele não é o que eu esperava – disse o loiro, procurando se desviar das pessoas. Não se sentia à vontade no meio de tanta gente.

– O que esperava? um loirinho delicado? – O moreno sorriu com o canto dos lábios. – Creia, esse é o tipo dele e não o meu.

– Ele o traiu?

– Sim.

– Com um loirinho delicado? – Shaka interrogou, enquanto pedia uma bebida.

– Não. Se fosse isso, talvez eu perdoasse...

O indiano franziu a testa, vendo Shura pegar o uísque que havia pedido.

– Uma mulher – o advogado completou.

– Ah isso... – suspirou o loiro. – Aconteceu o mesmo comigo.

– E você perdoou? – o moreno pareceu surpreso.

– Sim. Traição é traição, tanto faz se for com homem ou mulher. – Deu de ombro.

– Traição é imperdoável. – Shura falou amargo, virando o copo nos lábios.

– Todos têm o direito de errar, Raphael. – Disse Shaka. – E Ikki me amava, ele deu muitas provas disso, por isso o perdoei. Há coisas do nosso relacionamento que você não sabe. Ninguém sabe.

– Entendo. Mas para mim traição é uma escolha. Ângelo escolheu me perder. Por uma transa, ele jogou fora anos de confiança e amor. Além disso, me trair com uma mulher? – riu de leve como se ainda não fosse fácil acreditar naquilo. – Isso não mexe apenas com questões conjugais, Shaka, mexe com a questão de identidade. Eu não sabia que namorava um heterossexual ou bissexual. Ele se dizia gay! Talvez se fosse com outro cara, não me frustrasse tanto.

– Então por que está aqui? – Shaka indagou com um sorriso cordial.

– Porque sou idiota – ele respondeu e finalizou o uísque.

O loiro calou-se e tentou localizar o ex-namorado, mas ele não parecia estar em lugar algum. Estava ansioso, queria que ele aparecesse logo.

– Hey! – Aiolia se aproximou, vindo do meio da pista. – Parece que Ikki foi até o escritório resolver alguns problemas, mas como tem uma apresentação de um DJ aí, ele deve voltar para a pista. – Comentou, muito feliz com sua eficiência.

– E como você descobriu essas coisas? – Shaka perguntou desconfiado.

–Andei cantando as garçonetes – Aiolia piscou.

– Se o Mu fica sabendo disso... – ameaçou o loiro, estreitando os olhos.

– Eu estou nessa confusão por sua causa então nem se atreva a dizer nada! – advertiu o editor. – Ele já está vindo pra cá, relaxe e divirta-se! – Aiolia piscou e afastou-se pelo meio da multidão.

Shaka suspirou e levou o copo aos lábios, já completamente arrependido daquele plano ridículo, mas estava ali e não tinha mais como voltar atrás.

Uma música sensual começou a tocar, e Shura segurou-lhe o pulso de repente o sobressaltando. Os olhos do advogado tinham um brilho assassino, e o indiano percebia que ele mirava por cima do seu ombro.

– Vamos dançar! – exclamou, puxando Shaka em direção à pista. Foi então que o indiano viu o tal do Ângelo, agarrado a outro carinha, dançando sensualmente, sem nenhum pudor.

– Shura, eu não sei dançar! – Shaka tentou puxar o braço, mas ele o segurava com firmeza.

– Vamos começar a fazer as coisas direito, se viemos numa boate, precisamos dançar – continuou o advogado, inabalável.

– Nem pensar! – Shaka exclamou exasperado. – Eu não vou entrar no meio daquela multidão suada, você está louco!

O moreno suspirou.

– Shaka, eles têm que nos ver felizes! Se viemos numa boate é porque queremos dançar ou você quer que eles pensem que viemos espioná-los?

O escritor respirou fundo e seguiu o advogado para a pista de dança, resignado.

– Isso não vai dar certo... – o indiano resmungou, desgostoso.

Shura não replicou, tentou apenas mantê-lo ali pelo tempo que achasse preciso, ou seja, até o ex-namorado vê-lo muito feliz com aquele loirinho gostoso. Aquilo era ridículo, ele achava, mas era divertido provocar o pavio curto do seu ex-namorado.

Shaka ficou visivelmente deslocado no meio daquele monte de gente. Ele não surtava mais e nem usava luvas ou camisas de mangas cumpridas para evitar os toques, mas não era nada agradável estar tão exposto, tão próximo de tanta gente... suada!

Shura o puxava e tentava fazê-lo dançar, mas ele não conseguia se mover, terrivelmente mortificado com aquilo tudo. Queria ir embora, a cada segundo parecia estar a ponto de ter uma nova crise.

– Temos que fingir melhor, Shaka – Shura disse e sorriu quando viu que Ângelo finalmente o vira e não tirava os olhos de si.

Shaka fechou os olhos e segurou o moreno pela cintura, enquanto tentava fazer o que ele pedia. Começou a mover o corpo devagar, copiando de forma tímida os movimentos do outro que também não era um exímio dançarino ao que parecia. Eles somente moviam o corpo de um lado para o outro.

– Ele já nos viu – disse o advogado, deslizando a mão de forma insinuante pelas costas do escritor. – Me perdoe por isso...

– Quê?! – Shaka exclamou. – Não tem graça! não toque em mim! – o indiano disse quase gritando, sentindo um mal-estar subir por sua garganta.

– Calma, eu não vou fazer nada, eu prometo. – Shura disse, continuando a dançar, enquanto lançava um olhar desafiador ao namorado que o fuzilava de volta.

– O tal Ikki já apareceu?– Ele quis saber.

– Ainda não... – o loiro disse, desistindo de reclamar e tentando suportar tudo aquilo.

– Então quando ele aparecer me avisa, por que eu vou te beijar. – Shura fez o comunicado o Shaka sentiu seu sangue gelar nas veias.

– Nem pensar! Isso não faz parte do nosso acordo! – Shaka exclamou, exasperado, apavorado.

– Ora, Shaka, namorados que não se beijam? – ele disse, calmo. – Temos que fingir que estamos juntos e felizes. Ângelo já nos notou, só falta seu ex aparecer e finalizamos nosso acordo com um beijo. Simples. Nada demais.

– Eu não posso fazer isso – Shaka murmurou. – Desculpe, Shura, mas acho que não consigo.

– Calma, relaxe, está tudo bem – ele disse, se inclinando para olhar o rosto do loiro, dando um beijo suave em sua testa.

– É impressão minha ou isso foi uma provocação ao seu ex também? – Shaka perguntou desconfiado e recebeu outra risada como resposta.

Ele ia avisar a Shura o quanto aquele jogo era perigoso, mas foi quando viu Ikki, ele descia as escadas que levavam ao segundo andar, observando tudo atentamente, e o indiano perdeu a voz.

Shaka mordeu levemente o lábio inferior... Seu coração acelerou de uma forma assustadora apenas por vê-lo e a vontade de ir falar com ele quase o fez largar o “atual namorado” sozinho na pista de dança. Ao mesmo tempo, ele quis correr com vergonha que Ikki o visse. O moreno parecia estar tão bem, tão forte, firme, maravilhoso e atraía os olhares de diversas pessoas. E Shaka, ao contrário, sentia-se destruído, nem um pouco atraente.

– Pela sua cara você o localizou – os olhos de Shura brilharam de uma forma perigosa. Ele passou os braços em torno do pescoço de Shaka, mas mesmo assim não atraiu a atenção do indiano que continuava hipnotizado, olhando para Ikki. Quando Shaka percebeu o que Shura ia fazer já era tarde demais. No segundo seguinte, ele foi agarrado e beijado.

O loiro não gostou nada, nada de ser agarrado daquela forma e o puxou firmemente pelo braço, sentindo os sinais do velho desespero e repulsa retornarem.

– Pare! Eu não... eu... – tentou dizer que se o outro continuasse, com certeza acabaria vomitando em cima dele, mas não conseguiu. – Não faça mais isso... por favor. – Implorou o afastando.

– Desculpe – Shura pediu, meio sem jeito, e viu quando Ângelo deixou o rapaz no meio da pista e saiu em direção ao bar, pisando firme.

O loiro lambeu os lábios e se atreveu a olhar para Ikki mais uma vez... E percebeu que, agora, era observado de volta com um olhar de choque. Talvez fosse melhor ir embora antes que aquilo tudo terminasse muito mal. Os olhos do moreno mesclavam um visível choque com muita decepção e aquilo acabou com todos os planos e convicções do loiro.

Ikki não acreditou no que seus olhos viam. Parou no meio da escada, incapaz de se mexer. Era mesmo Shaka? Em uma pista de dança de uma boate lotada? Agarrado a... A outro cara? Piscou completamente pasmado. Só podia estar vendo coisas. Pegou um copo de uísque de uma bandeja que passava e continuou a encarar o ex-namorado. A medida que percebia que não era engano nenhum, era mesmo ele, ele ali, em sua casa noturna, com outro! Seu coração pareceu se partir; e ele não conseguiu se mover por um longo tempo. Logo agora que estava pensando em procurar o indiano e conversar, logo agora que a mágoa começava a ceder... Sentiu uma dor enorme tomar conta de si e os olhos marejarem. Estavam separados há três meses, três meses que pareceram uma eternidade para ele, mas ao que parecia, Shaka já estava em outra. Um lado prático e racional seu lhe dizia que o indiano poderia também está tentando sobreviver, saindo com outras pessoas, tendo sexo com outras pessoas como ele também teve, e que isso não significava nada, não significava que ele o houvesse esquecido. Mas essa voz era fraca. A voz que Ikki escutava era outra, era uma voz forte que dizia o tempo inteiro que Shaka não podia fazer isso com ele e que era uma afronta ele estar ali! Na sua casa noturna, com outro cara!

O estarrecimento inicial cedeu à raiva, uma raiva e um ciúme incontrolável. Todavia, contrariando a sua vontade de voar no pescoço daquele homem que se pendurava no pescoço do SEU loiro, ele parou, se recostou na escada e ficou observando com os dentes trincados e os olhos perigosamente semicerrados. Mirando de forma perigosa o “casal” na pista de dança. Sabia o quanto um olhar seu poderia ser perturbador e era exatamente o que queria. Ensinaria a Shaka e seu amiguinho que não deveriam provocá-lo.

“Lembre-se que ele tem o direito de sair com quem quiser, vocês não são mais namorados!” A irritante vozinha da sua consciência tentava falar isso para ele, mas o moreno a ignorava. Estava revoltado! Sim, ele podia ir onde e com quem quisesse, mas não ali, aquilo era provocação! E Shaka sabia que não deveria provocá-lo.

Caminhou até o bar e chamou um garçom, pedindo para que ele fosse levar uma bebida até o casal na pista de dança de cortesia. Queria ter certeza de que Shaka sabia que ele estava ali, ciente da sua presença e de seu acompanhante, e que não estava nada satisfeito com aquilo.

– Mande vodka pura e dupla, para os dois – disse e se permitiu sentar num banco e observar. Beberia o sangue de alguém àquela noite.

Ao seu lado, Ângelo, um dos seus clientes Vips, bebia também como se quisesse matar alguém.

– E então, Amamiya? – ele cumprimentou. – Voi ficaria muito aborrecido se Io quebrasse algumas coisas aqui hoje? Mando o cheque amanhã pelo prejuízo.

Ikki riu de leve, não estava em condições de pensar a respeito, então apenas bateu no ombro do cliente de forma amigável e disse: – Vá em frente, eu tenho assuntos mais importantes para pensar essa noite. – Ele disse e caminhou para a pista em direção ao ex-namorado e seu acompanhante.

Shaka não reclamou quando Shura os fez girar na pista. Não estava mais aguentando aquele olhar de Ikki sobre si. Ora, mas não era isso que queria? Que o ex-namorado ficasse com raiva e demonstrasse que ainda sentia algo por ele?

“Era, mas eu não queria esse olhar de ódio...”, suspirou pesadamente, dialogando consigo mesmo.

–Senhores? – os dois se assustaram ao serem abordados por um garçom. – Cortesia da casa.

–É, fomos mesmo notados – Shura disse, pegando a bebida e olhando para Ângelo no bar, e vendo Ikki se aproximar dos dois, abrindo passagem pela multidão como um leão faria no meio da savana. O olhar dele era hostil, predador, e dizia claramente que a “visita” não era amigável.

Shaka engoliu em seco, pegando o copo e virando o conteúdo de uma vez só, sentindo imediatamente sua garganta queimar. Começou a tossir, desesperado, com vontade de sair correndo a cada passo de Ikki em sua direção.

O moreno seguia todos os movimentos do casal com um olhar assassino. Ao contrário do que tinha vontade, não bebeu mais. A bebida o descontrolava, e ele queria estar totalmente no controle naquele momento. Viu o beijo, viu o carinho com que aquele homem tratava Shaka, viu a forma que ele se mostrava doce e condescende ao outro. Sorriu num misto de ironia e desgosto. Talvez o problema de Shaka fosse ele realmente e não as outras pessoas ou talvez, depois que ele se viu livre do TOC, ou melhor da doença, achou que já era hora de se divertir e aproveitar a vida. Poderia culpá-lo? Claro que poderia! Ele não tinha o direito de estar ali, com outro! Iria matar aquele veado almofadinha e beber-lhe o sangue! – Não, Ikki, você não pode culpá-lo, você fez o mesmo. Sua consciência tentava lhe dizer em vão.

Chegou perto do casal, o suficiente para se fazer ouvir e sorriu com um sarcasmo que disfarçava toda a raiva contida em si.

– Espero que tenham gostado da bebida – falou com demasiada calma, o que fez o sangue de Shaka gelar nas veias mais ainda.

– Estava ótima, obrigado – Shura foi quem gritou no meio do bate-estaca da música eletrônica. Shaka continuava calado, olhando para ele. Simplesmente havia esquecido que Shura estava ali.

– Você parece ótimo – ele disse, somente para dizer alguma coisa. – Parabéns pela boate...

– Obrigado – Ikki sorriu, amargo. – Você também parece ótimo, até porque... Bem, eu nunca o imaginaria num lugar assim, mas... As coisas mudam mesmo.

– Algumas não mudam tanto assim – Shaka disse de maneira mais baixa, mas Ikki ouviu, no entanto, não entendeu.

– Bom, divirtam-se, afinal foi para isso que vieram! – O moreno riu de leve, sem humor, segurando toda a dor, ciúmes, raiva que tinha dentro de si. Não faria uma cena, não. Havia amadurecido o suficiente para aceitar que não era mais a pessoa que Shaka queria. Estava doendo miseravelmente, principalmente depois de todos os planos que fizera, mas... Que fosse assim. Talvez simplesmente não fosse para acontecer. Deu as costas ao outro e se afastou, exatamente no momento que Ângelo se aproximava e puxava o braço de Shura.

Io quero falar com voi! – ele vociferou para que toda a boate conseguisse ouvir.

Shura puxou o braço e mirou o outro com frieza.

– Ângelo, você por aqui? – falou como se o ex-namorado não fosse ninguém. – Bem, eu adoraria ter uma conversinha com você, mas como pode ver, estou acompanhado, nos dê licença. – E puxou Shaka, se afastando pelo meio da multidão, deixando o outro com cara de pateta no meio do povo.

– Está dando certo – ele falou ao ouvido do loiro.

– Só se for pra você – Shaka respondeu amuado, triste.

– Não seja bobo, por que você acha que ele nos mandou bebidas e veio falar com você? é evidente que está morrendo de ciúmes.

– Shura, você não sabe quem é Ikki. O ciúme dele não é maior que o orgulho. Ele se sentiu traído, desafiado e não vai me perdoar – disse o indiano quando eles já estavam no outro ambiente da boate que era separado da pista por portas de vidro. Ali poderiam manter uma conversa, mas naquele momento o lugar estava pouco menos barulhento que a pista de dança.

– Nenhum orgulho é maior do que o amor, meu amigo, e se ele se sentir ameaçado, ele vai agir. Sou um advogado, Shaka, analiso as pessoas assim que as olho, e Ikki Amamiya, não é o tipo de homem que aceita perder algo que quer, facilmente.

– Eu não sei, o orgulho dele também é grande demais e... Bem, eu não sei se ele ainda me quer...

– É evidente que quer! você está cego se não percebe isso.

Shaka sorriu de leve, e Shura retribuiu o sorriso, dando um beijo na testa dele. De longe, tanto Ikki quanto Ângelo, conhecido como Máscara da morte na academia em que treinava vale-tudo, viam tudo e tinham sede de sangue naquele momento.

­– Venha, precisamos conversar. Vamos procurar um lugar mais discreto – falou o advogado, o segurando pelo braço e guiando Shaka pelo meio da multidão em direção ao banheiro. Eles entraram, e Shura fechou a porta, suspirando.

– Eu odeio esses lugares barulhentos. – Disse.

– O banheiro? – Shaka perguntou, sem entender.

– Você encontraria um lugar melhor? Precisamos pensar no que fazer agora – Shura falou analítico.

– Só há uma coisa a fazer agora, Shura, irmos embora! Estou com medo da forma que o Ikki está olhando pra gente. Sério, você não faz ideia do quanto ele é perigoso com raiva.

– Shaka, olha meu tamanho? Você acha que eu deixarei aquele idiota tocar em você?

O loiro riu. – Não estou pensando em mim, Shura.

– Então não se preocupe – ele disse, segurando o queixo do loiro – eu sei me cuidar e...

Foi interrompido com o barulho da porta se abrindo.

Ikki empurrou a porta e suspendeu a respiração com a cena que viu. Havia seguido o casal, estava furioso, mas não pronto para ver aquilo. A dor que sentiu foi muito forte. Então era verdade. Shaka estava ali com outro, agarrando-se a ele num banheiro de uma boate. Nem em seu pior pesadelo, ele pensou em algo do tipo. Como? Não era apenas ele que poderia tocá-lo? O que havia acontecido com o loiro? Justo ele, agora estava dentro de um banheiro público atracado com aquele...?!

A decepção, a raiva e a dor faziam seus olhos brilharem em ameaça. Empurrou a porta de volta a batendo e caminhou de forma felina em direção ao casal. Agarrou Shura pelo braço e o jogou contra a porta de uma das cabines sanitária que estava aberta, fazendo o advogado ir parar dentro do reservado. Depois cuidaria dele, agora sua conversa seria com aquele loiro cretino que um dia chamou de namorado.

Ele e Shaka ficaram frente a frente, o indiano acuado entre a pia e o próprio Ikki.

–O que significa isso? – indagou com a voz baixa e raivosa. – Quem é esse cara?

Shaka olhou preocupado para Shura que já se recuperava e dava indícios de que avançaria contra o outro. O indiano fez um gesto somente, pedindo para o amigo sair. Shura hesitou. Será que deveria deixar o loiro sozinho com o empresário que estava visivelmente furioso? Resolveu ficar atrás da porta, caso alguma coisa acontecesse, caso ouvisse algum indício de que Ikki partiria para a agressão, ele entraria e ensinaria àquele fedelho alguns valores. Mas quando fechou a porta do banheiro atrás de si, teve o pulso agarrado por um Ângelo mais que revoltado que o arrastou pelo meio da multidão, sem que ele tivesse chance de lutar contra aquilo, em direção a uma das salas Vips da Elíseos.

– O que pensa que está fazendo? – Shura indagou quando ele fechou a porta.

Io sou quem pergunto o que pensa que está fazendo, vindo aqui com aquele lá! Quer morrer, espanhol idiota? – sim, Shura era espanhol.

– Eu não tenho satisfação para lhe dá seu traidor! hijo de puta! Cretino, te odio! – Shura disse, a emoção, fazendo sua língua mãe falar alto.

Non avevi il diritto, sei il mio, cazzo!

E eles começaram a discutir, cada um em sua língua materna, sem se preocupar se um entenderia o outro ou não, trocando ofensas atrás do vidro da sala. Do lado de fora as pessoas viam apenas os gestos inflamados dos dois.

Enquanto isso, dentro do banheiro, Ikki e Shaka apenas se olhavam. Era evidente que o empresário ardia em ciúmes. Tal como o loiro previu, Ikki não estava apenas com ciúme, ele estava também furioso por ter sido afrontado daquela forma.

–É... meu... namorado – o indiano respondeu, tentando fazer com que sua voz saísse o mais firme possível. – O que você está fazendo aqui? – tentou se fazer de ingênuo. Aquele plano idiota não iria funcionar. Ele só conseguiu fazer Ikki odiá-lo ainda mais. Era melhor sair dali antes que a desgraça fosse maior.

A risada que saiu da garganta do moreno foi estranha até mesmo para ele e em seu íntimo a raiva crescia com a força de uma bomba atômica.

– Não tente me fazer de idiota, você sabia muito bem que eu estaria aqui! – a voz saiu um pouco mais alta e descontrolada, e ele encarou o loiro com desprezo – Justo você, tão cheio de pudores, se atracando com esse cara dentro de um banheiro? – Riu amargo. – Você deve ter mudado muito nesse curto espaço de tempo. O que tem feito? Transado toda noite com um diferente ou esse é o primeiro? O segundo, talvez...

– O que está dizendo – Shaka sentiu-se profundamente magoado. – Você sabe que não sou assim... Sebe que não consigo.

– Eu também achava que você não conseguisse se atracar com ninguém dentro do banheiro de uma boate! – riu em desespero e dor. – É... Tenho que admitir que esse cara parece bem diferente de mim. Eu nunca levaria um tranco e sairia sem dizer nada, e nem muito menos deixaria meu namorado de conversinha com o ex dentro de um banheiro. Que tipinho você foi arranjar, hein, loiro? – debochou.

O sangue de Shaka ferveu por ser ofendido daquela forma. Ele já havia esquecido como Ikki conseguia ser irritante e idiota com bem poucas palavras.

– Ego! Simplesmente ego! Você ficou com o ego ferido por eu estar com alguém tão diferente de você! Eu procurei sim alguém bem diferente de você, Amamiya. Não queria alguém que ficasse me lembrando o quanto eu sofri enquanto namorávamos! – defendeu-se, magoado. – Shura pelo menos não dispara apenas farpas quando fala! Ele me trata como você nunca me tratou! – as palavras ofenderam, e ele queria ferir também.

– Então agora eu fui um monstro como namorado? – riu, triste. – Então somente sofreu enquanto esteve comigo... Engraçado, não parecia. Mas se é com aquele tipinho covarde que você quer ficar, quem sou eu para julgá-lo? Afinal eu sou apenas um idiota que se apaixonou e se iludiu. Sinceramente, ele parece bem pior do que aquela lagartixa roxa que você estava tempos atrás!

O loiro revirou os olhos e riu, irônico.

– Essa história novamente? Eu já disse milhares de vezes que eu e Mu nunca tivemos nada. Isso foi obra da sua imaginação... Provavelmente era seu ego gritando: “Ele vai te trocar por alguém inferior!” Mu é apenas meu amigo! Sempre foi, mas você nunca admitiu que eu simplesmente não girasse ao seu redor, astro rei!

Ikki respirou fundo, como se pedisse a todos os deuses para que o segurasse.

– Pouco me importa se você teve ou não teve nada com aquele lá, eu quero saber por que ousou vir aqui com esse cara? Aqui, na minha boate! – esbravejou, revoltado. – Se está querendo se exibir com ele, como um cachorro no cio, que fosse a outro lugar! Eu não o reconheço, o que aconteceu a você nesses meses? É bom saber que está completamente curado do TOC – a voz deixou que a mágoa saísse. Sentia-se traído novamente, talvez ainda mais traído do que quando descobriu que Shaka e Virgo eram a mesma pessoa – Agora está livre para levar quem quiser para cama, mas pode fazer isso fora da minha boate! – riu e respirou fundo, porque só em pensar nisso seu sangue fervia e seu peito sangrava.

Shaka cerrou as mãos em punhos. Sentia-se profundamente ofendido e magoado com as palavras do moreno.

– Você não me conhece, Ikki. Eu não sou leviano! Ao contrário de você, não fiquei me atracando com várias mulheres e nem dando em cima de amigos virtuais! E eu não queria transar aqui! Shura me arrastou para cá, mas não estávamos fazendo nada! – falou em um tom triste. – Só viemos conversar!

Ikki riu e o segurou pelos ombros com raiva, sacudindo-o e ignorando a observação do loiro.

– Ser leviano é enganar as pessoas! Mentir, dissimular, isso sim é baixo e cruel. Eu expliquei o que aconteceu entre mim e Pandora, e estava confuso quando disse aquelas coisas para Virgo. Mas quem é você para me acusar de ser leviano? Justo a pessoa que se fez passar por outra durante tanto tempo apenas para me fazer de idiota! Você é um cretino, Shaka!

–É isso que você pensa? – Shaka murmurou sem desviar o olhar. Ele conseguia identificar apenas dor e confusão nos olhos azuis do ex-namorado. – Só... Fique sabendo que eu escondi a identidade do Virgo porque queria te ajudar. Você nunca me dizia nada. Sofria sozinho e eu ficava no escuro! Se eu tivesse contado desde o começo, você teria se fechado ainda mais. Eu não poderia te escutar quando você precisou falar do Shun ou de outros problemas que te afligiam. E depois o tempo foi passando... Eu fiquei com medo que você terminasse comigo caso eu contasse a verdade. Mas acho que nada do que eu disser vai justificar minha atitude, eu sei. Só quero que saiba que eu descobri que você e Fênix eram a mesma pessoa bem depois do começo do nosso namoro. Eu não fui leviano...

Ikki piscou por um tempo, mudo, observando os olhos profundos e sinceros do loiro. Estava magoado demais, enciumado demais, e isso tornava qualquer tentativa de raciocínio difícil.

– O que posso esperar de você? – ele perguntou magoado. – Depois de tudo que vivemos você vem aqui com outro! Esfregar sua felicidade na minha cara! Na cara do idiota que o amou a ponto de esquecer quem era! De mudar todos os seus conceitos, todas as suas certezas! – a raiva cedia à mágoa, e as palavras saíam sem que ele pudesse controlá-las. Não conseguia mais rir, nem dissimular. A dor se estampava em seu rosto e voz, assim como a raiva que o cegava. – Droga! Eu deveria... – crispou o punho e socou uma parede, sempre fazia isso quando estava com raiva, era uma forma de tentar se segurar. Apoiou a cabeça na parede e respirou fundo – Sai daqui! Já teve o que queria e antes que eu faça uma loucura, é melhor ir embora! – Riu amargo. – E pensar que eu iria procurá-lo, que eu tentaria uma última vez...

Shaka sentiu uma dor intensa, medo e remorso. Estava perdendo Ikki para sempre e por causa de uma encenação idiota. Burro! Não o conhecia o suficiente para saber que não era bom despertar seus ciúmes? Mas estava tão desesperado de saudade que acabou aceitando aquela proposta ridícula.

– Eu não tenho nada com Shura... – confessou, desviando os olhos para o chão. – Eu... Eu te vi em um show há algumas semanas e fiquei mal por você estar tão bem, por ter... me esquecido. Eu acabei tendo a ideia idiota... – achou melhor deixar Mu e Aiolia fora daquela confusão – de tentar encontrar alguém para esquecê-lo, aí eu o conheci. Mas acontece que ele também ama outra pessoa que, por acaso, é um dos clientes da sua boate. Combinamos de vir aqui para fazer ciúmes em vocês dois. Viemos aqui no banheiro apenas para conversar, para saber o que faríamos daqui em diante... Eu só queria saber se você ainda sentia ciúme e se havia alguma chance de voltarmos porque... porque eu ainda te amo – confessou, mas logo riu sem qualquer humor. – Mas, pra variar, fiz tudo errado e só consegui te machucar.

Ikki ouviu aquilo calado, sentindo um misto de alívio e dúvida.

– Isso é verdade?... – sua pergunta foi quase um murmúrio.

– Pode perguntar a ele se quiser – Shaka estava envergonhado e agora sua única vontade era se esconder embaixo da terra. – Eu vou embora...

Ikki suspirou. Sentiu um alívio tão grande com aquelas palavras que quase deixou que seus joelhos dobrassem e seu corpo relaxasse inteiro. Quase poderia começar a rir naquele momento, tamanha era a felicidade que sentia, mas ao mesmo tempo, reconhecia que não era como se aquelas palavras de Shaka resolvessem tudo.

– Espera... – o moreno o segurou pelo braço, evitando que ele saísse.

– Por favor, não faça com que isso fique ainda pior para mim... – pediu o loiro, envergonhado. – Pelo visto, eu tinha razão, você estava bem melhor antes que eu voltasse para atormentá-lo.

Ikki o soltou e andou para longe, pondo as mãos no quadril, tentando controlar as próprias emoções.

– Eu não estava bem, Shaka, eu não estou bem, e não sei como pôde pensar algo assim. Eu estou tentando sobreviver assim como você e... Cara, você se arriscou muito trazendo esse idiota aqui... – virou-se para encarar o outro nos olhos, ficando calado por um tempo, perdido no azul dos olhos dele – Eu estava morrendo de saudades, loiro...

Shaka sentiu o coração explodir no peito, mas não sabia muito bem o que responder. Ikki sorriu de leve e balançou a cabeça. – Por que fez isso? – perguntou, ainda descrente de tudo aquilo.

– Você estava com várias garotas naquele show... – Shaka disse sem conseguir disfarçar o ciúme. – Achei que tivesse voltado a ser como antes. Achei que tivesse me esquecido... – ele mordeu o lábio com tanta força que nem soube como não os feriu. Queria se aproximar, mas ao mesmo tempo, tinha medo de que tudo aquilo fosse apenas um sonho, e Ikki desaparecesse assim que ele tentasse tocá-lo. – Eu não aguentava mais ficar longe de você; eu também estava com saudades – confessou. – Me perdoa... Pelo Virgo, pelo que eu fiz hoje...

O moreno o encarou, saindo de onde estava e se aproximando do ex-namorado. Havia tanto a dizer, tanto a confessar. Ele queria tanto acreditar em Shaka, ficar com ele, amá-lo, mas tudo era tão confuso.

Rompeu a distância que os separava e tomou o loiro nos braços em um beijo profundo, alucinado de saudade. Era como se um quisesse tragar o outro. As línguas se tocavam de forma intensa, mas carinhosa, saudosas. As bocas se encaixavam e desencaixavam de maneira hesitante, incerta e erótica.

Ikki prensou o loiro contra o azulejo frio, mergulhando a mão por baixo da sua roupa, procurando seu corpo com ânsia. Não era muito bom em se explicar, se fosse, diria que nunca sentiu por ninguém o que sentia por ele, que o amava e que foi torturante ficar longe dele. Mas não era assim, não era de palavras, então preferia apenas beijá-lo e tocá-lo, fazê-lo seu, marcá-lo e ser marcado por ele. Não tinha o que pensar, o que dizer. Queria-o de volta, queria estar novamente com ele. Para sempre.

Desceu os lábios pelo pescoço de Shaka, arrebentando os botões da sua camisa e beijando toda a pele, mas nesse momento, eles ouviram batidas na porta e a voz de um dos seguranças.

– Ikki, desculpe incomodar, mas temos um problema numa das salas Vips. – O homem disse, constrangido. – E a fila aqui fora também já está enorme!

– Já estou saindo. – Disse, respirando fundo para controlar-se. – E o que há na sala vip? – indagou mal-humorado.

– Hum... Hum... – o segurança pigarreou. – As câmeras mostram que tem dois caras se comendo lá dentro...

– Porra... – Ikki resmungou, pegando Shaka pelo braço – Vamos sair daqui – falou, abrindo a porta e saindo, vendo o olhar chocado do segurança ao ver que ele estava com um homem, mas o empresário apenas o olhou sério. – Cuide disso você mesmo, e não me incomode mais essa noite.

Atravessou a boate, segurando Shaka possessivamente contra o próprio corpo.

Na sala vip...

Ti amo, bastardo... – Ângelo murmurava, enquanto beijava boca, queixo e pescoço do advogado.

Yo también te quiero, hijo de puta... – Shura respondia entre gemidos, agarrando-se aos cabelos repicados do outro, beijando-o, devorando-o e não fazendo ideia de que eram muito bem vigiados

Continua...

Notas finais
Rsrsrss eu sei que alguns esperavam um barraco maior, mas eu acho que chega um momento que as pessoas - personagens - precisam amadurecer, não é? Por isso, optei por não fazer um caso de polícia, espero que tenham gostado. Obrigada a todos que leram e em especial aos que comentam! Sion Neblina