Essa Estranha Atração
5 Essa estranha relação
Notas iniciais
Sion diz: Perdoem possíveis erro. Revisão feita muito às pressas para que a postagem não demorasse ainda mais. Beijos a todos e obrigada pela compreensão.
Bia diz: Oi gente, é a Bia postando. Devem ter percebido que eu mudei de nick, né? Faz tempo que eu uso Bia Elric no outro site que eu posto, mas como não dava pra mudar eu tinha que continuar sendo Hannah por aqui xDD
Bom, antes de mais nada, desculpem a demora. Eu e Sion andamos meio ocupadas e por isso a atualização demorou um pouco. Mas posso adiantar que nós já estamos quase terminando o fic via msn o
Não vou mais prendê-los xD Boa leitura.
Essa estranha relação
Capítulo 4
Ikki tomou um banho e foi pra cama e rolou um pouco até conseguir dormir. Isso se repetiu por vários dias. Não conseguia fechar os olhos sem que fosse despertado no meio de um sonho nada casto com o vizinho. Eles passaram vários dias sem se ver, parecia que se evitavam. O tal Shaka nem reclamava mais das plantas secas do seu canteiro, ou era ele que as molhava? Pouco importava, o que importava era que não conseguia tirar o loiro da cabeça e isso o deixava louco.
Nesse meio tempo, tinha saído com algumas mulheres maravilhosas, mas não conseguia excitar-se com elas sem pensar no vizinho.
“Desgraçado, agora além de veado eu sou broxa!” Resmungava, acusando Shaka das suas agruras.
Devido a isso, se afundou no trabalho, era mesmo melhor trabalhar e tentar esquecer. Fez a tão esperava reforma na santuário e contratou Pandora para mais algumas apresentações na casa noturnas; shows que estavam sendo muito elogiados pela crítica e prestigiados. Profissionalmente ele estava completamente satisfeito; sentimentalmente, totalmente perturbado.
Acordou cedo naquele dia, ao som da campainha insistente. Olhou para o rádio relógio que tinha sobre a cabeceira da cama. Eram 9 da manhã, ninguém se atrevia a acordá-lo tão cedo! Grunhiu sentindo a cabeça doer pelo pouco sono. Era a manhã de segunda-feira, dia que, teoricamente não iria a santuário e que por isso poderia descansar. Assim, pensava em assassinar a pessoa que resolveu acorda-lo. Arrastou-se até a porta. Vestia apenas uma calça de pijama larga e nem se preocupou em colocar chinelos. Abriu a porta e deu de cara com Pandora segurando uma cesta onde havia um... cachorro!
— Oi, Ikki, posso entrar? — a mulher pediu de maneira sensual.
— Pandora, pensei também que estaria dormindo uma hora dessas – falou sem se preocupar em ser gentil – desculpe, mas eu tive uma noite cansativa, como deve saber e... Como você conseguiu meu endereço?
A bela alemã sorriu satisfeita.
— Nada difícil para uma mulher interessada. — disse — eu vim trazer um presentinho pra você, o nome dele é Jack.
Ikki olhou incrédulo para o animal, um bicho pequeno e peludo dentro de um cesto e com uma constrangedora fita vermelha no pescoço.
— Jack? Pandora, desculpa, mas eu não tenho tempo para um...
— O Jack estava sem lar — falou a mulher deixando a cesta no chão. Ikki viu com horror o cachorro correr para dentro do seu apartamento.
— Pandora...— iria protestar, mas calou-se quando a morena o empurrou contra a parede e tomou-lhe os lábios ali mesmo no corredor. Seus olhos se grudaram na porta do vizinho, precisava mandá-la embora antes que outro escândalo começasse, porque não tinha intenção alguma de convidá-la a entrar.
Shaka estava cochilando sobre o teclado quando ouviu um inconfundível latido. Esfregou os olhos e sentindo-se irritado e mal humorado pela noite horrível que teve, mais uma de várias onde ficou até tarde na esperança de que Fênix aparecesse e nada! Parecia que ele não voltaria nunca mais e isso o angustiava profundamente. Foi até a porta para conferir que escarcéu era aquele.
"Eu até imagino! Se já não bastasse ele fazer barulho sozinho, agora arrumou um companheiro para ajudá-lo!" pensou furioso.Ao abrir a porta deu de cara com o vizinho e a cantora da outra noite praticamente se devorando no meio do corredor.
Shaka corou ao lembrar o que havia acontecido entre eles na boate e sentiu a cueca apertar ao ver o belo tórax do vizinho tão exposto. Exibir um abdômen daquele durante o dia deveria ser atentado violento ao pudor. Engoliu em seco. Durante todos aqueles dias procurou evita-lo, exatamente porque não sabia como encara-lo depois daquele beijo. Sentia o corpo aquecer cada vez que se recordava da forma possessiva que ele o beijou e aquilo, junto com o “desentendimento” com Fênix o estava deixando louco.
"Por todos os deuses! Eu não posso estar me sentindo atraído por isso! Por que, dentre todas as pessoas desse mundo, eu tinha que sentir isso por ele?", exasperou-se angustiado por achava que realmente, alguém lá em cima não ia com sua cara..
— Que pouca vergonha — comentou num tom frio cruzando os braços e lançando um olhar de desprezo ao casal.
Pandora se virou para olhar de onde vinha aquela voz e sorriu ao encarar o belo loiro parado à porta do apartamento vizinho. Aquele prédio estava bem de moradores, mas quem a interessava agora era Ikki. O empresário por sua vez, sentiu quase alívio por Shaka ter aparecido.
— Eu disse que não era um boa idéia — falou dissimulado — deixe seu cartão, eu ligo pra você...
— Não vai mesmo me convidar para entrar? — perguntou a cantora indignada.
— Pandora, estou um caco, mal dormi! Nos vemos à noite, você ainda tem uma última apresentação hoje não tem?
A mulher bufou e revirou os olhos.
— Está bem — beijou o empresário nos lábios — vou indo, e cuide bem do Jack.
Saiu antes que o moreno pudesse protestar, dando um irônico tchauzinho para Shaka que continuava parado à porta com os braços cruzados.
Ikki recostou-se à parede relaxando e sorrindo de forma safada para o loiro.
— Bom dia, vizinho, dormiu bem? — provocou — Sonhei com você...
Não era bem mentira, mas esperava que o loiro achasse que fosse, porque queria descarregar sua frustração o tirando do sério, pois o tirar do sério evitava que pensasse em fazer outras coisas com ele.
“Puta que pariu! Eu não acredito que justo eu estou passando por isso!” Resmungava mentalmente.
Shaka ignorou solenemente a pergunta. Ele olhava com certo horror a bola de pelos saltitante dentro do apartamento do moreno.
— Aquilo não vai ficar aqui! — exclamou exaltado.
Ikki nem se lembrava mais do bicho saltitante dentro do seu apartamento. Arregalou os olhos com a observação de Shaka e caminhou pegando o cachorro pela fita pendurada em seu pescoço sem nenhuma delicadeza, fazendo o bichinho chorar de leve.
— Não mesmo, vou jogá-lo no duto do incinerador de lixo e agora – e caminhou para se livrar do bicho.
— Espera! — Shaka fez o movimento de que iria se aproximar, mas parou no meio do caminho. — Você não pode maltratar o coitado! Só arrume outro lugar para ele.
Enquanto Shaka falava o laço da fita no pescoço do cachorrinho se desfez e ele caiu no chão. No segundo seguinte, o loiro só sentiu que seu pé estava sendo lambido e babado por aquela bola de pêlos... SUJA!
Shaka congelou.
— Tira... isso... — ele murmurou com a voz fraca, sentindo a cor desaparecer do seu rosto.
Ikki olhou para o bicho (sim, porque isso era apenas o que o tal Jack era para ele, uma coisa peluda e chata) fazendo festa nos pés do vizinho e este parecendo que desmaiaria a qualquer momento. Segurou o braço de Shaka, mirando seu rosto pálido.
— Hey, você está bem? — indagou realmente preocupado.
Shaka não conseguia respirar. Ele nem ao menos ouviu a pergunta de Ikki. Estava tão nervoso que sua pressão caiu e precisou mesmo se apoiar no vizinho para não ir de encontro ao chão.
— Eu... eu preciso... eu vou.... Eu preciso tomar banho — murmurava quase inaudivelmente.
Ikki não entendeu o que ele disse, mas não deixaria o esquisitinho cair no meio do corredor. O apoiou pela cintura e tirou o cachorro dos pés dele, indo com ambos para dentro do apartamento do loiro. Sentou Shaka no sofá e fechou a porta. Soltando o cachorro que ficou dando voltas na sala. Caminhou em direção a cozinha que sabia onde era porque todos os apartamentos eram iguais e voltou com um copo d'água.
— Bebe — estendeu o copo para Shaka que parecia meio alheio — O cachorro não tocou no copo, okay?
Com mãos tremulas Shaka segurou o copo, mas não chegou a tomar nem dois goles e correu em direção ao banheiro, já arrancando a blusa e a calça no caminho. Enfiou-se embaixo do chuveiro e começou a esfregar o corpo com força. Como era extremamente branco não demorou a que começasse ficar todo vermelho e machucado devido à força com que se esfregava. Sentia-se imundo e a sensação aumentava cada vez que lembrava-se dos seus pés molhados pela saliva pegajosa do cão.
Ikki não entendeu nada quando o copo foi devolvido para ele e o loiro saiu correndo em direção ao quarto. Ficou um tempo parado até resolver ir atrás dele. Tencionou bater na porta, mas a mesma estava aberta, o que viu o deixou boquiaberto, o vizinho estava em um banho frenético se esfregando de forma desvairada como um louco, chegando a se machucar. Não pensou muito, característica muito sua quando se encontrava em uma situação onde decisões rápidas devessem ser tomadas, invadiu o boxe e segurou os braços do loiro, afastando as unhas dele da sua própria pele clara onde já havia sinais de sangue.
— Pára com isso, enlouqueceu? Você está se machucando! — gritou sem se preocupar que a água o molhasse inteiro e nem em estar seminu em um chuveiro com outro homem completamente nu. Mirou os olhos desesperado do loiro e engoliu em seco, aquele troço era sério.
— Você não entende! Ninguém entende! — Shaka soluçou enquanto se debatia na tentativa de se soltar. — Sai daqui! Me deixa em paz! Você não se importa comigo. Eu magoei a única pessoa que gostava de mim. E agora estou imundo! Você não vê? Eu estou sujo!
Ikki realmente não entendia nada do que ele falava, mas não iria deixá-lo se mutilar daquele jeito.
— Tá bom, você está sujo, está imundo — o segurou por um dos braço e o outro pegou um xampu e derramou na cabeça do loiro — Eu vou deixar você bem limpinho, certo? — falava, mas pensava: maluco! — começou a massagear os cabelos do vizinho vendo a abundante espuma descer por seu corpo. Olhou rápido o contorno do corpo dele; era magro, mas não magricelas, era um corpo bem trabalhado, ombros levemente largos, quadril estreito, pernas grossas e marcadas e um bumbum...
Ah merda! Era o que me faltava olhar a bunda dessa cara! – Resmungou mentalmente, o puxando para baixo do chuveiro para livrá-lo da espuma.
Shaka sentiu o corpo parar de tremer aos poucos. Permitiu que Ikki massageasse o seu couro cabeludo e fechou os olhos, relaxando quase completamente. Ouviu quando o vizinho ligou o chuveiro — que ele havia desligado enquanto passava o xampu nos seus cabelos — e abriu os olhos ao ser empurrado, com delicadeza, para baixo da água morna. Seus olhos encontraram os de Ikki, e ele sentiu aquela súbita palpitação no peito. Mesmo assim não desviou o olhar. Na verdade, uma gotinha de água atraiu a sua atenção e ele a acompanhou pelo dorso malhado do moreno até que ela sumisse no cós da calça.
— Você está molhado — disse com a voz fraca sem perceber que aquilo era óbvio.
Ikki olhou dos olhos dele e foi descendo até chegar a calça fina que vestia. Estava sem cueca o que deixava certos atributos bem delineados sob o tecido molhado. Corou desviando o olhar e tentando disfarçar. — Não tem problema... — murmurou fugindo a perturbação que sentia, inclinou-se e desligou o chuveiro, pegando um roupão branco e felpudo que estava pendurado e vestindo o loiro como se ele fosse uma criança, mas evitando olhar para ele. O tirou do chuveiro e levou-o para a sala novamente, onde o bendito cachorrinho já se aproximava, mas ele gritou um sonoro – SENTA! – e o bichinho se afastou chorando.
Ikki que estava completamente molhado, ficou parado no meio do cômodo sem saber se iria embora ou ficava, porque ainda havia uma questão: o maldito bicho!
— O presente da sua namorada não vai poder ficar no prédio – Shaka disse ainda com a voz fraca. – E vai pegar uma toalha. Vai molhar tudo.
O moreno pôs as mãos nos quadris sem se preocupar com a observação do vizinho.
— Ela não é minha namorada, e as regras não dizem nada quanto a ter animais de pequeno porte, mas não se preocupe, por mim isso aí vai para o incinerador de lixo. Eu quero saber mesmo é o que você tem? Ficou pálido e daquele jeito por causa de um chiuaua? (ele sabia que o cachorro não era um chiuaua, mas pra ele tanto fazia).
— Vai logo pegar a porcaria da toalha! — Shaka disse entre os dentes —- Você está arruinando o chão! — esbravejou. — E acho que você esqueceu de avisar a ela que vocês não são namorados — ironizou — Ela sabe que a sua casa parece mais um bordel? Ela não ficaria nada feliz em saber disso... — olhou para o cachorro encolhido perto da porta. — E você não pode jogar o cachorro no incinerador, seu assassino de animais inocentes! Ele não tem culpa de ter caído justo na sua mão — e resolveu ignorar a última, e mais importante, pergunta.
Ikki encarou aquele loiro arrogante indignado. Havia ajudado, se preocupado com o esquisitinho, e ele o tratava daquela forma?
— Eu deveria ter deixado você com o chiuaua assassino! — falou revoltado — e lembre-se que se estou molhando o precioso chão da sua sala, foi porque tentei evitar que se esfolasse vivo! E se quer saber, abandonar animais é crime, mas queimá-los vivos não, ao menos, ninguém vai saber, e você, alguém totalmente maluco não serve como testemunha, então vou incinerá-lo sim, se não quer que eu faça isso fica com ele! — Ikki ficou com tanta raiva que nem percebeu as outras ofensas do vizinho.
— Você viu que eu não condições de cuidar desse cachorro! — Shaka retrucou irritado, estava quase com vontade de chorar de tão perturbado que estava com o cachorro, o banho que o vizinho lhe deu e principalmente por Ikki estar desfilando dentro do seu apartamento com aquela calça obscena!
— E você acha que eu tenho? Shaka, eu durmo o dia inteiro e trabalho à noite, eu o deixaria morrer de fome! Nem em sonho vou ficar com esse bicho! Fica você! — Ikki suspirou — Vamos fazer o seguinte, eu deixo ele ali no cantinho da sua casa, você só precisa empurrar um prato de ração e água, certo? Eu juro que venho limpar a sujeira.
— Se fosse só esse o problema tudo bem, mas ele precisa carinho e atenção. Eu não vou conseguir chegar nem perto dele! — o loiro exasperou-se novamente só em pensar em chegar perto do animal. Levantou-se e foi até o quarto para pegar a toalha. Aquele pinga, pinga no chão da sua sala já estava começando a enlouquecê-lo e eram muito bom que Ikki se cobrisse, era bom mesmo! — E eu não vou ficar com um presente que a sua namorada lhe deu — exclamou em um tom que fosse alto suficiente para que o moreno escutasse.
— Ela não é minha namorada, saco! Que parte disso você não entendeu? se quer saber a verdade eu gosto de outra pessoa, gosto muito e... — deu-se conta do que estava falando e balançou a cabeça — Ah, esquece! Mas a questão é, ou ele fica aqui ou o pequeno Jack vai para o incinerador e a culpa será sua!
— Minha culpa? — Shaka repetiu enquanto inspirava e expirava com força — Tudo bem, ele fica, mas só até você encontrar outro lugar para ele! — exclamou enquanto atirava a toalha na cara do moreno.
Ikki sorriu satisfeito, tendo o cuidado de esconder o rosto na toalha para que Shaka não percebesse seu sorriso.
— Okay, eu prometo procurar alguém que queira ficar com isso aí — disse enxugando os cabelos e descendo a toalha pelo peito de forma distraída — Você é bem chatinho hein? E o rapaz da boate? Notícias das bolas deles? Acho que você o danificou para o resto da vida, ele nunca mais conseguirá ser papai... — provocou.
A verdade era que estava curioso sobre aquele homem tão estranho e misterioso. Já morava ali há alguns meses e não sabia nada dele, aquela porta estava sempre fechada e ele andava sempre rápido pelos corredores, isso quando não estava interrompendo suas transas.
— Não sei. Eu não falei com ele desde então. — Shaka balançou levemente os ombros enquanto ia até o computador e fechava o MSN, ocultando a tela com o seu corpo para que Ikki não conseguisse ver nada. — Provavelmente ele tenha ficado furioso já que me deixou lá e eu tive que voltar de táxi, mas não é como se ele pudesse sumir da minha vida já que ele é o editor dos meus livros. Só não nos falamos ainda por que... Bem, eu não fui à editora nos últimos dias...
"E por que eu estou falando tudo isso para esse irritante?" Shaka pensou aborrecido. Talvez ainda fosse o efeito da crise de pânico.
— Hum... você escreve sobre o que? — tentou demonstrar interesse enquanto observava ao redor, tentando descobrir mais sobre aquele cara. Será que ele era um psicopata? Bem, devido suas reações exageradas não era muito surpreendente se isso fosse verdade. Será que acharia carne humana dentro da geladeira dele? — riu com os próprios pensamentos e disfarçou isso quando percebeu que Shaka o encarava — então o que escreve?
— Pegue o cachorro e o coloque na varanda — o loiro apontou para o lugar. —Depois tranque a porta para que ele não escape. — Shaka massageou levemente as têmporas sentindo que a cabeça começava a doer. — Não acho que o que escrevo seja o seu tipo de leitura — limitou-se a responder enquanto ia para o quarto. Ouviu os passos do moreno atrás de si, mas precisava se livrar da cueca molhada, colocar roupas limpas e dar um jeito naqueles ferimentos nos braços antes que eles infeccionassem.
— Como pode saber? — Ikki não se deu por vencido seguindo o escritor — Você não me conhece tão bem assim!
— Correção, Ikki... Eu não o conheço de forma alguma — Shaka disse tranqüilo enquanto pegava uma cueca e roupas limpas no armário. Entrou no banheiro, deixando a porta entreaberta e se despiu rapidamente, jogando a cueca molhada no cesto de roupas sujas. — Mas, não sei, você não tem cara de que gosta muito de ler.
— Pois você está completamente enganado — falou Ikki recostando-se na parede do quarto enquanto aguardava o loiro se trocar – eu adoro romances, principalmente os policiais. — Declarou tentava entender porque aquela necessidade de puxar assunto com aquele antipático.
— Então eu o julguei mal — Shaka disse enquanto vestia a calça. Pegou o kit de primeiros socorros e voltou para o quarto sentado-se na cama, sem ainda ter coragem de olhar para o moreno. Será que a roupa dele estaria menos transparente? Excitou-se ao lembrar que ele não parecia usar cueca e mordeu os lábios tentando deter os impulsos do próprio corpo. — Eu escrevo livros de aventura e suspense — disse enquanto começava a limpar o ferimento, mas gemeu de leve ao sentir o local arder.
Ikki se aproximou sem pedi autorização ao ouvir o resmungo dolorido do escritor. Tirou a caixa de primeiros socorros das mãos dele e, ele mesmo pegou o algodão com álcool e passou nos arranhões soprando de leve e com cuidado ao ouvir mais gemidos.
Ah, Ikki qual é cara, parece até que você está querendo seduzir ele! Merda! — pensou e quase deu um pulo de perto de Shaka — Ah... eu vou colocar o cachorro pra fora! — disse e saiu do quarto sem olhar para ele.
Shaka observou Ikki sair praticamente correndo do quarto e ergueu as sobrancelhas em sinal de confusão. Ele realmente não conseguia entender muito bem o que se passava pela cabeça daquele rapaz. Após um suspiro, voltou a limpar o ferimento. Depois vestiu uma camisa de tecido leve e voltou à sala. Encontrou Ikki perto da porta da varanda observando a paisagem. O cachorrinho estava encolhido no canto do espaço não muito amplo e parecia que iria tirar um cochilo.
— Aqui — Shaka foi até a estante, pegou um dos livros e o estendeu para o moreno. — É um dos meus livros. Você pode ler se quiser.
A voz do escritor o despertou dos seus devaneios. Ele virou-se e pegou o livro de suas mãos — Obrigado, vou ler. — Disse sem jeito – Olha, eu vou tentar achar logo um dono pra isso, certo? E pode me chamar quando ele fizer sujeira — continuou começando a caminhar para sair da casa do escritor, estava confuso e odiava quando ficava confuso daquele jeito — Desculpa por molhar a sala — resmungou saindo pela porta em direção ao seu apartamento.
O loiro ficou ainda mais confuso com a reação de Ikki. Geralmente ele sempre retrucava de qualquer forma, e por qualquer razão. Será que o seu surto por causa da lambida do cachorro o tinha assustado? Era bem possível. No mínimo o moreno estava achando que ele era maluco.
— O coitado do cachorro é um ser vivo, Ikki, por isso eu aceitei ficar com ele por alguns dias — Shaka disse enquanto o acompanhava até a porta.
— Ta bom, eu já entendi isso — falou de mau humor. — Você quer que eu compre alguma coisa? Ração, veneno? Sei lá o que? — Indagou continuando a andar, precisava de mais duas horas de sono para voltar ao normal e se lembrar que aquele era seu vizinho magricelas... Não, ta bom! Ele não era magricelas, e se parasse de usar aquelas roupas largas... Merda!!!
— Eu preciso dormir agora, loiro, ta legal? Mais tarde eu venho ver como o bicho está, pode ser?
— Claro, senhor eu tenho um humor péssimo pela manhã — Shaka disse em um tom de burla. — Ninguém está te segurando aqui.
O moreno partiu sem dizer mais nada. Assim que fechou a porta, o loiro voltou para o computador e conectou o MSN, mas Fênix continuava off line. O indiano suspirou desanimado. Levantou e pegou o celular que estava largado no sofá. Digitou uma mensagem para Aiolia pedindo desculpas pelo ocorrido na boate. Claro que sabia que deveria ter feito isso antes, mas a conversa com Fênix e o ocorrido com Ikki dominou sua mente de tal forma que foi impossível se lembrar de mais alguém durante aqueles dias. Ao terminar viu que o cachorrinho o encarava com uma expressão de expectativa pela vidraça da porta.
— Você vai ficar aí. Nem adianta me olhar com essa cara — falou resoluto e Jack soltou um choramingo enquanto escondia o focinho entre as patinhas. Shaka girou os olhos e voltou para o computador, abriu o Word e começou a escrever rapidamente, mas sempre olhando para o MSN para verificar se o amigo tinha aparecido.
Ikki voltou ao seu apartamento. Fechou a porta apoiando-se nela, cerrando os olhos por breve instante; — O que merda há comigo? Será que uma fada arco-íris resolveu despejar sua purpurina na minha cabeça? De repente me vejo meio apaixonado por meu amigo virtual e atraído por... por aquele... maluco psicótico? Era o que me faltava! – Revoltou-se mentalmente se afastando da porta e tirando a calça molhada, deixando-a no meio do quarto mesmo e se jogando na cama. Sentiu sua cabeça doer e fechou os olhos. Não gostava de se fazer aqueles questionamentos,aqueles questionamentos absurdos lhe lembravam Shun, seu irmão que não queria vê-lo nem pintado de... arco-íris!
Rolou na cama até conseguir pegar no sono e ainda assim foi um sono curto cheio de sonhos, sonhos estranhos onde às conversas com Virgo e Shaka se misturavam. Acordou uma hora depois, ainda com mais dor de cabeça. Pegou o laptop ao lado da cama e da forma que estava mesmo conectou-se, entre um medo e uma vontade insana de falar com ele...
Shaka estava meio cochilando quando a mensagem “Fênix acaba de entrar” apareceu. Imediatamente, o loiro ajeito-se na cadeira e abriu uma janela para teclar com ele, embora não soubesse o que dizer. Temeroso, digitou um “Oi”, mas nem esperou pela resposta; foi logo emendando a conversa.
Virgo diz: Desculpe, eu não quis te magoar. Eu pensei que você estivesse a fim de outra pessoa. Não achei que fosse eu.
Ao perceber o que escreveu em seu desespero, Shaka teve vontade de se atirar pela janela. E se não fosse ele a pessoa por quem Fênix estava interessado? Sentiu-se ridículo. Seu coração batia aflito e acelerado.
Ikki ficou com cara de bobo quando leu aquilo. Seu coração falhou, o que diria a ele? Confessaria a verdade ou se faria de desentendido? Estava nervoso, o amigo parecia bem sincero com as palavras. Temia magoá-lo, mas estava confuso demais.
Fênix diz: Você não me magoou, na verdade eu só estou confuso com meus sentimentos, como disse antes, eu me considerava hetero, imagina a confusão que está em minha cabeça em saber que você é um homem? (Risos).
Merda! Então você já deu o braço a torcer que é um maldito...frutinha! – estapeava-se em conjecturas o moreno, no limiar da angústia.
Virgo diz: Olha, vamos esquecer isso por enquanto, está bem? Até porque, nós não vamos nos conhecer pessoalmente por enquanto. Até lá você consegue resolver a sua confusão de sentimentos... E eu também tentarei resolver a minha, porque eu também gosto muito de você, mas não sei direito como definir esse gostar. Só me desculpa mesmo... Não quero perder a sua amizade. Fiquei com medo que você fosse me bloquear e não querer falar comigo nunca mais.
Percebeu que a frase soou infantil e ingênua, mas não estava preocupado. Também estava confuso com tudo que acontecia em sua vida, e era com Fênix que conseguia conversar e externar todos seus complexos sentimentos.
Fênix diz: Eu não sou tão imaturo assim, Virgo, nunca faria tal coisa. Não quero te aborrecer com minhas confusões e realmente não estou chateado com você. Você gosta de outra pessoa e eu entendo, não fiquei magoado, apenas triste.
Ikki suspirou; o bom da internet é que ele podia ser totalmente verdadeiro, ninguém sabia quem ele era mesmo. Diria tudo que pensava e sentia, não tinha mesmo nada a perder. Estava superprotegido pela tela do computador.
Shaka olhou indignado para a tela, sentindo uma irritação ao pensar que poderia sim estar gostando daquele seu vizinho... Insuportável!
Virgo diz: Gostar daquele troglodita? Nem em um milhão de anos!
Inspirou e expirou profundamente antes de digitar outra mensagem.
Virgo diz: Eu te deixei triste e eu não queria isso. Me diz... Há alguma coisa que eu possa fazer para compensar isso?
Ikki ficou meio sem ação com a pergunta, sorriu de lado, Virgo realmente estava preocupado e isso aquecia seu coração com uma ternura genuína.
Fênix diz: Vai passar, não quero que se preocupe com isso, eu quero que você seja feliz, vença essa timidez que diz ter, esse medo das pessoas e se esse cara é a chave para isso, vá em frente. Sério, eu quero apenas seu bem.
Aquele papo de “eu só quero que você seja feliz” não estava convencendo Shaka, e ele temia que o estrago das suas palavras tivesse sido maior do que poderia suportar. Ainda assim, resolveu não insistir e mudar de assunto.
Virgo diz: Me conta sobre aquele projeto que você comentou na outra noite. Fiquei curioso.
Ikki gostou de mudar de assunto e eles engataram um papo "seguro" e sem qualquer menção a sentimentos. Shaka não viu o tempo passar. Era sempre assim quando eles conversavam; era tão agradável que ele esquecia sua realidade solitária e muitas vezes triste. Só percebeu que deveria ser tarde quando o cão em sua varanda começou a latir, uivar e se chocar contra a porta de vidro.
— O que você tá fazendo, seu doido? —perguntou exasperado. Olhou para o relógio e viu que já passava das duas da tarde — É fome, não é? — girou os olhos e digitou rapidamente uma mensagem para Fênix.
Virgo diz: Desculpe, tenho que sair correndo. Preciso comprar comida para o cachorro. Ele está para me enlouquecer aqui. Depois nos falamos.
A sorte era que havia um pet shop a dois quarteirões do apartamento. Shaka comprou ração e uma tigela para Jack, aproveitando e indo a uma loja de conveniência, comprando também seu almoço. Quando chegou a casa, Jack havia parado de latir e estava encolhido no canto da varanda. O loiro suspirou com desgosto e despejou uma grande quantidade da ração na vasilha comprada; abriu apenas uma brecha da porta e, com o cabo da vassoura, empurrou a tigela em direção ao animal. Assobiou depois para chamar a atenção do cão, fazendo sinal para que ele fosse comer.
Parecendo desconfiado, Jack se aproximou, cheirou a ração e experimentou um pouco para, só então, começar a se empanturrar.
— Pelo menos não fez drama com a ração. Acho que é porque ainda é um filhote — pensou aliviado e foi cuidar do próprio almoço.
Ikki resolveu aproveitar o tempo que lhe sobrava livre para fazer a sua contabilidade, ao menos sua contabilidade pessoal, já que para a boate tinha um excelente contador. Estava conferindo cheques emitidos, dívida no cartão de crédito, despesas, etc., mas sua mente eram constantemente invadidos pelo vizinho e por Virgo, parecia que ambos travavam uma batalha pelo controle de seus pensamentos.
Tudo era tão estranho. Ele, justo ele! Estava tão profundamente envolvido por dois homens, dois! Não era um, eram dois! Justo ele que sempre viu aquilo como uma aberração!
“Estou muito ferrado!” Resmungava enquanto batia as contas na calculadora. Seus pensamentos vagaram no passado, na briga que o fizera romper com seu único irmão, sua única família. Na época, ele foi implacável e cruel, embora tenha se arrependido muito das coisas que disse, tempos depois. Contudo, seu orgulho nunca permitiu que ele voltasse a procurar Shun. O irmão dissera que sairia da sua vida e não pestanejou ao fazer isso. Então, ele, Ikki, também não iria retroceder.
Depois de fechar suas contas, coisa que não era difícil, não era um homem esbanjador nem deveras vaidoso, resolveu correr um pouco. Vestiu uma regata branca, bermuda e tênis, e saiu para correr na praia. Sempre fazia isso quando não estava muito disposto a pensar. Era como se fosse sua meditação. Quando voltou para casa já estava anoitecendo, antes havia passado num Pet shop e comprado ração, além de vários acessórios para o bendito bicho que estava na casa do vizinho. Não queria aquele loiro maluco dando chilique na sua porta por causa da sujeira ou acabaria jogando o bicho no incinerador. Subiu, não teve paciência para esperar o elevador, estava suado e ofegante quando bateu a porta do vizinho.
Geralmente, Shaka torceria o nariz de nojo com a cena que surgiu a sua frente: um homem suado que deveria estar grudento e precisando de um banho com urgência. Mas, para seu desespero, o que sentiu foi aquele estranho "comichão" no baixo ventre; algo que vinha surgindo com freqüência, quando estava perto do moreno.
"Por que tenho que ficar sentindo essas coisas por esse cara? Eu devo ter sido uma pessoa muito má na minha vida passada. Estou sendo castigado agora!"
Desviou o olhar para as mãos dele e viu que o vizinho carregava algumas sacolas do mesmo Pet shop que visitara mais cedo.
— Acho que o cachorro está precisando de um banho — Shaka comunicou fingindo indiferença — Ele emporcalhou a varanda e depois ficou brincando com o que fez lá... — com certeza seu rosto adquiriu um tom esverdeado. Ele estava justamente saindo para dizer ao moreno o que o cachorrinho dele havia feito e sentia vontade de vomitar só em pensar na sujeira canina.
Ikki soltou um resmungo baixo e empurrou o vizinho de leve para entrar no apartamento. Deixou os pacotes sobre o sofá e se aproximou da porta de vidro, fazendo uma careta de nojo ao ver a porcalhada que o bicho tinha feito na impecável varanda do loiro.
— Eu acho o incinerador a melhor opção pra esse monstro — falou desanimado e encarou a expressão de poucos amigos do vizinho — Tá bom, vou limpar!
Voltou à sala e pegou o primeiro pacote; havia nele uma pequena casinha plástica com grades, onde prendeu o cachorro para que ele não o atrapalhasse enquanto limpava a varanda. Claro que na casa de Shaka havia tudo que era tipo de produto de limpeza. Não demorou muito para o local estar novamente impecável. Faltava agora o banho do cão.
Enquanto Ikki limpava a varanda, Shaka ficou o observando e todo o ar que o loiro tinha nos pulmões foi para o espaço quando o moreno resolveu sem qualquer cerimônia tirar a camisa, como se estivesse em casa.
"É tortura. Tenho certeza. Eu sempre detestei homens suados e estou praticamente me atirando em cima desse moleque superdesenvolvido!". Recriminou-se apoiando a mão na testa.
— Tem algum lugar onde eu possa afogá-lo, quero dizer, banhá-lo? — indagou com ironia retirando o loiro dos seus devaneios.
— A pia da área de serviço — o escritor balançou levemente os ombros. — E pare de falar que vai matá-lo! — advertiu sério.
Ikki ignorou sua advertência, voltou à sala pegando uma das sacolas de compras, e depois levou o filhote para a tal área de serviços, o jogando com casinha e tudo embaixo da torneira. O bichinho choramingou surpreso com a água fria.
— E cala essa boca! Ninguém mandou você ser um porcalhão sem fim! Desse jeito, nunca conseguirei um dono pra você! — conversava com o cão, ignorando a presença do dono da casa. Quando ele parecia já relativamente livre das coisas nojentas. Ikki o tirou da casinha plástica e o colocou na pia, pegando xampu dentro da sacola e distribuindo pelo pêlo macio do animal. — Preciso saber qual é sua raça — falou enquanto massageava com cuidado, afinal “o bicho” era muito pequeno —Sem saber qual é sua raça fica difícil achar um interessado... Já sei! Vou tirar uma foto sua! — Falava despreocupado. Em resposta o cachorro se balançou, cobrindo-o de água, mas ao invés de ficar irritado, o moreno se pegou rindo, nem acreditava que estava rindo daquilo, mas ate que cuidar do monstrinho serviu para distraí-lo dos seus pensamentos estranhos. — Eu deveria castrá-lo depois dessa! — falou rindo, continuando o banho no animal.
Um sorriso quase imperceptível surgiu nos lábios de Shaka enquanto o observava, parado na entrada da pequena área de serviços. O vizinho estava sendo carinhoso pela primeira vez na vida; pelo menos, era a primeira vez que o via demonstrando carinho por alguma coisa.
— Por que não fica com ele? — indagou com sinceridade — Acho que seria um bom dono. Eu até tentaria suportar os latidos... — sorriu de canto.
O moreno quase se assustou com a voz do loiro. Virou-se e o encarou intrigado, depois baixou a cabeça com um meio sorriso, começando a enxaguar o filhote.
— Não sou muito bom com coisas vivas — disse tentando conter o tom lastimoso. — Lembre-se que você vive pegando no meu pé por causa das plantas da entrada do meu apartamento. Na verdade, eu só sei que elas estão ali porque você vive me lembrando — sorriu — Não tenho muito talento para cuidar de nada e ... nem de ninguém. — falou baixo, tirando o animal da água, o envolvendo numa toalhinha que havia comprado no Pet também — Você tem secador de cabelos? — emendou rápido, esperando que o vizinho realmente não desse atenção ao outro comentário.
Shaka percebeu a súbita mudança do rapaz, mas preferiu mesmo ignorar. Estava um tanto assustado com aquela leve civilidade entre eles.
— Você não vai secar o coitado com o secador! — exclamou horrorizado, odiava secadores de cabelo! Aproximou-se, e Jack escolheu justamente esse momento para se secar sozinho, sacudindo-se e espalhando água para todo lado. Shaka sentiu os pingos em sua pele e parou imediatamente lívido — É só água, apenas água... — repetiu como se fosse um mântra para não entrar em choque e resolveu voltar ao assunto anterior para que Ikki não percebesse que novamente estava a ponto de correr para o banheiro. — E como vai fazer quando tiver filhos? Eu não vou estar lá para te lembrar que eles existem e que precisam comer, tomar banho!
Ikki achou que o assunto tinha morrido com o secador. Engoliu em seco e riu tentando mostrar uma atitude descontraída, protegendo o rosto dos pingos d’água.
— Não pretendo ter filhos! Digamos que já tive minha cota de paternidade e não terminou bem e, se quer saber, o secador ajuda muito nessas horas, é só não colocar muito quente. Deixá-lo molhado é pior, ele ficará gripado. Vamos, você com essa cabeleira toda deve ter um secador jumbo! – provocou fugindo do assunto novamente.
— Engraçadinho — Shaka estreitou levemente os olhos, atingido pela provocação. — Eu tenho um secador sim. Está no quarto. Espere, irei buscar senão vocês dois alagar a casa... — fez o movimento de que iria sair, mas parou e fitou o moreno detidamente. Ikki acabou preso ao seu olhar. — É claro que eu não posso tirar conclusões pelo pouco que eu vi agora, mas acho que você seria um bom pai. Pelo menos é carinhoso, quando quer — saiu sem esperar a resposta.
O moreno sorriu de canto, sentindo um calor estranho no peito. Não se preocupou em responder, mas suspirou um tanto triste. Era a segunda vez que pensava em Shun naquele dia, ele que tinha prometido nunca mais pensar no irmão. Começou a esfregar o pelo do pequeno animal com a toalha de maneira delicada, enquanto o apoiava numa mesa rústica que estava ao lado da pia.
— E vê se para de fazer tanta bagunça, se o Shaka o mandar embora, seu destino é o incinerador de lixo do prédio, ouviu bem? — advertiu continuando a secar o animal que já estava bem à vontade, rolando de barriga pra cima na mesa. Ele por seu lado se sentia imundo, uma mistura suja de suor, água e pêlo de cachorro. Riu ao se lembrar do terror do vizinho por causa sujeira — Agora mesmo que seu dono emprestado não chega perto de mim! — disse em voz alta e se censurou em pensamento: E pra que diabos você quer esse louco perto de você? Ai, ai, Ikki Amamiya!
Shaka pegou o secador que estava no banheiro e retornou para onde estavam seus ilustres visitantes. Observou que Ikki secava o cachorro com cuidado e o folgado bichinho se deixava acariciar com as patinhas arreadas, totalmente entregue ao carinho do moreno. Por um momento, sentiu inveja do cão. Ele queria as mãos de Ikki sobre seu corpo e...
"NÃO CONTINUE! NÃO MESMO! Ele está parecendo um porco de tão sujo e você com esse desejo insano?", pensou exasperado.
— Aqui — entregou o secador fazendo questão de manter a voz fria e uma distância segura. — Você é um filhote muito folgado, Jack — acabou se aproximando um pouquinho, mas não o suficiente para um contato com o moreno ou o cachorro.
Ikki olhou de lado para o loiro. Percebia que ele tinha vontade de tocar o cão, mas algo o impedia. Estava curioso.
— Não vai doer — disse e os olhos azuis de Shaka se voltaram para ele.
— Quê?
— Tocá-lo. Não vai doer — insistiu o mirando nos olhos.
— Ah, não! — riu nervoso e pálido — Cães têm muitas bactérias, além de... possíveis pulgas! — afastou-se — São muitos perigosos. Bonitinhos, mas perigosos!
Ikki colocou o secador na tomada, começando a secar Jack que parecia muito satisfeito com isso.
— Sabe, no começo eu achava que você era fresco, mas agora vejo que não é bem isso, não é? — encarou o vizinho novamente por alguns minutos antes de voltar a mirar o animal — Você tem pânico de sujeira não é? Tudo bem ser limpo, higiênico etc. , mas você extrapola um pouco, não acha?
— Eu... — Shaka mordeu levemente o lábio inferior sem saber se deveria ou não contar aquilo ao rapaz. Por Buda! Ele estava conversando civilizadamente com o seu vizinho irritante e ainda nem tinha tido vontade de socá-lo ou gritar com ele. O que estava acontecendo afinal de contas? Se as coisas continuassem daquele jeito, eles poderiam realmente se tornar amigos e... da convivência seria um passo para se apaixonar. — Fizeram uma peça comigo quando eu era pequeno — resolveu confessar. Achava que devia uma explicação, afinal o moreno o ajudara durante a crise que tivera mais cedo. — Eu estava brincando com outras crianças e eles me jogaram dentro de um poço com esterco. No começo eu só lavava as mãos o tempo todo, depois foi piorando... — encolheu levemente os ombros.
Ikki ficou condoído, mas preferiu não demonstrar. Sabia que traumas de infância eram difíceis de serem esquecidos. Ele mesmo se lembrava de quando os amigos pegavam no pé do seu irmão e ele sempre tinha que defendê-lo.
— Sei — respondeu simplesmente desligando o secador e encarando o loiro — Nunca pensou em procurar um psicólogo? Não dá pra viver com nojo de tudo.
— Eu não preciso! Eu não sou louco! — Shaka retrucou ofendido. — Estou bem assim! É apenas uma mania. Todo mundo tem manias! — defendeu-se incomodado.
Ikki bufou enquanto segurava Jack e o jogava nos braços de Shaka. Era uma mania apenas? Então não havia nada de mais em segurar um cachorro limpinho e cheiroso.
— Eu não o estou chamando de louco, ir ao psicólogo não significa que a pessoa é louca. — explicou — Vai alimentá-lo, eu tenho que ir pra casa tomar um banho certo? Algum problema nisso? — cruzou os braços e esperou.
Shaka estava trêmulo e pálido com o cão em seus braços. Mirou o moreno magoado como nunca. Nem as palavras ofensivas o magoaram tanto como agora.
— Estava começando a achar que você era uma pessoa legal, mas pelo visto me enganei! — só continuava segurando o filhote porque sabia que uma queda daquela altura para um animal tão pequeno poderia deixá-lo aleijado. — Vá embora! — exclamou furioso enquanto andava em passadas largas até a varanda, deixando Jack no chão e correndo para o banheiro, começando a lavar as mãos e os braços freneticamente com sabonete antibacteriano.
Ikki piscou, esperava que ele reagisse, mas não daquela maneira, afinal o cachorrinho tinha acabado de tomar banho não tinha? Não havia nada de sujo nele.
— Hey, espera aí, loiro esquisito! — foi atrás dele no banheiro e segurou-lhe o braço, impedindo-o de continuar se lavando — O que eu fiz de tão terrivelmente perverso para enfurecê-lo tanto? Colocar em seus braços um filhote limpinho de cheiroso? Você não disse que é só uma mania?
— Me solta! — Shaka disse tentando manter o tom frio, mas aquela proximidade começava a mexer demais com ele — Eu disse uma vez e vou repetir: você não se importa comigo! Então não tente fingir que se importa! Vá lá para os braços de uma daquelas meretrizes que se jogam na sua cama e me deixa em paz com minhas manias!
Ikki se sentiu ofendido. Não compreendia mesmo porque estava dando tanta atenção àquele loiro mal educado, e entendia menos ainda porque as palavras dele o magoavam. Soltou lentamente o braço do vizinho enquanto ainda o olhava sério.
— Volto amanhã pra limpar a área novamente — e começou a deixar o apartamento dele. Estava realmente se dando uma intimidade que não tinha por que. Deveria mesmo manter distância daquele idiota esquisito!
Bateu a porta atrás de si e foi pra casa onde rumou direto para o banheiro, livrando-se da roupa e caindo no chuveiro, molhando a cabeça com água fria para ver se isso lhe chamava a razão. Só podia estar louco!
Shaka observou Ikki sair e ficou andando pela sala parecendo um bicho enjaulado. — Quem aquele idiota pensa que é para ficar se intrometendo em minha vida? — perguntou a Jack que estava mais interessado em brincar com um dos brinquedos (uma bola) que o moreno havia comprado para ele. — Irritante! Idiota! Intrometido!
Bufando, rumou em direção ao banheiro; precisava de um banho. Depois daria um trato na casa que estava bem desorganizada. Só então tentaria continuar escrevendo o seu livro. — Por falar nisso, não perguntei se ele começou a ler o livro... Ah! Como se eu me importasse se ele vai gostar ou não! — Resmungava sem parar e nem percebia que, em meio a tudo aquilo, esqueceu-se completamente dos seus problemas com Fênix.
Continua...
Notas finais
Cada comentário é muito importante para nós e ficamos extremamente felizes ao lê-los.
Beijos.
Bia e Sion.
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