Essa Estranha Atração

6 Essa estranha paixão


Notas iniciais
Notas iniciais: Olá queridos leitores, Peço mais uma vez desculpa pela demora e por erros no texto. Feliz natal a todos!!! Boa leitura e um grande beijo da Sion

Essa estranha paixão

Capítulo 5

Depois do banho, o moreno seguiu para o quarto e se vestiu com uma calça leve branca e uma regata preta. Era sábado, as noites de sábado eram terríveis, mas não estava com muita vontade de trabalhar naquele dia. Sentia uma estranha frustração toda vez que pensava em sua insatisfatória vida. Suspirou. Precisava do seu tão conhecido anestésico que o fazia esquecer temporariamente de suas mazelas. Pegou o telefone e pensou em ligar para alguma mulher e a convidar para sair, mas desistiu. Resolveu entrar na internet e quem sabe desfazer o mal entendido com Virgo. Sim, porque tudo que achava que sentia era mesmo um mal entendido, nunca poderia estar interessado em outro... outro cara! Aquilo era fruto de sua carência emocional e seu vizinho esquisitão lhe deu a certeza disso ao colocá-lo para fora da sua casa.

“Eu deveria mesmo agradecer a ele! Isso acaba com todas as minhas dúvidas sexuais! Loiro, você salvou minha vida! Filho da mãe, mal fodido de uma... Ah, merda! Por que estou com raiva dele?”

Conectou a internet e com ela o MSN automaticamente, mas hesitou em tentar falar, preferiu ficar vendo alguma bobagem em sites de compras, mas estava entediado, frustrado e levemente... magoado.

Shaka suspirou enquanto massageava levemente a nuca. Conseguira avançar um bom trecho do livro. Aiolia ficaria satisfeito quando visse...

O loiro mordeu levemente o lábio inferior ao pensar no amigo. Ele não atendeu ao telefone e nem retornou suas mensagens ; provavelmente, teria que ir conversar pessoalmente com ele, mas pensaria nisso depois, não estava com muita paciência para os pitis de Aiolia naquele momento..

Distraído, olhou quem estava on-line no MSN e sorriu ao ver Fênix entre eles. Rapidamente se pôs a teclar:

Virgo diz: Oi! Está aí há muito tempo? Eu coloquei ocupado e não te vi entrar. Está de folga do trabalho hoje?

Fênix diz: Olá. Entrei agora. Não, acho que hoje não irei trabalhar não me sinto muito bem. Eu queria mesmo falar, melhor, teclar com você. É que... É que acho que em nossa última conversa, eu acabei falando demais, falando sobre coisas das quais nem tenho certeza e que são totalmente sem... lógica...

Digitou tentando escolher bem as palavras. Não queria magoar o amigo, mas também não queria criar falsas expectativas ou mesmo uma decepção, ou seja, lá o que ele pudesse pensar das coisas que tinha dito. Não queria magoá-lo, gostava dele, mas acabou se expondo demais e queria redimir aquilo.

O loiro apertou levemente os olhos ao ler a mensagem. Sentiu-se um pouco... ofendido com aquilo.

Virgo diz: Sem lógica? Por sermos homens?

Ikki bateu na testa. Era mesmo um ogro, um animal como o vizinho não cansava de dizer... o vizinho... Bem, uma boa desculpa para não magoar Virgo, mas se aquilo o magoasse ainda mais? Bem, teria que tentar, da maneira correta e... Claro que seria uma mentira! Mas ainda assim era uma boa desculpa.

Fênix diz: Não, não é por isso. É que... Estou meio confuso só isso. Eu acho que gosto mais do que deveria de alguém que me odeia e creio que a amizade e o carinho que sempre demonstrou por mim, me deixou confuso. Você é muito importante pra mim, mas somos apenas amigos, não é isso?

Virgo diz: Eu já te disse para deixarmos isso esquecido por enquanto. Não vamos nos conhecer pessoalmente tão cedo mesmo... Vamos continuar como os bons amigos que somos. Se um dia tiver de acontecer algo entre nós, vai acontecer de forma natural e espontânea. Se você superar esse seu preconceito, claro. Sabe, não importa se é homem ou mulher... Se o sentimento for verdadeiro, se jogue sem pensar em nada. E que história é essa que de você gosta demais de alguém que o odeia... Como alguém pode te odiar, Fênix?

Ikki achou que realmente tinha magoado o amigo, embora ele tentasse parecer racional. Não era mentira, era mesmo preconceito, porque se Virgo não fosse um homem... Ele era tão adorável...

Fênix diz: Você é perfeito demais, eu sou mesmo um idiota, me desculpe. Não vou mais amolar você com essa história.

Estava triste. Estava ferrado de tão confuso! Mas de uma coisa sabia, não queria perder a pessoa mais próxima que tinha, embora tão longe estivesse dele.

Virgo diz: Acho que você está precisando conversar com alguém de carne e osso para variar... Não que eu não adore conversar com você, mas parece que tenho te deixado mais confuso ainda. Você não tem algum amigo próximo ou irmão para desabafar?

Aquela pergunta foi como um soco no estômago e para não sucumbir àquela sensação ruim, tratou de digitar logo uma resposta.

Fênix diz: Não. Eu tenho um irmão, mas ele me odeia e com motivos, é melhor nem falar nisso. Amigos eu não sei fazer, sou um cara um pouco difícil (Risos). Digamos que consigo transformar em pó tudo que toco. Sério, amigo, não sou uma boa companhia pra ninguém. Mas obrigado pelo conselho e não precisa se preocupar.

Não gostava de demonstrar vulnerabilidade nem mesmo via MSN, mas com Virgo, isso era corriqueiro, não sabia o que havia nele que despertava um lado seu que ninguém era capaz de ver.

Shaka apoiou a cabeça em uma das mãos e franziu a testa. Parecia que Fênix era muito solitário e o loiro se sentia impotente e detestava tal sensação. Queria ajudá-lo, mas não sabia como.

Virgo diz: Você já percebeu que me disse que meio mundo te odeia? Eu realmente não acredito nisso. O que quer que tenha acontecido entre você e seu irmão tem solução, basta você se esforçar um pouquinho para tentar ajeitar as coisas. Pelo jeito aconteceu algo muito grave entre vocês e eu não perguntarei o que foi, mas digo que para tudo na vida há conserto, basta um pouco de humildade e amor. Então, dê a sua cara a tapa se for o caso e o procure. Ficar sozinho é triste demais.

Como adivinhando o que Shaka estava digitando, Jack começou a latir. O loiro girou os olhos.

— Eu sei que você está comigo, Jack. Agora seja bonzinho e vá dormir! — ralhou, mas em um tom carinhoso e o bichinho começou a fazer festa aos seus pés.

Ótimo, Ikki, agora ele pensa que você é um problemático maníaco e maluco! Parabéns! Pensava o moreno no apartamento da frente. Era incrível como conseguia só cuspir bobagens via MSN!

Fênix diz: Desculpe, eu estou mesmo sendo chato. Deve estar se perguntando se são as pessoas que me odeiam ou se sou eu quem odeia as pessoas (Risos). Eu não posso procurar meu irmão, sério, não é uma possibilidade.

Virgo diz: Não, você não está sendo chato. Está sendo teimoso. Você não sente falta do seu irmão, senhor auto-suficiente?

Ikki mordeu o lábio inferior e balançou a cabeça cansado.

Fênix diz: Sinto. Não sou auto-suficiente, eu só não tenho muito que dizer a ele. O que diria, perdão? Isso não apagaria as coisas que disse e a forma que saí da vida dele.

Acabou desabafando antes que se desse conta e ao constatar isso apenas encolheu os ombros em um gesto cansado; estava feito.

Virgo diz: Sim, você pediria perdão seja lá pelo que tenha feito. Há uma música que eu gosto muito que diz: 'As pessoas mudam... Eu não vou ser como eu costumava ser... Eu não vou te decepcionar desta vez... As pessoas mudam'. Mudar não é feio ou um pecado, Fênix. Se a mudança for para melhor, é claro. O seu irmão ficaria feliz com o seu pedido de desculpas. Tenho certeza.

Fênix diz: Eu vou pensar a respeito. Obrigado...

Espreguiçou-se, estava se sentindo cansado e frustrado, sentindo um profundo vazio. Não gostava de falar de Shun, falar de Shun o deixava assim.. Que merda! Lembrou-se que ele estava cursando psicologia, soubera disso por um antigo amigo, mas nem isso o fez ser capaz de ligar para o irmão. Ficara orgulhoso dele, sim, ficara, mas não era forte o suficiente para procurá-lo depois de tudo.

Fênix diz: Podemos mudar de assunto? Fale-me de você como foi o seu dia? Algo especial?

“Sim, diga qualquer coisa que me deixe longe dos meus problemas! Pediu mentalmente”.

Virgo diz: Certo. Não vou insistir no assunto.

Shaka suspirou frustrado e a sensação só piorou quando se lembrou da discussão com Ikki, mas não queria encher Fênix com isso.

Virgo diz: Não aconteceu nada de especial. Estou preocupado com um amigo que eu meio que magoei ontem. Mandei mensagem e liguei, mas ele não retornou. Acho que irei procurá-lo amanhã.

Fênix diz: (Risos) não se preocupe, isso acontece sempre comigo, só que eu não vou procurá-los, tenha certeza, eles voltam!

Virgo diz: Pelo jeito você não é uma pessoa que goste de pedir desculpas, mas acredite, a culpa foi minha e esse meu amigo é bem orgulhoso. Se eu não for atrás, ele não virá me procurar. Não sei se deveria te dizer isso... Ele está interessado em mim, ou estava. E tentou algo, não gostei e... digamos que não fui muito gentil ao dispensá-lo

Fênix diz: Entendo. Ele é o tipo que não aceita um não como resposta? Cuidado com esse tipo de pessoa!

Ikki se interrompeu ao ouvir a campainha tocar. Pediu um minuto a Virgo e foi atender se surpreendendo ao encontrar uma garota que nunca tinha visto antes.

— Oi...— ela disse com fingido charme.

— Oi. — respondeu atônito — Em que posso ajudá-la?

— Eu o vi ontem na santuário e uma amiga minha conhece você e me disse que o encontraria em casa se viesse. Eu estou querendo saber se... se teria uma vaga como garçonete lá pra mim...

A garota usava um minúsculo short jeans e uma camiseta babylook. Ikki achou que aquilo deveria ser uma pegadinha, tamanha era a vulgaridade da mocinha que sorria e lambia os lábios sem parar.

— Escuta, não sou eu quem resolve isso, muito menos em minha casa, vá a santuário e procure por Shiryu. — Ele nunca misturava trabalho e prazer, era um chefe extremamente sério e não se envolvia com empregados. Também não estava em seus planos contratar uma garotinha tão vulgar para trabalhar em sua sofisticada boate.

— Agora se me der licença... — ele queria voltar à conversa com Virgo, mas a atrevida garota segurou seu pulso antes que fechasse a porta.

— Não seja rude, me convide para um drinque! — ofereceu-se sorrindo.

“Eu sambei no túmulo de Aristóteles, não é possível!” Pensou enquanto inventava uma desculpa para mandar aquela menina, que não deveria ter mais que 16 anos, embora. Mas a garotinha era bem insistente.

Em seu apartamento, Shaka começou a digitar a resposta, mas parou no meio quando viu que Fênix havia colocado ausente e dito que iria sair por um minuto.O indiano olhou para Jack que estava encolhido no canto da varanda, com as patinhas sobre o focinho e ergueu a sobrancelha. Pelo jeito o cãozinho estava com medo de alguma coisa. Ao se aproximar, o loiro percebeu que começara a trovejar.

— Que tempo mais louco esse... — murmurou e sentiu pena do cachorrinho — Jack? — o chamou, mas obviamente o filhote ainda não estava acostumado a atender pelo nome.

O loiro suspirou e foi pegar as luvas. Quando abriu a porta da varanda, o cachorro tentou pular em cima dele, mas Shaka lançou um olhar do tipo “Faça isso e morra”, então a pequena bola de pêlos recuou obediente. O escritor segurou o cachorrinho e o colocou em uma cestinha perto da porta, mas Jack não ficou feliz e começou a latir bem alto.

— O que foi? Você quer dar um passeio? Não dá agora! Vai chover — resmungou — tá, tá. Vamos aqui perto, e só uns dez minutos...Acho que dá tempo.

Pegou a coleira e colocou no cachorrinho que agora balançava o rabo feliz.

Deixou um rápido aviso para Fênix que voltaria em dez minutos e saiu com Jack.

Ao abrir a porta, deu de cara com o vizinho e uma menina vestida em trajes... não muito decentes. Isso fez com que parasse e franzisse as sobrancelhas com certa indignação, mas somente olhou para eles com sua máscara característica de frieza.

Ikki tentava argumentar com a garotinha que ele era um homem muito mais velho e nada pedófilo quando viu o vizinho sair com o cachorro. Engoliu em seco. Pronto! Era agora que sua fama de galinha se uniria a acusação de pedofilia.

— Olha, moça, se você quer mesmo trabalhar na santuário eu preciso saber se tem idade para isso! — falou alto e em bom tom para que o loiro ouvisse e não ficasse imaginando coisas. Mas por que diabos se importava?

— Eu tenho...18 anos! — falou a menina em obvia mentira.

— Ok, então vai lá com seus documentos, agora eu tenho que... tenho que levar o cachorro pra passear.Nisso ele se aproximou de Shaka e tirou a guia de Jack das suas mãos. — Vamos, vamos Shaka, você veio me chamar, não foi? — encarou o loiro de forma quase suplicante.

O primeiro pensamento de Shaka ao ver aquela fedelha se atirando para cima do vizinho foi: Ele não tem jeito! É um imã para garotas!, mas logo percebeu que Ikki estava desconfortável com a situação. Sorriu discretamente. Poderia se “vingar” daquele beijo roubado no banheiro.

— Sim, amor, eu vim te chamar. Jack está impaciente, então eu pensei em darmos uma volta à beira mar — e deu um selinho nos lábios do moreno. Na hora, nem pensou em nojo ou qualquer coisa do tipo. O gosto da boca de Ikki era único e senti-lo outra vez não era sacrifício nenhum, além disso, iria rir muito depois da cara de pateta da fulaninha que tentava agarrá-lo e do próprio vizinho que ficou completamente estático.

Ikki não teve reação nenhuma. Ficou travado, teso como um pedaço de pau e só fez arregalar os olhos. Notou a garota passar por si e lhe lançar um olhar entre o enojado e decepcionado.

— Era só dizer que sua preferência era outra! — falou e saiu rebolando. O moreno ficou vermelho como um pimentão. Baixou o olhar, não sabia muito bem o que dizer. Uma coisa era beijar Shaka, outra era ser beijado por ele, mesmo que levemente... Ele não tinha nojo de tudo? Um sorriso tímido surgiu em seus lábios, mas ele foi incapaz de encarar o vizinho.

— Eu... é... Eu... Obrigado... — gaguejou sem saber bem o que dizer ainda sem olhar para ele e tencionou voltar para casa, mas Jack começou a brincar com seus pés e ele se obrigou a agachar e afagar o cachorrinho por um tempo, ainda evitando mirar o vizinho.

Shaka franziu a testa. Realmente não esperava um agradecimento. Imaginou que depois que fedelha fosse embora, Ikki fosse gritar e esbravejar por ele ter acabado com a sua reputação daquele jeito.

— Eu estava falando sério. O cachorro quer passear — disse em um tom seco. Continuava irritado pelo que Ikki fizera mais cedo.

Ikki se ergueu rápido do chão, ainda sem encarar o loiro.

— Ah, claro, se... se você não se importar eu o levo, não precisa fazer isso... — finalmente olhou para Shaka e sua cara deveria estar muito estranha, porque o vizinho franziu as sobrancelhas e ficou olhando para ele o que o deixava ainda mais sem jeito.

Havia algo de errado com aquele garoto, e Shaka estava se sentindo incomodado por não conseguir saber o que era. Mas não estava com muita paciência para tentar decifrar Ikki naquele momento, então apenas passou a guia de Jack para ele.

— É melhor ir logo. Vai chover — falou após balançar os ombros levemente — eu andei pesquisando e o Jack é da raça Shit-zu. Eles ficam satisfeitos com caminhadas de no máximo 10 minutos. São cachorrinhos caseiros mesmo.

Ikki apenas assentiu com a cabeça e começou a se afastar entrando no elevador. Sua mente estava em um turbilhão de pensamentos; então até que caminhar um pouco no parque com um filhote de Shi o que mesmo? Ah, um filhote de cachorro não fazia mal!

Atravessou a rua e entrou no parque esperando com uma paciência que não sabia de onde vinha que as curtas patinhas do cão conseguissem acompanhar suas pernas ágeis.

— Vamos, Jack, não temos muito tempo! — falou olhando os trovões. Tirou a guia da coleira do bichinho e deixou que ele corresse um pouco. Sentou-se no banco o observando, mas logo estava perdido em pensamentos novamente. Tentava descobrir que diabos acontecia consigo, por que estava sentindo aquilo por aquele loiro insuportável? Balançou a cabeça descrente e procurou o cachorro com os olhos, mas não o achou. Ah merda! Resmungou se erguendo rápido.

— Jack! Onde você está Jack? — saiu chamando pelo cão, já que era a única pessoa insana o suficiente para estar fora de casa com uma possível tempestade a caminho e não havia ninguém a quem pudesse perguntar se o vira. Entrou no meio das árvores em busca do cão e viu algo branco e pequeno entrando na trilha da mata. A chuva começou e ele continuava a procurar o cachorro. Meia hora depois já estava completamente ensopado e nada de Jack.

— Ah, aquele loiro esquisito vai me matar se eu chegar lá e disser que o perdi, Jack, então aparece, merda! — reclamou. Pareceu que o cãozinho se apiedou do seu desespero. Ele percebeu algo se mexendo dentro de uma lixeira virada e logo o cachorrinho saia e abanava o rabo feliz.

— Ah, Jack, nunca pensei que ficaria feliz em te ver! — falou rindo.

A chuva estava forte, mas o filhote estava seco. Foi mais esperto que ele

se protegendo dentro da lixeira. Ikki pegou-o nos braços e se inclinou para protegê-lo da chuva e começou a correr em direção ao prédio. Quando chegou se certificou se o cãozinho ainda permanecia seco e tocou a campainha da casa do loiro.

O tempo que Jack passou longe de “casa”, Shaka ficou esperando que Fênix aparecesse no MSN para responder a sua mensagem. Mas o tempo passou, passou, passou e nada do amigo retornar. Logo a chuva começou com trovões nada amigáveis, e o loiro franziu a testa ao constatar que já havia se passado mais de vinte minutos desde que Ikki saíra com o filhote.

O escritor jamais admitiria, mas começou a ficar realmente preocupado com aquela demora. Andava de um lado a outro da sala, apertando as mãos em sinal de nervosismo e quase deu um grito de alívio quando a campainha soou. Ao abrir a porta, deparou-se com o vizinho trêmulo e ensopado, carregando Jack que ao contrário dele estava razoavelmente seco.

— Por Buda! — exclamou exasperado — seu louco! Eu disse apenas 10 minutos! Que idéia foi essa de ficar passeando com o cachorro na chuva? — deixou que os dois passassem e um outro trovão estrondoso ecoou pelo céu, e no segundo seguinte a energia acabou — ótimo. Era só o que faltava! — o indiano resmungou irritado, e acabou esbarrando em Ikki ao tentar andar no breu e os dois foram de encontro ao chão.

Ikki nem teve tempo de explicar nada. Infernos! Como aquele loiro falava! Só teve tempo de colocar Jack no chão quando a energia acabou e no segundo seguinte estava sendo jogado ao chão, batendo a cabeça no piso e sentindo o peso do vizinho cair sobre si. Segundos pareceram horas enquanto eles permaneciam na mesma posição, ambos tensos, sem se mover.

Ainda estavam assim quando a luz retornou exibindo a posição no mínimo insinuante em que estavam: uma perna de Shaka estava no meio das suas e seus rostos muito próximos. Engoliu em seco e não disse nada, ficou esperando que ele se erguesse o que já estava demorando tempo demais...

— Eu... — Shaka tentou falar, mas não conseguia formular uma frase coerente. O corpo frio de Ikki contrastava com o seu que estava quente, quase fervendo na verdade. Céus! Nunca havia sentido nada parecido antes. Ele não conseguia desviar os olhos da boca do vizinho. Um beijo não faria mal, faria? Que se danassem os germes e bactérias. Se não o beijasse iria ter um colapso.

Ikki ofegou quando sentiu o contato da boca macia sobre a sua, mas nem pensou em evitar, entreabriu os lábios e recebeu a boca de Shaka que parecia tímida e incerta. Ergueu a mão e mergulhou os dedos nos fios da sua nuca o puxando mais para si e mergulhando em sua boca de verdade, com vontade, procurando a língua macia em um beijo ávido de desejo. Inverteu a posição, ficando sobre ele, da mesma forma que ele esteve, prendendo-o contra o solo enquanto o beijava sem que o loiro esquisito tivesse a chance de fugir.

Não sabia ele que fugir era tudo em que Shaka não pensava. Aquilo era o paraíso, o loiro tinha certeza disso. Ele beijava o moreno de forma tímida e não sabia muito bem o que fazer, então agradeceu mentalmente quando Ikki inverteu as posições e assumiu o controle do que acontecia. O escritor percebeu que o vizinho o prendia de forma que impossibilitava uma fuga, mas não conseguia raciocinar direito, dirá tentar fugir. Ainda determinado a não pensar, passou os braços em torno do pescoço do moreno e o puxou para mais perto, colando ainda mais os seus corpos. O gosto do beijo se misturando a água da chuva deixando uma sensação gostosa e diferente naquele momento de loucura.

Ikki estava em um mundo à parte, que boca gostosa tinha aquele loiro, só tinha vontade de beijá-lo sem parar, beijá-lo até perder o fôlego. Mergulhava os dedos nos cabelos macios e mordiscava sua boca, para depois voltar a mergulhar nela com vontade. Mas acontece que Jack vendo todo aquele agarramento, resolveu demonstrar carinho também, se aproximou deles e começou a lamber o rosto dos dois e balançar o rabinho, latindo, quebrando totalmente o clima. Ikki se afastou dos lábios de Shaka ofegante e eles se encararam por um tempo sem saber o que dizer. O moreno meio sem jeito, se ergueu de cima dele e pegou o cachorro nos braços — Jack, seu grande filho de uma... — não completou, acabou rindo da festa que o cão fazia mesmo no seu colo, olhou para Shaka — Tá vendo, ele está sequinho, só eu fiquei molhado... — tentou se justificar, embora soubesse que aquela não era hora, mas não sabia o que dizer.

Shaka não ousava olhar para o vizinho. Estava morto de vergonha. O que havia feito? Se oferecendo daquela forma para aquele... aquele... mulherengo! Não estava em patamar muito melhor que o daquelas loucas que iam bater na porta dele.

Levantou-se enquanto mordia o lábio inferior.

— Eu... vou lavar o rosto... — disse com a voz rouca e entrecortada. — O cachorro lambeu... — justificou. Não tinha forças nem para surtar pela lambida — pode deixá-lo naquela cestinha perto da porta. Boa noite — e saiu praticamente correndo da sala.

Ikki viu o escritor correr para o banheiro e fez exatamente o que ele mandou. Colocou Jack na cestinha umas três vezes, porque ele insistia em segui-lo sempre, e saiu, fechando a porta. Entrou em seu apartamento e foi para o banheiro, tirou as roupas molhadas e tomou uma ducha fria para acalmar o fogo que... Merda! Estava excitado! Muito excitado com um mísero beijo! Jogou-se embaixo da água gelada de cabeça enquanto os relâmpagos continuavam explodindo do lado de fora. Enxugou-se de qualquer jeito e entrou embaixo do edredom querendo apenas dormir. Não soube o tempo que passou desacordado, porque acordava vez por outra para tossir e tremer de frio.

“Não, merda! Doente eu não vou ficar por causa de uma merda de chuva!” Reclamou consigo mesmo e voltou a tossir. O pior era não ter se quer uma aspirina em casa, porque simplesmente nunca ficava doente!

Vestiu-se como muito esforço e pegou as chaves do carro, tentaria achar uma farmácia aberta mesmo que já fosse madrugada, o problema era que ainda chovia litros.

Pela primeira vez na vida, Shaka precisou de um banho não porque se sentia sujo, mas porque estava excitado. E nem toda água gelada conseguiu dar jeito naquilo. Ele precisou se tocar. Começou timidamente, sem conseguir acreditar que estava agindo como um adolescente em plena puberdade, mas à medida que a sua mão começou a deslizar com mais rapidez pelo falo ereto, ele esqueceu qualquer pudor e fechou os olhos visualizando o corpo despido de Ikki, a boca dele sugando a sua, as mãos fortes e calejadas percorrendo o seu corpo... Atingiu o ápice mordendo o lábio inferior com força para não gritar o nome dele. Depois disso terminou o seu banho, sentindo o rosto arder de vergonha. Estava perdido. Totalmente e completamente perdido.

Voltou para a sala e viu que Jack estava dormindo tranquilamente no cestinho. Largou-se no sofá e ficou pensando e repassando tudo o que estava acontecendo na sua vida. Tudo parecia estar de cabeça para baixo. Depois de algum tempo acabou adormecendo ali mesmo, do jeito que estava. E, em seus sonhos, Ikki continuava o que haviam começado no chão da sala.

Rodou a cidade e não acreditou que não conseguiu achar uma maldita farmácia 24 horas! Maldição! Parece que todos se esconderam da tempestade que alagava as ruas de Atenas e esqueceram que mesmo durantes os piores cataclismos climáticos, as pessoas ainda ficavam doentes! Arrastou-se de volta ao seu prédio agora molhado e com febre por causa da tentativa de achar uma farmácia e entrou no elevador.

Quando o veículo parou se arrastou até a porta de casa, estava com a chave na mão quando notou que uma luz dentro do apartamento do vizinho permanecia acesa. Não queria ir lá, não queria olhar para ele e aumentar sua confusão, mas precisava de uma maldita aspirina e com certeza ele tinha uma! Ah sim, aquele loiro deveria ser hipocondríaco com toda aquela mania de limpeza, ele tinha uma aspirina!

Tocou a campainha, tentando fazer pose de que estava muito bem e esperou que o loiro abrisse. Jamais daria o braço a torcer que estava doente. Ikki Amamiya nunca ficava doente!

Shaka tinha o sono muito leve, então quando a campainha soou ele acordou imediatamente. Franziu a testa. O relógio marcava três e meia da manhã. Quem seria o sem noção que bateria à porta de alguém naquele horário?

— Ikki? — murmurou confuso ao ver o vizinho. Será que ainda estava sonhando? Ele iria beijá-lo, jogá-lo no chão e... Melhor parar de pensar! — O que houve? Você viu que horas são?

O moreno engoliu em seco e se esforçou para parar de tremer, mas com febre e molhado como estava ficava meio... IMPOSSÍVEL. — Desculpe, loiro, eu não queria incomodar, mas... é que... estou com uma dor de cabeça insuportável e já rodei a cidade atrás de uma farmácia e não acho... — interrompeu-se fechando a mão em punho sobre os lábios para conter a tosse, depois respirando fundo – Eu só preciso de uma aspirina, se você tiver uma, lógico.

Shaka percebeu que o vizinho não estava nada bem, mesmo ele tentando disfarçar. — Você está ardendo! — exclamou após colocar mão na testa do rapaz — seu louco! Não devia ter saído assim! — puxou-o para dentro e o guiou até o quarto. — Tire essas roupas molhadas e deite-se aí! — mandou enquanto pegava algumas mantas mais grossas. — Vou pegar o remédio e preparar uma sopa para você. Aposto que você não comeu nada depois que saiu daqui — o empurrou na cama e Ikki caiu sentado. Tudo aconteceu tão rápido que o mais jovem nem teve como reagir, estava confuso pela febre que não deveria estar baixa.

— Olha, loiro, eu quero só uma aspirina, não é tão grave assim vai! — reclamou ficando no mesmo lugar e cruzando os braços emburrado, mas também para disfarçar a tremedeira do corpo.

— Não ouse tentar me afrontar agora, Ikki Amamiya! — o mais velho disse tentando não se irritar com a birra do mais novo — você ficou assim porque eu disse para você ir passear com o cachorro mesmo sabendo da chuva que viria! — acrescentou enquanto tirava os sapatos do moreno. Jack apareceu quando Shaka ia deixando o quarto. — Fique de olho nele! A culpa também é sua — com certeza estava ficando louco por ficar conversando com o cachorro, mas nunca conseguia pensar com clareza na presença de Ikki — quanto a você, tire as roupas e se cubra com a manta, eu já volto.

Ikki suspirou e se calou quando Shaka jogou a manta sobre ele. Afastou-a e tirou a roupa ensopada, ficando somente com a cueca que ainda estava seca, voltando a se envolver no tecido macio e se encolheu sob o olhar ansioso de Jack. — Se eu deixar você subir aqui, o loiro me mata, então nem me olha. — falou e recostou a cabeça no travesseiro, sentindo o cheiro de lavanda que tinha nele, o cheiro de Shaka. Fechou os olhos, só queria dormir, pensar não era uma boa idéia naquele momento.

Shaka preparou uma sopa bem leve e quando voltou ao quarto encontrou Ikki parcialmente adormecido. Com algum esforço, conseguiu fazer com que o moreno tomasse a sopa e só então deu o remédio para a febre, mas não houve efeito algum; Ikki continuava tremendo e logo murmurava coisas desconexas em seu sono. O loiro pegou um pano molhado e ficou umedecendo a testa do rapaz na tentativa de fazer a febre ceder o que só aconteceu quando o dia já estava amanhecendo. Então, sentou-se numa cadeira ao lado da cama, e ficou velando o sono de Ikki por um bom tempo. Parecia que o pior havia passado. Acabou adormecendo horas depois enquanto segurava a mão do vizinho.

Ikki acordou com a claridade que vinha da janela. Piscou os olhos confuso, sentindo um gosto ruim na boca e dores no corpo. Ajeitou-se melhor e só então percebeu o loiro adormecido ao seu lado, com os dedos entrelaçados nos seus. Ficou um tempo olhando para ele, meio enfeitiçado. Sua pele era tão alva e aveludada o que era um contraste com cílios tão longos e negros. De repente, deu-se conta de que estava na casa dele! Na cama dele! E que o loiro passara a noite naquela cadeira miserável. Sentiu-se envergonhado de estar ali, de ter sido fraco e ficado doente. Separou suas mãos com cuidado e o tocou de leve no ombro, ainda se sentindo meio tonto e nauseado, mas precisava colocar as coisas no lugar.

— Shaka... ei, loiro, acorda... — chamou baixinho, pensando mesmo se deveria acordá-lo ou deixá-lo ali dormindo tão encantadoramente, mas... Não! Tinha que colocá-lo na cama, ele deveria estar exausto.

— O que...? — Shaka murmurou confuso ao ouvir alguém chamá-lo. Há duas noites não dormia bem e estava um trapo. Sua mente começou a funcionar à medida que a imagem de Ikki entrou em foco e ele corou ao se lembrar de tudo que aconteceu, mas forçou-se a permanecer sério e centrado. — Como você está?

— Estou bem... — mentiu confuso — Eu disse que só precisava de uma aspirina, você... você deveria ter me acordado para que fosse pra casa. — reclamou olhando o loiro com curiosidade — Deve estar todo quebrado, passou a noite nessa cadeira?

Shaka desviou os olhos não querendo admitir que sim e que fizera isso por estar preocupado. — Você ficou assim por minha culpa — limitou-se a dizer. — Vou preparar o café — acrescentou enquanto se levantava.

Ikki segurou o pulso do loiro antes que ele saísse e seus olhos se encontraram. Sentiu a boca ficar seca e se sentiu estranhamente inseguro naquele momento, mas não soltou a mão dele. — Eu não mereço esse cuidado. A culpa não foi sua, você disse pra eu ficar só 10 minutos e acabei perdendo o Jack, por isso demorei, a culpa foi minha.

— Não... Não vamos discutir isso agora — Shaka murmurou com a voz rouca sem conseguir desviar os olhos daquela boca tão convidativa. — Você ainda não está bem. Depois, prometo que brigo e reclamo até você enjoar a minha voz — acrescentou em tom de brincadeira.

Ikki sorriu e lentamente soltou a mão do loiro e deixou que ele fosse. Recostou-se na cama, a cama que tinha o cheiro dele e fechou os olhos. Estava se sentindo bem ali, bem demais para quem há algum tempo nem se quer admitia... Merda! Estava admitindo a possibilidade, estava fodido de carteirinha! Havia beijado Shaka na noite anterior, beijado com vontade e desejo. Não era uma simples curiosidade como pensou, mas não queria admitir a possibilidade de estar... Tão envolvido emocionalmente... Todavia... A verdade era que há muito tempo não se sentia tão bem ao lado de alguém. Estranho como eles eram diferentes, totalmente diferente e, ainda assim, conseguiam se comunicar com o olhar, claro! Quando um não estava tentando enlouquecer o outro!

Shaka encostou-se a parede assim que deixou o quarto. Estava perdido e não conseguia nem se desesperar por isso. Decidido a não pensar foi até a cozinha e começou a preparar o café para levar para o adoentado na cama. Com certeza, o estava mimando demais. Bom, depois cumpriria a promessa, brigaria com ele, faria com que ele dissesse coisas que o magoassem e aí conseguiria esquecê-lo.

“Seria ótimo se fosse simples assim” Pensou. Estava cortando alguns pedaços de mamão quando a campainha soou.

"Por Buda! Eu não tenho paz!", resmungou exasperado. Levou um susto ao abrir a porta e dar de cara com Aiolia.

Ótimo. Mais um problema! E ainda não eram nem nove da manhã.

— Podemos conversar? — o editor perguntou sério.

— Agora... agora... não dá -— olhou preocupado para o corredor. — Estou meio ocupado.

— Nem vem, Shaka! Aquilo que você fez foi imperdoável! — o leonino gritou exasperado enquanto forçava a passagem. Shaka arregalou os olhos e tentou impedi-lo, mas Aiolia o empurrou com força e fechou a porta com um baque surdo — Vamos conversar agora!

Ikki ouviu o som de vozes e o barulho da porta se fechando. O que estava acontecendo? Será que Shaka esperava por visitas? Forçou-se a se levantar ainda enrolado na manta e sendo seguido de perto por Jack que esticava a ponta da manta e rosnava brincando. Sentiu uma dor de cabeça insuportável, mas não era homem de ficar choramingando, já estava na hora de voltar a ser Ikki Amamiya. Saiu do corredor e chegou à sala onde o vizinho parecia discutir com... O amigo vitimado pelo joelho do loiro na boate! Teve vontade de rir ao lembrar da cena, mas manteve o olhar sério, apoiou-se na parede e disse: Olá.

A boca de Aiolia se entreabriu pela surpresa de encontrar um homem no apartamento do amigo e de maneira aparentemente tão íntima.

— Foi por isso que você me dispensou sem nem pensar duas vezes, não foi? — perguntou magoado — E eu achando que o problema era comigo! Você sempre andou como se pisasse nas nuvens, acima dos outros, com nojo de tudo e de todos! — despejou sua mágoa de forma furiosa, afinal, havia anos que “cortejava” o loiro sem ter nenhum resultado e agora ao que parecia, ele havia passado à noite com aquele... Moleque!

Shaka lançou um olhar exasperado a Ikki do tipo "Por que você veio para cá?". As palavras de Aiolia o machucaram, mas o que ele poderia dizer? Em parte o amigo tinha razão.

— Não, Aiolia, não foi por causa dele — falou em um tom controlado. — Eu sempre disse que seriamos apenas amigos. Misturar trabalho e romance não dá certo.

— Pois é, não dá certo mesmo! — Aiolia trovejou. — Procure outro editor! Eu não trabalho mais com você.

— Aiolia, espera! — Shaka tentou detê-lo, mas o editor irrompeu porta a fora sem se importar em ouvir seus apelos e pedidos de desculpas. O loiro levou uma das mãos ao rosto e fechou os olhos. — Lá se vai o melhor da editora... — disse em tom triste — e talvez o meu único amigo — “pelo menos, amigo não virtual”, acrescentou mentalmente pensando em Fênix.

Ikki guardou silêncio enquanto assistia o editor sair da casa do loiro. Então ele era assim com todos? Mordeu os lábios confuso. Pensava que Shaka tinha nojo dele e... do cão, mas talvez ele se sentisse bom demais para qualquer pessoa; entretanto, a cena do banheiro... De duas uma, ou ele era enjoado mesmo, ou era completamente maluco!

— Se ele for mesmo seu amigo ele volta, e que história é essa de nojo de tudo e de todos, loiro? Dá pra me explicar?

— Aiolia é orgulhoso, duvido que me perdoe algum dia — Shaka disse em um tom que demonstrava aborrecimento. — E não é nojo... São apenas as minhas manias. Eu não gosto que toquem em mim e nem de tocar nas pessoas — se aproximou e tocou levemente a testa do moreno, contrariando o que havia acabado de dizer — parece que a febre foi embora de vez — comentou na tentativa de mudar de assunto.

Ikki sorriu e segurou a mão que lhe afagava a testa. Olhou Shaka dentro dos olhos com visível curiosidade.

— Você não parece ter mais nojo de mim, embora eu me sinta suado e imundo agora. — riu de leve e imediatamente começou a tossir, mas afastou Shaka quando ele tencionou ajudá-lo — Não precisa, loiro, você já fez demais, eu vou pra casa. — desvencilhou-se dos braços do vizinho e caminhou de volta ao corredor, pensando em se vestir e sair antes que caísse novamente no abismo da confusão.

— Eu... Eu não sei porque não tenho problemas em te tocar — Shaka disse lentamente antes que Ikki alcançasse a porta. — Na verdade, eu... gosto... — confessou e mordeu a língua enquanto desejava que um buraco se abrisse sob os seus pés e o tragasse. Que raio de língua solta era aquela? Nunca foi de falar demais! — Eu vou pegar os remédios. Tem um pra tosse, outro para a febre... — acrescentou um pouco nervoso.

Ikki parou o passo e sorriu. Incrível como há alguns dias atrás pensava em matá-lo e esconder o corpo no incinerador de lixo e agora... Somente ouvir aquilo o deixava todo... Merda! Estava apaixonado por ele! Não havia mais dúvidas. Virou-se abruptamente para Shaka e engoliu em seco, não por suas palavras, mas pela constatação do fato de estar apaixonado por UM HOMEM. Não conseguiu dizer muita coisa, mas tentou sorrir.

— Você pode levar os remédios pra mim? Preciso escovar os dentes e tomar um banho, a febre me fez suar demais. — explicou timidamente, sentia-se estranho, meio acuado, afinal, não sabia o que era amar um homem; Shaka meio que o intimidava, embora fosse tão lindo e angelical... Merda! Nunca achou homem bonito, mas... Estava ferrado!

— Claro — o escritor estranhou a forma como Ikki o fitava, mas não disse nada. O observou sair e ainda ficou uns cinco minutos parado onde estava pensando em seus sentimentos. Ikki o deixava de uma forma que nenhuma outra pessoa jamais havia deixado: com as pernas trêmulas, o coração acelerado, as mãos suando. Sentia uma vontade quase incontrolável de tocá-lo, de beijá-lo ou de simplesmente estar com ele. Isso era estar apaixonado?

"Oh, não, não! Por favor. Ele é heterossexual!", pensou desesperado. "Mas e aquele beijo de ontem?", uma vozinha perguntou lá no fundo da sua mente."Ele estava apenas curioso!", Shaka respondeu tentando parecer convicto de suas palavras. Jack estava com fome então interrompeu os devaneios do "dono" ao começar a morder a barra da calça do loiro.

— Não faça isso! — Shaka ralhou irritado e o cachorrinho se encolheu. O loiro girou os olhos enquanto calçava as luvas. Segurou Jack no colo enquanto resmungava um "Quem consegue resistir a esses olhinhos?". O colocou no cantinho dele na varanda e encheu a tigela com ração. Depois, tomou um banho demorado, trocou os lençóis da cama (não sem cheirá-los antes, como uma esposa apaixonada, e quase morreu de vergonha ao perceber o que fazia). Terminou de preparar o café, colocou tudo em uma bandeja bem disposta junto com os remédio e só então foi bater na porta do apartamento do moreno. O indiano tremeu internamente; seria a primeira vez que entraria no lugar que antes costumava chamar de "antro da perdição". Agora, parecia que era ele quem estava perdido, completamente perdido.

Continua...

Notas finais
Notas finais: Obrigada pelos reviews deixados no capítulo anterior a: su cabral, Chakal_Maldito, Lord Bol, Cristal_black, Mila B, álefe, Agathachan, popprincess, Mary57, Kao, Alexia-Black. Beijo no coração de todos vocês!! Sion Neblina