Essa Estranha Atração
24 Esse estranho perdão
Notas iniciais
Esse estranho perdão
Capítulo 23
Shaka estava cansado. Aquela dupla jornada de escritor e guia turístico ainda o deixaria estafado. Sem falar que andava dormindo pouco desde o término do namoro com Ikki. Fazia uma semana desde aquela discussão, e ele não viu mais o moreno, só escutava o sax nas madrugadas. Provavelmente, Ikki tocava depois que chegava da boate até que sentisse sono.
“Por que de dez coisas que eu penso, pelo menos nove são sobre você, Ikki?”, ele se perguntou revoltado.
Talvez Mu tivesse razão. Devia engolir o orgulho e procurá-lo. A separação não estava fazendo bem a nenhum dos dois. O grande problema era a teimosia de Shaka que o impedia de se aproximar daquela porta e tentar conversar com o ex-namorado.
Abriu a porta do próprio apartamento e foi recebido por um Mu de olhos arregalados e rosto lívido.
– Shaka! – o editor exclamou, e o loiro quase saltou para trás quando ele praticamente pulou em cima de si. – OJacksumiu! – o tibetano falou num fôlego só.
– Quê?! – Shaka exclamou espantado.
– O Jack sumiu... – Mu falou de forma mais pausada.
– Sim, isso eu entendi, eu quero saber como! – o escritor indagou angustiado. – Eu disse pra você ter cuidado com a porta!
– Eu tenho! Eu não sei como aconteceu! O porteiro interfonou dizendo que tinha uma encomenda pra mim na portaria e que eu tinha que descer pra assinar lá... Quando eu voltei, o Jack não estava em canto nenhum! – O editor estava aflito. Sabia o quanto o loiro era apegado ao cachorrinho.
– Faz tempo? Você já viu se ele não foi pro... pro apartamento do Ikki? – Perguntou Shaka, já começando a se desesperar.
– Faz umas duas horas. E ele não pode ter ido pra lá, ta tudo fechado faz tempo! Mas eu não tive coragem de bater na porta. Adoro minha cara, Shaka.
– Idiota! Você deveria ter me avisado logo! – Irritou-se o loiro.
– Eu tentei, mas o teu telefone só caia na caixa postal.
O indiano lembrou que a bateria havia descarregado, e ele não se lembrou de colocar para carregar.
– Eu vou procurá-lo. Tomara que ele não tenha ido muito longe.
– Eu vou com você!
– Não! Se o Jack ouvir a tua voz é capaz de correr para mais longe ainda! – Shaka disse nervoso, não se importando se estava sendo grosseiro ou não.
– Não seja cruel comigo, foi sem querer! – reclamou Mu, mas o loiro nem deu ouvidos a ele, deixou o apartamento, batendo a porta com mais força que o necessário ao passar. Avançou por metade do corredor e estancou no meio do caminho. Ele olhou de soslaio para a porta de Ikki. Procurar por Jack sozinho seria como procurar por uma agulha em um palheiro. Se Ikki estivesse junto seria mais fácil. Jack sempre vinha correndo quando ouvia a voz do moreno e por algum motivo, ele acha que o cãozinho poderia sim estar com o empresário, afinal, eles se adoravam.
O indiano desistiu de pensar; se pensasse demais, desistiria. Refez o caminho e sem hesitar tocou a campainha do apartamento vizinho.
Ikki levantou com o irritante tocar da campainha. Passara o dia inteiro dormindo como era o seu costume agora e não estava com vontade nenhuma de abrir a porta, embora já estivesse acordado há certo tempo. Mas havia apenas levantado, lavado o rosto e escovado os dentes e bebido uma caneca de café. Não tinha muita vontade de fazer alguma coisa. Contudo obrigou-se a descer da cama e caminhar em direção à sala, sem se preocupar em vestir-se. Fosse lá quem fosse o chato que estivesse batendo à sua porta “uma hora daquelas” que não se escandalizasse com um homem vestindo apenas uma cueca boxe vermelha.
Abriu a porta de supetão e arregalou os olhos surpreso. Não soube o que dizer, na verdade, perdeu a voz por algum tempo. — Shaka... — balbuciou sem encontrar na mente algo melhor a falar.
Shaka engoliu e seco ao ver o ex-namorado em nada mais do que uma cueca. Era demais para a sua pobre cabeça. Sem conseguir evitar, ele deslizou os olhos pelo corpo exposto do moreno, notando como ele realmente estava magro, mas nem por isso menos sexy. A barba continuava por fazer e os olhos, que sempre o encantaram, continuavam meio opacos, mas ainda assim, eles permaneciam os olhos mais lindos que já vira.
“Controle-se, Shaka!”, pensou desesperado ao sentir uma vontade quase incontrolável de pular em cima de Ikki e lambê-lo inteiro. Só aquele moreno para fazê-lo esquecer qualquer fobia e ter pensamentos tão primitivos.
– Eu não... Não ia te chamar – começou a falar, confuso. Não tinha como conseguir fazer os neurônios funcionarem diante daquela visão. – Mas o Jack sumiu e... Eu pensei que ele pudesse estar com você... Você o viu? – explicou tentando não gaguejar mais.
Ikki abriu e fechou os lábios antes de realmente ter voz. — Sumiu? Sumiu como, quando? — indagou confuso. – Não, ele não está aqui.
– É que... Bem... Ele... – Shaka mordeu o lábio inferior com força. – Será que você poderia vestir alguma coisa? – murmurou. – Não estou conseguindo pensar... – disse e corou fortemente em seguida. – Me diz que eu não disse isso em voz alta... – rosnou contra si mesmo.
Ikki mirou a si mesmo de cima a baixo e passou a mão nos cabelos sem jeito. – Ah... eu... Espera um minuto! – entrou no apartamento e abriu o armário se enfiando numa bermuda, numa camiseta e calçando os pés em chinelos, saindo em seguida. — Pronto, vamos procurá-lo. Tem quanto tempo que você deu falta dele? E por que deixou a porta aberta? Você sabe que aquela pestinha adora bisbilhotar por esse corredor! — ralhou enquanto procurava ao redor, por trás dos canteiros de plantas.
– Eu cheguei a casa agora, e o Mu disse que ele sumiu depois que ele desceu para pegar uma encomenda. Faz umas duas horas – Shaka disse após um suspiro de desânimo. – Talvez ele tenha saído pensando em te encontrar. Ele anda muito triste desde que nós terminamos. – Completou sem pensar muito no que falava.
– Aquela Lagartixa roxa idiota tinha que ter dedo nessa história! – resmungou Ikki, ignorando as palavras seguintes do indiano. – Procure por aqui, eu vou para a recepção. — Demandou se afastando do loiro.
Shaka girou os olhos ao ouvi-lo chamar Mu por aquele apelido nada carinhoso, mas não disse nada.
– Eu não acho que ele esteja no prédio – o loiro disse o seguindo até o elevador, uma vez que não via motivos para procurar no corredor. Se Jack estivesse ali, já teria os escutado e ido correndo até os dois. – Já faz duas horas que ele sumiu... – murmurou angustiado.
– É, mas eu não acho que ele tenha chamado o elevador, não é? ironizou. – Se ele desceu as escadas, pode ter entrado em um dos quartos de serviços, na lavanderia ou na casa de máquinas. Vá para a recepção que eu vou examinar esses locais – insistiu dando as costas e começando a caminhar paras as escadas.
– Ikki... – o escritor pôs a mão no ombro dele, fazendo-o se voltar. Seus olhos se encontraram e ambos engoliram sem seco – Obrigado...
O moreno sentiu o coração acelerar com aquele leve contato, mas apenas meneou a cabeça em resposta e se afastou em seguida. Não queria criar expectativas ou esperanças. Já havia sofrido demais e não suportava uma nova tentativa e a provável negativa do loiro.
Desceu as escadas e começou a checar todos os vãos do prédio. Depois de mais de uma hora de buscas, como previra, encontrou o cãozinho brincando na lavanderia, dentro de um cesto de roupas virado num canto qualquer.
— Jack, seu moleque! — exclamou e assim que ouviu sua voz o filhote correu para ele, saltitando de alegria — Coisa minúscula, pulguenta e nojenta! — ralhou, mas sorriu, estava feliz em encontrá-lo. Nem sabia como Shaka ficaria se aquela peste desaparecesse. Percebia o quanto o loiro se apegara ao cão. — E por que me importo tanto com ele ainda? — resmungou consigo.
Enveredou pelo corredor da recepção com o cãozinho no colo que o lambia e abanava o rabo sem parar. Sorriu satisfeito, pelo menos havia restado algo de bom que os unia: Jack.
– Jack! – Shaka exclamou ao ver o cachorrinho nos braços de Ikki. Um sorriso de alívio surgiu em seus lábios quando o moreno lhe entregou o animalzinho que balançava o rabo todo feliz e tentou lamber o dono. – Epa! eu estou feliz em te ver, mocinho, mas não tão feliz.
Ainda sorrindo, ele olhou para Ikki.
– Obrigado, novamente. Eu não sei o que faria se não o encontrasse...
Ikki apenas sorriu e ficou olhando nos olhos de Shaka. Era estranho como naquele momento nada vinha à sua mente que pudesse dizer, só conseguia admirar aquele sorriso que há tanto não via e o brilho daqueles olhos.
— Tudo bem. Toma conta desse rapaz direito — falou e afagou a cabeça do animal que tentava lamber seus dedos. Seus olhos se encontraram com os de Shaka novamente, e ele notou que o indiano chegou a mover os lábios, mas nada disse, então se afastou. — Vou nessa — falou baixo, enquanto caminhava de volta ao seu apartamento.
– Espera, Ikki – Shaka pediu. Não sabia o que queria dizer. Estava confuso. Feliz. Sentia uma euforia que há muito não experimentava. Ele tentou dar um passo, mas se desequilibrou e só não foi ao chão porque o moreno o segurou.
O loiro engoliu em seco, meio envergonhado, seu coração batia como um louco dentro do peito. Sem pensar, sem nem ao menos lembrar que estavam em plena portaria do prédio, ele roçou os lábios nos do moreno. Jack estava preso entre o peito dos dois e choramingou por isso.
Ikki estremeceu com o leve toque dos lábios do escritor. Seu coração bateu como louco no peito, mas ele não teve coragem de avançar, pensou que aquilo foi um incidente que aconteceu ao impedir que Shaka tropeçasse nas próprias pernas e caísse, então tratou de afastá-lo, antes que perdesse o controle. Afinal, Jack já estava choramingando por ficar praticamente imprensado entre os dois.
— Cuidado..., loiro... — sua voz falhou, e ele enrubesceu sem jeito. Parecia até um adolescente na iminência do primeiro beijo. Ambos ficaram de frente ao outro sem saber o que dizer.
– Será que nós podemos conversar no seu apartamento? – Shaka perguntou um pouco incomodado com o olhar desconfiado do porteiro. Agora já não tinha tanta certeza do que fazia. Talvez Ikki tivesse decidido esquecê-lo e estivesse com outra pessoa. Mas não desistiria. Agora que havia decidido reatar com ele, iria até o final. O máximo que poderia acontecer era levar um fora. Mas... Deuses! Quando foi que decidiu aquilo?
O moreno estranhou aquele convite, mas nunca conseguia pensar direito perto do loiro mesmo, então apenas assentiu com a cabeça e seguiu com ele para o elevador. O indiano desviou o olhar de si e ficou brincando com Jack, brincando de afagar o cãozinho.
– Você está sem luvas... – Ikki observou com um meio sorriso sincero e tímido. Nunca pensou que algum dia na vida se sentiria intimidado na presença de outra pessoa. Segurança sempre foi seu nome, mas desde o incidente com Pandora, sentia-se em dívida e por isso intimidado. Nunca sabia como agir, nem a melhor maneira de agir e dizer as coisas sem magoar o indiano.
Só depois da observação do moreno, Shaka percebeu que estava sem as luvas. Assustou-se com isso, mas não jogou o cãozinho no chão, surpreendentemente.
– Estranho isso, não é? – o loiro disse em um tom suave e com um meio sorriso. – Eu não estou com nojo.
– Eu fico feliz com isso – Ikki sorriu de forma aberta e o loiro sentiu seu coração bater forte dentro do peito. Estava com tanta saudade dele, com tanta vontade de cair em seus braços e dizer que deveriam esquecer tudo, mas não sabia como dar o primeiro passo.
O elevador parou, e o loiro foi o primeiro a descer. Eles andaram lado a lado até chegarem ao apartamento de Ikki. Com cuidado, Shaka colocou Jack no chão e quando o moreno fez o movimento de que iria abrir a porta, ele o deteve, o segurando pelo pulso e num movimento firme o prensou contra a porta.
Shaka fixou seus olhos na boca de Ikki. A posição em que estavam não era muito comum, ele não era de assumir o controle. Mas pensava que se não o beijasse naquele segundo, enlouqueceria. E foi isso que o loiro fez: esqueceu todo o seu ressentimento, a traição e a mentira, e o beijou.
O primeiro pulso elétrico que o moreno recebeu foi o do susto, mas quando o loiro deslizou a língua macia para dentro dos seus lábios, um súbito ardor o tomou e sua mente acabou esquecendo-se de todo o resto. Ele envolveu a cintura de Shaka e aprofundou o beijo da mesma forma intensa de sempre, sem se preocupar que estivessem no corredor. Sentia o coração batendo como nunca e cada terminação nervosa respondendo ao indiano com uma saudade e desejo incrível. Ele percorria a boca do loiro com todos esses sentimentos e com uma das mãos tentava abrir a porta do apartamento sem parar o beijo.
Shaka se afastou um pouco, mas ainda continuando a beijar os lábios carnudos do empresário.
– Melhor abrir a porta – sussurrou entre beijos. Ele suspirou quando os lábios de Ikki deslizaram pelo seu rosto e jogou a cabeça para trás dando acesso livre a ele. De alguma forma, Ikki conseguiu abrir a porta e os dois quase caíram ao entrar. Shaka deslizou a mão para baixo da camiseta que o moreno usava e arranhou de leve a barriga dele. A barba do mais novo roçava em sua pele deixando marcas, mas o loiro não se importava. Só quem falava naquele momento era a saudade. Nada mais importava.
Ikki continuou beijando e lambendo rosto e pescoço do loiro, estava desesperado de saudades dele, desesperado de vontade de prová-lo, de prendê-lo definitivamente para que ele nunca mais se afastasse. Estava tão emocionado e feliz que seu corpo tremia e seus olhos ficavam úmidos sem que ele pudesse conter, mas no fundo ainda sentia angústia, porque não sabia o que aquilo significava, se significava para Shaka o quanto significava para si e tinha medo de perguntar e estragar tudo. Vê-lo se afastar acabaria consigo, por isso preferiu continuar beijando; boca, rosto, pescoço. Lambendo, mordiscando e o apertando com cada vez mais força nos braços.
– Espera... – Shaka teve que reunir todas as suas forças para pará-lo. Ele se emocionou ao ver que lágrimas se formaram no canto dos olhos do ex-namorado. O loiro se inclinou beijou o cantinho do olho direito dele e em seguida se afastou outra vez. – Me promete que nunca mais vai... Promete que se você não estiver conseguindo mais ficar comigo vai me dizer... que se eu me tornar um fardo grande demais... – não conseguia completar uma frase sequer e lágrimas já molhavam seu rosto também.
— Eu... — Ikki não conseguia falar direito, porque estava realmente muito emocionado, por mais idiota que se sentisse com isso. — Eu só não quis magoá-lo, por mais que você não acredite em mim... — uma lágrima escapou e desceu por seu rosto sofrido. — Mas eu não soube dizer isso...Sei que sou um idiota... – encostou-se à parede e cobriu os olhos com uma das mãos, envergonhado.
Lágrimas também desceram pelo rosto do loiro, mas ele se aproximou de Ikki, afastando a mão dele do rosto e colhendo suas lágrimas com os nós dos dedos, sorrindo serenamente. Não estava mais com raiva. Ele sabia que Ikki só demonstrava aquele lado para ele e isso o deixava feliz. Mostrava o quanto ele o considerava importante.
– Não se esconda mais de mim, Ikki. Só me promete que não vai esconder mais nada e nós passamos uma borracha em cima de tudo.
– Eu prometo. Loiro, eu odeio mentiras — ele segurou a mão que afagava seu rosto e a beijou. — Você estava numa situação delicada com aquele tratamento horrível com o Valentine, e eu sabia que se contasse naquele momento, você ficaria pior, acabei empurrando a situação até que você descobriu. Mas eu prometo que nunca mais vou mentir pra você. Eu te amo, nunca deixei de amar até... até quando fiz... aquela merda!
– Eu também te amo – Shaka sussurrou, tocando de leve os lábios dele. Não querendo falar mais, o loiro rompeu a distância que havia entre os lábios e o beijou de leve, selando suas palavras.
Ikki aceitou os lábios do loiro o apertando contra si e deixando sua língua encontrar a dele. Fechou a porta com uma das mãos, enquanto a outra continuava na cintura de Shaka. O arrastou, andando de costas, até o quarto, local que também não estava muito organizado, mas pelo menos a cama estava com lençóis limpos e cheirosos. Caiu na cama com o escritor sobre si, sem parar o beijo, as mãos invadindo a camisa que ele vestia, deslizando por suas costas, sentindo a pele alva se arrepiar com seus toques. Deuses! Como sentiu falta dele, achou que poderia morrer de felicidade naquele momento. Ikki inverteu a posição, prendendo-o sobre a cama. Shaka gemeu quando sentiu o peso de Ikki sobre si. Ele estava tão feliz que sua fobia foi para o espaço naquele momento. Ele só queria que Ikki o tocasse, o amasse, que mostrasse com seus beijos e carícias que Pandora não significou nada para ele, que nunca significaria e que realmente já era uma página virada.
O loiro, enchendo-se de coragem, inverteu as posições, ficando por cima, prendendo-o entre suas pernas. Começou a beijá-lo lentamente, sensualmente enquanto deslizava as mãos pelo corpo do moreno. Ele sentia os pelos de Ikki se arrepiarem e ficava cada vez mais satisfeito a cada gemido. Shaka sentiu a dureza do moreno sob o seu corpo e rebolou querendo que ele ficasse ainda mais duro e mostrasse o quanto estava satisfeito por estar consigo.
Ikki gemeu e levou as mãos à cintura de Shaka o puxando para si e remexendo-se sob ele, tomando-lhe os lábios de forma faminta. Estava desesperado de desejo, amor, loucura! Puxou a camisa dele, arrebentando os botões em sua pressa, desnudando a pele clara para seus beijos, seus toques. Shaka jogou a cabeça para trás num gemido mais longo, e ele aproveitou para mordiscar e chupar seu pescoço.
O loiro mantinha os olhos fechados, pensando se aquilo poderia ser um sonho ou não. Ele sentia os lábios de Ikki deslizando por sua pele ora suave, ora rude.
– Eu senti tanto a sua falta... – murmurou enquanto entrelaçava seus dedos aos dele. Um gemido abafado escapou de seus lábios quando Ikki começou, com a mão livre, apertar os seus mamilos. Parecia que fazia tanto tempo desde que estiveram juntos e seu corpo reclamava a falta que o namorado fazia.
— Eu também senti... — murmurou Ikki, invertendo as posições e descendo os lábios pelo corpo do loiro, ao tempo que os dedos estimulavam os mamilos que já estavam duros e avermelhados. Desceu uma trilha de saliva pela barriga lisa do indiano, brincou com seu umbigo e parou na virilha, indeciso se deveria continuar ou não. Não era fácil, não se sentia à vontade, mas queria provar para Shaka que não tinha receios, nem vergonha ou mais nada que o impedisse de estar inteiro com ele. Assim pensando, desceu os lábios e começou a beijar o sexo rijo do loiro, ainda por cima da calça que ele vestia, enquanto as mãos trêmulas tentavam abrir o cinto...
Shaka levou à mão a boca e a mordeu com força para impedir que um grito escapasse. Céus! Ikki queria enlouquecê-lo. O loiro ondulou o corpo, ansiando por mais. Entretanto, o moreno parecia meio incerto se deveria ou não prosseguir.
–Não... Não me tortura, Ikki – pediu em um tom trêmulo.
A saudade e o amor que sentia pelo mais novo eram tão grandes que nada mais importava. Sua fobia por toques desaparecia quando estava com ele. Talvez o amor e os toques do moreno fossem a sua cura.
— Não vou, loiro... — ele murmurou, sua voz saindo seca e ainda mais gutural pela excitação. Finalmente conseguiu livrar Shaka do cinto e após abrir o botão e o zíper da calça a puxou para baixo junto com a cueca, deixando o membro duro – e... grande! –exposto para seus toques.
“Eu não vou colocar esse troço enorme na minha boca...”, pensou. Por mais que quisesse dar prazer a Shaka, ainda não se sentia à vontade e, naquele momento, duas forças lutavam dentro de si. “Ah, que se dane!” disse e enfiou o sexo do loiro da boca e de forma tão afoita que quase se engasgou, mas engoliu a náusea e começou a chupar e lamber, tentando não pensar, mas ainda assim, algo chegou a sua mente: Shaka deveria se sentir exatamente como ele estava se sentindo agora em relação ao sexo, mas o loiro estava se esforçando, então ele se esforçaria ao máximo para dar prazer a ele. Com o ânimo renovado, a felação ficou mais fácil, e Ikki acabou esquecendo-se completamente dos seus receios, sugava e lambia, deslizando a língua, ignorando o gosto estranho, querendo apenas dar prazer à pessoa que amava.
A primeira reação de Shaka foi soltar uma exclamação de susto. Ele não estava esperando por aquilo. As lembranças da sua primeira vez com o namorado eram vagas, mas ele sabia que eles não tinham feito sexo oral, e como o moreno nunca havia estado com outro homem, então deveria ser a primeira vez que ele fazia algo daquele tipo.
Shaka sentiu-se subitamente importante naquele momento. Imaginava o quanto deveria ser difícil para Ikki engolir os seus tabus e procurar lhe dar prazer daquela forma. Num segundo momento passou pela mente do loiro afastá-lo, afinal não queria que o moreno fizesse nada que não tivesse vontade, mas esse pensamento logo se perdeu em meio ao turbilhão de sensações que sentia. O prazer era tão intenso que Shaka mal conseguia respirar. Lentamente, ele começou a ondular o quadril fazendo com que seu falo fosse ainda mais fundo.
– Ikki, eu... – Shaka gemeu, um gemido rouco e longo, e sentiu o corpo tremer antes que o orgasmo o atingisse. Ele quis evitar, mas da forma que Ikki o sugava e em meio a todos os sentimentos que o acometiam, foi impossível.
O moreno não esperava que o namorado gozasse naquele momento, mas passando o susto e a náusea inicial que o sabor agridoce do sêmen deixou em seus lábios, ele forçou-se a engolir o que pode e o que escapou, limpou do canto dos lábios com as costas da mão. Ele afastou-se um tanto para começar a se livrar das próprias roupas e então subiu no corpo do loiro, voltando a beijá-lo, compartilhando com o namorado o gosto do seu prazer, enquanto as mãos voltavam a apertar a carne firme de Shaka, excitando-o novamente...
Sentir o gosto do próprio sêmen não foi uma experiência que Shaka gostou, mas ele forçou-se a não afastar o namorado, afinal ele havia engolido quase tudo sem reclamar. Ele deslizou as mãos pelas costas de Ikki e o puxou para mais perto, deixando seus corpos colados. Quando os lábios se desencontraram, o loiro abriu os olhos e fitou o namorado. Com certeza era a imagem mais erótica que já vira: os lábios inchados de Ikki, os cabelos desalinhados os olhos cheios de desejo e amor.
– Me faz teu – pediu num sussurro. Não queria pensar em como estavam suados e no quanto o cheiro de sexo lhe nauseava. Não. Sua fobia não estragaria aquele momento, não permitiria que nada estragasse.
Ikki estremeceu e sentiu seu corpo pulsar mais forte com aquele olhar e aquelas palavras. Tomou os lábios do loiro num beijo terno, apaixonado, entregue, tudo misturado, e usou a própria perna para afastar as pernas de Shaka. Partiu o beijo e seus olhos se encontraram mais uma vez, ébrios de desejo. Ikki deslizou os dedos para dentro dos lábios avermelhados do loiro, sem desviar o olhar dele. Seus olhos diziam muito mais do que qualquer palavra poderia dizer naquele momento.
Shaka começou a chupar o dedo de Ikki lentamente, sem tirar os olhos dos dele. Seu coração batia feito um louco dentro do peito. Quando os dedos já estavam bem molhados, os tirou da boca e sentiu Ikki introduzir um lentamente. Ele trincou os dentes, sentindo a incômoda invasão, mas sabia que logo um prazer imenso o tomaria, por isso nem se quer gemeu. Para se distrair do incômodo, Shaka segurou o próprio falo e começou a se tocar deixando o nome do namorado escapar de seus lábios de vez em quando.
Ikki enlouqueceu com o que via e foi com muito esforço que continuou a preparar o loiro com cuidado, embora seu sexo pulsasse e doesse de tão duro. Como aquele escritor metido a certinho podia ser tão sexy? Como ele podia ser tão sexy se... Será que...? Tentou evitar os pensamentos ciumentos e continuou estocando de leve, massageando, ao mesmo tempo em que mordia os lábios e fechava os olhos para conter a vontade de entrar de vez no corpo apertado e gostoso do indiano. Quando achou que Shaka estava completamente pronto e relaxado, ele começou a penetrá-lo devagar, com cuidado extremo, embora seu corpo suplicasse por velocidade.
O loiro fechou os olhos e os apertou com força à medida que Ikki ia mais fundo. Ele cravou as unhas nas costas do namorado e apesar de curtas, elas provavelmente fariam algum estrago. Sentiu quando Ikki parou de entrar para que ele se acostumasse à invasão e agradeceu mentalmente por isso. Shaka inspirou e expirou profundamente, antes de mover o quadril de leve para indicar que estava pronto.
– Ah... Ikki... – gemeu alto quando o moreno o atingiu na próstata, fazendo-o ver estrelas de tanto prazer. – Mais rápido... –praticamente implorou.
O moreno se movimentava de forma lenta e circular, entrando e saindo em movimentos curtos, dificultados pelo canal estreito. Shaka ondulava o quadril para facilitar, mas ainda assim, ele era deliciosamente apertado e seu corpo criava barreiras involuntárias, dificultando movimentos mais intensos. Isso durou ainda algum tempo até que o corpo do loiro o aceitasse inteiramente, e Ikki pudesse mergulhar nele com toda a fome que sentia e sem mais nenhuma delicadeza, em movimentos sôfregos que enlouquecia ambos.
Shaka passou os braços em torno do pescoço do moreno, segurando-se como podia, arqueando tanto o corpo que mal sentia o colchão. Na verdade, era como se nada ao redor existisse naquele momento. Se o mundo acabasse naquele instante, ele não perceberia. O indiano friccionava os olhos, soltando soluços de prazer cada vez que o mais novo entrava mais fundo e forte em seu corpo. Com um pouco de dificuldade, ele desceu a mão e começou a se masturbar, tentando acompanhar o ritmo das estocadas, mas Ikki o amava com tamanha intensidade que o deixava completamente zonzo e deixava-o tão louco que aquilo nem era necessário.
O moreno estava de olhos fechados, totalmente concentrado no prazer que sentia, mas percebeu os movimentos do loiro e abriu os olhos, tratando de terminar o serviço que Shaka havia começado. Ele envolveu a mão do indiano e começou a ajudá-lo, masturbando-o no mesmo ritmo que entrava e saía dele, com cada vez mais vigor. Eles entraram num ritmo forte e sincrônico. Gemidos e gritos ecoavam pelas paredes do quarto, junto ao som do baque dos corpos. A bruma do orgasmo os cobriu entre gritos e grunhidos. Ikki apertou mais forte a cintura de Shaka, jogando a cabeça para trás e gozando, molhando o loiro por dentro e sentindo-o se derramar em sua mão. Caiu sobre o corpo alvo ofegante e assim ficou por um tempo, o coração disparado ouvindo o coração não menos disparado do indiano.
Ikki ficou por alguns minutos nessa posição e então se recordou da doença de Shaka. Afastou-se, limpando a mão no lençol e o pegando no colo, antes que ele entrasse em crise. Levando-o rapidamente para o banheiro, ligando o chuveiro e jogando-se com ele sob a água morna, enquanto trocavam mais um apaixonado beijo.
Shaka sorriu quando o beijou cessou. Estava tocado com a preocupação do namorado em não deixá-lo sujo. Bem, mas imaginava que Ikki fazia isso também por si próprio. Não deveria ser agradável ver seus surtos.
– Você quer que eu fique mais apaixonado por você, não é? – perguntou enquanto observava Ikki despejar o xampu na palma da mão e em seguida começar a massagear de leve o seu couro cabeludo. – Hum... – gemeu baixinho em meio à massagem. – Isso é bom.
Ikki sorriu e continuou a massagear os cabelos longos do loiro. Não falou nada, o clima estava maravilhoso e não queria estragá-lo com palavras desnecessárias.
Eles terminaram o banho e voltaram para o quarto, mas nem mesmo se vestiram. Ikki trocou o lençol da cama e ligou o ar, fazia calor, os dois deitaram-se abraçados, fazendo carinho um no outro.
– Diz que não vai mais me deixar... – murmurou o moreno, fechando os olhos e dando um suave beijo na testa do moreno.
– Então promete que não vai mais me trair e nem mentir pra mim – devolveu Shaka, mas suavemente.
– Eu prometo.
– Então eu prometo também. – Beijou o queixo dele e mordeu de leve, aspirando o cheiro gostoso do sabonete que a pele dele tinha. – Precisamos dar um jeito nesse apartamento...
– Vou chamar a faxineira amanhã – volveu o moreno.
– E nessa barba? – propôs com um sorriso divertido, fazendo Ikki rir e o apertar com mais força nos braços.
– Tudo bem, mas eu achei que tinha gostado do meu novo estilo – brincou.
– Gosto de você de qualquer jeito... – murmurou – Mas você está muito magro e abatido. Não quero vê-lo assim.
Ikki suspirou triste.
– Minha vida foi um inferno sem você, loiro...
– A minha também, mas vamos esquecer essa fase e começar outra.
– Sim, vamos apagar esse período.
Eles se beijaram com a esperança de que dali para frente tudo seria diferente. Passaram o resto daquele dia juntos. À noite, saíram para passear com Jack pela praia. O filhote parecia muito feliz em vê-los juntos novamente.
Eles sentaram na areia enquanto via o cãozinho brincando de correr das ondas. Um sentimento de profunda paz os invadindo, enquanto seus dedos se entrelaçavam na areia e eles experimentavam um beijo suave, cálido como a brisa noturna.
– Me promete mais uma coisa? – Ikki pediu. Os olhos escuros dentro dos de Shaka.
– O quê?
– Que amanhã mesmo, você vai ligar para o terapeuta e voltar a fazer o tratamento?
O indiano mordeu os lábios indeciso, mas depois sorriu e assentiu com a cabeça.
– Eu prometo. Vamos começar de novo. Tudo de novo.
Beijaram-se mais uma vez e terminaram à noite, dormindo juntinhos com Jack aos pés da cama.
Continua...
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