Essa Estranha Atração
25 Essa estranha sensação
Notas iniciais
Essa estranha sensação
Capítulo 24
Os dias que se seguiram foram os mais maravilhosos que eles experimentaram juntos. Viviam uma harmonia que nunca vivenciaram antes. Na verdade, sempre fizeram muita questão da companhia um do outro, mas algo havia mudado em ambos. Havia maior cumplicidade, respeito e calma.
Ikki tentava domar o gênio rebelde, e Shaka sua teimosia. A convivência tornou-se mais madura e menos co-dependente. Porque o moreno admitia que não somente o loiro desenvolveu certa dependência de si, ele também passou a respirar Shaka todo o tempo em que estiveram juntos. Já não saía com os poucos amigos que tinha e, se fosse sincero, confessava que até mesmo o trabalho ele negligenciou, deixando tudo mais a cargo de Shiryu. Os problemas do loiro tornaram-se seus problemas e mesmo que aquilo não fosse algo ruim para si, era naturalmente protetor com quem amava, ele achava que tornava o relacionamento um tanto sufocante e isso não era bom para nenhum dos dois.
Naquela manhã, Shaka saiu para o trabalho, e ele foi para a casa do irmão. Shun estava de folga e desde que ele reatara com Shaka ainda não tivera tempo para conversar com o mais novo. Apenas informou o acontecido brevemente por telefone. O estudante ficara eufórico e queria detalhes, mas não podia falar no momento, pois estava de plantão na ala psiquiátrica do hospital. Ikki prometeu que assim que o irmão tivesse um tempo iria encontrá-lo para conversar e lá estava ele no apartamento dele.
Shun o recebeu de pijama ainda, mesmo já passando das dez da manhã.
– Eu deixei o hospital às duas, ontem – respondeu a reprovação muda no olhar do mais velho. – Mas entre, vamos tomar café?
– Obrigado, já tomei – disse Ikki, entrando e o acompanhando até a cozinha. – Cadê o namorado?
– Viajou. Mime viaja muito a trabalho – explicou, começando a por a mesa.
– Isso é bom ou ruim? – o mais velho perguntou.
– Eu gostaria que ele estivesse mais tempo comigo, mas nem tudo é perfeito, não é? – sorriu, pondo fatias de pães na torradeira. – E você, conte-me tudo, como anda o novo-antigo namoro?
– Nunca foi tão bom – Ikki sorriu de lado e ruborizou um pouco, antevendo o que falaria ao irmão. – Além de agora termos sexo, acho que ambos estamos mais maduros e confiantes. Embora eu tenha que dizer que ainda odeio a ideia daquele Mu dentro do apartamento dele. Aquele cara não vai embora! Mas eu tenho tentado me controlar...
– Acho que eu também não gostaria disso, mas você tem que confiar no Shaka. O Mu parece ser legal, muito legal. Acho que eles não se atraem – volveu Shun, enchendo duas canecas de café e empurrando uma para o irmão.
– Por que você acha isso?
– Acho que Shaka prefere desafios maiores – piscou e experimentou o café, fazendo o irmão rir.
– Isso sou eu? – Riu o mais velho.
– Ah sim, você é um desafio considerável, Ikki Amamiya.
– Considerável quanto? – provocou, sorvendo seu café.
– Numa escala de 10, você seria... 11! – respondeu o mais novo, e eles riram divertidos.
Ikki suspirou, bebendo seu café devagar.
– Mas essa situação está me incomodado, por mais que eu tente me controlar. É difícil pra mim. Não sabe o quanto me seguro pra não socar o tal editor sempre que o encontro esparramado no sofá do meu namorado.
– Eu imagino sim. Mas continue se controlando e fique o maior tempo possível longe do Mu. Ele é uma gracinha, não quero ver aquele rostinho machucado – riu o estudante.
Ikki franziu as sobrancelhas, a dúvida e o ciúme estampados em seu rosto.
– Espere um pouco, não me diga que você está interessando naqu-?
– Ah, para, Ikki! Foi só um comentário! Eu tenho namorado, esqueceu? Mime e eu estamos muito bem e...
– Você o ama?
– Amo quem?
– Como assim, amo quem, Shun? Claro que é o Mime! Você o ama?
O mais novo ficou um tempo estático com uma expressão de dúvida como se nunca houvesse se perguntado sobre aquilo.
– Nos damos bem – deu de ombros e se sentou de frente ao irmão. – Nem sempre temos a sorte de encontrar a alma gêmea, Ikki.
– Ah, não vem com a porra dessas ideias idiotas. Amor é amor, não tem essa de ser alma gêmea, eu não acredito nessas babaquices, acredito no sentimento, acredito na vontade que temos de ficar com o outro e da dor que sentimos quando o outro está longe. Me diga, você sente isso por Mime?
Shun mordeu o lábio inferior, hesitante. Terminou seu café em silêncio e pegou uma maçã na fruteira sobre a mesa.
– Eu não sei, Ikki. Até hoje nunca havia me perguntado sobre isso. Só sei que me sinto bem quando estou com ele, sinto carinho, ele é meu... amigo...
– Falou certo, Shun. Ele é seu amigo. Não é seu amor, seu homem, seu namorado – disse o mais velho e pigarreou meio sem jeito. Talvez estivesse entrando demais na vida do irmão. Ainda mais, falando sobre assuntos tão íntimos. Não estava acostumado a isso, a se importar e se envolver tanto com a vida dos outros, mas havia mudado um pouco e sabia que era necessário não apenas se importar, mas mostrar que se importava.
– Pode ser... – Shun sorriu triste. – Mas enquanto eu não encontro meu grande amor, a gente vai se curtindo!
– Okay – Ikki respondeu e mirou o dia pela janela. – Vamos sair? – olhou o relógio – Tenho que buscar Shaka na terapia à tarde. Estou com a manhã livre, podemos ir num parque, aproveitar o dia quente, passamos na casa do loiro e pegamos o Jack! Depois almoçamos em algum lugar, o que acha?
– Ah, vou adorar! – disse o mais novo. Os olhos verdes demonstravam o quanto ele estava feliz e animado. – Vou tomar um banho, é rápido!
– Ah, eu estou acostumado a esperar o Shaka. Pode demorar o tempo que precisar, nunca vai demorar como ele!
– Oh, deuses, você realmente é outro homem! – riu Shun, correndo para o banheiro.
Ikki riu e esperou pacientemente a volta do irmão. Eles saíram e fizeram tudo que haviam combinado: pegaram Jack e foram para um parque, onde passaram a manhã entre conversas íntimas e brincadeiras com o cãozinho. Depois almoçaram num restaurante charmoso e andaram pela praia até chegar o horário em que Ikki teria de buscar Shaka na terapia.
Shun o acompanhou, com Jack no colo. O cãozinho começava a se acostumar com ele e a não vê-lo mais como uma ameaça, aproveitando a brisa da tarde. O moreno estacionou o carro, e eles seguiram para o prédio luxuoso, entrando no elevador para a cobertura, onde ficava o consultório do psiquiatra.
Eles entraram na clínica elegante e a recepcionista informou que Shaka logo sairia. Ikki e Shun se sentaram e ficaram no aguardo. O Amamiya mais novo percebeu que havia mais alguém ali, um rapaz que parecia ler um livro, os olhos azuis concentrados no que lia. Ele usava óculos de grau e tinha um semblante sério, frio.
O olhar de Ikki seguiu o do irmão e depois voltou para ele com um sorrisinho cafajeste.
– O que foi? Procurando a alma gêmea? – ele perguntou baixinho fazendo Shun corar.
– C-Claro que não! Eu só... Eu só... – gaguejou o mais novo sem saber o que dizer, com as faces completamente vermelha. Havia percebido que o jovem que lia era absolutamente atraente, mas distante e sério.
Shaka saiu da sala, conversando com o terapeuta, e Shun percebeu que com isso o rapaz se ergueu assim como ele e o irmão. Imaginou que o loiro fosse também um paciente de Camus.
– Olá, Shun – o ruivo o cumprimentou quando o viu. – Como vão os estudos?
– Muito bem, professor – ele disse tímido, vendo Ikki se colocar ao lado de Shaka, depois de apertar a mão do psiquiatra.
– Não tenho dúvidas. Você sempre foi um ótimo estudante – tornou Camus formal. – Conhece meu irmão?
Os olhos do Amamiya mais novo subiram para mirar o rapaz que era pouco mais alto que ele. O loiro deixou escapar um meio sorriso charmoso antes de estender a mão para ele.
– Hyoga – ele disse e ao ouvir-lhe a voz, Shun quase engasgou. Era a voz mais perfeita e melodiosa que ele já ouvira.
– Olá, me chamo Shun. Eu fui aluno do Camus – disse, sem jeito.
– Eu estudo psicologia também. – Disse Hyoga, prestando atenção ao outro.
– Ah, que ótimo. Vocês devem ter muita coisa em comum, por que não conversam enquanto eu levo Shaka para comer alguma coisa? – Ikki se adiantou, tirando Jack dos braços do irmão e puxando Shaka para o lado, apertando novamente a mão de Camus em despedida. – Vamos, loiro!
O indiano estranhou aquela atitude do moreno. Desde quando Ikki confiaria em deixar Shun ao lado de um loiro lindo como aquele? Sabia que eles voltavam lentamente a recriar os laços do passado, mas já havia percebido, naquele pouco tempo de convivência com os dois, que o Amamiya mais velho não era ciumento apenas consigo, mas também com o irmão.
– Está com febre ou tendo um colapso? – o indiano perguntou, enquanto Ikki o arrastava para algum lugar.
– Relaxa, Shun precisa encontrar a alma gêmea – respondeu como se aquilo fosse facilmente compreendido pelo indiano. – Vamos, antes que meu controle emocional se desfaça e eu volte lá e arranque meu anjinho das garras daquele loiro. – Riu de leve, internamente incomodado, mas controlado.
– Quem é você? – riu o mais velho.
– O mesmo homem que te ama – o moreno respondeu rindo, e eles seguiram para uma pequena cafeteria que havia no prédio. Ikki pediu um sanduíche e um suco natural para Shaka e apenas um café duplo para si, não estava com fome. – Como foi a sessão hoje? – Ele perguntou depois que foram servidos.
– Hoje falamos de minha infância – disse o indiano. Na verdade, ele não gostava de falar muito da terapia, porque muitas vezes, durante as conversas com Camus, ele chegava a pontos nevrálgicos do seu passado que mexia muito com seu emocional, e era difícil falar sobre aquelas coisas. As sensações da infância se faziam muito presentes.
– Hum... – Ikki resmungou, provando o café. Sabia que era difícil e não o forçaria. – Quer jantar fora, hoje?
– Você não vai trabalhar?
– Posso ir depois. Hoje não é um dia de muito movimento, Shiryu cuida de tudo.
– Então tudo bem. Eu quero comida japonesa, e você?
– Vou com você – sorriu o moreno.
Minutos depois, Shun se juntava a eles. O Amamiya mais novo tinha o rosto meio ruborizado e um meio sorriso.
– E então?
– Então o quê? – o mais novo coçou os cabelos sem jeito.
– Shun, eu te deixei ao lado daquele cara lá pra ver se você encontrava sua maldita alma gêmea, e você não aproveitou? – Volveu Ikki, fingindo irritação.
– Que história é essa? – Shaka olhou de um para o outro.
– É uma longa história – Ikki sorriu com o canto dos lábios, e Shun pigarreou.
– Ele me deu o telefone dele e... eu disse que ligava – falou tímido, se sentando na frente do casal e ajeitando os cabelos atrás das orelhas.
– Você não deu seu telefone pra ele? – Shaka perguntou, curioso.
– Não! Gente, eu tenho namorado! – Exclamou Shun, espantado pelo irmão e o cunhado acharem que ele deveria ter dado o telefone ao tal Hyoga.
– Mas ele é lindo, Shun, e pareceu bem interessado – provocou o indiano.
– Que história é essa de lindo, Shaka? – Ikki indagou, fingindo-se de zangado.
– Uma história óbvia, meu amor – piscou o indiano, e os três acabaram rindo.
– Agora, vamos falar sério – começou Shun. – Eu fico muito feliz com o interesse de vocês por minha vida amorosa, mas eu estou realmente bem com o Mime. Meu interesse pelo Hyoga é só amizade, até porque, eu acho que ele deve ter alguém, pelas coisas que ele me disse, eu tive essa impressão.
– Ah, certo, tudo bem! – Shaka e Ikki falaram ao mesmo tempo como se fosse ensaiado e depois riram.
Shun esmurrou o irmão de leve e sentiu seu celular vibrar no bolso.
– Mime! – Disse depois de olhar o visor, e se afastou para conversar com o namorado.
– Que história é essa de alma gêmea? – Shaka perguntou novamente, curioso.
– Ah, foi só uma conversa que tivemos hoje pela manhã sobre encontrar a pessoa certa. – Explicou o moreno, pondo a mão sobre a do namorado e fazendo um leve carinho.
– Hum... Então devo crer que você o informou que já encontrou a sua problemática e possessiva alma gêmea – provocou o loiro, segurando a mão do moreno com carinho.
– Por aí... – sorriu de volta.
Shun se aproximou, guardando o celular.
– Eu tenho que ir. Vou buscar Mime no aeroporto – ele declarou. Shaka e Ikki se ergueram também, terminando o que faziam e acompanhando o mais novo. Eles deixaram Shun e voltaram para casa, cada qual para seu apartamento para aprontar-se para noite. Como sempre, Ikki ficou pronto primeiro e foi para o apartamento do indiano, esperá-lo.
Assim que entrou, encontrou Mu no sofá com uma bandeja no colo, comendo um sanduíche enquanto analisava uma folha de papel. O Amamiya bufou, mas não disse nada. Estava evitando atritos por mais que tivesse vontade de torcer o pescoço do tibetano.
– Ah... O Shaka já vem – disse Mu, sem jeito como sempre ficava na presença do moreno.
Ikki não respondeu, caminhou até a varanda, sendo seguido por um saltitante Jack e ficou observando a noite e, vez por outra, mirando Mu com o canto dos olhos. Era incrível como aquela lagartixa sem noção transitava com desenvoltura dentro do apartamento do seu namorado como se fosse o dono da casa. Ikki simplesmente estava detestando isso e engolir sua raiva, coisa que nunca fez na vida, era o mais difícil. Geralmente ele não era uma pessoa que ponderava muito sobre suas atitudes, na maior parte do tempo, agia por impulso mesmo, sem se importar com o estrago que isso fizesse. Entretanto, agora, depois de reatar com Shaka, ele tentava refrear seus instintos e agir da forma mais racional e equilibrada possível. Não era fácil, já sentira vontade de gritar com Shaka algumas vezes, de brigar outras tantas, naqueles dois meses, mas não fazia, embora o desagrado ficasse evidente em seu semblante, e o loiro percebesse isso.
O indiano finalmente saiu do quarto, já pronto. Ele observou Ikki com um sorriso bobo nos lábios. O moreno estava terrivelmente sexy na calça jeans e na camisa branca que usava. Foi até ele e o abraçou pela cintura, beijando-o no ombro.
– Estou pronto, podemos ir – disse.
Ikki voltou-se para ele e sorriu.
– Você está lindo. Fica lindo assim – elogiou, pois Shaka vestia-se de forma mais descontraída que o de costume: uma bata azul com motivos hindus e uma calça jeans em um tom mais claro que a sua, além de chinelos de couro que deixavam a pele delicada dos pés exposta ao frio da noite. Os cabelos longos estavam soltos, alinhados sobre costas e ombros e a velha expressão séria do indiano havia mudado nos últimos tempos. Ele parecia tranquilo e relaxado e para manter isso, o moreno continuaria controlando o ciúme da melhor forma que conseguisse.
– Obrigado – falou o loiro, sem jeito. – Vamos, estou faminto! Vou me empanturrar de sushi!
– Como se você comesse direito – desdenhou o moreno, o abraçando pela cintura e seguindo com ele para a sala.
Shaka encarou Mu que continuava analisando a renovação do contrato com a editora.
– Tem certeza que não quer ir? – ele indagou ao tibetano que sorriu negando, dizendo que tinha muito trabalho.
Ikki não acreditou naquelas palavras, e mais uma vez calou-se, mordendo os lábios. Eles seguiram para o estacionamento e entraram no carro ainda em silêncio, mas Shaka percebia claramente o estado de humor do outro.
– Eu convidei por educação, Ikki. Sabia que ele não se arriscaria a se transformar no prato principal – brincou, tentando descontrair.
– É, você deve deixá-lo bem a par do que o ogro aqui é capaz – respondeu, mas sem nenhum resquício de humor.
– Ikki, não foi isso que quis dizer, não vamos começar a brigar, certo? – volveu Shaka com cuidado.
O moreno suspirou, dando partida no veículo e manobrando para sair do estacionamento.
– Não vamos brigar, loiro, não é isso que quero – falou com uma voz mais branda. – Mas você ficaria feliz se eu colocasse uma garota dentro do meu apartamento por tanto tempo? Você disse que ele ficaria porque não achava um hotel na época e já tem meses que ele mora com você. Não gosto disso! E você sabe.
Shaka mordeu os lábios e pensou um pouco no que responderia.
– É que ficamos amigos – disse, sincero. – Ele está procurando um apartamento, mas os preços que encontra estão absurdos. Ele também não se sente confortável, sabendo que ficar gera esse mal-estar entre nós dois. O Mu é uma pessoa maravilhosa, Ikki. Se desse uma chance a ele...
– Nem tenta – rebateu o moreno, e o loiro suspirou.
– Certo. Então eu te peço apenas um pouco mais de paciência. Logo ele encontra um lugar.
– Tudo bem – o mais novo sorriu. – Agora que tal esquecermos o Mu? Vamos aproveitar a noite, certo?
O loiro tocou-lhe a coxa com carinho.
– Sim, concordo.
Eles mudaram de assunto. Jantaram num restaurante aconchegante e no final da noite, resolveram caminhar pela praia. A noite estava quente, com uma brisa amena, estrelas brilhavam no céu sem lua enquanto eles caminhavam calmamente, sentindo a água fria nos pés descalços. Mantinham-se em silêncio. Um silêncio agradável e cúmplice.
Ikki pensava que nunca sentira aquela cumplicidade com ninguém, nem mesmo com Virgo, seu ex-amigo virtual. Dizia ex-amigo, porque desde a discussão que tiveram, não mais se falaram. O moreno até entrara algumas vezes no chat para tentar encontrá-lo, pedir desculpas, mas ele sumiu. Talvez fosse melhor assim, embora sentisse falta das conversas ternas e divertidas.
Shaka por sua vez, resolveu esquecer-se de Virgo. Chegou à conclusão que o melhor era que a “entidade virtual” desaparecesse. Sentia vontade de contar a verdade ao namorado, mas tinha medo de quebrar aquela paz, aquela maravilhosa paz inédita ao relacionamento e que agora era constante e parecia duradoura. Ele amadurecera muito no período que esteve distante do moreno, mas parecia que esse amadurecimento em Ikki foi bem mais profundo.
Shaka conhecia Ikki muito bem. Todos seus defeitos e qualidade. O que o impressionava na nova postura do moreno era que ele, que nunca se preocupou em refrear seus instintos, começava a perceber que na vida, não se pode resolver tudo a ferro e fogo. Que calma e controle eram importantes em qualquer relacionamento e que nem todos poderiam ver a vida da forma que ele via. Era difícil para ele, Shaka sabia, abrandar atitudes que tivera por toda a vida, mas o moreno estava se esforçando e isso o deixava feliz. Assim como ele também se esforçava para continuar o tratamento, dormir sem ter que checar todas as fechaduras – nem sempre conseguia – e evitar ficar esterilizando tudo. O escritor pensava que as coisas estavam bem dessa forma e que o melhor era mantê-las assim. Estava feliz, muito feliz.
Mas... Havia Virgo. Esse segredo não lhe fazia bem, e Shaka queria contar logo. Compreendia mais que nunca as atitudes de Ikki no passado agora. Era tão difícil dizer, mas ele faria e faria logo.
Voltaram para casa tarde, o dia seguinte seria um domingo e por isso estavam tranquilos para aproveitar a noite. Ikki não foi trabalhar para ficar com ele, e a noite foi maravilhosa. Fizeram amor por toda a noite, sem mais pudores, medos, desconfianças. Ambos aprendiam e começavam a compartilhar de uma profunda intimidade.
O sol já brilhava intensamente, quando Shaka abriu os olhos, sentindo o cheiro gostoso do café e de algo doce. Sentou-se na cama, ajeitando os cabelos e foi para o banheiro. Tomou um banho e escovou os dentes. Quando voltou ao quarto havia uma bandeja lindamente decorada sobre a cama com pães, frutas, café , leite e uma linda rosa vermelha. O indiano sorriu, mirando o namorado que estava sentado o aguardando.
– Isso tudo é pra mim? O que fiz pra merecer isso? – indagou, beijando os lábios de Ikki que o segurou com carinho pela cintura.
– Você existe – murmurou o mais novo. – Vamos tomar café na varanda? Está um dia lindo.
Shaka concordou, e Ikki levou a bandeja. Eles se sentaram e começaram a refeição.
– O que faremos hoje? – O loiro perguntou animado.
– Eu vou daqui a... – Ikki mirou o relógio de pulso – vinte minutos, jogar futebol na praia com meus amigos, posso?
– Deixe-me pensar... – fingiu o loiro, de bom humor – Claro que pode. Eu vou aproveitar e trabalhar um pouco no meu livro. Meu prazo está se esgotando, e Mu tem que aprová-lo para ele poder ser publicado.
– Mu... sei... – Ikki disse com desgosto, fazendo uma careta que fez Shaka rir. – Então você vai se enfurnar em casa, num dia de sol?
– Quer que eu vá pro futebol com você? – riu o loiro.
– Hum... Pensando bem, não! Aqueles brutamontes iriam acabar contigo. Não quero vê-lo machucado.
– Como se eu fosse uma frágil flor de laranjeira – revirou os olhos o loiro.
– Shaka, vai por mim, você nunca viu grego jogando futebol. Eles jogam muito mal! Chutam mais as canelas alheias que a bola, e eu devo ser bem masoquista para continuar jogando com aqueles pernas de pau – riu.
– Tudo bem, tudo bem, não precisa insistir, eu não vou – disse. – Vamos ao cinema mais tarde, certo?
– Concordo, agora vou indo que já estou atrasado! – beijou os lábios do mais velho e foi se vestir. Saindo alguns minutos depois.
Depois do café Shaka foi para o seu apartamento e começou a trabalhar, enquanto Mu fazia o mesmo através do seu laptop. O tibetano estava com fones de ouvido e assoviava enquanto trabalhava.
Eles ficaram assim durante um longo tempo até que o indiano se entediou. O dia estava tão bonito, não era justo desperdiçar um dia daqueles enfurnado dentro de casa.
– Você quer sair? – ele perguntou de repente.
– O quê? – Mu retrucou tirando os fones.
– Andar um pouco com o Jack. Não estou com vontade de ficar trancado em casa. Vamos? Podemos ir dar uma volta pela orla. – Explicou.
– Ta, vamos! Só vou trocar a camiseta! – Mu aceitou animado.
– Vamos dar uma volta, Jack? – Shaka perguntou enquanto colocava a coleira no cachorrinho que pulava sem parar, feliz da vida.
Mu retornou à sala, e eles saíram para aproveitar o dia de sol.
Ikki estava sem a camisa, pois o clima estava abafado e fazia muito calor apesar da chuva recente. Seu time estava perdendo o que, para um competitivo leonino, levou seu bom humor para o espaço. Ele gritava com todos, todos eram incompetentes, burros e outras coisas que não é educado falar. Parou apoiando as mãos no joelho ofegante, jogar na areia era cansativo, ainda mais correndo como ele estava.
– Ei, amigo, está inspirado hoje, hein? Já tirou dois de campo! – provocou Kanon – O que há?
– Nada, vai à merda, e vê se marca algo que não seja as bundas as garotas!
O mais velho riu e voltou a chutar a bola, foi quando Ikki viu algo que o fez empalidecer como um fantasma. O time inteiro pareceu perceber, e todos pararam para olhar na direção que ele olhava, sem entender.
Jack estava excitado por estar dando um passeio com o "pai", então praticamente corria e saltava o tempo todo. Shaka estava tendo que lutar para mantê-lo preso, e fofinho como era, ele estava atraindo atenção de muitas garotas.
– Pena que os caras não chegam junto também – Mu brincou assim que mais duas garotas se afastaram, depois de mimar o cãozinho.
– Por Buda! Não preciso de mais homens! Ikki morreria se algum viesse me paquerar e... Ferrou... – ele parou de sorrir e congelou ao ver o dito namorado o encarando. – E ele está bem ali, me olhando.
Mu seguiu o olhar do amigo e fez uma careta de preocupação.
– Hum... acha que nosso passeio vai dar problema? – perguntou receoso.
– Espero que não, mas... – tornou Shaka também preocupado.
Ao contrário do que faria geralmente, Ikki deixou os amigos e andou lentamente até o namorado, tal qual um felino preste a atacar. A postura calma não escondia o olhar que faiscava de ciúmes. Parou na frente de Mu e Shaka, e Jack foi em sua direção, balançando o rabo e querendo atenção. Na praia os times de futebol pararam para ver o que acontecia.
– Então vai ser assim? Eu viro as costas e você sai com ele? – falou. Embora num tom controlado, as palavras foram ásperas para Shaka. O que ele estava pensando?
– O que é isso, Ikki? Ouça o que está falando!... – o loiro disse num meio sorriso, mas estava pálido. Sabia que não estava fazendo nada de errado, mas começava a conhecer o ciúme do namorado e se assustava às vezes.
– Só estamos dando uma volta – Mu disse, tentando ajudar, e Shaka fechou os olhos irritado pela intromissão fora de hora.
– Você cala a boca! – o moreno exigiu tentando conter a irritação, em um tom baixo e perigoso. Ainda não tinha motivos para quebrar a cara daquela lagartixa, mas se ele continuasse a falar faria isso, mesmo sem motivo. Voltou a encarar o namorado – Fala alguma coisa, Shaka. Explica por que eu viro as costas e você sai com esse aí? É mesmo para eu achar que não há nada entre vocês?
– Por todos os deuses, Ikki! Não diga absurdos! – Shaka pediu baixo, tentando evitar um escândalo. – Eu só queria aproveitar um pouco o dia de sol como você está fazendo, isso é crime? Não quis sair sozinho. A caminhada se torna longa e cansativa sem companhia. Além disso, Mu ainda não tinha tido oportunidade de caminhar pela praia, e ele é meu amigo, será que nunca vai entender isso?
O moreno suspirou, tentava controlar a irritação, se perdesse a cabeça acabaria fazendo um escândalo de verdade e mataria o tal Mu.
– E desde que inferno você é guia turístico? Ele que se vire e conheça a cidade sozinho! Eu não quero você saindo com esse cara, Shaka, entendeu? Não quero! – e perdia as estribeiras e acabava tratando o namorado como se fosse sua propriedade sem perceber.
Shaka estreitou os olhos e sua expressão tornou-se fechada.
– Quer que eu tire a coleira do Jack para você por em mim? – perguntou magoado – Ou talvez eu devesse fazer uma tatuagem com os dizeres: "Propriedade de Ikki Amamiya. Mantenha distância!".
– Shaka, isso não é engraçado... – a voz saiu baixa e raivosa como um grunhido, e ele cerrou os punhos como se esta fosse a última possibilidade de controle – Não teste minha paciência, isso não é inteligente...
– Pelo jeito eu sou sua propriedade e saco de pancadas ao mesmo tempo! – irritou-se o indiano. – Estava tudo bem, mas você tinha que estragar tudo com esse seu ciúme idiota. Volta pro seu futebol, Ikki, que eu vou me enfurnar em casa, já que pelo visto não sou livre para ir e vir! – Ironizou, claro que não faria aquilo.
Será que não pode ver que estou com medo? Com medo de te perder! – Ikki pensou em dizer, mas não falou nada. Passou as mãos nos cabelos suados. Não sabia o que dizer naquele momento, sentia tantas coisas.
– Não quero brigar com você, Shaka. Continue seu passeio – disse. A voz estranhamente controlada como se houvesse dado-se conta dos absurdos das suas ações. Deu as costas ao outro e saiu andando. Desceu para a areia da praia onde os amigos o olhavam com grandes interrogações brilhando nos olhos, mas não se dignou a responder a ninguém, pegou suas coisas e se afastou novamente, dizendo que jogava outro dia. Não passou novamente por Shaka e Mu, foi pelo lado oposto da orla, queria ficar sozinho e pensar.
Shaka suspirou pesadamente enquanto observava o namorado se afastar. Será que Ikki não percebia que aquele tipo de comportamento era completamente infantil e sem propósito?
– Eu não sei o que fazer – o loiro suspirou, enquanto pegava Jack no colo e virava-se para retornar para casa. – Dois meses sem briga foi mesmo um recorde! – Riu, amargo.
– Eu pensei que as coisas entre vocês estivessem bem – Mu comentou, sentindo-se culpado.
– Nunca estão – Shaka limitou-se a dizer.
Voltaram para casa em silêncio, Mu voltou a ler o contrato, e Shaka, após um banho, tentou escrever sem muito sucesso, porque passava o tempo todo olhando o relógio e pensando se deveria ligar para Ikki ou não. Sabia que o moreno precisava pensar, esfriar a cabeça, mas preocupava-se com ele.
Depois de algumas horas, anoiteceu, e Mu avisou que iria dormir e foi para o quarto. Shaka ficou quieto na sala por um tempo, a mente meio em branco até que resolveu ir para a varanda. Logo Jack pulou em seu colo, e ele ficou com o cãozinho observando a noite e verificando os portões para ver se o carro de Ikki aparecia. Quando cansou, pegou o cãozinho e resolver esperar o moreno no corredor. Sentou-se na borda de um dos canteiros e encostou a cabeça na parede. Na verdade estava entediado e não sabia muito bem o que fazer que não fosse esperar que seu temperamental namorado chagasse.
–O que você quer que eu faça, Ikki? Que eu me isole do mundo de novo? – murmurou em um tom triste. – Que não tenha ninguém por perto?
Ikki passou o resto da tarde e o começo da noite sentado de frente ao mar, pensando nos últimos acontecimentos. Sentia-se novamente irritado consigo. Era isso; não era com Shaka, não era com Mu, era consigo mesmo. Com sua incapacidade de ser alguém melhor, alguém digno de Shaka. Alguém que fosse calmo e tranquilo o suficiente para dar ao indiano a segurança que ele precisava. E quando sentia essa sensação de que estava fazendo a coisa errada, do jeito errado, fosse no que fosse, e quando sentia que Shaka poderia ser melhor sem ele, que talvez aquela lagartixa de peruca roxa fosse realmente alguém melhor que ele, com um gênio melhor, mais compreensivo, alguém que saberia como agir sempre, mais experiente... Isso era desesperador e ao mesmo tempo lhe provocava uma raiva intensa de si mesmo e para não canalizar essa raiva para os outros, preferia se afastar. Não queria maltratar Shaka, não queria magoá-lo e nem feri-lo, mas parecia que era tudo que sabia fazer.
Depois do período que eles passaram separados, Ikki prometeu que faria de tudo para nunca mais perder o controle das suas ações, nunca mais errar como errou no passado. Talvez ninguém entendesse como fosse custoso para alguém impulsivo como ele não sair chutando tudo ao redor quando se irritava. Ninguém entendia, ninguém. E isso lhe dava a sensação de que era a pessoa mais errada do mundo. Durante praticamente toda sua vida, ele se isolou do mundo, nunca quis vínculos com ninguém porque sabia que não era bom para ninguém. Como poderia ser bom para alguém especial como Shaka?
Voltou para casa já alta noite, ainda com a mente nublada pela frustração, mas bem mais calmo, pelo menos a raiva já tinha diminuído. Seu coração falhou quando encontrou o loiro sentado com Jack no colo. Engoliu em seco, já era tarde, ele deveria estar exausto, o que estava fazendo ali?
– Você tem a chave, loiro, por que não entrou? – indagou e se sentiu estúpido, porque tinha tanto a dizer, tanto, mas não sabia.
Shaka não ergueu a cabeça. Continuou acariciando Jack que estava dormindo todo esparramado em seu colo.
– Eu sinceramente não sei o que fazer para te convencer de que eu sou louco por você e que não me importa nem um pouco se Mu ou qualquer outra pessoa está interessado em mim, o que não é verdade, ele é só meu amigo – disse em um tom neutro, ignorando completamente a pergunta do namorado.
Ikki se agachou à sua frente e suspirou, segurando-lhe o rosto – Eu não queria brigar com você, me desculpe... – pediu profundamente culpado. – Shaka, eu não sou uma pessoa muito fácil, eu sei disso, mas sei o que sinto e sei que te amo e sei que... Bem, acho que você poderia estar com alguém melhor que eu, alguém que fosse mais experiente com essa coisa de relacionamento e soubesse como agir... – ruborizou um pouco a dizer aquilo, era difícil para alguém orgulhoso como ele. – Não que eu não saiba, mas é que eu perco sempre o controle dos meus sentimentos. Loiro, eu não fui treinado para controlar o que sinto e... e eu esqueço, às vezes, que preciso aprender...Eu só acho que... você pode encontrar alguém melhor – e em seu nervosismo para encontrar as palavras certas, ele acabava falando tudo de forma atropelada – Não que eu queira isso, mas... eu tenho medo que em algum momento você note que eu não sou tudo o que você pensa...
– Ah, você é sim, Ikki. Você é simplesmente tudo que eu preciso – o indiano sorriu. – Não seja tão exigente – Shaka tocou levemente o rosto dele em um breve carinho e permitiu que um sorriso escapasse. – Eu também sou inexperiente. Não sei nada de relacionamentos, sexo, controle. Mas sei que quero só você. Ninguém mais. Eu também sou cheio de defeitos, talvez seja você que me veja como algo... sagrado demais – tentou descontrair um pouco. – Eu sei dos seus defeitos, você também conhece os meus, e nos amamos, simples.
Ikki fechou os olhos ao sentir os dedos dele passeando por sua pele. Suspirou e tirou Jack do colo do loiro, fazendo o cachorrinho acordar preguiçosamente. Depois abraçou o indiano e abriu a porta do apartamento, beijando-o de leve. Fechou a porta depois que Jack entrou e levou o loiro para o quarto o colocando na cama. Não disse mais nada, apenas beijava seus lábios com carinho, mesmo porque, não sabia muito bem o que dizer naquele momento, e nem achava que precisasse.
– Espera um pouquinho, eu vou tomar um banho e já volto. – Falou e correu para o banheiro, tomando um banho caprichado, mas rápido dentro do possível, voltando ao quarto, cheirando a sabonete. Vestiu uma calça de pijama e se deitou na cama, com a cabeça apoiada no peito do loiro, aspirando seu cheiro e fechando os olhos, estava exausto. – Não sei como consegue me suportar... – murmurou de forma preguiçosa – Eu tentarei ser melhor, Shaka, eu prometo...
O escritor suspirou e aconchegou-se melhor nos braços do namorado.
– É só o que quero, Ikki: ficar assim com você... em paz... Eu te amo – Shaka murmurou, enquanto fechava os olhos. – Não esqueça nunca.
– Eu também te amo, loiro... Muito. Não vou esquecer – murmurou o moreno, puxando o edredom e cobrindo a ambos, antes de adormecer.
Continua...
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