Essa Estranha Atração
28 Esse estranho encontro
Notas iniciais
Esse estranho encontro
Capítulo 27
Naquela manhã Shaka acordou atrasado para a sua consulta com Camus. Mas ele não se incomodou muito. Na verdade estava pensando em não ir. No começo, ainda tentou manter a rotina e o tratamento, mas a verdade era que a depressão começava a se aprofundar de uma forma que o deixava cada dia mais apático.
O terapeuta foi o primeiro a perceber esse perigo quando soube do final do relacionamento do paciente, e o advertiu das formas como uma depressão poderia por em terra toda a evolução do quadro de Shaka. Receitou alguns antidepressivos mais intensos e aumentou o número de consultas para duas semanais, estava preocupado.
Nos primeiros dias até que Shaka se esforçou, mas agora, chegava numa situação tão crítica que pensava em desistir do tratamento novamente. Não conseguia ver sentido nele. Já conseguia manter uma vida social estável, sem correr das pessoas sempre. Estava curado, não queria falar mais de suas dores com ninguém, queria apenas se fechar em seu mundo como um diz fez, como fez antes de Ikki aparecer e bagunçar sua vida inteira. Queria que ele nunca houvesse aparecido em sua vida. Dessa forma não saberia como foi bom viver o que viveu e não sentiria saudades.
Tais pensamentos levaram lágrimas a seus olhos, coisa que sempre acontecia pelas manhãs, quando acordava sozinho.
Era difícil, mas ele tentava sobreviver. Era forte, sabia que precisava sobreviver, afinal, vivera sozinho, completamente sozinho, toda a vida. Precisaria suportar mais aquela provação pela qual passava, mesmo que, se fosse sincero, confessasse que já estava um tanto cansado.
– Está atrasado! – Mu alertou, quando o loiro largou-se em uma cadeira para tomar o seu café da manhã, após sua rigorosa higiene matinal.
– Eu não vou. – Shaka declarou apático, sorvendo lentamente o chá da xícara de porcelana.
– Por quê? Seu psiquiatra vai ligar, preocupado! – o tibetano disse, atento. – Shaka, você precisa reagir.
Shaka havia contado a Mu que tinha TOC e estava fazendo um tratamento. Depois do fim do romance com Ikki, os dois se tornaram ainda mais próximos. Mu já tinha encontrado um apartamento, mas não estava seguro de deixar o indiano sozinho da forma que ele estava, então protelava sua mudança. Temia que o quadro do amigo regredisse, e por mais que Shaka fosse hostil e arrogante, ele sempre insistia nas conversas.
O livro do indiano finalmente saiu e com ele veio os compromissos profissionais e a noite de autógrafos na editora. A festinha rendeu ao editor um encontro bastante interessante com Aiolia, que depois de meses, resolveu cumprimentar Shaka pelo trabalho. O loiro aceitou os cumprimentos do genioso e rancoroso amigo. Aiolia e Mu começaram a conversar naquela noite e não pararam mais desde então.
– Eu não preciso reagir a nada, Mu. Eu preciso escrever, apenas isso. – Disse sem se alterar.
Mas o tibetano não se deu por vencido.
– Talvez devesse sair com alguém... – ele disse, recebendo o olhar enojado e incrédulo de Shaka. – Ah, pelos deuses, você está melhor da sua fobia, seria bom se dar uma chance de conhecer alguém. Você já pensou no doutor Léfrève? Ele é tão bonito! Sem contar que seria providencial, namorar um psiquiatra...
Shaka não conseguiu evitar rir com aquela conversa sem noção do amigo.
– Ele é hetero, Mu – disse revirando os olhos. – Eu acho.
– E daí? O Ikki também era e... Desculpa, eu não deveria ter dito o nome dele – volveu Mu, sem jeito.
– O nome dele não é proibido nessa casa. Ikki faz parte da minha história – Shaka disse fingindo indiferença. – Ou fez. E eu não vou à terapia hoje porque não vejo motivos para continuar o tratamento. Estou bem, estou curado.
– Como assim não vê motivos? Você não está curado, Shaka! Não há cura para isso! há controle! E se a doença está controlada agora é por causa da terapia, será que não vê isso? – Mu mostrou-se preocupado.
Shaka encolheu os ombros e virou o rosto.
– Isso não é verdade, estou bem melhor. – Falou, cansado. – Não quero ir e não vou, Mu, não adianta insistir.
– Idiota! – o editor irritou-se. – É por causa do Ikki, não é? Você acha que não tem mais sentido continuar já que começou por causa dele – o tibetano concluiu. – Olha, Shaka, você tem que continuar por você e não por ele. Como você disse, o Ikki fez parte da sua vida e te fez enfrentar essa doença. Agora você tem que se tratar por você! Como vai ser quando você for um escritor de renome mundial? Vai fugir dos fãs que quiserem cumprimentá-lo?
– Você está sendo otimista demais – Shaka murmurou sem emoção.
– Além disso – Mu continuou como se não tivesse sido interrompido. – Você está em um momento de fragilidade. Conversar com o terapeuta sobre o que está acontecendo te ajudará a superar. E pode ter certeza, mocinho, que eu vou ficar de olho em você para ver se você está tomando os remédio e indo às consultas. Não aceito que desista de si mesmo!
– Não fale como se eu fosse um menino – Shaka resmungou aborrecido, mas não retrucou. Era bom saber que tinha alguém que se preocupava consigo.
Acabou cedendo, e cerca de uma hora depois ele já estava na clínica. Mu até quis acompanhá-lo para ter certeza de que Shaka realmente iria à consulta, mas o loiro disse que poderia se virar sozinho. Além disso, Mu tinha uma reunião com Shion e não poderia faltar nem se atrasar.
A consulta durou mais de uma hora. Camus lhe deu um puxão orelha parecido ao de Mu. O psicoterapeuta percebeu a apatia do paciente e insistiu no quanto o tratamento era importante.Quando ia deixando o consultório, Shaka trombou com Shun que estava passando por ali.
– Ah, Shaka! Que bom te encontrar. Não nos vemos desde aquele dia no restaurante. Estou preocupado. Como estão as coisas?
O loiro sorriu fraco.
– Estão indo, Shun. Você já deve saber... – murmurou.
– Sim, eu sei. E ainda não acredito que vocês terminaram por conta daquela bobagem.
– Eu não quero falar sobre isso, Shun... – o loiro disse friamente. Não queria entrar em detalhes sobre o final da relação, talvez o Amamiya mais velho não houvesse contado tudo.
O mais novo suspirou.
– Eu preciso saber o que está acontecendo, Shaka... Estou preocupado com Ikki.
Shaka riu de leve, cruzando os braços numa atitude nervosa.
– Por quê? Dessa vez ele não me pareceu nada depressivo. – Sorriu com amargura. – Ikki me pediu um tempo, Shun. Eu darei o tempo que ele quiser, a vida toda se ele quiser. Não posso fazer nada a respeito.
– Shaka, eu sei que meu irmão está sofrendo. Isso é muito claro. Sim, ele está mais... calmo que da primeira vez que terminaram, mas não significa que esteja feliz. Eu vim aqui procurá-lo mesmo, preciso saber de verdade o que aconteceu. Você conhece Ikki, sabe como ele é fechado.
O indiano ponderou um pouco e resolveu seguir o mais novo.
– Tudo bem, vamos àquele café e eu te conto tudo. – Disse, e Shun o seguiu.
Shaka pediu um mate gelado com limão e Shun um cappuccino. O loiro respirou fundo e contou toda a história, de uma forma meio mecânica, como se tudo tivesse acontecido com outra pessoa. Contou sobre Virgo, Fênix e a certeza de que Ikki iria traí-lo com o “amigo virtual”. A raiva que o moreno sentiu quando soube que ele o enganou por tanto tempo, tudo.
Shun já sabia de toda a história, mas precisava conhecê-la do ponto de vista do loiro. Ele seria um psicólogo e claro que gostava ver uma situação de todos os ângulos possíveis.
– Como esperava que ele se sentisse? – Shun indagou. – Você mentiu pra ele. Tirou proveito de uma situação.
Shaka suspirou cansado.
– Obrigado, Shun. Suas palavras fazem com que me sinta muito melhor – ironizou o loiro.
O mais novo suspirou também.
– Shaka, o meu irmão te ama. Com certeza ele estava se sentindo sozinho e confuso quando disse aquelas coisas na Internet. Ele não se arriscaria a traí-lo e perdê-lo novamente.
O indiano curvou os lábios de forma amarga antes de sorver o chá que havia pedido.
– Um dia eu acreditei nisso também, Shun. Isso antes de ele me dizer que precisava de um tempo e de ir curtir a vida. Não tenho mais certeza dos sentimentos do seu irmão. Eu sei que errei, mas eu o perdoei uma vez, ele poderia fazer o mesmo.
– Sabe que não é tão simples. Espere a mágoa dele passar. Vai passar. Eu tenho certeza do sentimento de vocês. Foram feitos um para o outro – sorriu o estudante.
O mais velho mirou o relógio de pulso. Não queria continuar aquela conversa ou acabaria chorando.
– Shun, você queria que eu te contasse o que aconteceu e eu contei. Agora deixe-me ir, certo? Ikki se mudou. Ele disse que não queria me ver mais. Vamos deixar assim. É melhor para todo mundo.
Mais uma vez a sua boca dizia inúmeras mentiras. Será que alguém conseguia acreditar no que ele dizia?
– Você diz que eu e meu irmão somos teimosos, mas você é três vezes pior – o mais novo comentou enquanto acompanhava o loiro até a saída da clínica. – É muito claro que os dois estão sofrendo, mas estão cegos.
– Nos vemos por aí, Shun – Shaka ignorou a fala do rapaz e foi embora sem dar a ele qualquer chance de dizer mais alguma coisa.
Os dias foram se tornando semanas, as semanas se tornaram meses. E Shaka continuou vivendo como podia. Cada vez mais enterrado em trabalho para não pensar no ex-namorado que roubava cada segundo dos seus pensamentos quando o loiro não estava ocupado. Às vezes, sentia que definharia de tanta saudade e tinha vontade de se esmurrar por ter deixado as coisas chegarem aonde chegaram. Em outros momentos, ele voltava a tentar se convencer de que fora o melhor e que estava feliz vivendo assim, que ele e Ikki não se entenderiam nunca. Mas a verdade era que sofria como um condenado à serviços forçados e só pensava em procurar por Ikki e dizer que não aceitava coisa nenhuma aquele tempo que ele pediu!
Ah... mas o orgulho! Seu orgulho não permitia isso. E ele preferia morrer aos poucos a cada dia. Ikki não o queria, se o quisesse estaria com ele. Simples.
Naquele meio tempo, a editora contratou Mu definitivamente e ele alugou o apartamento vago de frente ao do loiro. Era estranho tê-lo como vizinho, exatamente onde antes estava Ikki. Mas Shaka não reclamou, foi bom ter a sua privacidade de volta e ao mesmo tempo ter o amigo por perto. Para Mu foi ótimo, e ele dispensou o apartamento que havia encontrado para ficar próximo ao amigo.
Mu e Aiolia começaram a sair juntos e logo um intenso romance se iniciou entre os dois. Isso serviu para reaproximar o indiano e seu antigo editor que acabou perdoando o amigo pelo ocorrido no passado.
Jack estava mais animadinho. Em um dos passeios ele conheceu uma cadelinha que morava na vizinhança e isso pareceu ter o deixado menos depressivo. A dona da “menina” aproximou-se do indiano e às vezes pedia para deixá-los brincarem juntos, e o loiro permitia. Ele e a garota que se chamava Sasha acabaram tornando-se bons vizinhos, o que fez crescer seu restrito círculo de amizade.
Parecia que tudo estava indo por um bom caminho, menos a vida de pessoal do escritor. E ele achava que nunca se sentiria satisfeito se não tivesse Ikki de volta...
“Não começa! Ele nem lembra que você existe!”, pensava sempre desolado, todas as vezes que sua mente divagava sobre o moreno.
Naquela noite ele estava se preparando para ir a um show. Ainda não entendia como havia se deixado convencer por Mu e Aiolia a sair de casa. Ele odiava shows, multidão e barulho, mas eles o enlouqueceram tanto que ele se forçou a acompanhar o casal.
– Eu nem gosto desses lugares – Shaka reclamou pela enésima vez. – E eu tenho cara de castiçal? Vou lá ficar segurando vela pra vocês!
– Deixa de ser chato, Shaka – Mu disse, mas estava tão feliz por estar indo para o tal show que seu tom saiu todo animado. Ele também estivera levando uma vida bem reclusa nos últimos tempos.
O loiro não estava com um bom pressentimento, mas não quis estragar a diversão dos amigos, por isso quando chegaram ao parque onde aconteceria o espetáculo, ficou quieto em um canto apenas observando as pessoas pularem e cantarem ao som das bandas. Agradeceu por ser num lugar aberto e não precisar ficar no meio da multidão suada. Só em pensar nisso tinha vontade de vomitar.
Em certo momento, Shaka viu um emaranhado de cabelos negros. Ele piscou confuso, o coração dando um salto no peito, pensando que certamente a saudade estava começando a lhe pregar peça. Mas em seguida a pessoa se moveu, e o loiro pode ver Ikki com clareza.
Ele estava próximo a um grupo de três garotas e um homem alto de cabelos longos, muito bonito e risonho. O moreno também estava lindo, perfeito dentro da camisa negra de alguma banda de rock, sem mangas, exibindo os braços definidos, junto ao jeans e aos coturnos também negros. Ele parecia muito bem, com certeza não sentia nem um pouco sua falta.
O loiro ficou parado o encarando. Mu e Aiolia ao seu lado, animados demais com a performance da banda no palco, não percebiam seu olhar triste em direção ao moreno.
Shaka viu quando o moreno puxou uma das “amigas” pela cintura, deslizando as mãos por seu corpo e a beijando como se fosse devorá-la ali mesmo, com toda a intensidade que ele já conhecia. Uma lágrima insinuou-se nos olhos do loiro, mas ele a afastou antes que se derramasse. Sua noite estava acabada.
Ikki estava completamente bêbado. Começara a beber cedo, muito antes do show, acompanhado por Kanon e mais três mulheres conhecidas de seu amigo bem relacionado. Estava tão bêbado que nem sabia quem estava beijando, ora Melinda, ora Hebe, ora Ariadna, ou quantos nomes elas tivessem, e revezava os beijos com a garrafa de cerveja que tinha em mãos.
Shaka tentou se concentrar no show, na letra das músicas, em qualquer coisa – até na pegação de Mu e Aiolia ele tentou se concentrar – para fingir que não via o ex-namorado agarrado àquela loira. Mas de nada adiantou. Ele seguiu Ikki com o olhar, vendo-o conversar um pouco com o amigo, um homem que Mu – se não estivesse tão ocupado em enfiar a língua na garganta de Aiolia – certamente diria que era um gato e deixaria o namorado surtando de ciúme. Depois o moreno puxou uma ruiva e a beijou sem se importar se estava cometendo atentado violento ao pudor ou não, e a loira nem pareceu se importar com isso, mas ele... Isso o estava matando.
– Mu – Shaka chamou o amigo, que obviamente estava mais interessado no namorado e não lhe deu atenção. O loiro grunhiu baixinho, abriu a garrafinha de água e despejou o conteúdo sobre a cabeça dos dois.
– Porra, Shaka! – Aiolia brandiu furioso, afastando-se de um pasmado Mu que passava a mão no rosto molhado.
– Estou indo pra casa – Shaka tentou manter o tom de voz normal, mas sentiu que ela tremeu um pouco.
– O que houve? – Mu perguntou preocupado. Shaka não respondeu, continuou olhando para Ikki que agora estava atracado à outra loira. O tibetano seguiu o olhar do amigo e entendeu rapidamente a situação. –Ah...Vamos, está chato mesmo... – disse, lamentando profundamente aquilo.
– Mas, Mu...! – Aiolia exclamou, exasperado. – Você esperou o mês inteiro por esse show!
O tibetano fitou o namorado com uma expressão do tipo "Se você abrir essa boca de novo, vai ficar sem sexo por tempo indeterminado!" e disse suavemente:
– Vamos, Shaka.
– Não precisa. Eu me viro. – O indiano sorriu, compreensivo. Não era justo privar os amigos por causa dos seus problemas pessoais. – Fiquem e aproveitem o show. Nos falamos depois.
– É lógico que não! – Mu negou-se – Não vou te deixar curtindo uma fossa em casa. Vamos procurar outro lugar para nos divertirmos.
– Mu, não pre-
– Sem mais conversa! Vamos Aiolia! – o impositivo ariano tomou o pulso do namorado e o braço do amigo.
Shaka deu uma última olhada em Ikki. Ele parecia bem. Com certeza já o havia esquecido.
– Vamos – murmurou desviando o olhar e saindo pelo meio da multidão.
O lugar era um grande parque ao ar livre, e eles estavam apoiados no jipe de Kanon que era um verdadeiro alambique naquele momento. As garotas, muito bem vestidas em seus shorts e saias micros, também bebiam e riam das histórias contadas pelo mais velho que, vez por outra, mirava o amigo preocupado.
Melinda, Hebe e Ariadna eram suas amigas de longo tempo, e Kanon adorava sair com elas. Eram todas mulheres seguras e decididas, que sabiam o que queriam e o que não queriam. Relacionamentos sérios estavam fora de cogitação para elas, todas grandes profissionais e independentes, então, além de bonitas, elas eram companhias perfeitas. Bebiam “como homens”, sabiam se comportar e não possuíam frescuras. Gostavam de sexo casual tanto quanto ele, e não ligavam no dia seguinte. As três corriam de relacionamento sério. Perfeitas!
Até por isso, ele quis apresentá-las a Ikki, pois sabia que o amigo também não queria envolvimentos, mas pelo andar das coisas, o mais novo iria à lona antes de qualquer possibilidade entre ele e as garotas.
— Ikki, você não acha que já bebeu demais? — indagou enquanto tinha a orelha mordiscada pela bela ruiva, Melinda.
— Você acaso é meu pai, porra?! — falou Ikki com a voz já embargada pelo álcool. — Eu quero beber muito essa noite, beber tudo! É um show, não é? Temos que nos divertir! Eu só faço trabalhar, trabalhar e trabalhar há semanas! Me deixa!
– Eu sei, mas pega leve, cara! – Kanon disse preocupado. – Estamos bebendo desde cedo, assim você não alcança a madrugada.
– Ah, você sabe que eu alcanço. Além do mais, eu tenho que esquecer a fada arco-íris...
— Quê?
O mais jovem olhou para o mais velho com uma indignação que apenas os bêbados têm quando alguém não entende o que eles falam.
— A porra da fada arco-íris que derramou purpurina na minha cabeça, idiota! — disse irritado, voltando a virar a garrafa na boca.
— Ikki, você ‘tá bêbado, cara. Chega disso, vamos pra casa. — Tentou segurar o braço do amigo, mas ele se desvencilhou.
— Me solta! Eu não vou sair daqui, aqui ‘tá ótimo, aqui tem a... — sorriu para a garota — Qual seu nome mesmo, querida?
— Eu sou a Ari... – volveu Ariadna, divertida. – Kanon, leva seu amigo pra casa, ele já passou do ponto!
— Eu estou bem! – volvei Ikki. – Aqui tem a Ângela, tem cerveja, por que eu vou sair daqui? — indagou. — Eu não vou a lugar nenhum, vou ficar com as garotas e bem longe da droga da fada!
– Que merda... — murmurou Kanon. Geralmente era ele quem acabava bêbado. Ikki sempre tivera uma grande resistência ao álcool e também sabia a hora de parar. Agora, no entanto, algo lhe dizia que aquela noite não terminaria bem se ele continuasse daquele jeito.
— Ikki, esquece essa história de fada, você vai ficar mal, cara, vai broxar desse jeito! — riu o mais velho.
— Me deixa em paz, Kanon! Eu quero me divertir e esquecer aquele loiro cretino — dar um passo e se desequilibra um pouco, sendo agarrado por uma das moças — Filho da puta e... gostoso do...
Interrompeu-se ao ter a sensação te ter visto o loiro parado há alguns metros de onde estava. Desvencilhou-se da garota caminhando em direção a ele.
— Shaka amor, é você? — falou tomando mais um gole da cerveja e cambaleando — Shaka, volta aqui!
Kanon impediu que ele prosseguisse, pois já se batia nas pessoas tentando achar alguém que... Não estava ali! Ele não via de forma alguma o tal Shaka que o amigo via.
— Me solta, Kanon, ele está aqui! — repetia Ikki, lutando para se livrar dos braços do amigo.
— A gente vai embora agora! Agora! — berrou o mais velho com autoridade, arrastando o amigo em direção ao carro. Ikki até quis lutar, mas não tinha condições nenhuma. O show havia acabado para ele e para Kanon. O mais velho o levou para seu apartamento, pois o mais novo não tinha condições de dirigir.
— Por que você me trouxe, Kanon? Eu vi, ele estava lá! — continuava a dizer enquanto entrava no apartamento abraçado ao amigo.
— Não, Ikki, ele não estava lá — falou com paciência, o jogando no sofá.
O mais novo fechou os olhos enquanto o amigo tirava os coturnos dos seus pés.
— Merda daquela fada filha da puta que me deixou assim!
— Pronto, vai começar a história da fada de novo! — riu Kanon, jogando os calçados longe e começando a tirar as meias — Cara, eu não acredito que você está assim por causa de... Outro cara!
— Veado! Eu sou um filho da puta de um veado! Pronto! É isso mesmo, EU. SOU. VEADO. — dizia Ikki completamente embriagado. E kanon ria sem parar. — Melhor! Eu fui, eu fui gay, durante 11 meses eu fui gay! Mas agora eu não sou mais! Ser gay é muito... estressante!
Kanon agora já gargalhava e começava a puxar a calça jeans que o amigo vestia.
— Okay, você foi gay, não é mais. T’aí uma coisa que nunca vi, ex-gay! Eu devia filmar isso! – ria divertido.
— Mas eu sou! E ser gay me fez muito mal, muito mal mesmo, eu nunca mais quero ser gay! Ser gay é uma grande merda, meu amigo, grande merda!
— Sei, sei... — continuou Kanon, tirando a calça e tentando agora arrancar a camisa do amigo que lutava tentando alcançar a garrafa de uísque — Chega, nem pensa nisso, você vai entrar em coma daqui a pouco!
— Eu preciso beber para esquecer que fui gay, Kanon! Porque quando se é gay, meu amigo... você fica idiota e... meloso! E...ciumento, inseguro pra caralho!...
— Parece que você estava era muito apaixonado, agora vem cá... — Kanon ajudou-o a se erguer e o arrastou para o chuveiro. — Homens apaixonados ficam assim, amigo, gay ou hetero, acho que você apenas nunca tinha se apaixonado!
Ikki fez uma careta simulando o que Kanon falava.
— Você já foi gay?
— Não...
— Então como pode saber hein sabichão? Ser gay é uma grande merda e... Porra, que água gelada, Kanon!
O mais velho tinha jogado o amigo embaixo do chuveiro sem que ele se desse conta.
— Ikki, se você não calar essa boca, eu vou amordaçá-lo!
— Aghr... eu acho que, eu vou vomitar... — saiu correndo do boxe em direção à privada.
Kanon bateu na testa e deixou o amigo à vontade, depois quando ele já havia esvaziado o estômago, o levou de volta ao chuveiro, mesmo ele o xingando de tudo que fosse nome porque estava frio, então o levou para o quarto e o vestiu em um pijama.
O final da noite que prometia uma orgia sensacional terminou com os dois esparramados e roncado.
No dia seguinte, Ikki acordou sentindo o estômago revirar e um macaco tocando um sino com um martelo dentro da sua cabeça. Gemeu se encolhendo na cama e escondendo a cabeça embaixo de um travesseiro.
— Bom dia, bela adormecida — a voz forte de Kanon parecia outro martelo, agora sobre sua cabeça.
— Cala essa boca, minha cabeça está estourando, inferno! – praguejou, mal-humorado.
Kanon cruzou os braços, rindo baixinho, e depois abriu as cortinas do quarto, recebendo mais uma enxurrada de xingamentos.
— Eu nunca o vi na merda como ontem, Ikki, isso me leva a crer que a coisa está muito séria.
O moreno mais novo respirou fundo e ergueu com muito esforço a cabeça para olhar o amigo.
— Séria como? Só exagerei um pouco...
— Não, você bebeu tanto que alucinou, até viu o tal do seu ex-namorado, e ele não estava lá.
Ikki franziu a testa e gemeu de dor, tombando na cama e resmungando, muito mal-humorado.
— Não consigo me lembrar de porra nenhuma!
— Sorte sua, porque você não deu um espetáculo muito bom lá no show. Inclusive me deve, eu perdi a noite e as gatas e acabei dormindo ao lado de um barbado bêbado, que merda! — reclamou o mais velho.
— Puta que pariu! — praguejou Ikki, envergonhado — Foi tão feio assim?
— Foi.
— Eu disse mesmo que vi o Shaka?
— Disse.
— Enlouqueci, ele nunca iria a um local com tantas pessoas e tão barulhento.
— Pensei nisso já que ele tem TOC, mas sabe... — Kanon disse com cuidado. — Andei conversando com o Camus, parece que ele está muito melhor agora...
Kanon e Camus se conheciam, era amigos de longa data e mantinham estreita relação, pois Camus namorava o irmão do arquiteto, coisa que Ikki só agora descobria: que Kanon tinha um irmão gay. Talvez por isso, ele levara tão naturalmente quando o mais novo contara sua história com Shaka para ele.
— Não quero saber... – resmungou Ikki, virando o rosto.
— Por quê? Será que a fada arco-íris o abandonou de vez ou é só fachada? – Kanon disse e caiu na gargalhada. Ikki lhe arremessou um travesseiro.
— Eu falei da fada, merda, estava mesmo fora de mim e de controle!
— Eh, mas hoje a vida continua. Eu tenho que sair, se quiser fica aí com sua ressaca, você só trabalha à noite mesmo, mas eu tenho coisas a fazer!
— Vou dormir e deixo a chave na portaria — virou-se na cama preguiçoso.
O mais velho mirou o amigo longamente com uma expressão preocupada.
— Sabe, Ikki, você está cheirando a infelicidade, cara...
— E daí?
— Daí que como seu amigo acho que você está sendo teimoso e burro!
— Legal, obrigado pelos elogios. – resmungou o mais novo.
— É sério, cara, se você gosta dele e está esse farrapo por causa dele, por que tanto orgulho? Vai lá e diz que o quer de volta, que o ama... Que porra mais estranha, mas tudo bem, você é meu amigo e eu respeito!
— Kanon...
— Hein?
— Vai arranjar uma vadia pra trepar e me deixa em paz!
— Você quem sabe!— disse o mais velho sem se abalar — Mas acho que deveria se dar uma segunda chance. Talvez dê certo dessa vez...
Como não achou resposta Kanon saiu. Ikki ficou um tempo pensativo, mas depois voltou a dormir. Precisava ou não teria condições de trabalhar, e naquela noite precisava estar na Elíseos acompanhando a apresentação de um DJ internacional.
Continua...
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