Essa Estranha Atração

22 Essa estranha solidão


Notas iniciais
Olá, coisas lindas da titia Sion, tudo bem com vocês?

Finalmente um novo capítulo de EEA. Um capítulo um tanto tristinho, mas necessário.
E chegamos ao nosso 440 reviews!! *comemora*
Obrigada a todos vocês que comenta e todos que continuam aqui, dando apoio para que a autora enrolada termine a história XD.
Beijos, espero que gostem do capítulo.
Boa leitura!
Sion Neblina

Essa estranha solidão

Capítulo 21

Os dias passaram. Shaka viajou para a Índia. Valeu-se de uma licença na agência de turismo, alegando estresse. Como andara doente mesmo, eles não desconfiaram. O loiro precisava ficar longe de Ikki, precisava pensar, e morando de frente ao moreno seria impossível.

Mu aceitou cuidar de Jack e do livro naquelas semanas que ele passaria longe da Grécia. Então, o indiano pegou suas economias e resolveu viajar à sua terra natal.

Hospedou-se num hotel pequeno em Nova Deli e chorou de saudades e mágoa todas as noites. Todavia, aquele período de dor e solidão serviu para que recuperasse parte de si que há muito andou perdida. Tão perdida que em alguns momentos, ele simplesmente não se reconhecia.

Fora a doença, Shaka era um homem forte, centrado, inteligente, seguro. Percebia que a aproximação de Ikki o tornou uma pessoa frágil, insegura, vulnerável. Ele confiou demais, se entregou demais... Para quê? Foi traído e além de tudo, humilhado por sua própria fragilidade. Ikki tocou em um ponto nevrálgico de sua psique e de sua autoestima. Ele não tivera cuidado algum com as palavras. Palavras que sabia que iriam ferir o indiano profundamente.

Passeou por Deli, reviu alguns amigos e tirou muitas fotos. Aproveitou a visita para escrever um novo livro. Uma história amargurada que muito coincidia com seu atual estado de espírito.

Cinco semanas depois, estava de volta a Atenas. Ainda magoado, triste e ferido, mas um pouco mais forte e disposto a encarar a vida. Disposto a voltar ser o Shaka do qual um dia havia se esquecido. As palavras de Ikki ainda martelavam em sua mente, assim como as lembranças boas também. Isso o deixava confuso e angustiado e talvez por não saber ainda lidar com uma desilusão amorosa, Shaka voltou a se fechar. Voltou a se enclausurar em seu apartamento e no trabalho. Não tinha forças para continuar tentando. Sabia que precisava, mas... ainda não. Precisava se dar um tempo, um tempo para achar o equilíbrio perdido e para isso, voltaria a fazer yoga, meditação e a escrever com mais responsabilidade – talvez a palavra correta fosse compulsão. – Ele havia deixado sua vida de lado por muito tempo, era o momento de retomá-la. Sofria sim, mas o mundo não pararia para que juntasse os pedaços do seu coração. Teria que continuar.

Durante as primeiras semanas de ausência de Shaka, Ikki simplesmente não conseguiu sair de casa. Estava sendo duro demais aquele novo golpe. Sentia-se abandonado, mas sabia que a responsabilidade de tudo aquilo era sua. Quantas vezes tivera chance de contar a verdade? Por que bebeu tanto naquela noite? Por que o magoou novamente? Culpa, remorso, dor, desespero e uma caixa de uísque eram tudo que ele tinha. Acordava somente para encher a cara e dormir novamente. Não atendia ao telefone, ninguém sabia dele. Estava mais que desiludido, estava duplamente ferido de morte, primeiro porque a culpa o comia como vermes e os acontecimentos do passado se mesclavam aos do presente. Ele havia magoado Shaka, assim como magoara Shun. Ele traíra a ambos e isso o estava matando, dava-lhe a sensação de que ele não servia realmente para ninguém e que deveria definitivamente se separar da raça humana. Ele não era humano; era cruel e perverso como Shun lhe dissera no passado. Ikki entendia perfeitamente os motivos para o irmão se manter longe dele e agora ele próprio queria distância de todos. Nunca foi de ter amigos mesmo, tinha muitos conhecidos, muitas amantes, mas nunca se envolveu profundamente com ninguém, pois sabia que o destino de um relacionamento profundo com ele seria ser destruído por suas próprias mãos em algum momento e que deixaria marcas nefastas na pessoa. Ele deveria ter resistido a Shaka, deveria ter evitado, porque no fundo sabia que só fazia ferir as pessoas. Era mesmo melhor ficar longe.

Por vários dias, Shiryu tentou encontrá-lo e esperou que ele aparecesse na boate, e como não teve resposta acabou entrando em contato com Shun, já que havia batido por diversas vezes na porta do apartamento do moreno e ele não atendeu. Acabou localizando o Amamiya mais novo por um cartão que achou na gaveta do escritório do chefe, mas o estudante disse também que nada sabia do irmão, que há dias tentava localizá-lo e ao namorado e não conseguia. Todavia, Shun ficou muito preocupado com o telefonema de Shiryu e foi assim que acabou batendo à porta do apartamento de Shaka e sendo atendido por Mu.

– Você é... o irmão! – sorriu simpático o tibetano. – Deve está sabendo...

– Oi, eu sou o Shun – apertou a mão estendida do rapaz mais velho. – Sim, eu sou irmão do Ikki. Eu estou muito preocupado com o Shaka. Ele não apareceu para as consultas com o psiquiatra.

– Ah... – Mu mordeu os lábios sem jeito. – Shaka viajou. Pelo visto não está sabendo...

– Sabendo do quê? – o mais novo perguntou preocupado.

– Ele e seu irmão romperam e não... de forma muito amigável.

– Quê?! – Shun exclamou surpreso. Aqueles dois pareciam se amar tanto, o que teria acontecido?

– É. Bem, eu não posso entrar em detalhes. Acho melhor falar com ele quando voltar ou com... seu irmão. – Mu mostrava-se um pouco constrangido, porque estava dando informações da vida dos outros e não gostava disso.

– Você sabe algo do Ikki? – Shun perguntou, olhando em direção ao apartamento do irmão. – O gerente dele me ligou, disse que faz duas semanas que não o vê, que já veio aqui, já ligou... Estou preocupado.

Mu suspirou.

– Ele está aí dentro, trancado há 10 dias. Eu sei, porque de madrugada, às vezes, ouço o saxofone. – Explicou. Imaginava como o rapaz deveria estar péssimo para ficar por mais de uma semana trancado naquele apartamento e mesmo que Ikki o detestasse, não desejava-lhe mal.

– Se eu bater, ele não vai abrir... – Shun disse como se falasse consigo mesmo.

– Aqui tem uma chave extra – Mu disse com um sorriso. – Acho que Shaka se esqueceu de devolver antes de viajar.

O estudante olhou para o editor e sorriu.

– Muito obrigado, Mu – disse. – Ikki não deveria implicar com você.

– Ah, todos implicam comigo – sorriu o tibetano e foi buscar a chave, logo a colocando na mão de Shun. – Aqui está. Boa sorte.

Depois que Mu fechou a porta, Shun caminhou lentamente. Ainda hesitou, mas acabou abrindo a porta do apartamento do irmão. Acendeu a luz e arregalou os olhos com o estado da sala. Tudo estava revirado. Um cheiro de bebida se misturava ao ambiente e ele viu que todas as garrafas do bar ou estavam vazias ou estavam quebradas.

– Ah, meu deus, Ikki! – ele correu até o outro, vendo-o caído sobre o tapete do quarto. Ele não se movia, mas logo Shun percebeu que o mais velho estava dormindo de bêbado, quase em coma alcoólico. – Seu estúpido! como pode me assustar assim?

– Sh-Shaka... – ele murmurou.

– Não! não é aquele outro estúpido, sou eu, o Shun.

Lentamente, Ikki abriu os olhos, mas assim que a realidade o atingiu, ele os fechou novamente. Não tinha condições de encarar a vida de novo. As pessoas o julgavam muito forte, o sempre destemido e determinado Ikki Amamiya, mas ele era um ser humano e aquele golpe foi forte demais para ele. Simplesmente sentia que não tinha mais nada pelo que viver, estava num estado depressivo crítico.

– Ikki, levanta, você precisa de um banho com urgência – dizia Shun preocupado, vendo que não conseguiria mover o irmão se ele não quisesse. O futuro psiquiatra pegou o telefone celular e discou um número, aflito. – Mime, eu preciso de você, é muito sério, vou te dar o endereço, vem pra cá, por favor.

Ele desligou e como não conseguia mover o irmão, começou a examiná-lo ali mesmo.

– Ah, céus, está... – Shun mirou os olhos do mais velho e depois examinou a pele – extremamente desidratado! Quer morrer, Ikki? – Ralhou preocupado.

Mime levou meia hora para chegar, mas quando encontrou o namorado, logo viu que a coisa era muito séria. Eles levaram Ikki para o banheiro e o colocaram debaixo d’água. Só dessa forma, o moreno recuperou a consciência, mas estava muito debilitado, extremamente desidratado, ainda assim, se recusou a ir ao hospital. Agora ele estava enrolado numa toalha pela cintura e bebia a contragosto uma garrafa de água tônica, enquanto era observado por Shun e Mime.

– Por que está aqui? – Ikki perguntou baixo, a voz demonstrando constrangimento. – Não deveria estar aqui...

Shun suspirou.

– Não seja ingrato, eu vim...

– Por quê? Lembra quem sou? Lembra que sou o cara que lhe disse um monte de ofensas no passado, que o abandonou, o condenou?

– Acho melhor deixá-los sozinhos – Mime falou se erguendo e deixando o apartamento.

– Tem razão, Ikki. Eu sei exatamente quem você é e... apesar de tudo isso, você ainda é meu irmão – Shun falou também baixo, mirando o estado lastimável do mais velho. – O que você fez? Por que Shaka o deixou?

– Eu fiz o que sempre faço, Shun, fodi com tudo! – riu irônico, triste, desesperado. – Shaka não quer mais olhar na minha cara, ele nunca mais vai olhar na minha cara, ta bom? Você tinha razão, eu quebro tudo que toco, com ele não foi diferente!

O mais velho escondeu o rosto numa das mãos e deixou-se chorar mais uma vez. Não sabia nem dizer por quantas noites seguida, chorou. Shun ficou estático, mirando o irmão. Ikki chorando? Isso era insólito demais para ele. Não resistiu, sentou-se ao lado dele e tocou-lhe o ombro.

– Ei, vai ficar tudo bem, Ikki – disse, sentindo um nó na garganta. – E-Eu estou aqui...

– Não devia, Shun! – Ikki gritou entre as lágrimas. – Não entende? Eu vou quebrar você de novo, e de novo, e de novo! É só o que sei fazer com as pessoas!

– Não, isso não é verdade, não fique assim, por favor... – os olhos do mais novo marejaram. Ele conseguia sentir a dor daquele homem, aparentemente tão forte, mas que naquele momento não passava de um garoto machucado. Começava a entender que as atitudes do passado talvez tivessem machucado mais o irmão do que imaginava.

– Claro que é, você mais que ninguém sabe que é verdade! – Ikki soluçou e envergonhado, se ergueu e foi para o banheiro lavar o rosto. Sentia-se a mais patética das criaturas. Como podia mostrar-se tão fraco? Esperou que a crise passasse e depois de minutos, aparentemente mais controlado, ele voltou ao quarto, com o semblante fechado, os olhos inchados e vermelhos, mas sem mais chorar. – Obrigado, Shun, mas... você já pode ir.

– Ikki...

– Mas que merda! eu não quero mais atrapalhar sua vida! Não quero atrapalhar mais a vida de ninguém, entende? – disse nervoso. ­– Por favor... vá embora.

O mais novo se ergueu de onde estava e mirou o irmão hesitante.

– Você vai ficar bem?

– Claro que vou – respondeu, fingindo uma convicção que estava longe de sentir.

– Certo. Você tem meu telefone, se precisar, me liga – disse o caçula e saiu, não suportando mais ficar ali, impotente, vendo o irmão daquela maneira.

Mime mirou o rosto preocupado do namorado.

– O que está acontecendo, Shun?

– Ele está mal, Mime, muito mal. Eu nunca o vi assim, tenho medo que faça alguma bobagem – disse preocupado enquanto eles andavam até o elevador.

– Você acha que ele...?

– Ele parece completamente desiludido com tudo. Não sei... acha que eu devo intervir? Digo, profissionalmente?

– Ele iria odiá-lo se fizesse isso. Acho melhor esperar mais alguns dias. Ele pode reagir, não acha?

– E se não reagir?

O mais velho moveu os ombros, mas não disse nada. Acompanhou o namorado até a saída do prédio.

Nos dias que se seguiram, Ikki não apresentou nenhuma mudança em seu comportamento autodestrutivo. Mas Shun alterou sua rotina diária para visitar o irmão e aos poucos, o mais velho foi aceitando que aquela realidade – a presença do mais novo – não iria mudar.

Shun, por sua vez, tratava do irmão com profundo cuidado, mas também respeito. Não fazia perguntas, não tentava conversar, apenas o visitava, cuidada dele no que lhe era permitido e ficava ao lado. Demonstrava para Ikki que ele estava ali, embora o mais velho fizesse questão de dizer que sua presença não era necessária. Era uma ironia, ele que sempre quis Ikki distante, agora praticamente forçava o irmão a estar ao seu lado. Ikki, que nunca quis ser dependente de ninguém, via-se ansioso, embora fizesse tudo para não demonstrar, pela presença do irmão.

As visitas de Shun, embora rápidas, pois o mais jovem tinha muitos afazeres, eram o momento em que as trevas que se tornaram a vida do jovem empresário pareciam se dissipar. Quatro semanas foram suficientes para transformar Ikki em outro homem. Não havia mais brilho em seus olhos, não havia nele mais aquela vitalidade que todos admiravam. Ele se tornou uma sombra, algo sem luz que só refletia dor e amargura. Não ia mais à boate, no máximo, falava por Shiryu por telefone sobre as coisas mais imediatas e na maior parte do tempo dormia ou bebia até dormir.

O primeiro mês se passou. Shaka ainda não havia retornado de viagem, e ele pensava que nunca mais veria o indiano. Lentamente e com a ajuda do irmão, ele tentava reerguer-se. O mundo não pararia para que ele juntasse seus pedaços... novamente.

Naquela manhã ensolarada, Shun o forçou a deixar o apartamento e ir ao seu. Ele queria que o irmão conhecesse seu lar. Mime não estava em casa, mesmo sendo um sábado, havia trabalho para o financista. O Amamiya mais novo pensou que dessa forma seria mais fácil ter a conversa que gostaria de ter com Ikki. Preocupava-se com o irmão. Aquele pouco tempo foi suficiente para que todo o afeto que sentia por ele retornasse e embora a mágoa do passado ainda não houvesse se dissipado de todo, ela era cada vez menos visível.

Ikki observou o pequeno e aconchegante apartamento. Ele tinha a cara de Shun. As paredes em um tom verde claro, os móveis pequenos e organizados, os quadros com paisagens orientais. Tudo remetia a delicadeza e tranquilidade.

– É muito bonito – disse, meio sem jeito.

– Não é espaçoso como o seu, mas eu gosto – sorriu. – Vamos tomar café? Eu preparei algumas coisas, como um bolo de chocolate. Espero que você goste.

O mais novo seguiu para a pequena sala de jantar e o mais velho ficou observando tudo por mais um tempo antes de segui-lo. Havia alguns porta-retratos em que Shun aparecia ao lado do namorado. Ele parecia feliz. Parecia muito bem em todos aqueles anos que estiveram separados.

Ikki sentiu certo mal-estar ao pensar nisso. Talvez estivesse abalando aquela paz, a paz que o irmão conquistou longe dele. Estava trazendo Shun para seu caótico mundo e isso era lamentável. Caminhou devagar até a sala de jantar e ficou parado na entrada, observando o irmão terminar de por a mesa com todo cuidado e delicadeza possíveis. Ao vê-lo, o mais novo parou o que fazia e, meio sem jeito, ficou o observando também.

– Algum problema, Ikki? – indagou receoso.

– Isso não é justo, Shun – a voz grave declarou de maneira firme, mas baixa.

– O que não é justo?

– O que estou fazendo com você – continuou Ikki. – Não é justo que depois de tanto tempo... que depois de tanto tempo de... de tudo que fiz... – não conseguiu dizer o que queria, um misto de emoções o tomava, ansiedade, constrangimento, tristeza.

Shun suspirou e pôs as mãos no quadril com uma expressão séria.

– Acho que chegamos a nosso ponto, Ikki. – ele disse com tranquilidade. – Até hoje, creio que não nos perdoamos pelo passado, por tudo que dissemos e fizemos. É hora de esquecer. Não que seja fácil, mas eu estou tentando, você poderia tentar também...

– Eu não tenho nenhuma mágoa de você, Shun. Você não merecia o que fiz, sei disso – volveu, culpado.

– Mas é exatamente isso, Ikki. Você tem que parar de se martirizar pelo que fez, de achar que foi, de alguma forma, punido por seus erros do passado, isso não é verdade. O que está acontecendo agora não tem nada a ver com o que vivemos. É hora de esquecer, meu irmão. Eu estou disposto a isso, acho que já demonstrei – sorriu. – E você?

– Eu... – o mais velho baixou a cabeça, fazendo a franja, um tanto mais crescida, cair sobre seu rosto, criando uma sombra sobre os olhos azul-escuros – Eu acho que não... mereço...

Shun se aproximou do irmão com um sorriso no rosto e tocou-lhe o ombro, obrigando-o a erguer a cabeça para encará-lo.

– Você merece muito, Ikki. Mostrou-se alguém tão especial, tão amigo, companheiro e zeloso por quem ama. Eu tenho muito orgulho de ser seu irmão.

O mais velho permaneceu calado, sentindo uma emoção tão profunda que seu peito parecia que explodiria. Foi necessário que ele perdesse Shaka para que Shun percebesse o quanto ele havia mudado e o quanto suas atitudes do passado feriam ao próprio Ikki. O mais novo se aproximou e o abraçou com carinho, sendo acolhido pelos braços fortes do irmão.

Nenhum deles quis conter a emoção que os tomou e deixaram que as lágrimas caíssem de forma aberta, sem medo ou disfarces. Ficaram assim por um longo tempo e então, Shun se forçou a afastar-se e mirar o rosto do irmão. Ikki sorriu e enxugou o rosto do mais novo com os polegares.

– Vamos ao nosso café? Depois de tantas lágrimas, acho que precisamos de hidratação urgente. – Riu.

O mais velho concordou com a cabeça e o seguiu. Enquanto isso, Shaka finalmente chegava ao seu apartamento. Mu atendeu a campainha e sorriu quando viu o indiano.

– Seja bem vindo de volta! – falou o tibetano animado. – Pronto para recomeçar?

– Pronto para começar de novo. – Sorriu o loiro. Um sorriso sem brilho e nem minimamente confiante. Mas ele precisava continuar a vida. E foi assim que começou a se dedicar ao livro. Precisava finalizá-lo e cumprir o prazo da editora, pois já tinha um novo livro iniciado. Continuaria na agência de turismo por um tempo, mas tinha planos de deixá-la assim que possível. Queria mais tempo livre para se dedicar ao que amava: escrever.

Escrever seria seu combustível contra a tristeza e a solidão.

Naquele dia, Ikki voltou para casa já tarde. Aproveitou o sábado para passar o dia com o irmão. Eles começavam a refazer laços que foram bruscamente rompidos, e o moreno se sentia um pouco melhor. Depois de cinco semanas, parecia que ele finalmente recomeçava, melhor, levantava-se, mas a muito custo. Sabia que no momento que abrisse a porta do apartamento, toda a dor retornaria, toda a saudade pulsaria por cada fio condutor do seu corpo. Ainda assim, ele precisava voltar para casa e continuar a vida como conseguisse.

Shaka digitava mais um capítulo do seu livro, provavelmente o penúltimo. Tentava não pensar. Mu havia saído, ido para a editora e ele estava novamente sozinho, agora com Jack que estava deitado na varanda, como se compartilhasse consigo do seu sofrimento.

So, so you think you can tell

Heaven from Hell

Blue skies from pain

Can you tell a green field

From a cold steel rail?

A smile from a veil?

Do you think you can tell?

Ikki pegou um livro na estante, um livro que há muito estava ali e que ele nunca leu. O livro escrito por Shaka. Começou a passar as páginas com cuidado. A história era simples, um suspense policial, mas o loiro escrevia bem e era criativo. Sorriu, a saudade apertando forte em seu peito e levando lágrimas aos olhos.

Did they get you to trade

Your heroes for ghosts?

Hot ashes for trees?

Hot air for a cool breeze?

Cold comfort for change?

Did you exchange

A walk on part in the war

For a lead role in a cage?

Shaka mirou mais uma vez o ícone do MSN, já havia feito isso várias vezes durante todos aqueles dias. Não resistiu, clicou e conectou: ele não estava online e isso foi profundamente decepcionante para o loiro que suspirou e voltou ao trabalho.

How I wish

How I wish you were here

We're just two lost souls

Swimming in a fish bowl

Year after year

Running over the same old ground

What have we found?

The same old fears

Wish you were here

Já era final de tarde quando Ikki finalmente deixou o livro e foi para frente do laptop. Precisava trabalhar, ao menos. Ligou para Shiryu e discutiu algumas coisas dos relatórios que diariamente o gerente lhe enviava, depois que desligou ficou olhando para o ícone do MSN. Há tanto tempo não entrava...

How I wish

How I wish you were here

Shaka sentiu o coração bater forte quando viu a mensagem “Fênix acabou de entrar”. Ergueu-se da cadeira e foi até a cozinha, pegando um copo d’água com as mãos trêmulas e voltando para o computador apôs beber cada gole como um náufrago. Por um tempo, ficou sem saber o que fazer, então resolveu matar sua curiosidade e também, embora jamais fosse admitir, a saudade.

Virgo diz: Oi. Quanto tempo. O que tem feito?

Shaka percebeu que digitou tudo de vez, mas nem se importou, estava ansioso demais.

Ikki viu a janelinha piscando e mordeu os lábios indeciso, mas não poderia simplesmente sumir. Virgo não merecia isso, embora sentisse algo estranho naquele momento, algo que apertava seu peito, como se falar com o amigo fosse errado.

Fênix diz: Oi. Muito tempo mesmo. Eu não tenho feito nada de muito importante. Na verdade, não tenho feito nada, e você?

Virgo diz: Eu visitei alguns amigos, mas não andei fazendo nada também.

Mentiu em parte, sentindo novamente vontade de chorar, mas se controlando ao máximo para evitar as lágrimas.

Virgo diz: Como você está? Está tudo bem?

“Péssimo, com vontade de gritar e chorar até a morte”, Ikki riu com seus primeiros pensamentos, mas digitou com calma.

Fênix diz: Não muito bem, mas sobrevivo. E você?

Shaka suspirou, já limpando as lágrimas que insistiam em descer por seu rosto.

Virgo diz: Estou indo também. Mas o que aconteceu? Como vai o namoro?

Aquilo era tão antiético. Isso era o mínimo que poderia dizer das próprias ações, mas não conseguia evitar. Sabia que não deveria fazer aquilo, que estava indo longe demais, mas... era inevitável.

Fênix diz: Não há mais namoro.

Virgo diz: Por quê?

Por quê? Ikki sempre se perguntou isso. Por que Shaka não foi capaz de perdoa-lo? Por que depois de tudo que fez e demonstrou sentir pelo loiro, ele não foi capaz? Por que depois de ter se entregado de corpo e alma àquela relação, àquele amor?

Fênix diz: Cometi um erro e ele não me perdoou por isso.

Virgo diz: Deve ter sido algo muito grave...

Fênix diz: Grave? Sim, talvez...

“Você ainda tem coragem de dizer ‘talvez’, Ikki? Como pode julgar uma traição como algo tão sem importância?” Ele teve vontade de ir até o moreno e gritar isso na cara dele.

Virgo diz: O que você fez?

Fênix diz: Enchi a cara e dormir com uma vadia que deu um jeito que ele descobrisse.

Virgo diz: E você acha isso pouco? Você o traiu. Traição nunca é algo sem importância, Fênix...

O loiro encontrou um jeito de demonstrar sua indignação.

Fênix diz: Não, não acho pouco, mas é pouco perto de tudo que sinto por ele! Tudo que demonstrei, tudo que fiz!

Os lábios de Shaka tremeram ao ler aquilo e mais lágrimas foram aos seus olhos.

Virgo diz: Sei que fez muito, mas será que ele não tem o direito de ser humano? Fênix, lembre-se de tudo que me contou. Essa pessoa que você julga como ingrata também fez muito por você, abriu mão de suas manias, de seu mundo antes impenetrável. Ele abriu a porta e deixou que entrasse, pra quê? Pra ser traído na primeira oportunidade!

Fênix diz: Não foi a primeira oportunidade! Você não sabe o que aconteceu, não sabe o que está falando. Quem é você para me julgar?! VOCÊ NÃO SABE DE NADA!

O moreno explodiu e desconectou o MSN, jogando o laptop na parede em seguida. Como Virgo ousava lhe dizer aquelas coisas? Por quê? Ele precisava de ajuda, de apoio, mas parecia que ninguém seria capaz de entendê-lo, ninguém! Sabia que era culpado, sabia que fez a maior merda da sua vida, mas não podia muda-la e naquele momento precisava apenas de um... amigo, e não de mais julgamentos e acusações.

Pegou a chave do carro, abriu a porta violentamente e saiu, precisava esfriar a cabeça ou se jogaria pela janela do apartamento.

Shaka percebeu que havia falado demais. Deuses! O que estava fazendo? Errou desde o momento que foi “falar” com ele. Aquilo não era justo, não era honesto. Apoiou os braços na mesa e chorou, chorou como nunca. Chorou mais do que havia chorado durante todo o tempo em que esteve na Índia. Ikki estava ali, tão perto e ao mesmo tempo tão distante. Eles estavam separados por um rio de mágoas e parecia que nunca alcançariam a margem do outro. O loiro sentiu-se péssimo, culpado. A única coisa que aquele contato fizera foi abrir ainda mais as feridas e fazê-las sangrar sem controle.

Year after year

Running over the same old ground

What have we found?

The same old fears

Wish you were here

Ikki voltou para casa já de madrugada. Bêbado e solitário. Shaka não conseguia dormir também, estava na varanda, mirando a noite escura quando começou a ouvir o som do saxofone, entoando notas melancólicas de blues.

O loiro permaneceu quieto, deixando que as lágrimas caíssem silenciosas na noite escura, até que o cansaço o venceu e ele acabou adormecendo ali mesmo.

Os dias seguintes foram uma repetição daquele ritual: uísque, lágrimas, música e solidão... Para os dois.

Tradução Wish You Were Here – Pink Floyd

Queria que Você Estivesse Aqui

Então, então você acha que consegue distinguir

O Paraíso do Inferno

Céus azuis da dor

Você consegue distinguir um campo verde

de um frio trilho de aço?

Um sorriso de um véu?

Você acha que consegue distinguir?

Fizeram você trocar

Seus heróis por fantasmas?

Cinzas quentes por árvores?

Ar quente por uma brisa fria?

Conforto frio pra variar?

Você trocou

Uma pequena participação na guerra

Por um papel principal numa cela?

Como eu queria

Como eu queria que você estivesse aqui

Somos apenas duas almas perdidas

Nadando num aquário

Ano após ano

Correndo sobre o mesmo velho chão

O que encontramos?

Os mesmos velhos medos

Queria que você estivesse aqui



Link: http://www.vagalume.com.br/pink-floyd/wish-you-were-here-traducao.html#ixzz2gNJ2nE6H

Notas finais
Obrigada a todos vocês que leram, comentaram, favoritaram, mandaram energia positiva!

♥ Muito obrigada mesmo!

Até a próxima!

Sion Neblina

Postado em 30/09/2013