Essa Estranha Atração
23 Essa estranha mágoa
Notas iniciais
Essa estranha mágoa
Capítulo 22
Shun andava de um lado a outro no corredor do hospital. Novamente, ele tentava falar com o irmão. Já fazia dois dias que não conseguia falar com Ikki. Da última vez que eles se falaram, o mais velho disse que tinha voltado a trabalhar e que se ele quisesse encontrá-lo deveria ir à boate. Entretanto, os horários de Shun no hospital estavam cada vez mais difíceis de conciliar com os de Ikki. O mais novo mandou uma mensagem para o irmão: Te espero para almoçarmos juntos, sábado.
Naquelas últimas semanas, eles tinham tornado-se muito mais próximos e lentamente parecia que recuperavam tudo que tiveram um dia. Embora o estado de espírito do mais velho ainda o preocupasse, o mais novo sentia que havia sutis melhoras em suas atitudes, ao menos elas deixaram de ser compulsivas e suicidas. Ikki agora se mantinha apenas melancólico, quieto, introspectivo na maior parte do tempo. Ele estava deprimido, deprimido por questões internas que eram difíceis para o empresário confessar, mas que Shun conhecia, e não somente pelo rompimento com Shaka.
O Amamiya mais novo soube que o indiano voltara de viagem. Tentou falar com ele por diversas vezes por telefone, mas o loiro não o atendeu. Deveria querer distância de tudo que lembrasse Ikki, mas o abandono do tratamento pelo escritor preocupava e muito o futuro psicólogo. Shun então resolveu que, naquela tarde, faria uma visita inesperada a Shaka.
Fazia sol naquele final de tarde e as pastilhas do prédio charmoso adquiriam um brilho bonito com o pôr do sol.
A recepção estava vazia, e Shun viu o porteiro conversando próximo a um jardim com uma moça que aparentemente era empregada de um dos apartamentos. Então ele seguiu diretamente para o elevador e apertou o botão do terceiro andar. Caminhou pelo corredor largo, repleto de canteiros de plantas. Percebeu que as plantas dos canteiros dos últimos apartamentos estavam secas, ou seja, nem Shaka ou muito menos Ikki as estavam regando. Ele tocou a campainha, aguardando que alguém a atendesse.
Shaka estava concentrado na tela do computador ou ao menos parecia estar. Ele estava evitando a internet desde a discussão entre Virgo e Fênix. Admitia que ficasse tentado a ir conversar com Fênix apenas para saber como Ikki estava, talvez pedir desculpas pelo que dissera, tentar se aproximar. Mas pensava também que o melhor era nunca mais falar com o ex-namorado. Nem pessoalmente, nem virtualmente. E azar se Ikki sentisse falta de Virgo, de um amigo, de alguém. Shaka queria mais era que ele sofresse mesmo. Às vezes sentia raiva do moreno, achava inadmissível que ele ainda o culpasse, isso machucava, feria como poucas coisas o feriram na vida. Ikki não podia responsabilizá-lo por ter um problema... Ele não tinha culpa de ser como era.
“Não me importa que ele esteja sofrendo, que ele morra que definhe até desaparecer!...” Tentava se convencer, mas... “Mentir é feio, Shaka...” seus próprios pensamentos eram sarcásticos consigo.
Ele levantou e se esticou. Fazia horas que estava sentado naquela cadeira. O indiano ia até a cozinha pegar um copo d’água quando a campainha tocou. Jack saiu em disparada, latindo, e Shaka estranhou, mas achou que provavelmente – e pela recepção de Jack – fosse Mu quem chegava, mas o editor tinha a chave, então por que tocaria a campainha?
Ao abrir a porta, ele se surpreendeu ao ver o irmão de Ikki. O rapaz o mirou, meio sem jeito, e ele ficou mais sem jeito ainda, porque Shun havia ligado várias vezes, e ele tinha se recusado a atender. Por mais que fosse grato ao jovem por tudo que ele fez por si, sabia que ele queria falar sobre o irmão e não se sentia forte para isso. Não queria falar sobre Ikki e, sobretudo, não queria saber de tratamento nenhum.
– Bom dia... – Shaka o cumprimentou em um tom desconfiado. – Tudo bem, Shun?
O mais novo sorriu — Sim. Como vai, Shaka? Podemos conversar por alguns minutos? Eu tentei falar com você várias vezes por telefone...
O loiro mordeu os lábios sem jeito.
– Andei meio ocupado esses tempos – desconversou sem paciência. – Como você está?
– Eu estou bem, mas não é sobre mim que quero falar – sorriu o mais jovem.
O indiano o mirou meio sem jeito, e Jack atacou a barra da calça do visitante, fazendo o loiro ter que segurá-lo, antes que ele fizesse um estrago.
– Desculpe... Ele só gosta do... – diria que Jack só gostava de Ikki e que atacava qualquer pessoa que se aproximasse que não fosse o moreno, mas calou-se a tempo, aquilo não interessava a ninguém. – Entre, por favor – abriu caminho para que o estudante passasse.
— Ele está zelando pelo dono, é compreensivo — disse Shun encenando tocar no cãozinho nos braços do loiro, mas recuando após vê-lo rosnar. Entrou no apartamento espaçoso e espantosamente limpo e organizado, nem parecia que alguém morava ali, e caminhou para o centro da sala. — Bem, foi exatamente para falar do Ikki que vim aqui.
– Imaginei, Shun. E até por isso mesmo eu não atendi suas ligações, achei que era um bom recado de que eu não queria ter essa conversa – direto e seco como só ele sabia ser.
Shun moveu os ombros, ruborizando, e decidiu não recuar.
– Eu sei, Shaka. Mas eu estou aqui e você terá que me ouvir. Teria que me ouvir cedo ou tarde. Olha, eu sei que isso não é da minha conta. O Ikki vai me matar se souber que eu vim aqui, mas... — encarou o rosto duro do escritor. — Você precisa fazer alguma coisa por ele. O Ikki está... Ele está muito mal desde que a relação de vocês terminou, e eu não consigo falar com ele há dois dias. Estou preocupado, você sabe onde ele está?
– Sente-se, Shun, por favor – Shaka indicou o sofá para que Shun se acomodasse. Era o mínimo que podia fazer.
– De fato, acho que isso não lhe diz respeito – o loiro disse mantendo sua postura fria e fingindo não se importar com o que o Amamiya mais novo dizia, mas no fundo, estava com medo de que a conversa entre Virgo e Fênix tivesse algo a ver com o sumiço do moreno. – Mas como sei que está preocupado com seu irmão, eu dou um desconto.
— Shaka, eu também não teria vindo aqui se não achasse a questão muito grave. Mesmo isso não me dizendo respeito, não posso pecar por omissão. O Ikki está acabando com a vida dele no meio de uma depressão profunda e por mais que nem ele e nem você queiram que eu me envolva em algo que “não me diz respeito”, como irmão..., amigo... Como ser humano! eu acho que é minha obrigação vir lhe dizer isso: ele ama você. Aliás, você é a única pessoa que ele amou na vida dele e mesmo sendo errado o que ele fez, acho que meu irmão já pagou o suficiente por isso, e já provou o suficiente que te ama. Não é possível que não se importe! Estou com medo de ter que tirar o corpo dele do fundo de um rio! – o mais novo exasperou-se e limpou os olhos que estavam um tanto úmidos.
A expressão de Shaka não se alterou com as palavras de Shun. Ele apenas sorriu com um tanto de amargura e disse:
– Seu irmão é forte. Ele vai sobreviver. Sobreviveu quando vocês se afastaram, por que não sobreviveria agora? Não seja dramático, Ikki deve estar melhor do que eu, tenho certeza.
O Amamiya mais novo o mirou meio atônito. Quem era aquele homem cruel? Ele não reconhecia o indiano. Ergueu-se, revoltado.
– Acho que errei ao vir aqui, mas eu achava que você o amava ou, ao menos, que um dia amou – declarou decepcionado. – Bem, era só isso, se você não se importa, acho que perdi meu tempo. Passar bem, Shaka.
– Passar bem, Shun – o loiro respondeu, gelado.
Shun foi embora, e o indiano ficou tentando absolver tudo o que ele dissera.
Ikki estava sofrendo àquele ponto? Shaka sabia que o moreno o amava, mas não pensava que o amasse tanto assim. Achava que após o término do namoro, ele fosse voltar à vida de antes, com várias garotas correndo atrás dele, mas ao que parecia algo havia mudado em Ikki. Mas ainda assim, sentia-se confuso e não sabia como agir. Sentia vontade de procurá-lo, perdoá-lo, gritar com ele, bater nele e ao mesmo tempo beijá-lo enlouquecidamente. Mas não conseguia. A mágoa ainda era muito forte.
A doença sempre fez com que fosse alguém desconfiado e que não acreditasse muito em si mesmo nem nos outros. Provavelmente por isso, pensasse que Ikki fosse superá-lo fácil, que fosse dar graças aos céus por não ter mais que aguentá-lo, nem ter que suportar as suas manias. E agora Shun aparecia e dizia que Ikki estava sofrendo daquela forma. Deveria acreditar? Por fora ele conseguia manter a pose de autossuficiência, mas por dentro... Era apenas um homem magoado, fragilizado por ser diferente dos outros. Diferente demais. E apenas Ikki o conhecia verdadeiramente.
Talvez por isso doesse tanto. Confiou tanto nele, se entregou tanto... E Ikki mentiu daquela forma. E Ikki o traiu.
Ele o traiu e mentiu. Isso não mudaria. Shaka tinha certeza que uma hora ou outra, o moreno iria superá-lo. Então resolveu não pensar mais nas palavras de Shun. Era doloroso demais ficar pensando em Ikki e mais doloroso ainda pensar que ele estava sofrendo. O loiro tinha vontade de se chutar por sentir vontade de abraçá-lo e dizer que deveriam virar aquela página. Ora, ele o traiu! Merecia o sofrimento que estava passando, se é que estava mesmo sofrendo. Não conseguia acreditar, não conseguia aceitar, não conseguia entender, não conseguia perdoar.
Os dias passavam lentos e doloridos, e eles permaneceram da mesma forma: cada um do seu lado do canteiro de flores mortas.
Naquela noite, quando chegou a casa, Shaka foi recebido por um Jack animado e um Mu desesperado.
– Vamos sair! – o tibetano exclamou nervoso.
– Eu acabei de chegar... – argumentou, surpreso.
– Se eu ficar mais dez minutos trancado nesse apartamento, vou enlouquecer! – Mu disse enquanto apertava as mãos nervosamente, havia dias que só trabalhava sem descanso.
– Você podia ter saído sozinho – o loiro retrucou indiferente.
– Por favor, Shaka, sozinho não tem graça e eu não conheço a cidade! – o editou praticamente implorou. – Não vamos longe, só dar uma volta, eu prometo que voltamos cedo!
– Você está precisando de um namorado – Shaka disse com enfado.
– Isso com certeza! e como vou conhecer alguém se fico trancado a maior parte do tempo aqui editando esse livro? – Mu fez beicinho.
– Já disse que fica fazendo isso o dia todo porque quer – Shaka irritou-se, mas acabou se dando por vencido diante da expressão desolada do editor. – Tá, eu vou só tomar um banho aí vamos pra algum lugar.
– Você não vai, Jack! – Shaka ouviu Mu exclamar para o cão que estava rosnando para ele como sempre.
O editor foi se trocar, animado, e uma hora depois os dois estavam chegando a um barzinho calmo, na orla de Atenas. Era um dos preferidos de Shaka por causa da música e do atendimento sempre cordial dos garçons e também porque ele não precisava ficar se desviando das pessoas. Ele e Mu se sentaram num local mais reservado, com vista para o mar e pediram um vinho antes de escolherem o que jantariam.
Shaka e Mu se entendiam bem. O tibetano aceitava com humildade as tiradas ásperas do indiano e não rebatia quando o loiro era arrogante ou mal-educado. Ele somente ria disso e calmamente explicava a Shaka que as coisas não eram como ele via, todavia sem choques. Preferia fugir de confrontos desnecessários.
Esse temperamento fleumático e o gênio amistoso foram fundamentais para que se criasse uma real amizade entre eles. Não havia interesses, segundas intenções, apenas uma amizade sincera e tranquila, longe de qualquer resquício de paixão. Entendiam-se, era assim que o loiro resumia a relação dos dois.
Conversa vai, conversa vem...
– Quando você vai perdoar o Ikki? – Mu perguntou depois de um longo tempo falando sobre a humanidade e relacionamentos falidos.
– Por que todo mundo resolveu se intrometer em assuntos que não lhes dizem respeito hoje? – Shaka retrucou, não muito disposto a iniciar uma conversa sobre aquilo com Mu.
– Porque eu vejo o quanto você está sofrendo e sou eu quem tem que aguentar esse teu mau humor dos infernos – Mu respondeu tranquilo, sem se importar com a aspereza do outro.
– Ninguém está te obrigando a ficar na minha casa — Shaka resmungou e se Mu ouviu, fingiu que não era com ele. – Eu não pretendo perdoá-lo – o loiro disse sabendo que o tibetano insistiria no assunto até deixá-lo louco. – Eu quero esquecê-lo apenas.
– E você é capaz? – sorriu de canto Mu e provou do seu vinho.
– Não teste minha paciência, Gyatso – disse entre dentes como numa ameaça.
– Shaka, eu vi o vídeo, lembra? O Ikki estava visivelmente bêbado e não parecia pensar nem um pouco. Eu ainda acho que ele aguentou bastante tempo, levando em consideração a vida que você me disse que ele tinha antes. Ele teve um deslize, cometeu um erro, pisou na bola, fato! Mas ele se arrependeu e pediu perdão, você mesmo me disse. Acho que todos merecem uma segunda chance, principalmente as pessoas que amamos.
– Eu não sei se conseguiria confiar nele outra vez...– confessou depois de um suspiro. – Um simples deslize – riu amargo. – Até parece que foi algo banal. Minha dor não é banal, Mu.
– Sei que não foi banal. Mas também sei que você o ama. Mesmo se não der certo, se não conseguir confiar mais e vier a terminar tudo depois de um tempo, pelo menos poderá dizer que tentou e virar essa página de uma vez da sua vida. Do contrário, você sempre estará pensando: "E se...?”.
Shaka esboçou um sorriso, e Mu franziu a testa sem entender o motivo.
– Ikki cairia morto se soubesse que você está me incentivando a voltar pra ele – o loiro explicou com ironia.
O editor fez uma careta.
– Você não faz meu tipo, Shaka. – falou com um olhar ladino. – Sério, nós dois nunca daríamos certo. Não sei por que seu ex-namorado implica tanto comigo. Vê-se de longe que não temos nada a ver um com o outro.
– Ele implica até com o vento – fez um gesto de desdém, o indiano.
O garçom voltou naquele momento e interrompeu a conversa dos dois. Eles não voltaram a falar de Ikki naquela noite, mas as palavras de Mu se juntaram as de Shun, e Shaka começava a hesitar em sua determinação de manter-se longe do ex-namorado. Não podia negar que o amava. Sim, amava. E queria muito estar perto dele. Sim, queria. Mas era tão difícil...
Eles voltaram cedo para casa, já que Shaka tinha que acordar cedo no dia seguinte. Mu, mais animado por ter espairecido um pouco, ria enquanto contava sobre uma “saia-justa” que viveu no aeroporto ao chegar a Atenas. Shaka ouvia com atenção e até ria das bobagens do tibetano, mas ao chegar ao corredor, estancou: Ikki estava parado diante da porta do apartamento e parecia procurar as chaves de casa.
O tempo pareceu parar. Os olhares se encontraram, e eles ficaram um longo tempo assim: parados e mudos. Apenas se encarando. Mas ao perceber que era observado, Ikki virou para o próprio apartamento e enfiou a primeira chave que pegou na fechadura. Seu peito doía tanto, doía demais ao ver Shaka ao lado do editor. Depois de tanto tempo sem vê-lo, aquilo era torturante. Ele não queria olhá-lo, ele não queria vê-lo nunca daquela forma. Parecia que o maldito Mu finalmente tinha conseguido o que queria: ficar com o loiro.
Shaka ficou parado enquanto Mu o mirava meio sem jeito, esperando que ele continuasse a andar, coisa que o loiro não fez.
– Vai entrando e põe comida pro Jack, Mu – Shaka pediu ao editor que o atendeu prontamente, entrando no apartamento sem nem olhar para Ikki. Tinha certeza que o moreno o mirava com aquele olhar de "morra, lagartixa roxa!" e também não queria interromper uma possível conversa entre aqueles dois. Estava mais do que na hora deles se acertarem, pensava o editor.
– Tão cedo em casa – o loiro comentou assim que ficou a sós com o ex-namorado e não imaginou que sua voz, que inicialmente havia desaparecido, retornaria tão sarcástica. Aproximou-se mais dele, hesitante. – Imaginei que estivesse trabalhando – jogou conversa, examinado o outro com atenção. Assustou-se com a aparência do moreno. Ele estava visivelmente mais magro, a barba por fazer, os olhos marcados por olheiras profundas e com roupas que desalinhadas. Ikki, como bom leonino, sempre prezou por sua aparência e agora... Parecia ter envelhecido 10 anos.
O empresário ouviu a voz do ex-namorado, mas não se virou para ele, embora não pudesse negar o arrepio que sentiu na espinha, ao ouvi-lo assim, de tão perto. Tanto tempo que eles não se encontravam... Não esperava que apenas a voz de Shaka fosse mexer tanto consigo. Mas a tristeza e o ciúme que sentiu ao vê-lo ao lado do tal editor superavam e muito a vontade de abraçá-lo e, mais uma vez, gritar que o amava e pedir desculpas. Ele continuou de costa, trêmulo, tentando abrir uma porta que não colaborava com seus esforços.
– Pois é, não tenho ido muito à boate — respondeu sem vontade, ainda tentando insistentemente abrir a bendita porta. — Não tenho saído muito de casa... — completou balançando insistentemente a chave – Ao contrário de você, ao que parece..., abre porcaria! – irritou-se chacoalhando o chaveiro e nem percebendo que enfiara a chave errada na fechadura.
Shaka teria rido da cena: Ikki brigando com as chaves. Porém, a situação era tensa, e ele permaneceu sério.
– A vida continua – o loiro respondeu. – Me cansei de ficar escondido debaixo do cobertor.
– Bom pra você – Ikki murmurou, continuando a tentar abrir a porta.
Com uma impaciência que lhe era incomum, Shaka se aproximou dele e tomou o molho de chaves das suas mãos, abrindo a porta rapidamente, entrando no apartamento em seguida, sem esperar por um convite. Não sabia por qual razão estava fazendo aquilo. Talvez só quisesse constatar com seus próprios olhos se o que Shun havia dito era mesmo verdade.
– Parece que um furacão passou por aqui... – ele comentou admirado, observando o local. O apartamento estava de cabeça para baixo. Roupas espalhadas, resto de pizza e latinhas de cerveja pelos cantos. – Você nunca foi muito organizado, mas conseguiu bater o recorde – é, talvez ele estivesse mesmo sofrendo com a separação, ele pensou.
O loiro se virou outra vez e encarou o outro, procurando por algum sinal de arrependimento no olhar de Ikki. Tudo o que conseguiu ver foi a sombra do homem que conheceu, daquele jovem cheio de vida e disposição. O que estava fazendo com ele? Não! Não era sua culpa!
O loiro retorcia-se com sentimentos contraditórios.
Ikki encarou o escritor, atônito por um tempo, e deixou escapar um sorriso que além de ironia continha muito de amargura.
— A vida continua, não é, Shaka? Essa é minha vida agora. Eu espero mesmo que você siga a sua da melhor forma — falou e desviou o olhar, porque era doloroso pensar que a vida do loiro seguia ao lado de outra pessoa, embora fosse orgulhoso demais para suplicar por qualquer coisa. — E o tratamento? Continua? Acho que sim, não é? Ao contrário, não sei... Talvez a vida não estivesse continuando de forma tão... completa! — falou e riu nervoso, sem conseguir encarar o vizinho; ignorando todas as demais observações feitas por ele. Seus pensamentos doíam.
Shaka cruzou os braços e desviou o olhar também, pensando no que dizer. Então era isso que Ikki pensava de si? Que ele já estava na cama de Mu, que ele pularia de uma cama a outra como se isso não fosse importante, como se todos os seus impedimentos fossem apenas físicos, como se ele nunca o houvesse amado. Isso doeu, doeu muito, doeu terrivelmente.
– Estou dando um tempo do tratamento... – murmurou com a voz fria.
Sim, Camus era um ótimo terapeuta, mas o indiano não conseguia encontrar motivação para continuar, após a volta da Índia. Mu vivia dizendo que ele precisava se curar por si mesmo, mas na verdade isso nunca foi uma possibilidade até Ikki. Na verdade, o moreno sempre foi sua única motivação para tentar deixar suas manias, porque Shaka convivia muito bem com elas até ele aparecer, ao menos achava que convivia. O moreno não era o único a sofrer ali. A diferença era que Shaka estava escondido atrás de uma redoma e fingia que tudo continuava igual e era melhor deixar dessa forma. Ele já estava acostumado a se proteger, a vestir aquela couraça contra o mundo. Só estava voltando a ser quem sempre foi. Nada mudou, ele apenas retornou à redoma em que sempre viveu.
– Aposto que as garotas não andam gostando dessa bagunça – jogou, na tentativa de descobrir algo, sem se dar conta que isso iria ferir o moreno mais uma vez. – Ou talvez gostem. Tem gosto pra tudo nessa vida... – completou com desgosto.
Ikki piscou e balançou a cabeça em desacordo. — Você é idiota ou o quê? — resmungou irritado. Não ouviu nada do que Shaka disse além de que ele havia parado o tratamento. — Esse tratamento é a possibilidade de uma vida normal para você, uma vida de verdade! O que quer? Passar o resto da vida com nojo de tudo? Está sendo egoísta e irresponsável... Aliás, egoísta como sempre e irresponsável como nunca! — explodiu e depois respirou fundo, tentando conter a própria irritação por saber que havia lutado tanto e que agora Shaka abandonava o tratamento daquela forma. — Se não pode se cuidar por você mesmo, ao menos faça isso em nome das boas lembranças do que vivemos. Sei que o que eu fiz apagou qualquer coisa boa que aconteceu entre a gente, mas... Bem, eu pensei que se curar fosse importante pra você...
– Era importante... – o indiano disse em um tom ausente. Era importante antes, porque ele queria estar com o namorado sem nenhuma reserva. O moreno o chamava de egoísta... Se ele soubesse o quanto lutou para aceitar que tinha a doença, por causa dele! O quanto tentou se curar por ele. O escritor sabia que devia querer ficar curado por si mesmo, mas ele não conseguia. Precisava de Ikki e agora... Agora não tinha ninguém.
– Vou pra casa, eu não deveria ter entrado aqui. – Disse magoado. – Você nunca entendeu todo o esforço que eu fiz para superar meus próprios limites, Ikki. você fez muito? Fez, reconheço! mas será que entende o quanto mexi em tudo que mais acreditava por sua causa? O quanto me esforcei para ficar ao seu lado? Para abrir mão de fechar as portas sem virar 25 vezes a chave na fechadura só para não assustá-lo?! O quanto eu fiz para conter a necessidade de limpar as mesas dos restaurantes cada vez que uma gota de molho caía numa toalha?! Para parar de limpar tudo com álcool o tempo todo? Não! Você não entende! Você acha que apenas você sofre, que apenas você se esforçou! No final! Eu sempre fui um grande fardo! Um terrível e amargo fardo! E agora você me chama de egoísta! Eu que deixei que você e mais ninguém me tirasse da segurança do meu mundo! Que entrasse e abrisse a janela, que... que fizesse parte... que me visse como jamais permiti que ninguém visse! Eu! Ah, dane-se, seu canalha egoísta!
Shaka disse tudo isso e caminhou em direção à porta.
Ikki ficou calado, escutando tudo aquilo. Sim, ele sabia dos esforços do loiro. Sim, ele sabia que não era fácil. Mas Shaka nunca entenderia, e ele nunca conseguia encontrar as palavras certas.
— Espera... — O moreno não deixou que o indiano saísse, segurou-lhe o braço, mas ao notar e expressão de repulsa de Shaka, recolheu a mão. Era evidente que o escritor passara a sentir nojo dele como de todos, se é que ainda sentia nojo de todos, talvez não sentisse nojo do tal Mu... — Eu não quis dizer que... Ah, esquece, eu nunca fui muito bom com as palavras. Mas eu quero que saiba que... — engoliu a angústia — Eu torço para que fique curado, para que fique bem, loiro... — desviou o olhar e se afastou dele, dando-lhe as costas e esperando que ele saísse, antes que não conseguisse mais manter a pose de forte e desabasse na frente do vizinho.
Shaka estremeceu quando Ikki o tocou. Não estava pronto para aquele toque. Temeu se desmanchar inteiro e abraçá-lo. Ainda não podia fazer isso. Não depois da forma como foi traído e incompreendido. Talvez a incompreensão machucasse mais que a infidelidade. A dor não sumiria tão rápido, e o fato de Ikki estar sofrendo não o eximia da culpa. Por isso, ele lançou aquele olhar de repulsa ao moreno; porque sabia que isso o afastaria de imediato. Precisava daquilo ou se atiraria nos braços dele, e seu orgulho e sua mágoa não lhe permitiam isso. Não ainda.
As palavras de Ikki soaram sinceras, mas ele não disse nada. Não tinha mais forças para retrucar. Assim, ele deixou o apartamento em silêncio e em silêncio o moreno continuou quando a porta bateu.
Continua...
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