Esquizo

2 Capítulo 2


Notas iniciais
Feliz Natal!

"Eu não me lembro de você quando te vejo em Downtown".

Os dois podiam se compreender, os dois podiam até se aceitar. A sobrinha da professora e o rapaz alienado, duas pessoas completamente atípicas — e Naruto logo descobriria como a garota à sua frente era atípica, oh, como descobriria -, naquele mar de normalidade. Hinata o encarava com um tanto de ódio e todos encaravam os dois, uma situação um tanto vergonhosa, de certa forma. Naruto respirou fundo para relaxar mais, se sentando em sua carteira. Hinata apenas continuou o olhando, até que um sorriso se formou em seus belos e convidativos lábios, era um sorriso quase meigo, de uma forma doentia.

– Hyuuga-san foi diagnosticada com Esquizofrenia — Kurenai falou. — Espero que vocês sejam compreensivos e cuidem bem dela.

Naruto arregalou os olhos, em espanto: Esquizofrenia era um transtorno mental severo que influencia os afetados em sua relação com a Realidade. Pessoas com tal transtorno geralmente passam por delírios, alucinações e fala desorganizada (ou incompreensível). Tal problema era tão sério, que o nome não-científico para tal era "loucura". Naruto sentiu vontade de rir, ela era mesmo louca? As pessoas ao seu redor falavam sempre em voz alta, não entendendo muito bem a situação. Haruno Sakura, a representante da classe, se levantou rapidamente, ficando com a feição séria. Sakura era uma garota de estatura mediana e magra, com uma pele clara e um par de olhos esverdeados, mas havia algo bem diferente nela: seu cabelo curto e rosado.

– Mas Kurenai-sensei, não é perigoso alguém assim ficar na classe e estudar? Ouvi dizer numa entrevista que gente com essa loucura pode ser perigosa — era o que ela dizia, sem se importar com o olhar triste de Hinata. Pelo o visto ela nunca seria aceita, afinal.

– Bem, Haruno-san, eu entendo o seu ponto de vista, mas de uns tempos pra cá, o quadro de Hyuuga-san se estabilizou e os surtos são bem menos frequentes. Acredito que possamos controlar melhor o quadro — Kurenai respondia, com a voz fria e calma, como era típico dela.

– Eu só acho que de maluco aqui já basta o dobe — disse outra pessoa, olhando para Naruto de maneira zombeteira. Era Uchiha Sasuke, o rapaz mais popular da escola: com uma pele clara e com um rosto de ótimos traços, olhos cor-de-ônix e um cabelo negro arrepiado para trás. Ele era muito belo, se alguém fosse comparar a beleza dele com algo, certamente compararia com a de um demônio da sedução, que arrastava a alma de mulheres para o mundo dos delírios.

Kurenai suspirou pesadamente. Aquilo seria muito difícil, pelo o visto. Hinata parou de se importar, digo, ela cessou realmente de pensar sobre aquelas pessoas, pois o seu olhar se focava unicamente em Naruto, os dois pares de olhos se cruzando, fazendo com que um segundo parecesse uma versão da eternidade. Naruto logo desviou o olhar, ele realmente não conseguia encarar pessoas nos olhos por muito tempo. Hinata sorriu novamente, seus sorrisos eram tão lindos e cheios de graça... como se tal gesto fizesse-a parecer ainda mais bela e louca, como se ela ficasse com um frescor de vitalidade quando sorria de maneira maliciosa — e seus sorrisos sempre eram maliciosos.

Naruto ficou apenas olhando para a mesa da sua carteira, parecia que a aula estava prestes a terminar. Hinata começou a caminhar lenta e calmamente até uma carteira vazia na mesma fileira de Naruto, todos olhavam para ela, todos temerosos. Exceto Naruto, ele estava fatalmente interessado. Ele não havia se enganado, havia um brilho de loucura em seus olhos que a denunciava e havia uma certa elegância em seu andar, uma certa aristocracia e calma repleta de paciência. Completamente sedutor. Seu longo cabelo azulado balançava no ar, Naruto tinha certeza de que ele tinha um cheiro ótimo, mas decidiu não se prender a esse pensamento.

– Hina... digo, Hyuuga-san, o que você... — Kurenai-sensei ia começar a falar, mas se deteve ao ver que sua recém-aluna já havia se sentado. Hinata jogou sua mochila no chão, preparada para ser uma boa aluna.

"Que garota estranha", Naruto pensou, mas por um instante percebeu que gostava bastante da estranheza dela.

Kurenai apenas mantinha o olhar estático, sem saber o que dizer ou fazer. Antes que ela pensasse em qualquer coisa para realizar, o sinal que indicava o início da pausa para recreação soou, o que fez do esforço de Hinata para se sentar algo inútil. Ela, Kurenai, bufou irritada.

– Bem, estou saindo — ela disse. — Sejam gentis com a nova colega de vocês! — e foi andando até a porta, até abri-la e atravessá-la.

Hinata permanecia com um ar calmo, fechando os olhos para respirar melhor e em seguida os abrindo, pegando algo de dentro da sua mochila. Era seu bentõ, com sua refeição para o almoço. Ela o abriu e viu o que sua empregada havia preparado: arroz, alguns vegetais e pedaços de carne e frango perfeitamente cortados. Ela deu um sorriso, estava com fome. Enquanto ela comia, percebeu que uma pessoa se aproximava, não apenas uma, como um grupo. Naruto, que estava algumas carteiras atrás, apenas observava tudo friamente, já imaginando que ela passaria pelas as mesmas situações que ele. "Uma pena", ele pensou.

– Ei, é verdade que você é esquizofrênica? — a líder perguntou. Era uma garota muito bonita, digna de ser modelo, com uma pele clara e redondos olhos azuis, assim como um cabelo dourado em rabo de cavalo. O nome dela era Yamanaka Ino, simplesmente a maior bullie de toda a escola e paradoxalmente a melhor amiga de Haruno Sakura, representante da classe.

Hinata levantou a cabeça lentamente. Ela era mesmo bonita, embora estivesse com uma aparência desleixada, pois marcantes olheiras contornava os seus olhos, já que ela não dormia muito bem. Lentamente e lentamente ela levantava a cabeça, até encarar Ino com seus olhos completamente sem vida. Ela ligeiramente se virou para trás, apenas parcialmente, e encarou Naruto. Ela estava realmente intrigada, ele também vivia em Isnopsia, podia notar isso apenas olhando para os olhos dele — sempre com um brilho de distanciamento da Realidade, como se sua alma estivesse longe, em um reino desconhecido e fantástico, mas para Hinata, um reino de horrores. Aquilo era Isnospsia.

Ino acompanhou o olhar de Hinata, também encontrando Naruto com seus olhos. Ela sorriu maldosamente.

– Ah, não ligue pra ele, ele é só o lesado da classe. Ninguém fala com ele e ele não fala com ninguém — Ino dizia. Uma das pessoas que estava com ela disse algo, maliciosamente, como "Nossa, Ino-chan, como você é má!", mas não era uma repreensão. Ela dizia de uma forma brincalhona e maliciosa.

– Entendo — Hinata diz, quase que na mesma hora. — Então viver em Isnopsia automaticamente faz de você um lesado.

Ino tomou um susto, ficando até mesmo um pouco corada — o que lhe dava um aspecto bastante belo -, mas logo voltou a si, voltando a sorrir, mas daquela vez de uma forma assustadora.

– O que é Isnopsia? Ah, que se dane, deve ser mais uma das coisas que só vocês, loucos e lesados, compreendem — Ino afirma. Hinata endurece o olhar por alguns instantes, cerrando o punho. Mas ela logo pega seus hashis e começa a comer um pouco da comida que possuía, passivamente.

– Sim, que se dane mesmo — Hinata disse friamente, logo após da segunda engolida de comida.

Ino não sabia como reagir, então apenas sentiu ódio. Seus olhos se arregalaram e assumiram uma aparência animalesca, ela apenas queria fazer a Hyuuga à sua frente sofrer. O corpo de Ino tremia com vontade de dilacerar o pobre alvo, ela havia sido encurralada, não podia fazer nada. Ou talvez pudesse? Em sua mão direita ela segurava uma latinha de suco de manga, então ela teve a genial — ou nem tanto — ideia de estragar a alimentação de seu alvo, simplesmente jogando todo o suco no bentõ da Hyuuga, misturando toda a comida com o liquido.

– Ops, desculpa, deixei cair — Ino dizia, com um sorriso cruel nos lábios.

Mas nada. Nada parecia afetar a jovem Hyuuga, que permanecia com a face tranquila e inexpressiva, como se não sentisse absolutamente nenhum tipo de dor. O seu olhar era vago e sereno, com um brilho de arrogância, mesmo que ela jamais subjugasse ninguém. Ela não sorriu, não chorou e muito menos falou, apenas permaneceu olhando para o nada, como se estivesse em outra existência. Ino sabia que se a tocasse, provavelmente ela nada faria, o que era um fato bem assustador. Naruto já sabia o que fazer, ele viu tudo e ouviu tudo, já que estava apenas quatro carteiras atrás. Ele se levantou, pegando seu bentõ, e se dirigiu até aquelas pessoas. Ele não era de fazer isso, não era de se mover por alguém, mas estava tão fascinado por Hinata que o faria (mesmo que todas as vezes que ele se fascinara por alguém tenham durado pouquíssimo tempo).

Ao parar em frente à carteira da Hyuuga, ele lhe estendeu o bentõ.

– Com licença — ele dizia, com a voz fria, sem demonstrar um pingo de ternura, mas logo após sorriu. — Pode ficar com o meu, garota de Isnopsia.