Esquizo

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Deixem reviews.

Alguém já parou para pensar e refletir sobre sua máscara? Todos possuimos uma, não? Precisamos interagir socialmente, ou ao menos essa é a teoria – é natural, é parte da vida, essa troca emocional que todos dizem que qualquer pessoa precisa ter. Por isso a máscara. Se todos mostrassem a si mesmos, seus pensamentos e sentimentos mais profundos, ninguém se aceitaria. Pessoas não aceitam diferenças. A máscara social, para causas sociais... aprendemos a construir uma mentira para a aceitação, como no típico caso do adolescente destrutivo e baderneiro que é calmo e gentil nos dias de igreja, embora nos outros dias da semana use drogas, ouça músicas vulgares e moleste garotas até mesmo mais jovens.

E quando alguém não se adequa? Quando uma pessoa se torna ou ao menos demonstra ser incapaz de atuar, de “agir socialmente”? Ora, uma pessoa assim está destinada a sofrer, pois o próprio mundo passa a ver que o indivíduo tem um brilho de diferença. E tal diferença costumeiramente é vista como inferioridade. Quem não interpreta e esconde a si mesmo, a sua face, por detrás de uma máscara passa a ser visto como um ser defeituoso.

Uzumaki Naruto era um rapaz visto dessa forma desagradável, mas o mesmo já estava acostumado. A luz da sala de tortura psicológica iluminava o seu rosto, pode-se dizer que até mesmo o aquecia, embora ele tivesse que pagar com a “sanidade” dos seus olhos, que pareciam – e realmente estavam – quase pedirem por um homicídio, tamanho o pavor que o branco, justamente uma cor tão limpa, lhe causava naquele momento. Terrível, tenebroso efeito, que lhe ocasionava adormecimento de todos os seus sentidos. Somente a luz não lhe causaria pavor, o problema era que ela – branca – estava combinada com o calor de outras pessoas. Mais de uma dezena delas, enfileiradas, categorizadas por números de chamada.

Céus, como ele odiava o calor humano! O pobre Naruto não podia suportar, algumas pessoas poderiam achá-lo exagerado, mas a angústia que ele sentia perto dos demais era intolerável. Exatamente por isso que ele não conseguia usar sua máscara, ele era aquele ser risível e visto como defeituoso. Naruto não sabia interpretar, então o local em que se encontrava era uma verdadeira sala de tortura, onde nada lhe era interessante, onde nada era novo. Onde as coisas simplesmente eram. Naruto sempre seria um indivíduo de pele bronzeada, um cabelo dourado/loiro e arrepiado, três marquinhas em cada bochecha que se assemelhavam ao bigode de um gato e um par de olhos azuis, mas com um diferencial de terem um brilho de distanciamento do mundo, como se ele estivesse em uma existência afastada, nunca perturbada ou intimidadora, onde nada nunca lhe era secreto.

Era com esse mundo que ele se preocupava, por isso se mantinha distante do “mundo das pessoas” – um constructo físico e social que lhe era enigmático -, em que sonhos sempre eram doces, mas a realidade sempre amarga. Não era mais simples viver apenas no mundo dos sonhos eternos? Naruto odiava o mundo que seus irmãos de espécie criaram: uma cópia do mundo dos sonhos.

Pessoalmente, a face de Naruto possuía traços bastante infantis e frágeis, o que era compreensível, considerando que ele era apenas um garoto de treze anos, embora com pensamentos e ideias complexas em demasia, isso porque ele se apoiava em seus pensamentos, em seu mundo dos sonhos eternos. Ele estava sentado numa carteira de colégio e não havia escapatória: para onde ele olhasse, haviam pessoas fazendo sempre as mesmas coisas: cochichando, anotando e rindo. Curiosamente, aquela era a sala de aula de uma escola pública japonesa. Naruto não se interessava pelos os cochichos de seus colegas, todos enfileirados de maneira sistemática. Pelo o que ele entendeu, parecia que estava chegando uma garota nova naquele lugar tão social.

A professora explicava a matéria, era Ed. Artística, então logo ela pediria para seus alunos desenharem ou pintarem algo, o que era bastante normal. Naruto foi capaz de prestar atenção na aula dada, embora fosse uma atenção limitada, pois uma parte dele estava curiosa... mesmo que fosse uma parte minúscula.

- Ei, ei... vocês sabiam que a garota nova teve educação especial? – ele ouviu uma voz, dentre muitas outras, uma voz de menina.

- Sim – uma voz masculina e desanimada responde, parecendo já saber absolutamente de tudo -... só espero que ela não seja retardada – eles riram. Naruto quase vomitou.

Eles eram tão superficiais, em seu mundo de normalidade! Os lábios do rapaz se contorceram de uma forma sem prazer e, por mais de um instante, ele torceu para que a garota nova fosse alguém excepcional, mas logo ele largou tal pensamento. Seria apenas mais uma garota jovem que flertaria com rapazes e conversaria sobre a última música da moda com outras garotas.

***

Mas ela era apenas uma menina desajeitada que demorou demais para se arrumar mais cedo, portanto acabou chegando em seu destino mais tarde do que deveria. Desajeitada e medrosa, no sentido de ter medo de como as pessoas reagiriam em relação a ela. Ela já estava correndo no corredor da escola, o que era totalmente proibido, segurando firmemente a mochila em seus braços. Ela com certeza não causaria uma boa impressão, talvez todos simplesmente fossem terríveis com ela, como de costume. Os seus olhos cor-de-pérola fraquejaram, se tornando trêmulos e a fazendo parar de correr. Mas ela logo retornou os passos, segurando a mochila mais levemente naquela vez.

***

Mas não seria engraçado? Se ela fosse uma pessoa completamente anormal, que não se adequasse. A professora Yuhi Kurenai pediu para a representante da classe passar folhas em branco para uma atividade de desenho. Kurenai era uma mulher muito bonita, com a pele bastante clara, bochechas rosadas, olhas grandes e redondos com íris avermelhadas... era realmente bem atípica, com um cabelo negro que ia até os pouco acima da cintura. Por alguma razão, aquela mulher era bastante afeiçoada a Naruto, sempre o defendendo quando este era alvo de zombarias.

Sim, zombarias. Naruto realmente era desajeitado para lidar com pessoas, possuindo o terrível hábito de nunca olhar nos olhos de alguém enquanto conversava; sua fala era desorganizada e seu corpo fraco, ele era alguém sem brilho. E odiava quando não podia viver em seu mundo dos sonhos eternos – o que seria esse mundo? Ele estava prestes a refletir sobre, quando ouve batidas na porta... “toc, toc, toc”... uma onomatopeia simples para definir o ruído de batidas leves com o punho na porta de madeira. A atenção de todos vai para essa porta, todos parando de desenhar a figura de seus livros escolares para verem finalmente quem era. A professora Kurenai se dirigiu em passos não tão breves até a porta, inicialmente se levantando com certa preguiça da sua mesa. Todos estavam curiosos e nervosos com o som do salto alto da professora levando seus pés em segurança até o seu destino.

O destino era todos conhecerem essa nova pessoa? Provavelmente, ao menos todos os que ali estavam. Naruto ergueu levemente a cabeça, tendo um mini-susto ao ver que Kurenai abria a porta, ninguém conseguia deixar de olhar para a mesma direção que o rapaz. E a porta finalmente se abriu, com um barulho de rangido intimidador. Naruto arregalou os olhos, num gesto de puro espanto, um espanto até bom, quando ele parou para pensar minutos mais tarde, mas naquele exato momento era neutro. Apenas espanto ao ver quem era... não que ele não tivesse pensado que com certeza a pessoa que passaria por aquela porta seria a aluna nova, ele apenas não esperava que ela fosse tão...

“Linda!”, ele não foi capaz de conter esse pensamento, ficando um tanto aéreo ao perceber que haviam dois protagonistas. Dois protagonistas de uma trama cósmica, sendo que todos os outros garotos e garotas dali aparentaram desaparecer. Marcel olhava unicamente para a porta aberta, podendo contemplar uma garota com sua aparente idade, mas com uma pele mais clara, beirando ao pálido; redondos e grandes olhos cor-de-pérola que pareciam ter um brilho de loucura, mas algo muito subliminar, muito oculto. Os traços de seu rosto eram curiosamente delicados, mas sua feição séria a tornava um tanto madura. Seu cabelo era longo e liso, de cor azulada-escura. Naruto riu por dentro, imaginando que se ela usasse um par de óculos, pareceria uma tremenda intelectual... o jovem realmente achara a beleza atípica dela seduzente, mas ela parecia o ignorar, seu olhar estava direcionado para outro lugar, ele estava...

Ele estava...

Naruto instintivamente percebeu o que lhe faltava notar e, num gesto igualmente instintivo, se levantou da cadeira, batendo as mãos na mesa. Todos, absolutamente todos, olharam para ele.

- Você também vive no mundo dos sonhos eternos! – ele exclamou e em seguida, cerca de alguns segundos depois, tapou a boca com ambas as mãos, percebendo a besteira que acabara de dizer. Todos os colegas da sala, juntamente da professora, encararam-o como se ele fosse um anormal. Era angustiante para ele ter todos aqueles olhares que diziam: “oh, é o garoto estranho de novo! Tinha que ser ele”, mas o pior foi que ele havia se esquecido de que ele e a garota eram os protagonistas do Cosmo naquele momento. Quando ele se lembrou, deixou de dar importância a todos aqueles olhares e tudo que havia era o par de pérolas oculares da garota, que o fitavam de maneira perplexa... e foi assim por cerca de quatro longos e silenciosos segundos, pois após isso foi possível ver apenas raiva ali. Na verdade, ódio. Ela o encarou com um ódio extremo que o devorava de dentro pra fora.

E isso durou sete longos segundos.

- Você, maldito... – ela disse, cerrando os punhos, e ele realmente estranhou. “Maldito” não era uma palavra muito comum para um xingamento. – Não tente viver como um habitante de Isnopsia! – ela então apontou o fino e longo dedo indicador para ele. Ao olhar para a face dela, ele viu um ar autoritário, autoridade de quem tem certeza do que diz.

“Isnopsia...”, Naruto refletiu, aquele nome não lhe era estranho. Em seguida, sorriu desafiadoramente, seus lábios fazendo uma curvatura um tanto maquiavélica, e então abaixou o olhar, fitando a sua mesa. A professora Kurenai ficou com o semblante preocupado, olhando para a garota – que mesmo chegando terrivelmente atrasada, ao menos usava o uniforme da escola. – Ela, Kurenai, precisava explicar a situação para todos, mesmo que fosse doloroso, que ninguém entendesse.

- Alunos! – a professora exclamou, em seguida saiu de perto da porta com passos normais, mas não sem antes fazer um gesto com a mão direita para a garota nova segui-la.

Ambas as belas mulheres ficaram diante de todos os alunos, em frente ao quadro. Aqueles vários pares de globos oculares encaravam-as, fato que normalmente intimidaria a garota nova da sala. Ela estava como todos, não? Usava uma camisa feminina branca com detalhes em azul e uma calça jeans negra, que acentuava suas pernas não muito grossas. Ao menos a camisa era do uniforme escolar.

- Essa é a nova colega de vocês, Hyuuga Hinata – a professora dizia, mas em seguida sua voz fraquejou, como se algo atingisse sua fala, como se liberar sonoridade fosse uma missão difícil em demasia. – Ela também é minha sobrinha.

Essa última frase foi o suficiente para abalar a estrutura da sala, quase ninguém se viu capaz de permanecer calado. Praticamente todos passaram a cochichar coisas típicas, perguntas comuns, do tipo “como assim?”, “ela é sobrinha da professora?”. Perguntas nada excepcionais. O único que pareceu ficar calado foi Naruto, mas ele não estava menos surpreso, ficando com os olhos arregalados por alguns instantes, que eram uma mini-versão da eternidade – pois Hinata também o encarava, mas sem expressão alguma. Ela olhava na direção dele, mas parecia ver além do Naruto habitual, ela via o Naruto que estava no mundo dos sonhos eternos.

Notas finais
[King Knight]: minha nova fanfic, baseada num projeto de livro meu.