Cidade Almas

Segundo dia, 17:13h.

O som vibrante do celular sobre a madeira rompeu o sono de Francis de maneira pertinente. Levantou-se num sobressalto tateando a cama, esbofeteou o pequeno aparelho levando-o ao chão.

– Droga!

Não era uma ligação, havia recebido um conjunto de mensagens que em sua maioria eram da operadora. Praguejou entre os dentes, mas antes de deletar o grupo inteiro, percebeu que apenas uma pertencia a um remetente desconhecido.

“Eu sei que está na cidade a procura do desconhecido. Encontre-me no antigo terminal rodoviário as 23:00h.”

“Ass: Ás”

Permaneceu estático mirando o visor a procura de uma resposta. Todas as suas fontes fizeram contato após sua requisição e não o contrário. Jamais alguém o havia procurado desta forma, até porque ninguém conhecia este tipo de trabalho.

Poderia ser uma armadilha, todo o seu trabalho poderia acabar naquele instante caso o pegassem. Balançou a cabeça negativamente.

– Não é nada, não é possível que seja. Eu não possuo rastros e nenhum deles conheceu o meu rosto – praguejou para si enquanto andava de um lado para o outro no quarto.

Mas Francis possuía a curiosidade mais alta do que seu poder de discernimento perante o perigo. Ser jornalista investigativo não era uma vida fácil, de modo que, acostumou-se ao clima de tensão. Arriscando toda a sua carreira e o que havia colhido de material até este momento, Francis decidiu pegar a informação e segui-la.

Pediu uma refeição no quarto e degustou-a calmamente enquanto se preparava para o encontro. Na bolsa manteve seu pequeno bloco de anotações, sua pistola e uma faca. Para gravações vinha utilizando o próprio sistema oferecido pelo smartphone, chamava menos atenção.

Passou as últimas horas preenchendo o espaço vazio a procura de algo sobre quem lhe havia contatado, descobriu que seu remetente possuía tantos dados quanto um fantasma. Bebericou o ultimo gole de café e depositou o copo na lixeira enquanto saía.

O frio cortante do lado de fora mal o afetava, o café de anteriormente era meramente pelo prazer do amargo em sua língua. A ansiedade gerava o calor necessário para afugentar o clima gelado. Antes de partir com o carro suas mãos tremeram e a dor que não se deixava esquecer mais uma vez se fez presente. Respirou profundamente, olhou para as suas mãos e por alguns segundos ela pararam. O carro deslizou lentamente para depois seguir viagem em uma velocidade razoável.

“Caso este seja meu último trabalho, terei ao menos a certeza de que essas mãos jamais me incomodarão.”