Esquecer me lembra você
3 Renovando lembranças que já não existem
Notas iniciais
–Bom dia! –Laura entra animada trazendo várias caixas consigo. Um sorriso cresce em seu rosto tornando-o mais iluminado.
–Bom dia. –Repondo me espreguiçando. –O que tem ai?
–Álbuns de família. –Com dois álbuns grandes nas mãos ela se senta ao me lado na cama.
Pego um de suas mãos e começo a folheá-lo enquanto Laura indica quem são as pessoas das fotos.
–Este é seu namorado David. –Ela aponta para um garoto em uma foto comigo. Ele é realmente bonito com seu cabelo castanho claro e seus olhos da mesma cor.
–Ele parece ser legal. –Concluo fazendo Laura rir.
–Ele é sim. Esteve aqui com você sempre que pode. Quando você acordou ele ficou doido para te ver, mas eu achei melhor esperar.
–Seria estranho ver agora mais uma pessoa que era parte importante da minha vida que eu não faço ideia de quem seja.
Laura não diz nada, apenas suspira tristemente e continua me indicando as pessoas das fotos.
À tarde o médico Topher vem me examinar.
–Amanhã a senhorita já será liberada para voltar para casa. Terá que continuar com os remédios e visitas regulares ao hospital, mas ao menos estará em casa com sua família. –No instante seguinte ele se arrepende de ter dito o que disse, mas já era tarde. Não fiquei magoada afinal eu não me lembro dos meus pais e pelo que sei Laura é toda minha família agora.
–Obrigada Doutor. –Ele acena com a cabeça e sai apressado, vejo uma que lágrimas se formaram nos olhos de Laura. Não a culpo, diferente de mim ela tem suas memórias sobre nossos pais. E além da perda recente agora terá que lidar com sua irmã adolescente desmemoriada: Eu!
Na manhã seguinte já estou me despedindo desse quarto deprimente de hospital. Visto as roupas que Laura trouce para mim e espero ela assinar a papelada na recepção. Enquanto espero vejo uma mulher gritando com uma recepcionista. Ela quer ver seu filho acidentado, mas antes a recepcionista afirma que ela tem que esperar a liberação de algo que eu não sei. A mulher chora e grita, mas nada comove a fria recepcionista de branco. Ninguém tenta acalmar as coisas, como se isso fosse rotineiro e normal. Acho que talvez seja afinal não me lembro de como é um hospital. Não me lembro de nada na verdade.
***
Sigo de carro com Laura pela cidade que realmente é muito bonita. Muitas árvores, um enorme parque cheio de gente, um café estilo anos 80, construções clássicas como a prefeitura ou nova arquitetura como o cinema. Um a um Laura vai me apresentando aos pontos mais belos da cidade, em um pequeno tour. Aos poucos vamos nos afastando do centro e entrando na parte mais nobre da cidade. Um pequeno bairro luxuoso repleto de casas grandes e harmoniosas com carros caríssimos na garagem e crianças felizes nas calçadas.
–Nós moramos aqui? –Digo assim que Laura para o carro bem em frente a uma casa azul elegante como as outras.
Ela sorri e afirma com a cabeça. Saio do carro e admiro a fachada da casa. Passo por uma cerca viva bem cuidada que envolve o terreno da casa, no quintal amplo além da grama e do jardim com flores brancas uma grande árvore me chama a atenção, a árvore parece velha e possui um balanço de madeira e cordas preso em seu maior ganho. Penso que talvez eu tivesse boas memórias sentada ali. O acidente levou minhas memórias ruins, mas junto levou minhas memórias felizes. Dessas eu queria me lembrar, da minha infâncias, dos meus pais, do tempo que passei no balanço da árvore.
Sinto uma mão em meu ombro, é de Laura eu sei. Nossos olhares se encontram e ela salta um sorriso tímido, e assim como os meus seus olhos se enchem de lágrimas.
–Quando você tinha 8 anos cismou que queria uma casa na árvore. –Laura começa a falar sorrindo sinceramente. –Nossa mãe não concordou, é claro, papai, no entanto não resiste a suas vontades então tratou de se empenhar nisso. Fez o desenho de como seria, comprou o material, te deu esperanças. Mas os dias foram passando e ele não construiu nada, você ficou tão triste era de partir o coração. – Fecho os olhos e começo a imaginar as cenas narradas por Laura. –Eu não aguentei te ver tão chateada, então tentei construir a sua tão sonhada casa na árvore sozinha, mas para uma garota de 14 anos isso é impossível então eu só fiz o balaço. Você ficou tão feliz naquele dia, que todos os cortes que me custou valeram a pena.
Abro os olhos e fito minha irmã, ela esta chorando e um lindo sorriso se espalha pelo seu rosto.
–É uma linda lembrança, obrigada! –Digo enquanto ela enxuga o rosto com a manga de seu suéter.
–Papai era um péssimo cumpridor de promessas, mas era um ótimo pai.
Não resisto a um abraço, meu primeiro abraço realmente sincero. Por que por mais que eu soubesse que ela era minha única família eu não me sentia acolhida, agora eu me sinto.
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