Espírito de Revolução

25 Prenúncios de Guerra


Notas iniciais
Boa noite a todos e desculpa o atraso pra quem leu o capítulo ontem e não viu meus comentários, kkkk. O capítulo já estava programado, mas eu escrevo as notas iniciais e finais no dia, só que ontem fiquei o dia inteiro fora de casa e, enfim... Sem delongas, o capítulo de hoje! Já vamos preparando o terreno para o início da guerra! Espero que gostem ^^

Durante minha estadia em Kanatahséton, Atón’wah não retornou mais. Disseram-me que ele saíra sem previsão de retorno, e eu me preocupava com isso. Me preocupava por tê-lo decepcionado.

Também Achilles ficou decepcionado com a notícia de que eu não havia conseguido um aliado na região de Albany, mas não deixamos nos abater por isso, e continuamos a nos concentrar em Massachusetts. Os meses se passaram e a presença da Irmandade em Boston foi consolidada. Levei Achilles à cidade para conhecer nossa sucursal em Copp’s Hill e os novos recrutas: Stephane Chapheau e Duncan Little. Ele transferiu alguns de seus arquivos para a nova sucursal, e os incumbiu de atualizar os registros do máximo possível de pessoas relevantes de Boston, em especial Templários como Benjamin Church e seus aliados.

Como ele ainda trabalhava para William Molineux, Stephane tinha a missão de manter contato o chefe e, por meio dele, descobrir tudo o que acontecia na política, e como o partido rebelde iria agir. Duncan, em contrapartida, continuaria estabelecido no norte de Boston, ajudando o povo do distrito e investigando a afiliação da gangue de North End com os Templários.

Assim, era Junho quando encontrei os dois em Copp’s Hill para nossa reunião mensal. Em meu caminho, não pude deixar de notar o quanto a cidade havia mudado desde a minha última visita: as fortificações na entrada de Boston Neck eram totalmente patrulhadas por casacos-vermelhos. Se antes era comum que apenas meia dúzia deles patrulhasse em redor da entrada, agora eram várias dezenas, marchando e treinando, com acampamentos formados. Adentrei a cidade, mas esse detalhe não mudou: os soldados estavam por toda a parte. Como eu ouvira falar, Boston estava ocupada.

A situação me fez imediatamente recordar o dia em que visitei Boston pela primeira vez. Em 1770, a cidade fora ocupada como retaliação aos protestos contra as tarifas Townshend, culminando no massacre que testemunhei. Agora a Destruição do Chá tivera o mesmo efeito, fazendo a Grã-Bretanha enviar um número de soldados duas vezes maior do que o que patrulhava a cidade durante o Massacre.

— Percebo que o novo governador já assumiu seu posto — comentei aos meus dois colegas quando cheguei em Copp’s Hill. Eles estavam sentados, tomando café em uma mesa na sala que antes era a oficina de Big Dave. Atrás dele estavam as altas estantes com os registros de Achilles.

— O lado bom é que ele não é Thomas Hutchinson — riu Duncan — O lado ruim é que, bem... ele é Thomas Gage. Trocamos seis por meia dúzia.

— Eu diria que ele é mais do que isso — rebateu Stephane — O bâtard trouxe junto consigo quatro regimentos inteiros.

Isso não espantava. Thomas Gage era ninguém menos que o comandante-em-chefe do Exército Britânico na América do Norte, que havia passado o ano anterior na Grã-Bretanha. Com a baixíssima popularidade do governador Hutchinson, o rei George viu-se obrigado a substitui-lo por Gage.

— Isso é mau — disse, sentando-me na cadeira em frente a eles — A Coroa quer controlar seus colonos com rédea curta.

— Sim — respondeu Little, bebendo um gole de sua xícara — A Coroa culpava Hutchinson por indiretamente causar a Destruição do Chá. A resiliência do cara apenas provocou os Whigs, então não espanta que o rei tenha escolhido trocá-lo por um homem bem mais jovem e menos polêmico. E ainda por cima um militar, para garantir a obediência das novas leis. Mas digo, se o objetivo deles era acalmar a população, não deu certo. Agora todos estão putos com o fechamento do porto.

— O porto foi mesmo fechado?

— Todos eles. A lei começou a valer no dia primeiro desse mês.

— Droga. O que Samuel Adams fez a respeito, Stephane?

— Não há muito o que ele possa fazer a respeito, infelizmente. Uma coisa é um punhado de homens bloqueando um navio ancorado, como fizemos em Dezembro. Outra coisa são os navios de guerra da Marinha Real bloqueando a enseada inteira. Adams e a Assembleia da cidade organizaram um boicote a todos os produtos britânicos, exigiram que o bloqueio fosse retirado, mas é só isso que eles podem fazer a curto prazo.

— E a longo prazo?

Stephane sorriu.

— Bem, essa parte é interessante. Samuel presidiu uma assembleia essa semana. Eles votaram por realizar um congresso na Filadélfia em Setembro, reunindo homens de doze colônias entre Nova Hampshire e a Carolina do Sul para decidir como responderemos àquelas que o Parlamento está chamando de Leis Coercivas. Samuel e o primo dele, John, vão representar Massachusetts junto com Thomas Cushing e Robert Paine. “Congresso Continental”, é como estão chamando esse evento.

— Dizem que esse será o começo para que as colônias da América tenham um governo mais autônomo — completou Duncan — Mas se for o caso, uma guerra pode estar por vir.

— Guerra entre quem? — questionou Chapheau.

— Uma guerra civil entre a Grã-Bretanha e seus súditos colonos. Pra mim isso está claro. Por que outra razão a Coroa escolheria um governador militar e ocuparia a cidade?

— Mas você acha que as colônias têm unidade suficiente para lutar?

— Com esse congresso descobriremos. Mas é inegável que as Leis Coercivas já separaram nosso império em dois.

— Quais leis são essas? — perguntei, incerto.

— As leis que o rei aplicará a Massachusetts como punição pela Destruição do Chá — explicou Little — A Lei do Porto é apenas a primeira delas. Ela vai fechar toda a atividade portuária da cidade até que o prejuízo da Companhia das Índias Orientais seja indenizado.

— Nove mil libras — afirmou o canadense — Eu sei que nem Adams nem o Caucus têm como pagar isso.

— Exato. Agora até os políticos britânicos que apoiavam as colônias estão contra os rebeldes. E até em Boston a situação mudou. Antes tínhamos os liberais que apoiavam a Destruição do Chá, e os conservadores que a viam como vandalismo. E agora o porto está fechado, desempregando milhares. A cidade inteira está sendo punida pela ação de algumas dúzias de homens.

— E agora até os conservadores estão do nosso lado. Irônico, mas em uma tacada só a Coroa conseguiu unir Tories e Whigs contra ela mesma.

— Sem dúvida os Templários irão querer tirar proveito disso — afirmei. Fazia sentido que a Ordem apoiasse o rei em sua tentativa de controlar seus súditos — Duncan, alguma informação sobre Benjamin Church?

Ele recostou-se na cadeira e explicou:

— Ouvi rumores de que o novo governador visitou-o pouco após sua chegada.

— Ele visitou Adams também. Até onde sei, ele queria receber informações sigilosas sobre a movimentação dos rebeldes.

— Sem dúvida Samuel recusou. — Ao que Stephane confirmou, dirigi-me a Little. — Você acha que Gage pode ter feito a mesma proposta a Church?

— Não sei dizer. Ele não costuma vir para este distrito, já que a casa e a clínica dele ficam no centro, então meus contatos não irão adiantar muito. Creio que Church apenas contratou a gangue do norte porque a do sul era mais difícil de lidar.

— Adams diz que o líder deles é um liberal.

— E também Church diz ser, mas existem dúvidas.

— Ele é um Templário. Deve ansiar para que o governo autoritário de Gage contenha a rebelião. Se os Templários realmente apoiam a Coroa, Church deve ser o informante deles entre os rebeldes.

— Por falar em Templários, Connor... — Stephane interferiu. — Um dos homens de nossa lista desembarcou recentemente junto com o comandante Gage.

— Quem?

— O major John Pitcairn. Ele está no comando de 600 fuzileiros navais.

— O que reforça nossa suspeita de que a Ordem está do lado britânico dessa possível guerra. Precisamos manter ouvidos perto do Exército.

— Como faríamos isso? — indagou Duncan Little — Por acaso algum de vocês tem amigos no Forte Hill?

— Os regimentos novos acabaram de chegar à cidade. Certamente precisam de mantimentos. Talvez estejam procurando por servos, camareiros ou cozinheiros. — Eu disse, olhando para Stephane.

— O quê? Acha que eu poderia ser cozinheiro para o exército?

— Você me disse que o seu pai era.

— Para o Exército Francês, Connor. Certamente vários nos regimentos de Boston lutaram contra nós na última guerra.

— Ah, mas todos têm que comer, Stephane — gracejou Duncan — Você deveria ao menos tentar.

Ele gemeu.

— Bem, eu poderia tentar dividir os dias da semana entre os soldados e a taverna... Mas não prometo nada. E se eles quiserem me convocar à batalha como a França fez a meu pai, juro que fujo de volta ao Canadá.

— Mande notícias de Montréal.

— Devemos nos concentrar em Boston — lembrei — É aqui que o pavio irá estourar, se uma guerra realmente estiver próxima.

— Mas esperemos que não esteja, sim?

Assenti para ele, com um suspiro. Tanto minha mãe quanto o pai de Stephane haviam morrido durante a última guerra. O povo deveria ao máximo ser poupado de mais destruição, mas eu temia não ter como evitar um conflito se ele chegasse.

— Espero de fato, amigo — respondi, com pesar.

Retornei à Fazenda Davenport, onde eu voltei a cuidar dos negócios. Com o fechamento do porto de Boston, o comércio por terra explodia. Mercadores por toda a província demandavam os produtos de nossas caravanas, agora acrescidos das armas que Big Dave forjava. Algumas semanas depois, o verão começou. E naquele dia de Junho em que eu jogava o jogo de tabuleiro fanorona com Achilles, fomos interrompidos por apressadas batidas na porta da frente da mansão Davenport. Perguntei-me se seria algum dos aldeões precisando de ajuda, mas descartei essa possibilidade tão logo ouvi a voz do lado de fora chamar um nome peculiar que eu não ouvia há meses.

Ratonhnhaké:ton! Você está aí?

— Isso foi algo no seu idioma? — Achilles perguntou.

— Kanen’tó:kon! — Eu me levantei da cadeira com prontidão, correndo para a porta. Ao abri-la, vi o meu amigo, e seu cavalo logo atrás. Eu teria sorrido se não fosse pelo seu semblante preocupado. — Por que você está aqui? Algo aconteceu?

— William Johnson. Ele retornou, Ratonhnhaké:ton, com dinheiro o suficiente para comprar nossa terra.

— Como? O que acontecerá agora?

— Johnson irá receber representantes do Conselho e da nossa vila em sua casa em John’s Town. A negociação acontecerá no dia 11. Precisamos interferir!

— Mas é claro! Nós podemos chegar a tempo se corrermos rápido o suficiente.

— Então, por favor, vamos partir agora se puder!

— Prepare a minha égua nos estábulos. Tenho que pegar minhas armas.

Voltei pela porta, correndo pelas escadas em direção ao meu quarto. Vesti meu manto e minhas lâminas ocultas, e enchi minhas algibeiras de ferramentas. Quando eu encontrara Johnson pela primeira vez, estava mal equipado, mas desta vez eu não tomaria nenhum risco.

— Eu ouvi o nome de William Johnson? — Achilles havia me seguido pela escada, e agora capengava com a bengala na porta de meu quarto. — Eu te avisei que ele voltaria, Connor. Você deveria tê-lo matado quando teve a chance.

— Me poupe do sermão, meu velho. Não falharei dessa vez. Não deixarei que William sequer encoste em minha aldeia.

— Ah, ah — repreendeu — O que eu disse sobre chamar os Templários pelo nome? Este não é um homem digno de reconhecimento ou misericórdia, Connor. Seu Alvo... precisa morrer dessa vez.

— Ele irá.

Coloquei minha machadinha vazada em minha bainha direita, e com a mão direita peguei uma machadinha reserva, carregando-a até a porta da frente. Kanen’tó:kon me aguardava, já havendo colocado a sela em Mabel e segurando-a pelas rédeas.

— Estou pronto. Vamos partir.

Dizendo isso, brandi a machadinha reserva, fincando-a com força na coluna que sustentava a fachada da mansão. Kanen’tó:kon sorriu ao me ver fazer isso.

— Bem espirituoso, meu amigo — disse — Espero podermos derrubá-la em breve.

O que você fez? — Achilles questionava, sem entender o gesto que eu acabara de fazer.

— Quando o meu povo vai à guerra, um machado é enterrado em um poste para simbolizar o seu início. Quando a ameaça termina, o machado é removido.

Achilles bufou, em desaprovação.

— Você poderia ter usado uma árvore!

Mas quando ele dizia isso, eu já me dirigia ao meu amigo, e às pobres montarias que teriam de fazer um caminho tão longo com tanta pressa. Antes de montar em Mabel, minha memória se moveu para uma pessoa específica. Quando eu o vira cinco meses antes, Atón’wah havia me dito que mataria meu Alvo. Obviamente ele não tivera sucesso, mas eu tinha de avisá-lo que agora nosso inimigo não sobreviveria.

— Atón’wah — comentei para meu amigo antes de subir — Ele está sabendo do retorno de Johnson? Ele sequer voltou à aldeia depois daquele dia?

Kanen’tó:kon me fitou, abismado. Com uma expressão de melancolia, ele parou tudo que fazia e pôs-se a me encarar.

— Você... Mil perdões, Ratonhnhaké:ton. Pensei que a notícia já havia chegado até você. Que Saksa:ri ou mais alguém teria te mandado uma carta.

Me intriguei.

— Qual notícia? — Ao que Kanen’tó:kon gaguejava, eu continuei. — Atón’wah chegou a encontrar Johnson?

— Atón’wah... Ele encontrou Johnson em Schenectady, protegido por guarda-costas, e correu para matá-lo. Sinto muito, meu amigo.

— Como assim? O que quer dizer?

Kanen’tó:kon ficou parado, como em pânico. Ele balbuciou de boca aberta por alguns segundos, para então inspirar fundo e responder.

— Atón’wah está morto.

Notas finais
Espero que eu não tenha pegado pesado demais com essa revelação :P Mas tive até medo de ser previsível, sei lá. Bem, na semana que vem temos a conclusão desse arco, e vamos enfim retornar ao flash do capítulo 1 Conversinha semanal: Nessa semana eu terminei o novo livro de AC, Juramento do Deserto. Apesar de algumas partes não muito interessantes, eu gostei bastante do livro. Vocês podem ver minha opinião completa no artigo que eu postei hoje no meu blog: http://assassinscreed.blog.br/assassins-creed-origins-juramento-do-deserto-resenha-do-livro/ Um feliz Natal para todos! Aproveitem bem e nos vemos daqui a uma semana! :)