Espírito de Revolução

26 Negociações Hostis


Notas iniciais
Boa tarde, galera! :) Espero que tenham curtido bastante o Natal. Bem, vamos em frente para o capítulo de hoje

Desde criança eu conhecia Atón’wah. Ele sempre fora um jovem espirituoso e cabeça-quente, mas também brincalhão e amigável. Lembro-me de quando eu tinha cerca de nove anos, e um garoto mais velho, um encrenqueiro, me importunava por causa da minha pele, me chamando de mestiço e me zombando por aprender Inglês como um traidor em catequese. Ele tinha quase o dobro do meu tamanho, então eu buscava não revidar. Mas no dia em que ele começou a dizer coisas detestáveis sobre minha falecida mãe, eu não me contive, e tentei surrá-lo. Claro que eu era fraco demais para fazê-lo, então em pouco tempo era eu quem levava surra.

Mas então Atón’wah chegou. Nunca se sentindo envergonhado pela própria estatura baixa, ele desafiou o garoto mais velho. Claro que ele também foi derrotado pelo valentão, mas ele havia me defendido quando eu não podia fazê-lo sozinho. Eu podia contar com ele para tudo de que precisasse, e se eu era pego fazendo alguma travessura, era Atón’wah quem aparecia para levar a culpa junto comigo. Ele se posicionava sempre contra a injustiça, e era isso que ele fizera quando meu Alvo ameaçava tomar controle de nossa aldeia.

E agora ele estava morto. Tentando matar o homem que, por teimosia, eu poupei.

Era tudo minha culpa, e nada que eu pudesse fazer iria reparar o meu erro.

Agora eu finalmente pensava entender o que Leonardo da Vinci queria dizer quando afirmou que a nossa vida é feita da morte de outros Eu deveria ter escutado Achilles. Deveria ter matado Johnson quando pude. Porém, o dever era uma coisa. Mesmo tendo plena consciência do que eu tinha que fazer... Algo interno ainda me impedia. Uma sensação ruim me subia à garganta sempre que eu imaginava a cena mórbida de um cadáver aos meus pés, sabendo que eu era o responsável. Será que minha mãe gostaria de ver o menino que ela criou com tanto carinho se tornando um homicida, tirando pais de seus filhos da mesma maneira que ela fora tirada de mim?

Por muito tempo eu ignorei meu dever e deixei que meu medo me consumisse. Porém, se antes eu tinha medo de causar uma morte, agora não mais. Pois, indiretamente, eu já havia causado a morte de Atón’wah, e essa dor era o suficiente para me inflar de sede por sangue.

Sendo assim, não é de se espantar a pressa que eu tinha em chegar a John’s Town. Nos primeiros dias de viagem, Kanen’tó:kon e eu comemos e dormimos muito pouco. À metade do caminho, no entanto, meu amigo disse estar cansado demais para continuar. Não querendo sobrecarregar Mabel por correr tanto, deixei-a sob os cuidados dele, e comprei outro cavalo em um vilarejo de Nova Hampshire para me levar no resto da viagem. Eu precisava me precaver ao máximo: assim, não deixaria que Kanen’tó:kon me atrasasse e, ao mesmo tempo, ainda evitava que também ele se ferisse por minha causa.

Como um verdadeiro Assassino, eu agiria nas sombras para chegar a meu Alvo. Cavalgava o resto do caminho sozinho, sem deixar que qualquer um visse meu rosto e viajando mais à noite do que de dia.

Era a tarde do dia 11 de Julho quando adentrei John’s Town. Ainda havia tempo. Amarrei o cavalo em uma árvore, num ponto deserto dos bosques em volta de Johnson Hall. Corri ao meu destino, e logo avistei a mansão. Eu podia ver no quintal dos fundos entre os dois blocausses, a mesa posta para a negociação, ocupada por vários iroqueses. Em sua ponta, o Alvo. Percebi que dessa vez ele estava completamente barbeado. Olhando ao lado, para a fachada da mansão, notei que uma das janelas estava aberta por causa do calor de verão que fazia no dia.

Me certificando de não haver ninguém em volta (os guarda-costas deviam estar por perto de seu chefe), corri para a casa. Segurando-me nas nervuras das telhas, escalei para a janela, adentrando o piso superior. O corredor estava deserto, mas eu podia ouvir vozes de criadas vindas do térreo. Fui em frente, e entrei em um quarto, que logo percebi ser o quarto pessoal de Johnson e Brant. Fechei a porta e a bloqueei com uma pesada escrivaninha. Dirigi-me a uma das janelas de vidro e a abri, tomando cuidado para manter as cortinas semicerradas, ocultando minha presença. Com todas as providências tomadas, pus-me a observar a reunião.

Uns dez metros à frente da porta principal estava uma mesa de madeira, onde se sentavam quase uma dúzia de homens Kanien’kehá:ka. Entre eles estavam alguns que eu conhecia de Kanatahséton, mas dentre eles, um rosto especial me chamou a atenção: o de Saksa:ri. Eu sabia que o voto dele seria contra a venda da aldeia, mas temia por sua segurança. Após encontrá-lo em Boston, eu tinha medo do que Johnson seria capaz de fazer quando contrariado. Atrás de Johnson estavam dois guarda-costas, e mais seis se posicionavam em volta da mesa, todos carregando baionetas.

Mas meu Alvo também não estava sozinho: em volta dele estavam Jack Weeks, um homem iroquês alto vestindo uma camisa de linho, e a sua própria esposa, que discursava aos outros homens Kanien’kehá:ka.

— Meus irmãos — dizia Molly Brant, no idioma Kanien’kéha, que apenas Weeks e os guarda-costas pareciam não entender — Eu sei que vocês têm dúvidas. Mas confiem em minha palavra do mesmo modo que confiam uns nos outros. Meu marido é um homem bom e sempre foi leal ao nosso povo. Lago George. Forte Carillon. Belle-Famille e Forte Niágara. Em todas essas batalhas, meu marido lutou por nós, acompanhado de alguns dos mais brilhantes homens da nossa geração: Theyanoguin. Sayenqueraghta. E não posso deixar de mencionar este que nos acompanha hoje. — Ela apontou para o iroquês que ficava do lado de Johnson. — Thayendanegea, meu irmão mais novo. Se vocês confiam em mim ou em meu irmão, decerto confiam em meu marido. Sob o comando dele, suas terras irão prosperar, e vocês descobrirão riquezas que nunca imaginaram.

Molly parou de falar, e silêncio pairou. Oskennon:ton, um dos chefes da minha aldeia, se pronunciou.

— Compreendo a sua admiração, Degonwadonti, e concordo que as façanhas de Warraghiyagey são muitas. — Ele dizia, em uma voz monótona. — Mas perdoe-me se eu tenho dificuldade em ver a você e Thayendanegea como “irmãos”. Um Kanien’kehá:ka que troca seu nome e sua cultura pelo livro de estrangeiros não merece ser considerado um verdadeiro Kanien’kehá:ka.

Joseph Brant pareceu provocado, mas manteve a compostura.

— Olhe a língua, chefe. — Ele dizia. — Em algum momento lhes dei motivos para duvidar de minha aliança?

— Ah, você nem tanto — respondeu. Ele apontou para William — O que me preocupa é ele.

Johnson permaneceu calado. Ele retirou sua boina para enxugar o suor em sua testa. Abriu a boca, mas Molly o impediu.

— Amor, deixe-me cuidar disso. — Tornou a falar aos iroqueses. — Senhores, eu não apenas “troquei” a minha cultura pela Bíblia. Eu a enriqueci dentro de mim. Os espíritos de nossas crenças são valiosos e benevolentes, mas o Senhor é mais poderoso que todos eles. Permita a meu marido o acesso às suas terras, e as suas crianças irão crescer sob a Sua luz.

— Nossas crianças já vivem bem — falou um chefe de uma aldeia vizinha — Não precisamos do seu Deus para ser felizes, apenas precisamos do solo rico e de tudo que a floresta nos dá.

— E a floresta continuará sendo generosa... — comentou Joseph — Até a próxima guerra. E então os inimigos salgarão suas terras e massacrarão seus entes queridos. Suas terras ficam em uma posição estratégica ao sul do Lago George, senhores. Mantenham meu cunhado por perto, e ele protegerá não apenas vocês, como também a todos os Haudenosaunee.

— Proteger-nos de quem? De homens brancos, certamente. Nenhum de nossos inimigos americanos seria capaz de metade das barbaridades que britânicos e franceses cometeram na Guerra. Então você entende minha relutância em permitir que um deles compre a nossa terra.

— Você tem que dar o braço a torcer, Oskennon:ton — falou um dos outros chefes de Kanatahséton — É por causa de Warraghiyagey que a Corrente da Aliança continua firme e forte. Graças a ele que saímos vitoriosos da Guerra.

— Ah, então você propõe nos curvar aos nossos “superiores”? — Ele ironizou. — Devo aproveitar e lamber-lhe as botas também?

— Irmãos, por favor. — O Templário pediu. — Estou confiante de que encontraremos uma solução.

— Não somos seus irmãos. — Oskennon:ton respondeu, ríspido.

Johnson deu um passo à frente, tentando dissuadi-los.

— Nós todos buscamos a mesma coisa, não buscamos? Paz, prosperidade, terra fértil.

— Ah, você busca terras sim — comentou Saksa:ri — Terras que não são suas, nem de ninguém.

— Eu apenas desejo mantê-los a salvo! Há aqueles que te trairiam ou manipulariam. Ou pior ainda, tomar a terra à força.

— Nós estamos bem cientes das expedições que seu povo manda contra nós — adicionou um dos opositores.

— Parem de se referir a “meu” povo. Por favor, nós somos todos um só! Vamos agir como tal?

— Como? Entregando nossas terras para você? Então seremos mesmo um só, em sua dívida.

— Warraghiyagey pode ter razão — respondeu um outro iroquês — Que esperança nós temos contra a pólvora e o aço dos forasteiros?

— Se a guerra chegar, os espíritos hão de nos guiar como sempre fizeram.

— E eles não nos guiaram até aqui?

— Sim — interveio Saksa:ri — Para que possamos desmascarar o grande traidor.

— Isso é um erro! Nós deveríamos assinar. — O seguidor de Johnson adicionou.

— Paz! Paz! — bradou Molly Brant.

— Fiquem calmos — continuou Johnson — Eu não fui sempre um aliado? Eu não busquei sempre protegê-los do perigo?

— Como no fim da Guerra? — questionou furiosamente meu pai adotivo — Quatorze anos atrás, eu me lembro como se fosse ontem. Nós éramos neutros, mas mesmo assim colonos vieram à nossa aldeia e causaram um incêndio que matou dezenas. E nem sequer eram colonos franceses. Eles eram britânicos, como você. A história oficial era de soldados ingênuos que nos confundiram com as nações inimigas. Devemos mesmo confiar no seu povo? Onde você estava para nos proteger desse suposto equívoco?

Aquela menção pôs meu Alvo em completo silêncio, e gelou fundo em meu coração. Fora nesse incêndio. O dia em que eu havia perdido minha mãe. Ponderei sob o colar dela. Saksa:ri tinha razão. Johnson não fizera nada para impedir seu colega Templário Charles Lee de massacrar minha vila. Quem sabe não era ele próprio um dos homens que acompanhavam Lee naquele dia?

A voz irritada de Oskennon:ton me trouxe de volta ao presente.

— Se quer nos proteger, então nos dê armas! Mosquetes e cavalos para que possamos lutar! Suas palavras bonitas não nos ajudarão contra os inimigos!

— A guerra não é a solução, amigos.

O chefe se levantou da mesa e pôs-se a encarar o Templário.

— Nós nos lembramos do tratado de Stanwix. Lembramos que você moveu as fronteiras das colônias. Até hoje seus homens escavam a terra, sem nenhuma preocupação com os que vivem nela. Suas palavras são doces, porém falsas. Não estamos aqui para negociar, nem vender. Estamos aqui para lhe dizer para deixar estas terras!

Johnson mostrou um semblante triste.

— Cavalheiros, este chefe aqui realmente fala por todos vocês?

A maioria aprovou. Johnson continuou.

— Pois que seja. Eu lhes ofereci uma oliveira como símbolo de paz, e vocês a derrubaram da minha mão. — Ele acenou para um dos guarda-costas. — Talvez vocês respondam melhor à espada.

Os dois guarda-costas apontaram suas armas para os iroqueses. Todos se assustaram e sobressaltaram os olhos. Saksa:ri perguntou, com nervosismo:

— Você está nos ameaçando?

Meu Alvo deu de ombros e respondeu.

— Sim.

— William... — interveio Joseph Brant, em Inglês — Por favor, pense com cuidado no que vai fazer aqui.

O Templário respondeu na mesma língua.

— Eu pensei, Joseph. Mas se estes homens insistem em ficar no caminho dos meus planos, não me restam muitas opções.

Joseph olhou apreensivo para a irmã. Ele chamou-a pelo nome, mas ela apenas pôs a mão no ombro do marido e lhe disse, com um semblante austero:

— Faça o que tiver de ser feito.

Por alguns instantes os homens na reunião permaneceram imóveis frente às baionetas. Eu, no entanto, já havia perdido as esperanças de resolver aquilo pacificamente, então me preparei para entrar em ação. Levantei meu capuz para não ser reconhecido como um iroquês, e vasculhei minhas algibeiras. Peguei uma bomba de fumaça e lancei-a aos pés do Alvo. Conforme a cortina de fumaça subia, me pendurei na janela e pulei para trás.

Após o golpe final, eu levei um susto. A sensação foi de ter despertado de um sonho, mas o pesadelo parecia estar apenas começando.

Olhei para baixo. Meu Alvo balbuciava de dor aos meus pés, e minha lâmina oculta estava fincada em seu abdome. Eu acabara de matar o herói de guerra e pai de família William Johnson. Meu coração palpitava conforme eu tentava identificar o que havia ocorrido. De repente, ao olhar para ele, vi um rosto diferente clamando por ajuda. Vi nos olhos de William o rosto de minha mãe em seus últimos momentos de vida. Ela chorava e agonizava.

Eu acabara de matar uma pessoa.

— Não. — O moribundo gemeu. — Depois de tanto tempo, um Assassino. O que você fez?

Por alguns momentos eu não entendi a pergunta. Quando enfim despertei do transe, respondi-lhe, nervoso.

— Eu... pus um fim às suas tramas. Você queria reivindicar essas terras para os Templários, e fazer uso do Grande Templo. — Eu parecia falar mais para mim mesmo do que para ele.

— Ah, crê que eu me importo com aquela cripta trancafiada? Eu buscava proteger seu povo. Você acha que o bom rei George se revira na cama à noite, rezando para que nenhum mal atinja seus súditos nativos? — Ele cuspiu um pouco de sangue. — Ou que o povo da cidade se importa com eles? Apenas eu falo pela Confederação.

Por dentro eu queria chorar, mas não devia deixar que Johnson percebesse isso.

— Não necessitamos de proteção. Os colonos não têm rixa com os iroqueses.

— Ainda não. Mas eles terão. É assim que o mundo roda. Com o tempo, eles se voltarão a vocês. Eu... Eu poderia ter impedido. — Ele chorava. — Eu poderia ter salvado vocês todos.

Eu queria dizer que sentia muito, mas àquela altura era tarde. Concentrei-me naquilo que eu havia perdido para aquele homem: Atón’wah.

— Você fala de salvação, mas você estava nos matando. Você matou meu amigo em Schenectady.

Ele engoliu as lágrimas e mostrou uma expressão decepcionada.

— Ah, sempre há algum motivo pessoal. Típico de Assassinos. Eu os ameaçava porque eles não me ouviam. — Com um suspiro final, ele terminou: — E... parece que também você... não ouvirá.

E sua cabeça pendeu para trás, inanimada. Johnson estava morto. Minha missão estava completa, mas em meu coração eu não senti satisfação. Levantei-me, tremendo. Tentei convencer-me de que havia feito a coisa certa, mas era difícil. Era muito difícil com os olhos mortos de Johnson a me fitar.

Retirei o colar de minha mãe do meu pescoço e segurei-o. O que ela pensaria? Será que acharia que realmente fiz a coisa certa, vingando Atón’wah? Ou que apenas perpetuei uma guerra sem sentido? Tudo aquilo havia sido feito por um templo antigo cujo conteúdo ninguém sequer imaginava. Parecia-me uma peleja inútil.

Agachei-me para retirar minha flecha da perna do Templário.

— Que o Grande Espírito te conceda a paz que você diz buscar. — Eu rezei, fechando suas pálpebras inertes.

Me erguendo, fiquei a observar o corpo por alguns segundos. Segurei-o, já frio, e o arrastei até uma árvore próxima. Inclinei seu corpo com os braços por cima do ferimento. Algum desavisado que passasse por perto pensaria que ele estava apenas dormindo.

E então eu ouvi. Ouvi o som, ainda longe, de uma criança pequena e um cachorro. Era o pequeno George Johnson, o filho de quatro anos que eu vira um ano antes. E agora aquela criança feliz se aproximava do cadáver do próprio pai. Comecei a fugir para longe dali, na direção do local onde havia deixado meu cavalo. Com lágrimas no rosto, pude ouvir o garoto falar:

— Papai! Você está bem? — Silêncio. — Papai? Papai!

Notas finais
E assim voltamos ao início, e aqui termina a parte 2. O primeiro líder Templário já foi, faltam quatro. O próximo capítulo não vai sair na semana que vem, e provavelmente nem no mês que vem. Quero avançar um tanto na parte 3 da história antes de voltar a postar. Sim, vai ser outro hiato mas prometo que vai ser mais curto, já que já tenho uma boa parte da história planejada. Mas, considerando a ausência de comentários nos últimos dez capítulos, vejo que não há demanda nenhuma, então não faz diferença demorar um mês ou dois :P Um feliz Ano Novo e boas férias! Nos vemos em 2018! ^^