Espetáculo - Um Conto de Exsor
4 Capítulo 4
Os dois policiais pararam um momento antes de descer do carro. Ambos conheciam a deusa-artista a um bom tempo, e não era a primeira vez que teriam de resolver algum problema ligado à ela (direta ou indiretamente, diga-se de passagem). Mas ambos sabiam que era melhor isso do que aturar os Acólitos do Império.
— Não quer mesmo...
— Ulisses, se perguntar de novo, eu desisto. Então cale a boca e vamos logo.
— Pensei que era fã dela.
— E sou, mas ainda lembro que ela é a porra de uma deusa, e pra esse tipo de coisa pirar...
— Só temos que tirar ela do caminho. Só isso. Nem vou tentar tirar ela do problema ou pedir ajuda, só vou tirar ela da nossa investigação.
A harpia respirou fundo e percebeu que era a única forma de executar seu trabalho. Só não queria ter que entrar no Teatro Central de Xandrian, a maior casa de shows de Gothica. Se ali não fosse a Capital do Império, teriam tempo o suficiente para conseguir pistas.
Só que nada era fácil na Divisão do Paradoxo. Eles sempre acabavam com os casos mais complicados. Não na resolução, porque eram casos às vezes comuns, mas sim porque SEMPRE havia algum problema totalmente bizarro ou complicado demais que um policial normal preferia ser morto do que ter que lidar com aquilo.
Entraram rapidamente pelo portão principal, recebidos por alguns seguranças. Cassandra quase teve certeza que dois deles eram Bispos, mas preferiu ficar quieta. Por mais que caçadores fossem conhecidos por serem lutadores temíveis, eles davam um pouco de medo a mais que o normal.
Encontraram a deusa sentada em uma mesa, próxima ao bar. Alguns funcionários faziam a limpeza do local, além da manutenção necessária do palco. Ela os chamou com um aceno, enquanto as outras integrantes da banda aos poucos desapareciam, com fantasmas em uma casa abandonada. A passos rápidos, a dupla se acomodou nas cadeiras ao redor da mesa.
— Agradeço por nos receber a essa hora, senhorita. Agentes Hoober e Kallister, Divisão Imperial de Homicídios. – Ulisses mostrou seu distintivo, mas por praxe do que nocessidade. Ele tinha certeza que Gothica lembrava da dupla.
— Quanta formalidade! Sabem que não precisam disso! – sorrindo, a deusa ajeitou o vestido enquanto cruzava as pernas – Em que posso ajudá-los.
— Gothica, desculpe o mau jeito, mas nós três sabemos o que está ocorrendo, não é? – Cassandra olhava nos olhos da cantora – Você sempre sabe de tudo o que ocorre na cidade, ainda mais quando é perto de um de seus teatros, então vamos...
— Então já sabem. Ótimo, não estou mesmo com humor para as políticas imperiais. – puxou o microfone da cintura, transformando-o novamente em espada – Vou resolver esses crimes. Adorei que foram logo vocês que vieram, já que me conhecem, então não tenho que dar qualquer desculpa pelo que vou fazer.
— Na verdade, senhorita... – Ulisses pensou que deveria ter aceitado a sugestão de sua parceira e apenas telefonado – Nós estamos cuidando do caso. Apenas queríamos informar e pedir por sua ajuda, já que deve ter acesso à câmeras de vigilância ou se conhecia a vítima.
— Vítima? Quer dizer que só sabem de um? – ela pareceu ficar ainda mais irritada do que estava – De vez em quando repenso se não deveria espalhar totalmente minha influência por meu território...
— Essa cidade é a capital do Império. Quer mesmo bater de frente com algum dos Reis?
Gothica riu. Ergueu a lâmina e a encostou na garganta de Cassandra, que começou a rosnar. A harpia detestava quem ofendesse ou desafiasse o Império, por menor que fosse a ameaça. Só que nesses momentos ela perdia o controle, e não duvidava nada que ela pularia na garganta da deusa mais conhecida de Exsor.
— Parem as duas, por favor! Isso aqui é uma investigação, não uma disputa! – o zumbi colocou-se entre elas, tentando baixar a arma da divindade – E sim, só sabemos de um assassinato. Era um rapaz jovem, que fora desovado em um canteiro próximo a um de seus teatros. Mas, pelo jeito que falou, isso aconteceu outras vezes, e você não reportou tais crimes.
— Rault. O nome do moleque era Rault. Assalariado, nada demais. – Gothica disse com certo pesar na voz, enquanto o ar ao redor voltava ao normal – Foi o primeiro e último show dele. Saiu quando terminei a sessão de autógrafos. Disse que tinha adorado minhas músicas. Eu odeio quem fere meus fãs. Eles são importantes para mim.
— Então as pistas estavam certas. – Cassandra deu um passo para trás, voltando a acertar o terno e sentar – Mas e quantos outros foram?
— Mais treze, e todos do mesmo jeito. Foram todos mortos em minha cidade, logo após saírem de meu show. O problema é que não há pistas. Acha mesmo que eu deixaria que continuasse se tivesse qualquer pista?
— Então só confirmou hoje?
— Um pouco antes de chegarem... – Gothica voltou a sentar, claramente chateada – Eram pessoas normais, inocentes. Só aproveitaram uma boa noite e perderam a vida por causa disso.
Ulisses chegou perto da deusa (e percebeu porque ela aflorava tantos sentimentos, já que não conseguia desviar o olhar dela), segurando sua mão.
— Não posso ficar quieta. Posso até lhes mostrar o que tenho de informação, mas não me impedirão de agir.
— Senhorita, é necessário. Pela segurança de seus fãs, seria melhor que ficasse afastada das investigações.
— Acho que não entendeu, “Agente Hoover”... – os olhos dela voltaram a brilhar naquele tom de ameaça e poder que sempre causavam problemas – Não estou pedindo permissão. Por conhecê-los, estou AVISANDO que irei procurar pelo culpado e que farei O QUE FOR PRECISO.
Gothica levantou e foi em direção a seu camarim, mas Cassandra ficou no caminho. Ulisses teve certeza de ver as outras integrantes surgindo ao redor da cantora, todas empunhando seus instrumentos – que possuíam a forma de armas, como machados, adagas e lanças. Ela ia matar sua parceira, com certeza.
— Se vai mesmo fazer isso, então nos dê um voto de confiança. – a harpia retirou seu distintivo e o colocou sobre o peito – Eu juro em nome do Imperio que resolverei esse caso, junto com meu parceiro. Acredite em mim, Deusa das Cidades.
Gothica estava claramente com raiva. Por não conhecerem magia, ambos não puderam entender o que ela estava fazendo: Gothica lia a alma de Cassandra, buscando por qualquer coisa que pudesse usar contra ela. Era uma de suas várias habilidades. Mas, no fundo da alma, conseguia ver uma fã desesperada, que só queria ajudar sua ídolo. Sua honra estava em jogo, já que não sabiam dos outros crimes. Era absurdo para ela, uma agente da lei, falhar em seu trabalho.
— Trinta horas. Vocês tem uma dia, contando a partir de agora, antes que eu faça alguma coisa. – a deusa diminuiu seus poderes, enquanto as outras cantoras aos poucos voltavam a desaparecer – Depois disso, quem ficar em meu caminho será eliminado.
— Eu agradeço, senhorita. – Ulisses voltou a respirar aliviado. Às vezes os costumes de guerra de sua parceira ajudavam em alguma coisa ( por mais que, na maioria das vezes, eles piorassem a situação...) – Tenha certeza que faremos tudo a nosso alcance.
— Eu espero mesmo. – com um aceno, surgiram algumas pastas com fotos sobre a mesa onde conversaram. Cassandra agradeceu com um aceno de cabeça, voltando para perto do parceiro, enquanto a divindade se retirava. Não era muito tempo, mas agora tinham o que precisavam para começar.
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