Espetáculo - Um Conto de Exsor
5 Capítulo 5
Diziam que o Conselho Draconiano era uma constante zona de guerra, mas não nessa dimensão. Por concentrar todo o poder de Exsor em um único lugar, era a ponte principal para se viajar entre os planos de existência paralelos, que constantemente causavam problemas ao planeta. Quando não haviam reuniões, a torre se mantinha submersa, deixando apenas uma ponta sob a água. E assim ela estava quando Armarant chegou. Estralou as asas, cansado da viagem. Soltou os cabelos enquanto se dirigia à entrada. Achou estranho receber um chamado, se podiam usar a Guarda Imperial. O que um comerciante poderia fazer em um caso de assassinato múltiplo?
— Bom dia senhora. – o acólito abriu a passagem na rocha. Pensou em dizer algo, mas trincou os dentes e continuou a caminhar. Tinha que se lembrar que nem todos conheciam o Código Carmesim, e que ele também servia ao Império. Além disso, pelas escamas em sua pele, era da corte azul. Eles nunca realmente saberiam o que é admiração.
Caminhou pelos corredores sem dar muita atenção ao local. Na verdade, já tinha vindo tantas vezes ao Conselho que poderia andar de olhos fechados por ali. Mas dessa vez não era para ir à câmara de sua etnia. O Palco de Sangue sempre estava aberto, independente da data. Os Vermelhos eram incentivados a participar do costumes políticos assim que saem de seus ovos.
Subiu por uma escada diferente, que espiralava depois da metade do trajeto, não imaginava que a Biblioteca de Cristal fosse MESMO feita daquele material. Não seria um alvo fácil, já que se projetava para fora do Conselho?
Viu a porta entreaberta. Respirando fundo, tentou minimizar o rubor em suas faces e bateu delicadamente na porta. Esperou por alguns segundos e a abriu, tentando minimizar o barulho. Etiqueta era tudo naquele momento. Era a primeira vez que falaria diretamente com uma Rainha.
Quando a viu, segurou a respiração, evitando ao máximo demonstrar sua surpresa. Ouviu de alguns conhecidos que Donianty, a Dragoa-Rainha de Cristal, tinha sofrido mudanças recentemente. Era era uma garotinha, pelo que se lembrava, mas agora... pelo Império! Aquela sim era a aparência de uma nobre!
— Obrigada por responder ao chamado, Armarant. Sei que deve estar surpreso, mas meu irmão o indicou pessoalmente.
— A honra de servir a ti é minha, milady. – ajoelhou-se, controlando o nervosismo. Como ela estava linda! O corpo humanoide de sua forma de disfarce em muito diferia da figura infantil que antes ela apresentava! Agora era uma adulta, de cabelos perolados e olhos azulados, alta e garbosa, com um corpo fenomenal! Reprimiu o que pôde de sua excitação, mas provavelmente suas escamas deveriam estar chiando de uma forma absurda!
— Como Skar me avisou... – ouviu o salto dela tocar o chão levemente em sua direção. Ergueu os olhos, e ela estava à sua frente, estendendo a mão – Agradeço pelos galanteios e educação, mas lembre-se: Dragões não se curvam.
Sem jeito, levantou-se devagar, arrumando os trajes. Donianty lhe deu um sorriso, enquanto segurava sua mão e o puxava com delicadeza para uma sessão da biblioteca.
— Skar me disse que é um negociante. Qual sua área, meu caro?
— Atuo em várias áreas, mas prefiro a parte imobiliária. Ela acaba trazendo mais lucro com um investimento mínimo.
— Então você deve conhecer bem as áreas de seus investimentos, não é?
— Claro, milady.
— E também soube que foi do exército.
— Exato. Quando mais jovem integrei as Forças Exploratórias, mas detestava seguir ordens sem a correta aplicação.
— Infelizmente isso acontece de vez em quando. – pararam em uma seção repleta de quadros. Não era um entendido de artes, mas percebeu que alguns dos desenhos e pinturas não eram de Exsor – Alguns seres acham que podem liderar integrantes da Grande Raça só por terem algum poder a mais em seu mundo original. Inferiores...
Armarant engoliu seco. Nunca tinha ouvido a Rainha falar daquele jeito. Resignou-se a concordar com um aceno, enquanto ela indicava uma cadeira.
— Aconteceram alguns problemas em Gothica. Assassinatos em série, para ser mais exata. Não quero alertar meu irmão mais velho, mas se a deusa que ele criou está tendo problemas, gostaria de resolver antes que ele volte.
— Então o Imperador não está mesmo no planeta?
— Não é nada demais. Apenas uma dimensão paralela que ganhou vida recentemente e decidiu invadir nossos domínios. Algo que eu resolveria em alguns momentos, na verdade. Mas como ele quis acabar com esse problema pessoalmente, a cidade está um tanto sem proteção.
— Farei o que puder para solucionar este caso, milady, mas, se me permite...
— Você conhece aquela cidade como a palma de sua mão, meu caro. Skar me disse que defendeu a cidade de um ataque sozinho a alguns anos, e que lutou ao lado da própria Gothica.
— Não foi nada mais do que um prazer lutar pelo Império, milady! Isso não é digno de nota! Tenho certeza que há policiais ou acólitos tão ou mais capazes do que eu para...
Donianty pousou o dedo nos lábios de Armarant. Seus olhos brilhavam como estrelas, naquela estranha sensação de raiva e inocência misturados que tentava entender desde que entrara ali.
— Sim, existem. Mas todos são guerreiros, que seguem ordens ou só sabem falar através de suas armas e burocracias. A polícia já está no caso, mas quero alguém de fora, com total conhecimento de pessoas e de terreno. E quem melhor seria senão um negociante famoso para auxiliá-los?
— E-eu... novamente agradeço, milady.
— Além disso, você mesmo disse que não aceita ordens de inferiores. Então ficaria satisfeita em saber que nenhuma pista foi deixada de lado, assim como nenhuma informação ou dica foi perdida por causa de “ordens superiores”.
O dragão confirmou com um aceno. Estava claro que ela desconfiava de algo. E era mesmo estranho um assassino serial agir logo na cidade mais protegida e famosa do Império Draconiano.
— Estou às suas ordens, milady. Irei de imediato para Gothica e me oferecerei para auxiliar na investigação. Com suas recomendações, duvido que coloquem qualquer empecilho.
— Adoro quando um plano dá certo. – deu um beijo no rosto de Armarant, que quase perdeu o ar – Este é meu número pessoal. Pode ligar quando quiser, mas espero um retorno em breve com algumas respostas.
— É claro! tenha certeza disso! – o rapaz colocou-se de pé em um pulo. Não havia honra maior do que isso! Correu porta afora, tentando se equilibrar nos saltos.
Donianty riu da cena. Era engraçado como Dragões Vermelhos eram cavalheiros. Foi uma boa escolha usar a indicação de seu irmão, o Dragão-Rei Vermelho, Skar. Mas, com toda certeza, ia perguntar para ele o porquê de alguns machos de sua etnia usarem formas de disfarce feminina, por mais que isso não refletisse sua opção sexual. Essa era a forma de admiração mais bizarra que conhecia...
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