Espetáculo - Um Conto de Exsor
3 Capítulo 3
Kardish era barman a mais de vinte anos. No geral, gostava de seu trabalho. Por ser um Caçador, todos achavam que era um lutador por seu tamanho e músculos. Mas nunca em sua vida ergueu uma garra sequer contra alguém, nem teve suas escamas manchadas de sangue. Preferia ver as pessoas embriagadas com sues drinks do que arrancar gargantas. Sim, ganharia muito mais como um mercenário, mas de que adiantaria uma vida de perigo se não pudesse ouvir sua musa todos os dias?
Ela ainda estava sentada na mesma mesa, mesmo depois de três horas de show e mais duas de autógrafos e fotos. Gothica gostava de ser bajulada. Talvez por ser uma divindade, mas não acreditava totalmente nisso. Ela era uma cantora antes de ser qualquer outra coisa. E não adiantava o quanto falassem, sabia que apenas a Front, a que sempre empunhava o microfone em forma de espada, que era a deusa verdadeira. ELA era Gothica. As outras não passavam de espíritos ligadas à maior cantora que existia.
E ela também o adorava. Quantas vezes tinha que levar as bebidas dela no palco? Ela sempre fazia isso quando tocava em Xandrian. Aquele bairro devia ser seu preferido. Pelo que lembrava, a arena em Evaness era muito maior, mas Gothica ainda preferia marcar estréias e lançamentos naquele lugar.
— Vai querer outra rodada, senhorita?
— Com certeza, lagarto bonitão... – Gothica piscou para o barman, fazendo sua amiga rir. Yllianna sempre se divertia com o exagero da Deusa das Cidades.
— Pára de cantar o coitado! Você nunca deu chance para ele!
— Eu gosto de ver as escamas do rosto do Kardish ficando avermelhadas quando falo assim. E ele sempre carrega da vodka quando fica envergonhado.
— Af.. Desisto de te entender...
— Mas, além do meu show, o que te trouxe aqui? Eu até desisti de mandar os convites para tua casa...
— Primeiro: você sabe que venho em todo show, então não preciso de convites. Todo segurança me deixa entrar! – Yllianna ergueu as mãos, em seu costumeiro tom exagerado – Segundo: não preciso de motivo pra te ver. Você É a cidade! Se quisesse falar contigo, era só gritar com minha parede!
— Tá, tá...
— E terceiro: eu sei que tem algo te incomodando. Ou você me fala ou...
— Catorze mortes.
A moça ficou espantada. Deixou o copo na mesa e se ajeitou na cadeira.
— Sim, eu tenho certeza, espertinha. Ontem de noite, depois do show, um novato foi dilacerado. E eu ainda não descobri como isso foi acontecer DENTRO DA MINHA CIDADE!
O prédio tremeu levemente. Kardish depositou o copo delicadamente na frente da deusa, que percebeu o que fizera e se desculpou. Com um sorriso, o barman voltou a seu posto, vigilante e protetor.
— Isso é algo sério demais. Já contou para...
— Não. Eu ia te agradecer quando apareceu, mas, pela tua surpresa e tamanho das roupas, é claro que não está aqui a serviço. Acho que a polícia logo vai aparecer, e gostaria mesmo que me ajudassem. Estou ficando agoniada com isso! Quase errei uma nota ontem!
Yllianna, reparou no decote, e percebeu mesmo que tinha exagerado. Claro, sempre gostara de roupas provocantes – fazia isso de propósito. Adorava quando a olhavam... — , mas estava à vontade “demais”. Pensou em pedir licença e se arrumar, mas preferiu ficar ali e apertar a mão de sua amiga, reconfortando-a.
— Acredite neles. Se for quem eu estou pensando que pegou o caso, com certeza vão resolver. Só os ajude, está bem? Nada de dar uma de estrela...
— Só porque é a Deusa do Conhecimento acha que pode me dar conselhos?
— Justamente por isso, doidinha... – abraçou a amiga, deixando seus olhos brilharem enquanto diminuía a presença divina de Gothica para que ela não destruísse seu teatro preferido – Se precisar de ajuda, vá na minha biblioteca. O que eu puder fazer, tenha certeza que farei.
Agradeceu com um aceno de cabeça, enxugando a discreta lágrima que lhe escorria pelo olho esquerdo. Ninguém mataria dentro de seus muros. Ela odiava assassinos. A morte só deveria ser encaminhada por Death, e mais ninguém. E se os Paradoxos fossem mesmo mandados, precisava se recompor. Cassandra e Ulisses nunca a viram com a maquiagem borrada, e hoje não seria a primeira vez.
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