Era difícil chover forte em Gothica. Devido aos campos de proteção climáticos, que impediam o avanço das tempestades do Sexto Continente sobre as construções mais altas, as nuvens eram “remanejadas” de forma ordenada, criando no máximo uma chuva fina por toda a cidade, o suficiente para irrigar os parques e umedecer o ar. Com seus dias de pouca luz (o Sexto continente não recebia mais do que seis horas de luz solar por período), manter o terreno fértil era mais do que necessário. Mas nem todo tratamento era agradável. Todos sabiam que, para a terra crescer, era necessária matéria morta. E alguém resolveu seguir essa idéia ao pé da letra.

Cassandra olhava com pena para o pobre rapaz, rasgado de ponta a ponta e largado em meio a uma cova meio rasa feita num canteiro de rosas aleatório. Sabia que ali era apenas o local da desova, porque ninguém seria burro o bastante de deixar um cadáver perto das ferramentas do jardineiro público.

Ajeitou as penas do topo da cabeça, se esforçando para manter todos os detalhes da cena do crime. Era curioso como deixaram uma Harpia ser detetive. O histórico racial de deficiência mnemônica sempre fora uma barreira, e ela devia sua exceção pela absurda capacidade de detalhar qualquer coisa que olhasse por mais de uma hora. Um erro genético que moldou sua vida – por mais que sua mãe quisesse que fosse cantora, como as irmãs. Mas já bastavam duas doidas na família...

Com um aceno de cabeça, deixou a equipe forense retirar o corpo. Aquela chuva já estava irritando. Suas asas estavam molhadas, o guarda-chuva fora feito para abissais (típicamente mais baixos do que ela, que tinha dois metros e vinte), e tinha perdido a sessão de cinema com suas amigas. Alguém ia apanhar muito quando fosse capturado...

— Uma escama por seus danos, Cass.

— A mesma piada de sempre, Ulisses? Quase me assustou... – olhou de soslaio para o parceiro, que se aproximava com um guarda-chuva maior.

Ele também era outro paradoxo. Um Zumbi anão que odiava magia. Ao contrário dos outros de sua raça, que se orgulhavam do gigantismo (que beiravam ao exagero dos Dragões Verdes, com três ou quatro metros de altura em seus corpos decompostos e mal arrumados), Ulisses trilhou o caminho da polícia ainda na infância. Foi o ser mais jovem a se graduar na academia, e com o mérito de nunca ter usado feitiços. Ser um investigador em Exsor requeria pelo menos técnicas alquímicas, mas, devido à sua repulsa pelo misticismo, transformou-se em um químico renomado. Eram parceiros desde sempre, galgando os cargos dentro da corporação juntos.

— Acabaram de me tirar de um jantar com Stella Markov. Acha mesmo que eu estaria de bom humor?

— Aquela vampira que usa máquinas para pintar? Caramba, você matou quem para conseguir isso?

— Vamos focar em um crime por vez... – deixou a proteção com sua parceira e ajeitou a gravata do terno. O chifre na lateral esquerda do crânio descarnado insistia em arranhar a parte de trás da gravata. Devia ter seguido a idéia do alfaiate e comprado o lenço. Seria muito melhor.

Pegou um par de luvas multirracial com o perito mais próximo e chegou perto da cova. Marcas de garras, curtas demais para ser de alguma fera. O corpo não tinha sinais de defesa, o que sugeria algum tipo de afeto da vítima para com seu agressor. Havia também sangue demais espalhado, mostrando que o corpo fora arremessado ali, e não colocado. Fez que ia levantar, mas algo lhe chamou a atenção.

— Sim, tem um ingresso corporativo na mão dele.

— Se sabia, porque não recolheu a prova?

— Você ia querer ver até o jeito que a vítima estava segurando, Uli.

— Se você me descrevesse a cena, eu saberia.

— Quer que eu te lembre o que me falou da última vez?

— Eu estava de ressaca. Era ano-novo...

Riram, sem preocupação. O detalhe do ingresso era mais do que o suficiente para resolver o caso. Gothica odiava quem matava um de seus fãs. O máximo de problema que teriam seria controlar a choradeira da deusa e evitar que ela e a banda não interferissem na investigação antes de matar o culpado.

— Par, ímpar ou vai ser cavalheiro?

— Nem pense nisso, senhorita. Eu que não vou perder meu tempo em bater na porta do teatro sozinho. Sabe muito bem que ela lançou cd novo ontem, então deve estar até agora bebendo no bar do teatro central, em Xandrian.

— Ok, ok... mas você dirige!