Aqueles barulhos sempre lhe confortaram após um dia inteiro de serviço. Era como se tudo ao redor lhe dissesse “Bom trabalho, agora vá descansar”. O cargo era bom, e, se continuasse mantendo os gastos controlados e guardando o mesmo valor por mais três meses, finalmente poderia se mudar para o apartamento que queria. Não se importava em usar transporte público, mas aquilo cansava com o tempo.

Cumprimentou o segurança com um aceno de cabeça, afrouxando a gravata. A pasta estava um pouco pesada, mas tudo bem. Já estava de folga, e só voltaria ali depois de um dia inteiro. Estaria mais do que preparado e recuperado quando voltasse.

Caminhou por alguns metros, olhando os prédios da avenida. Eram grandiosos, imponentes, assim como a cidade. Já morava ali a dois anos, mas nunca deixava de se surpreender. Tudo ali era orgulhosamente belo. Bem, talvez isso era por causa de seus criadores...

Um par de moças passou ao seu lado. Estavam com conjuntos de couro e botas longas. Não teve como não reparar nelas, mas logo entendeu o visual. A banda ia se apresentar ali perto. Tinha recebido um convite da empresa, mas não queria ir direto do trabalho para o show. Bem, isso sempre acontecia. Era apenas um assalariado em uma grande empresa...

Caminhou mais um pouco, quase esbarrando em um grupo de fãs um pouco mais mal encarados. Baixou o rosto e passou por eles, tentando não se destacar. Claro que nada iria ocorrer ali (os níveis de segurança da cidade eram absurdamente altos), mas não queria dar chance para o azar. Era só andar mais uma ou duas quadras e...

Ali estava. A entrada para o transporte. Muita gente descendo e quase ninguém subindo. Agradeceu à idéia de fazer hora extra, fugindo do caos da multidão. Era apenas uma hora a mais por dia, mas o acréscimo no pagamento lhe permitia uma viagem de volta sossegada e um conjunto de sofás com revestimento térmico.

Olhou pela janela enquanto o veículo acessava as vias altas, saindo do meio do trânsito para sua linha exclusiva. O panorama era ainda mais impressionante. Era como se a cidade não tivesse fim. Quilômetros se estendiam até onde sua visão findava, e o que via era apenas o pluralismo e culturas e raças. Seu pai sempre disse que sonhava muito para quem era, mas não se deixava afetar. No próximo semestre ia fazer as provas para entrar na faculdade de estudos culturais, aproveitando o subsídio da empresa. Estava tudo indo bem.

O transporte parou em um cruzamento, e seus olhos voltaram-se direto para o telão. O show estava sendo transmitido ao vivo. Pela primeira vez em todo o tempo que morava ali entendeu o porquê daquela banda ser tão famosa.

Todos os integrantes eram mulheres, e todas cantavam. Mas a front era particularmente surpreendente. Os traços do rosto eram poderosos, impositivos e atrativos. Era impossível desviar de seus olhos, e, quando ela começou a cantar, sua única vontade era gritar de emoção! Mesmo não sendo uma música (muito) famosa, seu coração batia em um ritmo tão acelerado que poderia explodir, e ele continuaria sorrindo, acompanhando a canção com os pés e tentando fracamente igualar o coro. Que coisa incrível! A beleza da vocalista era só comparável à perfeição de sua voz. Era como se não precisasse do microfone em forma de espada para que sua arte ecoasse pelo mundo!

Pensou um pouco mais e viu que não podia perder aquilo. Desceu no ponto e correu para a outra plataforma. Tinha que voltar lá. Ele precisava vê-la! Alguns fãs entusiasmados pareceram ter a mesma idéia, ladeando-o em suas jaquetas e roupas de couro. Mesmo quando sua maleta escapou, um daqueles que julgou mal encarado não a deixou sequer tocar o chão, agarrando-a com a maestria de alguém que vivia com lâminas e armas de arremesso o tempo todo e a entregou gentilmente, dando-lhe um tapinha no ombro e um “boa sorte”.

A música ficava cada vez mais alta enquanto se aproximava do teatro. A construção gigantesca tentava abrigar aquela voz e seus fãs, mas era claramente impossível. Viu mais três telões sendo desenrolados na área de acesso, e a imagem da toda poderosa banda tomar os tecidos. Viu quando a front terminou sua música e lançou a espada para cima, trocando de lugar com a baterista, uma moça baixinha e ruiva, mas com uma voz tão poderosa quanto a da primeira, que fez todos voltarem a gritar de excitação.

Mostrou a entrada para um dos seguranças, que carimbou sua mão e deixou que entrasse, sorrindo. Ele devia ser um sortudo, já que pôde ouvir todas as músicas desde o começo. Correu o mais que pôde, aproveitando o fluxo dos pulos para chegar cada vez mais perto do palco. As pessoas ao redor perceberam que era um “novato”, já que ainda estava de terno. Um grupo de jovens o puxou para perto, entusiasmados com a paixão recém desperta, e o colocaram grudado na separação de segurança, o ponto mais perto do palco.

E ali ficou por todo o show. Acompanhava cada música, cada movimento, cada tom e grito que aquelas vozes moldavam em forma de canções. No final, quando a front terminou o bis, embainhou o microfone e saltou do palco direto par aonde ele estava. Aquilo foi o máximo da noite! De perto ela era ainda mais linda. Os cabelos negros emoldurando os olhos esverdeados, enquanto o corpo era coberto por um vestido roxo e vermelho, com ombreiras curtas com espinhos.

“Como se chama”, disse a front. Por um segundo pensou que não era com ele, mas quando os jovens ao seu redor começaram a pular de felicidade, chamando-o de “sortudo”, aceitou que aquilo não era um sonho. “Rault! É o primeiro show que venho!”

Um incrível sorriso surgiu no rosto dela, que retirou as proteções de separação e o puxou para um abraço, rindo. “Obrigado por me ouvir!”, ela disse, tão emocionada quanto ele. “Adoro quando um fã novo surge!”

— Eu que agradeço por poder te ouvir, Gothica! – Rault gritou, ainda abraçado nela.

O teatro todo exultava aquele momento. A maior cantora de Exsor sempre fora assim. Ela sempre se emocionava quando uma nova pessoa vinha a seu show pela primeira vez. Não importava se era um humano, ele era um fã. E não importava que ele não soubesse que era ela a Deusa das Cidades, a entidade que dava nome àquela cidade, e que os bairros tinham os nomes das integrantes de sua banda – que eram parte dela. Aquela pessoa era o ser mais importante.

E, naquela noite, o jovem Rault, um mero humano, a raça mais fraca do Mais Poderoso Planeta, descobriu o que era a verdadeira felicidade, pois em sua alma ecoaram as vozes da deusa, da cantora e do espírito da cidade. E até o fim de sua vida ele não esqueceria daquele momento...

Notas finais
não perca os próximos capítulos!

se gostou, deixe um comentário. e, para mais informações, entre em contato com o autor!

lord_kayol@hotmail.com

DeadHeart Agradece, e boa leitura! o/