Notas iniciais
"Você tem problemas? Não é engraçado, é constrangedor. No máximo, shippável. Essas deveriam ser suas reações, e não um ataque de riso!"

Eu não posso me permitir ficar mal pelo que fiz. O Luís não merece isso. Ele não merece meu remorso, minhas lágrimas, nem nada do tipo. Ele só merece a minha vingança.

Depois de um banho demorado, enquanto pensava em dona Camila e tentava articular alguma forma de ajudá-la, fui para a sala. Leo estava jogado no único sofá que tínhamos, de três lugares. Quando o compramos, eu havia batido o pé, decidida que teria cor escura. Sofás claros sujam muito facilmente! Sabendo do meu temperamento, ninguém discutiu.

— E aí, baby doll? Quais as novidades? – pergunta Leo, quando puxo suas pernas para abrir espaço para que eu possa sentar.

— Outro apelido? – reviro os olhos. – Sem novidades. – Penso. – Aliás, tenho uma. E você não vai acreditar.

— Qual? – Ele ergue num pulo. – Conta tudo, não esconde nada. O que aconteceu naquela biblioteca, hein? Vocês tiveram uma pegação quente, não tiveram?

— Meu Deus, Leonardo, não! – Não sei porque, mas fico vermelha na hora. Tento disfarçar, empregando o máximo de raiva na voz. – Claro que não, eu não quero ficar com o Benjamin! Não quero ficar com ninguém!

— Ah... – solta um muxoxo, visivelmente chateado, ajeitando-se novamente. – Que pena. Então o que aconteceu? Foi algo lá na casa de dona Camila? Ela falou alguma coisa?

— Apenas que não gosta da nova namorada do Luís – dou de ombros. – E descobri que ele é um machista babaca.

— O quê? Não! Sério? O que foi que ele fez?

— Ele não apoia que a mãe exponha os quadros. E ela tem um talento natural! Diz que não dá dinheiro e que ele irá sustentá-la.

— Não sei o que dizer, só sentir... Sentir bastante asco daquele traidor!

— É. – É a única coisa que digo. Deixo minha mente vagar, quando nós dois calamos. Encaro a televisão, que está transmitindo alguma dessas séries que o Leo adora, mas não faço a menor ideia de qual. Já me perguntei inúmeras vezes qual o meu problema, porque eu simplesmente não consigo acompanhar série nenhuma. – A Chapeuzinho não devia ser do bem? – pergunto, tentando absorver alguma coisa daquilo.

— Não, aí a Chapeuzinho é bem malvada.

Cruzo os braços por alguns segundos, tentando entender tudo aquilo.

— Qual o nome desta série?

Mas não consigo ouvi-lo, porque meu celular toca com a chegada de uma mensagem. Eu o pego e vejo que é de um número estranho. “Oi, o que vai fazer hoje? B.”

B? Quem diabos é B? Começo a responder: “Quem é?” Quase instantaneamente recebo a resposta: “É o Ben.”

— Leonardo! – praticamente grito, fazendo meu melhor amigo me olhar assustado.

— O que eu fiz?

— Você deu o meu número para o Benjamin! – Não era uma pergunta, porém eu esperava que ele negasse. O que ele não fez, óbvio. – Não acredito nisso, Leo! Por que você deu meu número para ele?

— Ele é legal, é nosso amigo, qual o problema? Para de ser histérica!

— Eu não sou histérica! – grito de novo, e dessa vez a minha mãe aparece no corredor.

— Linda, para de grito – ela ralha.

Olho feio para Leo, pedindo desculpas à minha mãe. Leo apenas tenta segurar a risada.

— Estão com fome? Tem pizza no congelador – sugere ela.

— Comemos pizza ontem – replico. – Vou comer só pão. Obrigada.

Ela apenas dá de ombros e volta para o quarto. Pego meu celular e vejo que tem outra mensagem. Salvo o número antes de responder.

De Benjamin: Não vai responder?

Para Benjamin: Nenhum plano.

De Benjamin: E não vai perguntar para mim se tenho planos?

Para Benjamin: Na verdade, não tenho interesse.

De Benjamin: Ai, nossa. Essa doeu.

Para Benjamin: :)

Mas não recebi resposta. Será que fui muito grossa?

Ah, quer saber? Dane-se!

Decido ir até a cozinha, pegar qualquer coisa para comer. Não estou muito no espírito de sair ou de preparar algo mais elaborado, então simplesmente pego um pão, queijo e um pouco de suco. Sento-me à mesa quadrada de plástico que foi escolhida à dedo. Não temos luxo aqui, casa de universitário, não é? Mas eu gostava de tudo arrumado e bem feito.

Olho o celular novamente, apenas por desencargo de consciência, porém não há nenhuma mensagem. Largo-o sobre a mesa e me dedico a cortar e passar manteiga em meu querido pão.

E é claro que eu não ia ter paz. Claro que não.

— E a novidade? Você ainda não me contou! – Ouço a voz de Leo ecoando pela casa, conforme ele se aproxima de onde estou. Mantenho-me calada, concentrada em mastigar. Ele pega um prato e começa a se servir. – Pode ir falando.

Reviro os olhos.

— Bom – começo –, você lembra daquele garoto, na festa da escola do São João de 2006, que me chamou para dançar e me deu uma flor?

— Hum, acho que sim. Meu Deus, você foi tirar essa do fundo do baú, hein? O que te deu para pensar nisso? – Dá uma mordida. – Qual era mesmo o nome dele?

— Benjamin – resmungo.

— Ah, era mesmo, ele era todo magrinho e... – Ele para e me encara, meio chocado. – Benjamin? Sério? É muita coincidência...!

Eu o encaro e a minha resposta a este comentário deve estar estampada na minha testa, porque ele começa a rir.

— Ah, minha diva Beyoncé, eu não acredito! Não acredito! O seu Benjamin é o nosso Benjamin? É o destino, É O DESTINO! – Acho que ele está prestes a ter um mini infarto, de tanto rir. – Desculpa, mas isso é muito engraçado!

— Você tem problemas? Não é engraçado, é constrangedor. No máximo, shippável. Essas deveriam ser suas reações, e não um ataque de riso!

— Hmm... – Merda. Ele começa a bater na mesa, com um olhar malicioso. – Shippável, né? Quem disse que eu não shippo vocês? E você dizendo isso, acabou de admitir que existe uma possibilidade! Ha-há!

— Não existe, não! Abaixa o fogo, Leonardo. Você viu o que aconteceu da última vez que me shippou com alguém!

Ele para de rir no mesmo instante. Uma expressão amargurada fica visível em seu rosto.

— Linda, quanto a isso, preciso te pedir desculpas, de verdade. Não sabe o quanto me sinto mal por ter te perturbado tanto para ficar com aquele cara.

— Leo, para, não é culpa sua ele não ter caráter. – Balanço a cabeça.

— Mas eu sou seu melhor amigo! Devia te proteger de caras assim. Devia ser do tipo “se você quebrar o coração dela, eu quebro a sua cara.” Só que não sou badass, sabe?, o suficiente, e nem o Alec e, pelo visto, nem o Benjamin.

Eu rio.

— Olha, você é muito badass. Você é o cara mais estiloso daquela universidade, namora um boy magia que faz inveja nas inimigas e é o meu melhor amigo, a morena mais cobiçada daquele campus! – digo, e consigo arrancar um leve sorriso dele. – Leo, é sério, não fique se culpando por isso. O Luís é que é um babaca. Nenhum de nós dois poderíamos prever o que ele ia fazer.

Meu melhor amigo me olha, ainda meio cabisbaixo.

— Mas você me perdoa?

— Não tem o que perdoar. Porém, se vai te fazer se sentir melhor, eu te perdoo. Além disso, nós vamos fazer com que ele pague por tudo, não vamos?

— Pode apostar nisso! Toca aqui, vadia. – E nós dois batemos as mãos.

Já na cama, depois de passar três horas revisando os assuntos, pronta para dormir, encaro o teto, pensando na minha vingança. Amanhã, com sorte, verei meu ex-namorado correndo para o banheiro na hora da prova.

Pego meu celular para checar as horas e lembro de Benjamin. Talvez eu tenha sido muito grossa com ele, e ele tem sido muito legal comigo. Decido mandar uma mensagem.

Para Benjamin: Oi, me desculpa por mais cedo, estou meio tensa.

Largo o aparelho, pesando se foi uma boa ideia enviar. Coloco o braço sobre os olhos, aguardando o novo toque, que virá com a resposta. Demora pelo menos cinco minutos, até que ouço o som abafado da mensagem.

De Benjamin: Tudo bem. Meio complicada essa história de vingança, né?

Para Benjamin: Sim...

De Benjamin: Está tudo ok?

Para Benjamin: Acho que sim.

De Benjamin: Acha?

Para Benjamin: Deixa pra lá. Foi o Leo que te deu meu número, não foi?

De Benjamin: Bom, eu meio que pedi pra ele.

Para Benjamin: Você meio que pediu? Haha.

De Benjamin: Tá bom, eu pedi. Hahaha.

Para Benjamin: Para quê?

De Benjamin: Para falar com você, ué! E aí, já aprendeu a dançar? São João está chegando, hein?

Para Benjamin: Eu sei. E acho que aprendi, sim!

De Benjamin: Ótimo, assim não terá desculpas para não dançar comigo, desta vez!

Para Benjamin: Hahaha. Sempre há uma desculpa! Vou dormir, boa noite, até amanhã.

De Benjamin: Veremos! Boa noite, até.


Bom, até que a noite não havia sido tão ruim assim.

Notas finais
Oi, vingativos, tudo bem? Espero que sim! Bom, vocês estão vendo que postei atrasado, mas tenho algumas boas explicações, e uma delas é que eu peguei Zika e não consegui escrever. Tive dor de cabeça durante todo fim de semana. Mas enfim, fico feliz que a história esteja sendo tão bem recepcionada. Sabe o que me deixaria ainda mais feliz? Se vocês achassem que esse capítulo merece um comentário! Mas se não tiverem tempo ou apenas se estiverem com preguiça mesmo, fiquem com meu beijo no coração! Amo vocês, vejo vocês em breve! Beijos da Luna.