Notas iniciais
"Não, foco, Linda, foco. Prioridades. Sua prova. Sua vingança. Benjamin não é uma delas. Não mesmo."

O dia promete. Sabe quando você acordar com uma sensação estranha de que tudo pode dar muito certo ou muito errado? Então, foi assim que acordei.

Levanto da cama sem pressa. Tive uma noite ótima e talvez por isso um sorriso insiste em permanecer em meus lábios. Prendo os cabelos, faço meu alongamento matinal – li várias matérias sobre como diminuir o estresse e vi que se alongar faz bem – e corro para o banheiro. Tenho que ser a primeira a entrar, senão só o usaria uma hora depois!

Não demoro muito tempo ali. Saio enrolada na minha toalha e vou direto ao meu quarto, já pensando na próxima roupa que irei usar. Tem que ser algo sexy, mas sem cara de culpada. Não quero que o Luís perceba que estou me vingando dele. Ele deve achar que eu o esqueci, que eu o superei. E, aliás, foi exatamente o que aconteceu, não foi?

Abro o guarda-roupa e já decido qual será meu traje. Visto-me, faço a maquiagem dando destaque aos olhos, porém usando um batom mais leve. Sorrio com o resultado, pego minha bolsa e saio do quarto.

— Como estou? – pergunto, assim que chego à cozinha e encontro Leo tomando seu café.

— Mudou o estilo matadora? – Ri. – Continua gatíssima, viada.

Dou uma rebolada, exibindo minhas curvas. Para hoje, especialmente, escolhi usar uma calça de cintura alta num tom mais escuro, que realça meu bumbum, e uma blusa branca, de renda, com mangas longas. Mantive os cabelos soltos, pois as ondas dão um ar incrivelmente sexy – que foi? Uma garota tem que se valorizar! Para completar, saltos.

— Obrigada – respondo. – Mas olha só isso. ­– Viro de costas, exibindo o trunfo do meu modelo: costas nuas, exceto pela renda finíssima. O Luís adorava as minhas costas. Ele dizia que blusas de costas nuas me deixavam muito sensual.

— Se eu não fosse gay, te pegava agora mesmo! – Leo comenta, sério, o que faz nós dois cairmos na gargalhada três segundos depois.

Chegamos cedo ao campus. Os alunos começam a chegar em grupos, caronas ou ônibus. O bom da faculdade é aquele clima legal de “está todo mundo no mesmo barco”, sabe? Todo mundo é mais solidário, em teoria, e estamos mais atentos à política, o que é um avanço. Vai dizer que no Ensino Médio você pensava na situação caótica do país? Duvido. Aposto que estava mais preocupado em passar no vestibular, em conquistar o crush ou fazer maratona de séries nos finais de semana!

Parados em frente aos nossos armários – enquanto eu brigo com o meu, por sinal –, Leo e eu discutimos sobre a conversa que tive com Benjamin antes de dormir.

— Ele está a fim de você – diz, cruzando os braços.

— Não está, não. Para com isso, Leonardo. Benjamin é somente um amigo do passado.

— Passado, é? Precisava ver ele praticamente implorando para eu dar teu número.

Reviro os olhos, tentando pensar em qualquer coisa para mudar de assunto.

— Você está bonito, hein? – comento. – Que marca é essa calça? Tem feminina também? Ficou perfeita.

Ele olha a si mesmo de cima a baixo, e depois ergue a cabeça num sorriso orgulhoso.

— Estou lacrando, não estou? – Ele desfila alguns passos, exibindo a camiseta polo branca e a calça jeans preta, contrastando com seu all star vermelho.

— Com certeza. – Rio.

­­– Mas não tente me distrair, mon’amour. Você é a conquistadora aqui, sabe bem melhor do que eu quando um cara está a fim. ­– Ele olha por cima do meu ombro. – E pela cara do moço ali, isso é um fato.

— Que? Ele está vindo? – Não sei por quê, mas fico agitada. Começo a ajeitar meu cabelo, ansiosa.

— Aham. E pela expressão meio embasbacada dele, acho que compartilha da mesma opinião do Luís.

— Que opinião?

Porém Leo não responde, apenas me lança um olhar malicioso. Não demoro muito para entender o motivo; Benjamin para ao meu lado em poucos segundos.

— Bom dia – cumprimenta.

— Bom dia, Benjamin – respondo, controlando-me para não me jogar no pescoço de Leonardo e estrangulá-lo. Ao invés disso, bato a porta do armário com toda força, chamando a atenção de alguns passantes.

— Bom dia, Ben. A Linda não está muito sexy hoje?

Eu. Não. Acredito. Nisso.

— Leonardo! – protesto, ficando vermelha, ao mesmo tempo que o rapaz ao meu lado solta uma risada constrangida, balançando a cabeça.

— Ela está muito bonita, sim, Leo.

— Viu? – meu melhor amigo me provoca. – Ele não mordeu. Agora vão, vão para aula!

Olho o relógio e percebo que realmente já é hora de ir, pelo menos se eu quisesse pegar bons lugares.

Consegui não chegar atrasada à sala. Quero dizer, consegui chegar antes de Luís. Procuro a cadeira ideal, que me dê visão privilegiada da porta, porém sem ser muito no fundo para não levantar suspeitas. Eu sempre gostei de me sentar na frente, então se de repente ele me visse num local não usual, com certeza iria suspeitar, não é?

Fico surpresa quando Benjamin não se senta perto de mim. Ele escolhe várias cadeiras à frente e, já que o professor não chegou ainda, vou perguntar o porquê. Afinal, tivemos uma conversa agradável ontem à noite. Ele estava me evitando?

— Oi, e aí? – decido ser sutil em minha abordagem. Não faço ideia do que está se passando na cabeça dele.

— Oi. – Sorri, claramente ansioso.

— Está nervoso com a prova? – Sento na cadeira à sua frente. Ele observa cuidadosamente cada movimento meu, como uma cobra prestes a dar o bote.

— Com a prova, não. Mas você com certeza aprontou alguma.

— Eu? – Faço minha melhor cara de inocente. Como sei que ele não acredita em mim, mudo de assunto. – Por que sentou aqui?

Benjamin não responde, apenas olha para a porta. Luís está chegando com cara de poucos amigos, cheio de olheiras. Provavelmente, passou a noite sentado no vaso sanitário. Comemoro por dentro e noto que Ben está me olhando de esguelha.

— O que aconteceu com ele? Está péssimo.

Sorrio, na minha melhor versão femme fatale, jogando o cabelo para trás.

— Vai ver passou a noite acordado. – Dou de ombros. – E você? Não vai me responder por quê sentou tão longe de mim?

Ele ri baixinho e faz sinal para meu corpo.

— Porque – sorri meio de lado – eu preciso me concentrar.

Não demora muito mais para o professor chegar, então corro para minha carteira. As palavras de Benjamin ainda ecoam na minha mente, quando o professor entrega a avaliação. Claro que eu fiz de tudo para desconversar e disse a mim mesma que ele estava só brincando. Mas não podia negar que aquelas palavras me abalaram.

Não, foco, Linda, foco. Prioridades. Sua prova. Sua vingança. Benjamin não é uma delas. Não mesmo.

Respiro fundo e começo a ler a primeira questão. Fácil. Quando encosto a caneta no papel, sinto uma movimentação próxima a mim, alguém se levantando. Com deleite, noto que o andar era o mesmo que tantas vezes eu apreciara enquanto o seu dono vinha apressado na minha direção, para me abraçar e sussurrar que me amava.

Agora ele saía correndo da sala, a prova virada em sua carteira, um lugar para onde muito provavelmente não voltará hoje.

Notas finais
Oi, vingativos, tudo bem? Dei uma sumida por inúmeros motivos, mas não esqueci de vocês! O capítulo já estava pronto, só me faltava tempo para postar... Se acharem que ele merece um comentário, comentem! Se não, ou se estiverem cansados demais, fiquem com um enorme beijo! Vejo vocês em breve!