Notas iniciais
" Não acredito que você vai fazer isso – Leo diz, porém noto um sorriso em sua voz. – Amanhã ele tem uma prova importante! — Eu sei disso – respondo. – E eu também perdi aulas importantes enquanto chorava por aquele babaca. Nada mais justo do que fazê-lo perder alguns dias de férias, estudando para a final."

— Muito bem, agora que estão todos aqui... – começo, notando o olhar malicioso de Leo para mim e Benjamin. – Eu pensei num plano de vingança.

Estamos todos no restaurante universitário, que está vazio. Já é quase noite, então todos os discentes deveriam estar em ônibus ou em suas casas agora. Sentamos em volta de uma mesa de plástico de alguma marca de cerveja – pois é, mesas de plástico de uma cervejaria numa universidade—, despejando todos os nossos cadernos, bolsas e objetos em cima.

Benjamin levanta a mão.

— Só gostaria de dizer que não compactuo com isso – diz.

— E eu gostaria de dizer que você não tem o direito de dizer isso, porque você já está aqui agora. Então cala a boquinha – replico. – Continuando. Tive uma ideia para acabar com o filho da puta.

— Isso! – Leo comemora, com expectativa. – Nós vamos arrancar as bolas dele com alicate?

— Meu Deus, isso não dói em você só de pensar? – Benjamin fica abismado e toca, imagino que de forma inconsciente, suas próprias bolas. Tento não pensar neste ato.

— Foco! – reclamo. – Não, Leo, apesar de sua ideia não ser ruim, não quero ser presa, pelo menos não até terminar o Ensino Superior.

— Não é estranho o fato de sua única ressalva para não ser presa é terminar a faculdade? – Bem me interrompe novamente.

Respiro fundo. Conto de zero até dez. Só que isso não funciona, porque eu sou ariana. É claro que sou ariana.

— Benjamin, se você não parar de me interromper, vou jogar esta cadeira na sua cabeça! – digo, controlando meu tom de voz, os olhos fechados.

— Fica quieto, cara, é melhor – posso ouvir a voz de Alec e mais nem um pio de Benjamin.

Bato as mãos na mesa e ajeito-me, como se fosse uma empreendedora. Bom, de certa forma eu sou. Eu deveria abrir uma agência, na verdade. A agência das pessoas que foram traídas e que querem e merecem se vingar. Porque, afinal, o mundo está cheio de filhos da puta que devem aprender uma lição.

— Muito bem, agora que não temos mais interrupções, vamos lá. O meu plano é – faço uma pausa para deixá-los mais curiosos, mas sou péssima nessas coisas – fazer com que o Luís pense que está maluco e azarado.

Noto que o olhar de todos vai de curioso para confuso. Alec é o único que se manifesta:

— Quê?

— Isso é genial, gente. Sério. Pensem comigo. Ele deve estar se sentindo o cara mais pica das galáxias, se exibindo por aí com aquela loira oxigenada. É o que quero.

— Desculpa, mon’amour, mas não entendi – diz Leo. – Você quer que aquele traidor se sinta vitorioso?

— Exatamente – respondo, me levantando. – Vamos lá, Benjamin, pense como um homem. Se você tivesse traído uma garota e estivesse se sentindo o mais fodão de todos, o que inflaria o teu ego?

— Não sei se eu seria... – ele começa.

— Pense como um canalha, Benjamin! Deixe de falsos moralismos! – incentivo.

— Tá. – Ele demora um pouco pensando. – Acho que ver a garota mal elevaria o ego de um cara que só queria brincar com os sentimentos dela.

— Isso! – confirmo. – E o Luís já teve tempo disso. Ele teve uma semana para me ver mal. – Sorrio maleficamente. – Agora vem o plano B.

— Se entupir de chocolate, assistindo as adaptações dos livros de Nicholas Sparks, era o plano A? – alfineta Leo.

Não expliquei exatamente os passos dos meus planos para a minha equipe. Decidi chamá-los de Vingadores, primeiro porque eu amo aquele filme e, segundo, porque decidi ser a Viúva Negra e acabar com aquele canalha.

Saio do campus com Leo me seguindo. Benjamin ofereceu uma carona para Alec, o que foi muito conveniente, já que descobrimos que eles moram para o mesmo lado da cidade. Além disso, eu tenho algumas coisas para resolver, porém Leo não para de me atormentar.

— Ainda não entendi – repete, pela sétima vez. – Por que você comprou duas caixas de chocolates? E por que estamos indo na casa da mãe dele? Poderia pelo menos me dar uma. Sou seu melhor amigo!

— Não vamos direto à casa da mãe dele. Vamos passar em uma farmácia antes.

— Farmácia? Que diabos você vai fazer numa farmácia?

Apenas sorrio.

Em frente à casa da mãe de Luís, pego as duas caixas de bombons e o pacote com as coisas que comprei na farmácia. Peço ajuda à Leo, que segura os chocolates de cara feia.

— Eu compro uma para você, tá bom? Apenas para de fazer essa cara de quem teve seus ingressos para o show da Beyoncé rasgados!

— Queria eu ter ingressos para o show da minha rainha – resmunga, mas seu humor está um pouco melhor.

Viro o pequeno pacote de papel, revelando os itens comprados: uma seringa e um frasquinho de laxante.

— Não acredito que você vai fazer isso – Leo diz, porém noto um sorriso em sua voz. – Amanhã ele tem uma prova importante!

— Eu sei disso – respondo. – E eu também perdi aulas importantes enquanto chorava por aquele babaca. Nada mais justo do que fazê-lo perder alguns dias de férias, estudando para a final.

Com a seringa, sugo um pouco do remédio e depois peço uma das caixas de bombons para Leo.

— Não, essa não. A de amêndoas. É a preferida dele.

Ele me entrega e, com cuidado, pego os chocolates, uma a um, injetando o laxante. Depois coloco todos em ordem, fecho a caixa e o lacre. Abro o porta-luvas e pego um pequeno cartão escrito “da sua admiradora secreta”. Coloco sobre a caixa.

— Pronto. Fica aqui, não vou demorar.

Admito que estou um pouco nervosa com o que estou prestes a fazer. E se a mãe dele comer os bombons da caixa errada? E se ele não comer os bombons? Não, isso eu sei que ele fará. É um guloso e adora chocolates. Pensamento positivo, Linda, pensamento positivo.

Toco a campainha.

— Oi, dona Camila, como vai a senhora? – Cumprimento assim que a mulher de meia idade abre a porta.

Dona Camila abre um enorme sorriso ao me ver, puxando-me para um abraço. Sua força sempre me deixa surpresa. Correspondo ao gesto afetuoso. Eu realmente senti falta disso.

— Linda! Como você está bonita! Entra, entra – diz, abrindo um pouco mais a passagem. – O Luís não está.

— Ah, eu sei, não se preocupe.

— Ele fez uma enorme bobagem ao terminar com você, ainda custo a acreditar. Aquela menina é tão...

Seguro a minha língua para não contar a ela que não foi o término uma bobagem, uma coisa absurda, mas sim o fato de ele me trair.

— Pois é – é tudo o que digo, sentando-me no pequeno sofá marrom.

A casa da mãe de Luís é aconchegante. A sala, onde estou, possui apenas um pequeno sofá e duas poltronas marrons. Uma mesinha de centro de madeira está logo à minha frente, com pequenos itens de decoração. A TV está ligada, encaixada num daqueles painéis na parede. Abaixo, um aparador suporta inúmeros porta-retratos de família, que já admirei muitas vezes. As paredes brancas apresentam ainda quadros que eu sabia que foram pintados pela minha anfitriã.

­– Ah, olha, trouxe isto para a senhora! – Entrego a primeira caixa, de chocolates ao leite. Meus momentos de convivência me ensinaram que dona Camila era como eu e não gostava de chocolate com recheio. – E isto aqui para o Luís. – Entrego a segunda caixa. – É de amêndoas, o preferido dele. Será que a senhora pode entregar a ele? Mas sem dizer que fui eu. Também gostaria que não dissesse que estive aqui.

— Claro, querida – responde, sorrindo, enquanto abre a primeira caixa e prova um bombom. – Delicioso.

Sorrio, observando-a. Dona Camila é uma boa mulher, doce e forte. Seus cabelos castanhos e curtos estavam sempre bem arrumados, e ela não aparentava a idade que tinha. As pequenas rugas ao redor dos olhos cor de mel poderiam ser muito bem por tanto sorrir. Sua pequena estatura lhe dava um ar inocente, mas também podia ser assustadora e rígida, quando necessário. Ela criou seu filho para ser um homem gentil e respeitador, mas em algum momento Luís deve ter se desviado.

Levanto-me para olhar os quadros nas paredes. Ela é realmente boa no que faz.

— São novos? – pergunto.

— São sim. – Camila me segue. – Pintei há algumas semanas.

— São lindos – murmuro, meio que num suspiro, enquanto observo uma imagem de um casal caminhando à beira do mar. – A senhora devia exibi-los em algum lugar.

— Ah, filha, não! O Luís sempre diz que isso não dá dinheiro, para eu continuar fazendo como hobby mesmo. Ele quer me sustentar.

Quando foi que o Luís se tornou um babaca machista?

— Bom, eu acho que a senhora devia exibi-los. Me parece amar o que faz, e deve fazer o que ama porque ama, não por causa do dinheiro. Se isso for consequência, ótimo. Se não, pelo menos faz bem à alma.

Dona Camila não fala nada, apenas observa a própria arte. Olho para o relógio. Droga. Está perto de Luís chegar.

— Preciso ir – digo.

— Está cedo, não quer comer nada? Tem pão de forno, sei que adora.

— Hmm, adoro mesmo, mas meu amigo está esperando no carro. – Abraço-a. – Pense no que falei. Se precisar, posso ajudá-la.

Noto que seus olhos estão iluminados, quando nos soltamos.

— Obrigada, Linda, vou pensar com carinho. Prometo. – Sorri.

Despeço-me mais uma vez e volto correndo para o carro. Dona Camila está acenando da porta e eu e Leo respondemos ao aceno. Ligo e acelero, sentindo-me um pouco culpada por estar usando a mãe de Luís desse jeito, mas digo para mim mesma que é por uma boa causa.

— Deu tudo certo? – pergunta meu melhor amigo.

— Sim. Deu sim.

Notas finais
Oi, vingativos! Olha, devo dizer que vocês me deixaram muito feliz com seus comentários! Fico contente que a história esteja agradando. Desculpa por não ter postado no dia certo, acabei adoecendo e não consegui escrever, mas já trouxe hoje! E então, o que acharam? Bem, se você acha que o capítulo merece um comentário, comenta! Se não, ou se estiver com preguiça mesmo, fica com um beijo enorme no coração e meu bom dia/boa tarde/boa noite! Amo vocês! Beijos da Luna.