Espelho, Espelho Meu, O Meu Amor É Teu?
6 Shippável
Notas iniciais
Eu não posso me permitir ficar mal pelo que fiz. O Luís não merece isso. Ele não merece meu remorso, minhas lágrimas, nem nada do tipo. Ele só merece a minha vingança.
Depois de um banho demorado, enquanto pensava em dona Camila e tentava articular alguma forma de ajudá-la, fui para a sala. Leo estava jogado no único sofá que tínhamos, de três lugares. Quando o compramos, eu havia batido o pé, decidida que teria cor escura. Sofás claros sujam muito facilmente! Sabendo do meu temperamento, ninguém discutiu.
— E aí, baby doll? Quais as novidades? – pergunta Leo, quando puxo suas pernas para abrir espaço para que eu possa sentar.
— Outro apelido? – reviro os olhos. – Sem novidades. – Penso. – Aliás, tenho uma. E você não vai acreditar.
— Qual? – Ele ergue num pulo. – Conta tudo, não esconde nada. O que aconteceu naquela biblioteca, hein? Vocês tiveram uma pegação quente, não tiveram?
— Meu Deus, Leonardo, não! – Não sei porque, mas fico vermelha na hora. Tento disfarçar, empregando o máximo de raiva na voz. – Claro que não, eu não quero ficar com o Benjamin! Não quero ficar com ninguém!
— Ah... – solta um muxoxo, visivelmente chateado, ajeitando-se novamente. – Que pena. Então o que aconteceu? Foi algo lá na casa de dona Camila? Ela falou alguma coisa?
— Apenas que não gosta da nova namorada do Luís – dou de ombros. – E descobri que ele é um machista babaca.
— O quê? Não! Sério? O que foi que ele fez?
— Ele não apoia que a mãe exponha os quadros. E ela tem um talento natural! Diz que não dá dinheiro e que ele irá sustentá-la.
— Não sei o que dizer, só sentir... Sentir bastante asco daquele traidor!
— É. – É a única coisa que digo. Deixo minha mente vagar, quando nós dois calamos. Encaro a televisão, que está transmitindo alguma dessas séries que o Leo adora, mas não faço a menor ideia de qual. Já me perguntei inúmeras vezes qual o meu problema, porque eu simplesmente não consigo acompanhar série nenhuma. – A Chapeuzinho não devia ser do bem? – pergunto, tentando absorver alguma coisa daquilo.
— Não, aí a Chapeuzinho é bem malvada.
Cruzo os braços por alguns segundos, tentando entender tudo aquilo.
— Qual o nome desta série?
Mas não consigo ouvi-lo, porque meu celular toca com a chegada de uma mensagem. Eu o pego e vejo que é de um número estranho. “Oi, o que vai fazer hoje? B.”
B? Quem diabos é B? Começo a responder: “Quem é?” Quase instantaneamente recebo a resposta: “É o Ben.”
— Leonardo! – praticamente grito, fazendo meu melhor amigo me olhar assustado.
— O que eu fiz?
— Você deu o meu número para o Benjamin! – Não era uma pergunta, porém eu esperava que ele negasse. O que ele não fez, óbvio. – Não acredito nisso, Leo! Por que você deu meu número para ele?
— Ele é legal, é nosso amigo, qual o problema? Para de ser histérica!
— Eu não sou histérica! – grito de novo, e dessa vez a minha mãe aparece no corredor.
— Linda, para de grito – ela ralha.
Olho feio para Leo, pedindo desculpas à minha mãe. Leo apenas tenta segurar a risada.
— Estão com fome? Tem pizza no congelador – sugere ela.
— Comemos pizza ontem – replico. – Vou comer só pão. Obrigada.
Ela apenas dá de ombros e volta para o quarto. Pego meu celular e vejo que tem outra mensagem. Salvo o número antes de responder.
De Benjamin: Não vai responder?
Para Benjamin: Nenhum plano.
De Benjamin: E não vai perguntar para mim se tenho planos?
Para Benjamin: Na verdade, não tenho interesse.
De Benjamin: Ai, nossa. Essa doeu.
Para Benjamin: :)
Mas não recebi resposta. Será que fui muito grossa?
Ah, quer saber? Dane-se!
Decido ir até a cozinha, pegar qualquer coisa para comer. Não estou muito no espírito de sair ou de preparar algo mais elaborado, então simplesmente pego um pão, queijo e um pouco de suco. Sento-me à mesa quadrada de plástico que foi escolhida à dedo. Não temos luxo aqui, casa de universitário, não é? Mas eu gostava de tudo arrumado e bem feito.
Olho o celular novamente, apenas por desencargo de consciência, porém não há nenhuma mensagem. Largo-o sobre a mesa e me dedico a cortar e passar manteiga em meu querido pão.
E é claro que eu não ia ter paz. Claro que não.
— E a novidade? Você ainda não me contou! – Ouço a voz de Leo ecoando pela casa, conforme ele se aproxima de onde estou. Mantenho-me calada, concentrada em mastigar. Ele pega um prato e começa a se servir. – Pode ir falando.
Reviro os olhos.
— Bom – começo –, você lembra daquele garoto, na festa da escola do São João de 2006, que me chamou para dançar e me deu uma flor?
— Hum, acho que sim. Meu Deus, você foi tirar essa do fundo do baú, hein? O que te deu para pensar nisso? – Dá uma mordida. – Qual era mesmo o nome dele?
— Benjamin – resmungo.
— Ah, era mesmo, ele era todo magrinho e... – Ele para e me encara, meio chocado. – Benjamin? Sério? É muita coincidência...!
Eu o encaro e a minha resposta a este comentário deve estar estampada na minha testa, porque ele começa a rir.
— Ah, minha diva Beyoncé, eu não acredito! Não acredito! O seu Benjamin é o nosso Benjamin? É o destino, É O DESTINO! – Acho que ele está prestes a ter um mini infarto, de tanto rir. – Desculpa, mas isso é muito engraçado!
— Você tem problemas? Não é engraçado, é constrangedor. No máximo, shippável. Essas deveriam ser suas reações, e não um ataque de riso!
— Hmm... – Merda. Ele começa a bater na mesa, com um olhar malicioso. – Shippável, né? Quem disse que eu não shippo vocês? E você dizendo isso, acabou de admitir que existe uma possibilidade! Ha-há!
— Não existe, não! Abaixa o fogo, Leonardo. Você viu o que aconteceu da última vez que me shippou com alguém!
Ele para de rir no mesmo instante. Uma expressão amargurada fica visível em seu rosto.
— Linda, quanto a isso, preciso te pedir desculpas, de verdade. Não sabe o quanto me sinto mal por ter te perturbado tanto para ficar com aquele cara.
— Leo, para, não é culpa sua ele não ter caráter. – Balanço a cabeça.
— Mas eu sou seu melhor amigo! Devia te proteger de caras assim. Devia ser do tipo “se você quebrar o coração dela, eu quebro a sua cara.” Só que não sou badass, sabe?, o suficiente, e nem o Alec e, pelo visto, nem o Benjamin.
Eu rio.
— Olha, você é muito badass. Você é o cara mais estiloso daquela universidade, namora um boy magia que faz inveja nas inimigas e é o meu melhor amigo, a morena mais cobiçada daquele campus! – digo, e consigo arrancar um leve sorriso dele. – Leo, é sério, não fique se culpando por isso. O Luís é que é um babaca. Nenhum de nós dois poderíamos prever o que ele ia fazer.
Meu melhor amigo me olha, ainda meio cabisbaixo.
— Mas você me perdoa?
— Não tem o que perdoar. Porém, se vai te fazer se sentir melhor, eu te perdoo. Além disso, nós vamos fazer com que ele pague por tudo, não vamos?
— Pode apostar nisso! Toca aqui, vadia. – E nós dois batemos as mãos.
Já na cama, depois de passar três horas revisando os assuntos, pronta para dormir, encaro o teto, pensando na minha vingança. Amanhã, com sorte, verei meu ex-namorado correndo para o banheiro na hora da prova.
Pego meu celular para checar as horas e lembro de Benjamin. Talvez eu tenha sido muito grossa com ele, e ele tem sido muito legal comigo. Decido mandar uma mensagem.
Para Benjamin: Oi, me desculpa por mais cedo, estou meio tensa.
Largo o aparelho, pesando se foi uma boa ideia enviar. Coloco o braço sobre os olhos, aguardando o novo toque, que virá com a resposta. Demora pelo menos cinco minutos, até que ouço o som abafado da mensagem.
De Benjamin: Tudo bem. Meio complicada essa história de vingança, né?
Para Benjamin: Sim...
De Benjamin: Está tudo ok?
Para Benjamin: Acho que sim.
De Benjamin: Acha?
Para Benjamin: Deixa pra lá. Foi o Leo que te deu meu número, não foi?
De Benjamin: Bom, eu meio que pedi pra ele.
Para Benjamin: Você meio que pediu? Haha.
De Benjamin: Tá bom, eu pedi. Hahaha.
Para Benjamin: Para quê?
De Benjamin: Para falar com você, ué! E aí, já aprendeu a dançar? São João está chegando, hein?
Para Benjamin: Eu sei. E acho que aprendi, sim!
De Benjamin: Ótimo, assim não terá desculpas para não dançar comigo, desta vez!
Para Benjamin: Hahaha. Sempre há uma desculpa! Vou dormir, boa noite, até amanhã.
De Benjamin: Veremos! Boa noite, até.
Bom, até que a noite não havia sido tão ruim assim.
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