Espelho, Espelho Meu, O Meu Amor É Teu?
4 Passado, passado, passado
Notas iniciais
O que exatamente acontece quando se mistura gasolina e açúcar?
Esta é a pergunta que fica martelando em minha cabeça por todo trajeto, enquanto voltamos para casa. Mantenho-me calada, com o olhar perdido, sentada no banco de trás. Pedi a Leo que dirigisse, pois só ele não havia bebido nesta noite, e eu não queria que acontecesse nada de ruim. Quer dizer, já basta a quantidade de desastres com o meu nome por aí!
— Por onde vagam os pensamentos da morena mais cobiçada da faculdade? – Meu melhor amigo cantarola, olhando-me rapidamente.
— Presta atenção na estrada, Leonardo! – E fecho a cara.
Ele e Alec trocam um olhar cúmplice, nos bancos da frente.
Benjamin não veio conosco. Ele tinha ido com o próprio carro.
Não sei por que estou pensando em Benjamin. Droga.
— Alguém, por acaso, sabe o que acontece quando misturamos gasolina e açúcar?
— Não, mas conheço um local onde você pode conseguir sua resposta – diz Alec.
— Google— Leo me dá uma piscadinha.
Assim que chego em casa, dou um beijo rápido na minha mãe e corro para meu quarto. Abro o notebook, trazendo para cama, e mordo a pontinha do dedo, esperando que o Windows carregue completamente. Atualizando. Droga. A tela indica que o carregamento ainda está em 30%, então decido trocar de roupa. Levanto, arrancando os trajes e jogando tudo em qualquer canto do quarto. Visto meu pijama favorito, uma regata branca e um shortinho azul, e volto para minha cama.
Finalmente acabou de carregar! Abro o navegador e digito no Google: O que acontece quando se mistura açúcar e gasolina? Aparecem nada menos que duzentos e quarenta e seis mil resultados. Sério, quem é que passa da segunda ou terceira página de pesquisa?
Mas para responder a tão curiosa pergunta, acontece algo bem simples. O açúcar pode entupir o filtro de combustível ou a bomba. Bem, não é grande coisa, mas dá um bom prejuízo. E quando o filho da mãe iria adivinhar que fui eu – bom, não tecnicamente eu – que arruinei o tão precioso carro?
Sorrio, imaginando a cena: ele tenta tirar o carro da vaga reservada, a multa pregada no para-brisa.
Onde foi que o Benjamin descobriu isso?
Decido ir dormir, buscando inspiração para minha vingança.
Quando acordo às seis da manhã, sinto-me renovada. Não sei por que dizem que vingança não compensa. Olha, me sinto ótima!
Tomo meu banho, me arrumo e admiro o resultado no espelho. Uma calça jeans escura justa, uma blusa preta costas nua, olhos marcados, batom vermelho, saltos e um colar com um pingente de âncora, para dar um toque mais delicado no visual sexy. Prefiro deixar o cabelo solto, já que não gosto muito de usar brincos. Sorrio e me sinto poderosa. Pego minha bolsa e saio do quarto.
— Mas, gente, você vai matar os caras da faculdade hoje, mon’amour! – Este é o bom dia do meu melhor amigo.
— Bom dia para você também – respondo, mas continuo sorrindo. Pego duas torradas. – Já está pronto?
— Quase. – E sai correndo, para terminar de se arrumar.
Quando saímos de casa, já são quase oito horas. A nossa sorte é morarmos perto do campus, ou Leo me faria chegar atrasada todos os dias. Minha mãe cedeu o carro novamente, e me pergunto por que ela tem estado tão boazinha ultimamente. Não que ela não fosse sempre, mas é raro deixar o carro na minha mão.
— Está preparada para seu encontro hoje? – pergunta Leo.
— Mas que...? – Aí eu lembro. – Você ainda vai me pagar por isso, Leonardo.
— Vai me matar como? Esse seu feitiço de sedução não funciona em mim! – replica, ajeitando o cabelo curto no espelho do retrovisor.
— Não. Mas aposto que minhas mãos conseguem danificar aqueles DVDs originais da Beyoncé.
Ele vira rapidamente para mim, fulminando-me com o olhar.
— Você não se atreveria...
Apenas acelero.
Graças a Deus, conseguimos chegar a tempo. Desta vez, achei que não conseguiríamos.
Conseguimos chegar a tempo de ver a loira peituda descendo de cara emburrada do ônibus, com o filho da puta logo atrás, meio desolado. Ah, o gosto da vitória!
Não percebo que Benjamin parou bem atrás de mim até Leo me dar uma cotovelada. Ben põe a mão nas minhas costas e sorri, sussurrando em meu ouvido:
— Dê bom dia a eles.
— Quê? Nem morta! – retruco.
— Sorria e cumprimente.
Não tenho tempo de discutir que eu não iria fazer aquilo em hipótese alguma, porque Luís e a loira passam por nós neste exato momento e Benjamim me puxa para perto de si, surpreendendo-me. Abro o maior sorriso que consigo, olhando para o casal de traidores na minha frente.
— Bom dia, tudo bem? – cumprimento, ao mesmo tempo que Benjamin diz em meu ouvido, de forma audível:
— Você está espetacular!
Vejo que a cara de Luís se fecha numa carranca e ele puxa a mão da loira, sem sequer responder.
Na primeira aula, Benjamin e eu sentamos lado a lado. Não por opção minha, mas sim porque ele decidiu que sentaria ali, e a última cadeira foi ocupada segundos antes que eu pudesse trocar de lugar. Droga.
— Você vai ficar me seguindo o dia todo? – pergunto.
— Tecnicamente, não estou te seguindo. Temos esta classe juntos. Não há para onde fugir.
— Tinha que sentar ao meu lado?
Ele lança um sorriso maroto e faz um sinal para a porta. Luís está lá, encarando a nós dois.
— Então que aula é essa? – ele questiona, como se não estivesse acontecendo nada demais.
— Neurociência.
— Você curte?
— Muito. – Observo o professor terminar de arrumar seus papéis. Opa. – Eu tive uma ideia.
Para Leo: Já tenho um plano de vingança. Me encontra no restaurante universitário às 15h.
De Leo: Nem pensar! 15h você tem um encontro!
Para Leo: Se você não parar com isso, seus DVDs da Beyoncé estarão em risco! 16:30, então. NÃO se atrasa!
— Eu acho melhor você guardar esse celular – a voz de Benjamin me alerta.
Olho para a frente e noto que o professor está para começar a aula. Sorrio para Ben.
— Tenho plano.
— Por que será que já não gostei?
Às três, eu e Benjamin estamos no meio de vários livros e nossos notebooks. O local está vazio, porque é véspera de feriado e a maioria dos discentes preferem viajar logo após as aulas, mas a biblioteca só fecha às dez da noite, então ficamos mais à vontade. Tento adiantar todo o trabalho, porém minha mente não está naquilo.
— Terra para Linda. Você está aí?
— Estou – digo, ainda meio aérea. – Estou pensando em outra coisa.
— Você não vai desistir daquela ideia maluca?
— Não – respondo, decidida. – Ele vai me pagar.
Benjamin abre a boca para dizer algo, mas volta a fechá-la. Ficamos encarando, em silêncio, o trabalho pronto, na tela do computador. Finalmente, salvo o arquivo e Ben me entrega um pedaço de papel com seu email.
— Aqui. Me envia o trabalho quando terminar sua reunião.
Pego o papel, meio indecisa se devo ou não chamá-lo para participar.
— Você não vai ficar? – pergunto.
— Não fui convidado.
— Bom, eu não sei se você toparia uma coisa dessas. Não me parece do tipo que curte vinganças.
— Realmente, não curto. Tenho uma ideia totalmente diferente.
Apenas o encaro, mas como ele não diz mais nada, resolvo convidá-lo:
— E então, você vai ficar?
— Pode ser – fala, fechando o próprio notebook e empilhando os livros. Ele divide a pilha e pega a primeira metade para colocar de volta nas prateleiras. Pego a segunda.
Devolvemos, em silêncio, os livros aos seus lugares. Deixa eu fazer uma observação aqui sobre livros acadêmicos. Eles são grandes. E pesados. E se você pegar dois ou três, tratarão o mesmo assunto da mesma forma. Sério. Parece que foi a mesma pessoa que escreveu cada um deles, só fez mudar o pseudônimo. Por isso, passei a analisar cada volume antes de retirar todos os livros que algum professor indicou.
Observo Benjamin. Ele só estuda há um dia aqui, mal me conhece e já fez muita coisa por mim. Quero dizer, qualquer outra pessoa me acharia louca e se afastaria. Comento sobre isso com ele.
— Bom, eu te acho realmente meio louquinha – diz. – Mas já te conheço há um tempo. Há um bom tempo.
— Como assim? – Rio. – Sou tão superficial, que você chega a pensar que me conhece em apenas um dia?
Ele sorri, balançando a cabeça, enquanto coloca o último livro da sua pilha no seu lugar da estante.
— Te conheço há anos, Linda.
— Eu, certamente, não conheço você. – Coloco o meu último livro no lugar.
— Acho que mudei bastante – ri alto. – Não pareço mais aquele menino baixinho que te entregou uma flor e te chamou para dançar, na festa da escola, no São João, quando tínhamos treze anos, não é?
Meu queixo cai. Minha memória volta no tempo, me fazendo recordar daquele São João, em 2006.
Um rapazinho franzino, cabelos lisos, grandes, olhos escuros, chegava perto de mim, meio tímido, oferecendo uma flor que certamente fora tirada de um dos jarros que enfeitava as mesas.
— Oi – ele disse.
— Oi – respondi, pegando a flor. – Obrigada. – É, só me tornei desaforada mais tarde.
— Você quer dançar?
— Não sei dançar.
— Nem eu – dá de ombros. – Vamos não dançar juntos.
– Então, você já aprendeu a dançar? – pergunta o Benjamin do presente.
— Quase – rio. – Não acredito que você é aquele menino! Como você me reconheceu?
— Impossível não reconhecer você, Linda! Você era a menina mais decidida, forte, mandona e dedicada e... – Ele se interrompe. – Além disso, quantas garotas você acha que têm esse nome?
Dou de ombros.
— Não te reconheci. Se bem que você não era da minha turma.
— Não, eu era da turma B.
— Isso explica muito. Você está diferente – comento, voltando para a mesa onde estão as nossas coisas e recolhendo minha bolsa.
— Diferente bom ou ruim?
Eu até ia responder, mas aí noto o sorriso malicioso em seu rosto.
– Vai te catar, Ben! – E saio.
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