Especiarias
1 Que venha o meu Pão-de-Ló
Notas iniciais
Estava a três dias de cama, três tediosos e frustrantes dias de repouso no dormitório, sem poder fazer muita coisa. Havia operado seu terceiro molar porque ele curiosamente se partira ao meio, como se fosse um frágil dente de criança, e acharam melhor tirá-lo de uma vez e implantar um novo. Acontecia que sua boca não gostara muito de seu novo integrante, e os remédios de adaptação que frisaram que precisava tomar causavam tonturas e formigamentos que às vezes chegavam ao desmaio, e então que não podia andar para muito longe de seu quarto ou fazer qualquer esforço que exigisse muito de si se quisesse ter dentes completos e perfeitos.
Os livros tinham acabado e a segunda leitura deles pouco interessava, seus colegas estavam em aula o dia inteiro e pouco se dignavam a fazer uma visita quando podiam, e seu recesso duraria mais três dias. Três dolorosamente entediantes dias de cárcere privado por sintomas colaterais.
O que o motivava, mesmo que odiasse admitir, era o movimento que os dois garotos mais novos faziam quando estavam no ambiente. As brincadeirinhas infantis, as reclamações exageradas sobre deveres e aulas, as brigas de Haru pela demora de Nellike no banho e os escândalos que não eram raros entre os dois. Coisas triviais que com o tédio e o isolamento social aprendera a observar, mesmo que o orgulho e a compostura não o permitissem participar.
Gostava, em especial, no horário reservado ao estudo logo depois da última refeição do dia. Não tinha deixado de estudar e fazia questão de copiar as anotações das aulas que estava perdendo para manter tudo em dia, mas aquele momento era a hora em que seu conhecimento parecia mais vasto, completo e profundo, era o momento em que vinham lhe pedir ajuda. Os preciosos instantes em que podia ter aqueles tornozelos gorduchos e sardentos pendendo de sua cama, apenas o esperando. Tornozelos que ousadamente apareciam sob uma camisola branca de dormir, brancos de anos sem ver o sol, completamente sedentos pelo toque do conhecimento daquela lição muitíssima complicada sobre cálculos que propositalmente demoraria bastante tempo para ser explicada.
Outros também vinham lhe pedir ajuda, mas tinha certeza que Haru era um pirralho infeliz e mimado suficientemente capaz de passar uma explicação miseravelmente decente para qualquer outro que não importasse na concepção de Satya. Já não fazia bem Nelly estar perto daquele estrangeiro, nunca conseguiria aprender com ele, com aquelas palavras rudes e sem tato, aquele sotaque estupidamente cuspido que até agora só sentia machucar a frágil personalidade do pequeno ruivo.
E se fosse para falar do estrangeiro, tinha muitas outras considerações sobre ele. Franziu horizontalmente a testa, pronto para listar tudo. Era mal-educado, ingrato, um grande cretino com altos níveis de hormônio masculino que o faziam ter batatas das pernas desproporcionalmente (porém, infelizmente, masculamente) crescidas, pés e um nariz grande, dono de um rancor irracional e irritante, tão irritante quanto sua mesquinhez e senso sofrido de um nobre guerreiro numa prisão. Pronto. Precisava fazer isso. Quem sabe escrevesse isso numa plaquinha colorida e brilhosa para dar a Nelly no festival mais próximo, porque ele parecia ser o único da Academia inteira que não percebia isso.
Devaneios e pensamentos do dia-a-dia começam a ficar monótonos e até irritantes depois de horas sendo as únicas atividades realizadas por uma mente complexa e Satya aprendera isso no primeiro dia de repouso. Era quase fim do dia e pela janela conseguia ver a última classe diária encerrando sua aula na Grande Capela lá embaixo, no pátio, o que significava que os garotos deviam estar chegando. Estava pronto para eles, pronto para a agitação, para o fedor de aula que chegava junto com as crianças. Mais do que pronto para reclamar da falta de responsabilidade em jogar os materiais pela cama, estava bem espirituoso para um sermão; sim, estava não só ansioso, estava sedento de ver aquela bonequinha ruiva!
Passou-se mais um bom tempo que pareceu dobrado a Satya até que a maçaneta da porta começasse a sacudir violentamente. A pecinha se contorcia e a porta vibrava, o garoto sentado em sua cadeira, mãos repousadas nas coxas, simplesmente continuou no mesmo lugar, como quase a tarde toda, por não conseguir entender o que estava acontecendo. Quando ouviu as lamúrias agudas de Nellike no corredor a parte motora de seu cérebro deu um choque e antes mesmo de compreender a situação já estava prontamente abrindo a porta que era forçada pelo lado de fora.
— Por favor, deixa, deixa eu ir primeiro!
— Sem chance, eu já disse que ia antes. Sai da minha frente, imbecil!
Num primeiro momento não entendeu muito bem o que via. Um Nellike. O seu Nellike. Uma sensação de tontura leve sacudiu sua mente quando pensou na palavra DELÍRIO, meio que não acreditando no efeito do remédio, meio que implorando para ser uma alucinação porque, não, pelas divindades, O QUE estava Haru fazendo com tantas áreas de contato em todo aquele volume macio que quase saltava da malha escolar e afundava em dois centímetros sua cama toda vez que se sentava lá para pedir auxílio nos estudos? O que tinham feito com aquele corpinho volumoso e abundantemente sardento?
— Eu vou explodir se não usar o banheiro, Haru-Haru, me deixa ir antes!
— Você vai demorar horas naquele lugar, eu tenho compromisso, eu não posso me atrasar nem estar desleixado!
Satya ainda não estava entendendo. Estreitou os olhos se escorando na porta que ainda segurava aberta enquanto aquela figura monstruosa de dois estudantes indevidamente entrelaçados aplicava todas suas forças para entrar no quarto ao mesmo tempo que uma força invisível a mantinha no mesmo lugar.
— Se precisa ficar limpinho eu posso esfregar os lugares que você não alcança depois, — tinha muita, muita força e esforço para colocar as palavras para Haru o ouvir — mas me deixa usar o sanitário, é rapidinho!
Houve um rugido de alguém evocando seu chacra interior para lhe conceder a bênção da força e a estrutura sobre-humana na porta caiu para dentro do cômodo. Nelly felizmente caiu por cima daquele tapete de lustrar botas que era seu colega e pareceu não se machucar. Haru parecia um pouco esmagado, mas não é como se isso tivesse importância.
— Nelly! — Oh, Deuses, meu pobre Nelly ainda se aventura nessas travessuras indevidas! — Vai se machucar assim, venha aqui, deixa que te dou um beijinho para ficar abençoado e não cair mais....
E seus lábios em forma de fuxico ficaram esperando enquanto um amontoado ruivo saltava por todos os obstáculos como se fosse muito esguio para chegar até o banheiro, ignorando tudo e todos. Satya agarrou o delinquente juvenil que no mínimo era o responsável por deixar Nellike beber muita água, ele sabia que precisava controlar o colega para beber a quantidade certa de água, ele sabia, mas nunca cumpria com sua tarefa, e então acontecia esse desastre, onde já se viu SEU Nelly ignorar seu beijinho abençoado?
— Escute aqui pirralho, são dois litros, dois litros no máximo que você deve cuidar para ele tomar, está entendendo? — Comprimiu os olhos como se isso afiasse mais deu olhar e cortasse logo de uma vez a garganta de Haru.
Suas mãos seguravam o estudante pela gola peluda do uniforme, sacudindo-o como uma boneca de tecido molenga. Quase era injusto o pobre menino já ter precisado lutar para entrar no quarto, então esmagado por um corpinho de massa considerável e agora desnorteado pelo bondoso colega de quarto se ele não merecesse totalmente aquilo.
— E não tente manipulá-lo, uma gota a mais de líquido e eu acabo com você! Não vê que é perigoso ele segurar muito a bexiga para ir ao banheiro? Não vê?
Soltou a gola limpando as mãos e empinando o nariz. Aos poucos foi recuperando a compostura e pensando nas muitas coisas que poderia fazer com Nelly ao seu lado. Haru tagarelava ao fundo, mas por algum delicioso motivo seu cérebro adquirira uma habilidade de ignorar os sons que saíam daquela forma de vida miserável, dando o efeito de que não existiam.
Caminhou pelo quarto, Haru ainda agitando os braços em sua visão periférica, talvez reclamando de alguma coisa, sempre reclamando, por isso Satya não gostava desses siphilens e sua mania de reclamação, parecia estar impregnado em sua pele e escorrendo por seu asqueroso sangue. Entrelaçou os cabelos nos dedos, colocando-os para trás, terminando o gesto com um movimento levemente rebelde de balançar de cabeça. Os cabelos voltaram para o mesmo lugar, mas com toda certeza com mais volume que antes; sabia que Nellike não poderia deixar de notar, sabia que Nellike não resistiria aos seus sedosos cabelos ondulados bagunçados, mais negros que a o próprio negro, totalmente mais brilhosos e atraentes que o, visivelmente, falso moreno desbotado que Haru usava. Óbvio que era tintura de sangue de rasene, óbvio.
Postou-se com uma mão na parede, apoiando o peso de seu corpo só em um pé. A outra mão na cintura e um olhar que cuidou para misturar o zelo com um pouco de selvageria, Nelly deveria gostar de aventuras. Ele era uma ótima aventura. Estava ao lado da porta do banheiro, só esperando sua adorável florzinha sair de lá. Esperou.
Esperou mais um pouco. Haru havia desistido de tagarelar ao fundo e se recolhera em sua cama, resmungando de vez em quando sobre como algumas partes era possível sentir o ferro que sustentava o colchão de tanto que certo “peso de porta de catedral” havia se jogado insistentemente por lá. Esperou. Esperou mais.
Esperou até que ouviu um grito completamente delicado e agoniado soar dentro do lavatório. Voou para a porta sacudindo a maçaneta desesperadamente.
— Nely, Nelly, oh, Fauch seja bom, Nelly, você está bem?
A porta de abriu facilmente e Nelly estava parado na frente do espelho com os cabelos caídos nos olhos, as mãos trêmulas, suas roupas escolares jogadas num canto do banheiro, apenas com seu largo camisão de dormir, mas Satya tentou fazer com que isso não tomasse muito de sua percepção e voltou a se concentrar no estado de Nellike.
— Nelly, o que foi? O que te aconteceu? — Avançou rapidamente até ele, tomando as mãos geladas nas suas e fazendo seu delicado rostinho virar em sua direção. Ao fundo, Haru gritava alguma coisa do gênero de “É tudo drama” ou “Se cada vez que ele fizesse isso eu ganhasse um rasene, poderia me tornar pastor nas montanhas de Warheid e largar essa droga de vida de vez”.
Nelly entreabriu os lábios para falar, que fechados formavam um delicado furinho entre eles, a coisa mais linda e exótica que Satya vira e queria ver em toda sua vida, mesmo que Haru argumentasse que aquilo era sinal de mau presságio a respeito de Nellike nunca ser capaz de fechar completamente a boca. Tremendo, levantou seus olhos redondos e pequenos, verdes, chorosos, brilhosos, desesperados, expressando a mais profunda dor. Aceitou a mão de Satya num apelo por apoio, estava definitivamente muito abalado.
— Satya, não... não há mais....
— Diga, meu querido Nelly, eu vou resolver qualquer coisa para você, por favor, diga.
— Não tem como eu.... Não tem mais como!
Satya teve sua cintura envolvida por bracinhos gorduchos e aflitos, que lhe apertavam as entranhas dando a sensação que seu fígado sairia num patê por seu ouvido esquerdo. Nellike parecia até envergonhado pelo fato, enterrando seu pequeno nariz no peito do protetor querido.
— Acabou os lenços higiênicos, Satya, acabou tudo! — E caiu em soluços.
Deu um suspiro de alívio. Era apenas falta de lenços higiênicos, novamente, graças à Mere. Tinha quase certeza que eles terminavam rapidamente pela atitude suspeita de Haru nas noites de descanso ímpares, em que levava livros igualmente suspeitos dados pelo Professor Rusmidler para uma atividade mais suspeita ainda no lavatório, de porta trancada. Abaixou-se na altura adequada para ficar com o rosto próximo de Nelly. Passou as mãos envolta de suas bochechas, acariciando-as com delicadeza. Seus dedos eram tão compridos que tocavam das têmporas à nuca do pequeno garoto e achava essa sensação de tê-lo em suas mãos muito prazerosa, particularmente falando.
— Vai ficar tudo bem, certo? — Nelly assentiu. — Tudo bem.... Vamos arranjar mais.
Limpou as lágrimas que rolavam debaixo das superficiais olheiras que contrastavam no branco e liso de uma pele sardenta e não tirou os olhos dos olhos que também o encaravam fixamente. Levantou aos poucos sentindo ter acalmado seu docinho avermelhado que agora fungava e já se animava novamente. Apenas lenços em falta.
— Rempler que os pariu, querem parar de brincar de serem idiotas dentro do lavatório? — A Haru quase saltava uma artéria na testa. — Eu tenho um encontro o qual eu não pretendo me atrasar agora, entendem? Encontro. Com uma garota. Não, não devem entender, não é?
Seu tom de desdém não foi o que fez os lábios de Satya crisparem, era a própria existência de Haru que ofendia pessoalmente o veterano.
Nellike paralisou tudo que fazia, quase em nível orgânico geral.
— Com uma garota, Haru-Haru?
— Exato. A irmã de Egie que herdou toda a beleza que faltava a ele. — Haru escorou-se no batente, abrindo um sorrisinho saboroso. — Precisa de consolo agora que o irmão bateu as botas.
— Prima Annielsia!?
Estacou horrorizado pela traição do próprio sangue. Como será que Haru havia de se interessar por uma garota como aquela? O sangue lhe subiu para a cabeça, meio raivoso, meio apavorado, meio sem saber o que fazer. Satya se colocou entre os dois em uma posição próxima a de um jogador de taco amador, como se cortando a visão de um com o outro os conflitos acabassem. Talvez até acabassem, mas era tão magro e alongado que nunca conseguiria cobrir totalmente Nellike, ou até mesmo Haru.
— Annie para os íntimos.
Um grito de desespero, agora mais real, saltou de do pequeno furinho entre os lábios de Nelly, muito, muito furioso. Seus olhos corriam loucamente para todas as direções e já não ouvia mais nada de importante, nada que estava para ser ouvido era importante. Tapou o rosto com as mãos, se curvando para frente numa daquelas tentativas frustradas de desaparecer com tudo ou consigo mesmo, ou com os dois, mas sem sucesso, foi andando para trás numa ligeira fuga de problemas. Annie? Oh, não! O que de mais tinha ela? Não! Nada!
Satya encontrava-se igualmente atormentado pelo intrometimento do momento familiar e zeloso que tivera com Nelly, seu Nelly. Era visivelmente sempre Haru, estava cansado disso. O que tinha ele de mais? Pensou em carregar Nellike para fora dali e acalmá-lo com mais mimos, dessa vez tão bem mimado que nem se lembraria dos lencinhos higiênicos, quando Nellike escorregou numa toalha de banho, caiu com a cabeça na ponta da banheira metálica e muito da cor vermelho sangue de espalhou. Inicialmente teve dúvidas se se tratava de cabelos ou realmente sangue, até ver Nelly desacordado. Lentamente, com muito cuidado para estar inexpressivo, encarou Haru, um Haru muito, muito pasmo, de olhos arregalados:
— Fauch, o que eu fiz agora? Vão todos para o inferno! Para o inferno!
E somada à situação, formigamentos pervertidos associados ao remédio de adaptação para seu polido novo molar resolveram subir pelas pernas de Satya, e, infelizmente, a última coisa que viu foi a aterrorizada cara hedionda de Haru.
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