Especiarias

2 Devia ter orado mais


Notas iniciais
É, gente boa, eu zelo pela integridade dos meus filhos.

Abriu os olhos devagar, já com consciência de que estava acordando em uma cama macia, limpa e calma, ao contrário de seu quarto. Não havia claridade para que precisasse se acostumar, então esperou até que seus olhos começassem a adaptação para distinguir formas no escuro. Percebeu o dossel que envolvia sua cama e entendeu que só poderia estar na sala de cuidados médicos. Era um alívio. Um grande e higiênico alívio. Sentou-se. Testou seus músculos e juntas, e o que mais fosse que poderia estar doendo, constatando que apenas um braço e uma perna pareciam doloridos, os quais provavelmente tinha caído em cima.

Uma pequena luz branca que tremeluzia de dançava de um lado para o outro, como uma pequena fadinha mensageira, se aproximou de seu dossel. A cortina foi afastada e uma miniatura de enfermeira colocou a cabeça para dentro junto de uma luminária, balançando a cabeça quando viu Satya sentado.

— Bom, bom, já está acordado. — Apoiou a luminária na cômoda ao lado e pegou seu braço, afastou a manga e verificou um curativo no cotovelo, fazendo o mesmo depois com sua perna. — Sua queda não foi tão ruim, já que Haru tentou te segurar, então pelo menos não bateu a cabeça.

— Haru o que? — Satya estreitou os olhos. Começou a recapitular a última cena antes da enfermaria que tinha em mente. Haru o olhava pasmado. Olhava assim pela cena no banheiro, sim estavam no banheiro, suas pernas formigavam e então perdeu a consciência, como Nelly.... que bateu a cabeça! — Nelly! Eu preciso ver Nellike!

A enfermeirinha o segurou com punhos assustadoramente firmes na cama, mantendo uma expressão calma como se já esperasse por tal reação e presenciasse um chilique desses todos os dias.

— Acalme-se, meu amigo. Não queremos que você desmaie novamente, você quer? Eu não quero. Não mesmo. — Frisou os lábios nojentamente — Os remédios têm efeito de doze horas, e você os toma sempre no meio da tarde. Estamos no horário do jantar, falta tempo para você se certificar que ficará em pé sem causar mais incômodos.

— Mas Nelly...

— Eu cuido de Nelly. E vamos suspender seu remédio a partir de amanhã.

Satya olhava para as próprias mãos e então para a mocinha, várias vezes repetidamente enquanto ela se preparava para sair de perto de deixá-lo descansar.

— Ele já acordou pelo menos?

— Não, ainda não. Mas não se preocupe, você ficará aqui esta noite e caso seu... — ela coçou a nuca, procurando um termo adequado, passando por sua mente feminina e ocupada todos os boatos que ouvira até então sobre o que acontecia no quarto setecentos e cinco, até desistir e ficar apenas na segurança do termo básico mesmo — colega de quarto, isso, acordar, eu lhe aviso. Mas tanto ele quanto você precisam descansar. Dê conta da sua parte agora.

— Está bem, enfermeira.... — Fez um gesto vago.

— Annielsia.

Uma risada sem graça escapou da garganta seca de Satya. Voltou a se encostar nos travesseiros e deixou ser coberto pela prima de Nellike, em seu mais puro cuidado (que obviamente não era mais cuidadoso que o jeito que Satya colocava Nelly para dormir, mas vindo de uma garota estava realmente muito cuidadoso).

— Eu sinto muito por seu irmão.

— Tudo bem. — Sentou-se na borda da cama, suspirando, desistindo de ir. — Todos nós já sabíamos que uma hora ou outra ele ia trilhar o caminho das almas ao lado de Fauch. — Balançou os pés, que de tão pequena nem alcançava o chão.

Naquele momento Satya realmente teve uma crise de utilidade geral. Egie foi seu colega de quarto e por mais que não passasse de mais um pirralho desprezível que ficava entre ele e Nellike, sua morte foi um peso para todos. E o sentiu com mais força ainda em Nellike, sabia que no fundo seu garotinho sardento apenas mantinha o sorriso superficialmente e se aproveitava de qualquer oportunidade tola para chorar, o que se recusou a fazer pelo primo. Lenços em falta. Isso preocupava Satya, tinha medo que se Nelly guardasse tudo para si uma hora isso explodiria de maneira nada agradável.

Teve uma súbita vontade de pegar aquela garota nos braços e pela primeira vez na vida ser realmente legal com alguém que não tivesse cabelos cor sangue. Uma vontade de consolá-la como Haru vinha prometendo maliciosamente há dias, mas com toda a certeza sem a parte maliciosa.

— Oh, Mere...

— Está se sentindo mal? Quer que eu pegue água, talvez? Está ficando pálido novamente!

— Não, não! Você devia estar com Haru!

— Oh, isso. — Ela baixou novamente a guarda médica que desenvolvera quando começara a trabalhar como assistente na enfermaria. — Minhas responsabilidades com os que precisam de mim aqui contam em primeiro lugar.

— Não, você deve encontrá-lo hoje, — Fazia dias que Satya vinha refletindo com toda sua inteligência em cálculos e probabilidade que se Haru ficasse com a garota, Nellike finalmente deixaria o maldito estrangeiro de lado e poderia voltar toda sua atenção para quem realmente merecia. Na pior das hipóteses, Nelly teria uma crise e caberia a ninguém menos que Satya consolá-lo, mas dessa vez com toda certeza toparia a parte maliciosa do processo. Ou seria a melhor das hipóteses? — ele anda realmente precisando de companhia. É um solitário total, com tendências depressivas e agressivas, só você para ajeitar alguém como aquele — elogios, elogios — cara.

— Não posso deixar vocês sozinhos.

— Vamos, Annie. — Ela estreitou os olhos já pequenos diante do sorriso falso de Satya. — Eu estarei acordado o tempo todo para cuidar se Nelly acorda também. Se acordar, mando te chamar novamente.

Chamar Anniesia para perto de Nellike era, com toda a certeza, a última coisa que Satya faria na vida. Sabia que depois que aquele ruivo pusesse os olhos verdes afiados de ódio e ciúmes nela, a tia de Nellike perderia de vez as esperanças de ter netos, e precisava da garota inteira para seu plano dar certo.

— Nem pensar. Vão me retirar do cargo se eu não cuidar direito de vocês dois. — Pegou a luminária finalizando o assunto, pronta para deixar o preciso descanso de Satya fazê-lo calar sua boca interesseira.

Satya apertou os punhos. Era realmente triste a perda dela, mas estava ficando sem escolhas.

— Garanto que vão te colocar para fora também se souberem que rouba anestésicos para o Professor Rusmindler.

Ela parou e girou. Quem sabe se ficasse mais abalada se tornasse também mais fácil para Haru, agilizando o processo.

— É para atingir o estado de relaxamento exigido na oração! — Continuaria a bronca, mas hesitou diante das flexões musculosas que as sobrancelhas de Satya faziam em sua homenagem. Era realmente impressionante que um garoto magrelo com ele pudesse ter músculos em algum lugar. — Certo! Eu te deixo sozinho com Nellike!

Ah, o doce e conhecido sabor da vitória.

— Mas voltarei à meia noite para ver como estão as coisas. E não ouse tocar nele enquanto está desacordado, seu pervertido! Nem depois!

Pervertido? Satya? Ora, que coisa mais nojenta! Nunca tocaria um dedo sequer em sua delicada joia preciosa sem seu consentimento. Ficava arrepiado só de pensar em decepcionar ou desagradar seu bolinho confeitado com sardas. Afastou os cobertores, contente em ver que Annielsia se ia, e cuidadosamente caminhou em direção à cama onde se encontrava Nellike.

Afastou o dossel tentando fazer o menor barulho que conseguia. Nelly estava deitado adoravelmente sobre a cama, coberto até a cintura, uma mão ao lado do rosto e outra ao lado do corpo, com os dedos saindo para fora do acolchoado. Uma faixa larga com um curativo serpenteava por sua cabeça despenteado parte de seus cachos ruivos. O restante estava espalhado pelo travesseiro, fazendo ondas e descendo ao chão. Sua respiração era suave, calma, sinuosa, quente, era perceptível pelo ar que saída de seus lábios entreabertos.

Satya se aproximou sem conseguir ficar mais tempo afastado. Precisava estar fazendo parte daquela cena. Precisava ter aqueles pequenos e brilhantes olhos mais uma vez nos seus, tão desejosos quanto garantia que os próprios estavam no momento. Tocou de leve suas pontas de dedos nas de Nellike, sentindo o responder fraco do movimento. Sorriu, com uma onda de calor percorrendo o seu corpo, porque talvez todo seu afeto, que, com toda a certeza, não passava e nunca passaria disso, um pouco de afeto, poderia ser recíproco. Ajeitou a pálida mão de Nelly para cima do acolchoado, notando como ela parecia uma sobremesa açucarada polvilhada com canela. Delicioso.

Sentou-se na borda maior, que sendo magro e fino conseguia espaço suficiente naquela cama. Cansado subitamente, notando que de fato precisaria do recomendado descanso, foi se acomodando com calma e gentileza ao lado de Nelly, não ousando passar por baixo dos panos. Já era o suficiente estar simplesmente tão próximo daquela criatura pura e inocente, tinha medo de profanar alguma estrutura de seu relacionamento e perder a infantil e saudável imagem dele.

O vão que o peso do garoto causava no colchão puxava com uma vontade especial Satya a ficar corporalmente bastante conectado a Nelly, apenas com o leve cobertor e o tecido de suas roupas de dormir os separando de suas formas naturais. Tentou ignorar firmemente as sombras de início de ideias controvérsias que se formava na parte obscura de sua mente com bastante resistência. Não. Nunca. Nunca conseguiria por um dedo sequer em seu Nellike. Annielsia estava de fato errada, não tinha estômago para ser um pervertido, infelizmente.

Seus pés ultrapassavam os de Nellike na cama e quase chegavam a encostar na grade da extremidade. Era todo fino e alongado, era de todo completamente diferente de Nellike. Quase se sentia envergonhado por isso. Apoiou-se em um cotovelo, deitando o rosto sobre a mão, mantendo o corpo de lado e observando de um ângulo diferenciado a cena, mesmo com pouca luminosidade. Embalado pela respiração suave do outro que o insinuava a fazer o mesmo, fechou os olhos mantendo a cor vermelha predominando em suas pálpebras repousadas e os maus pensamentos trancados e calados.

Acordou com o barulho de tigelas batendo, mas depois de alguns momentos de confusão percebeu que era apenas coisa de sua cabeça. Apenas um sonho. Apenas o distorcido som onírico vindo de locais inacessíveis na vida acordada. Estava ainda sonolento quando percebeu que a cor branca havia possuído a força o ambiente e seu Nelly não estava mais na cama. Sentiu-se uma esposa enganada por um marido descontente e indecente e fazendo jus ao papel que o momento deu, levantou agitado e pondo a mão na cintura.

Pegou a luminária ao lado da cama e passou pelo dossel desejando tudo menos que aquela enfermeira tivesse deixado rastro de para onde tenha ido. Ou que Nellike tenha achado o lixo hospitalar e o rastro de Annielsia. Passou de cama em cama começando a entrar em pânico por ter perdido um paciente com quase um traumatismo craniano (e hemorragia capilar) até ver claridade pela porta entreaberta do lavatório. Sentia que as grandes emoções de sua vida andavam se restringindo a banheiros em geral nos últimos dias e resolveu entrar para checar.

Nellike estava na frente do espelho com uma navalha. Satya estava na porta, e.... só na porta. Tinha uma pia sob o espelho, a qual Nelly deixou seus cabelos caírem para dentro. Abriu a torneira e ensopou seus fios de água, deixando-os escuros e escorridos. Enfiou de vez a cabeça debaixo da torneira, e Satya ainda lá, na porta. Nelly torceu os cabelos deixando a água escorrer para o chão e todo aquele comprimento e volume de cabelo, agora liso, passava de sua cintura. Com a navalha tirou a primeira madeixa, que caiu sem graça aos seus pés. A segunda e terceira a acompanharam.

— Nelly! O que está fazendo? — Satya finalmente teve cordas vocais para interferir.

Seu colega não respondeu. O ignorou por completo, na verdade.

— Nelly, meus bons deuses, o que está fazendo com seu cabelo? — Andou até ele, com seu senso paternal apitando ao lado do amor pelo vermelho e o sedoso. Quis tirar a navalha das suas mãozinhas, mas essas a esconderam junto ao peito de Nelly. Satya sentiu o pavor crescer e nem pode tentar. Apenas uniu os cabelos restantes para cima, dando um nó neles mesmos para salvá-los do corte.

— Os deuses não são bons, não, não são.

Num sorrisinho, cortou de uma só vez todos os cabelos no nó, ficando com um mísero palmo de ruividez sobre a cabeça. Satya prendeu a respiração, ouvindo os cacos que já eram seu coração se esmigalharam e serem digeridos pelo estômago que haviam perfurado.

— Nellike! O que você fez!?

— Tirei um peso da cabeça desse garoto que o impedia de pensar, talvez.

— Nellike?

Nunca o ouvira falando com todo esse vocabulário e ironia, ainda mais nesse tom afinado. Era deprimente. Satya gostava tanto do jeito infantil e simples do seu Nelly quanto de seus longos cabelos cor sangue, gostava tanto que até queimaria todos os dicionários existentes na Academia para impedi-lo de falar com mais pompa.

— E por favor — disse bagunçando seus cabelos da mesma maneira que Satya fizera para ele próprio naquela tarde antes do surto por falta de lenços higiênicos, só que com um efeito visual pelo menos três vezes mais glamoroso e sensual. Eles estavam molhados e ainda pingando, mas as gotas escorrendo por seu rosto só relevavam o olhar desdenhoso que refletia no espelho e peitava Satya. —, não me chame de Nellike. Lembra-me coisas gelatinosas e coloridas, dois conceitos que quero remover desse corpo, compreende?

Não, Satya não compreendia. Em parte, porque estava completamente fascinado pela nova e atraente figura de Nellike, e também porque estava surpreso com o fato de ser incapaz de não ter ficado mais fascinado do que deveria ter ficando diante dessa versão quase obscena de Nelly. Como não poderia estar desejando com mais intensidade essa evolução?

— Quem sabe diminuir os docinhos. Uma forma mais esguia me permitirá ir mais longe não só intelectualmente. E com toda certeza parar de tingir o cabelo. — Encarou Satya. — Você não acreditaria se visse a cor natural desses cabelos.

Natural? São tingidos?

— Você não é Nellike. Não meu Nellike. — E era essa a única afirmação que Satya conseguia afirmar. E a que mais queria mudar, com toda certeza. Desconfiado, foi se afastando aos poucos em direção à parede. Esperava que ela o reconfortasse daquela visão.

— Que bom que compreendeu isso rapidamente. Poupa a mim de muito trabalho. — Notou o movimento arisco de Satya e o seguiu, achando bastante graça da situação. O garoto podia ser um modelo nos estudos, mas não conseguia imaginar alguém mais ignorante para situações complicadas que não envolvessem matemática. Entretanto, já estava acostumado com esse tipo de reação, era questão de prática. — Então me chame de Fauch.

A informação entrou pelos ouvidos de Satya, já escorregando contra a parede, foi convertida para ser passada de um neurônio para outro, mas o primeiro que recebeu e distribuiu a mensagem foi acusado de estar corrompido de tanta besteira que podia conter em tão poucas palavras.

— Tipo o.... o Deus?

— O próprio, na verdade. Prazer.

Satya olhou confuso para os lados e então para Fauch novamente. Ele estava em pé a sua frente, bem próximo, com olhos brilhantes de confiança, um sorriso orgulhoso no rosto como se estivesse indo muito bem até então. E realmente devia estar. Fazia esse tipo de serviço o tempo todo, foi criado para isso, mesmo que já tivesse cheio de objeções contra a eficiência de suas soluções. Abaixou-se no nível do outro, o que não foi muito difícil, sendo o corpo de Nellike bastante baixo, ficando mais próximo ainda.

Sabia que não devia ser o primeiro pensamento que devia estar tendo no momento, com toda certeza havia um leque bem vasto de considerações a serem feitas para o instante, como o de que Nellike estava possuído por um deus de baixa reputação, mas Satya tinha a estranha impressão que Fauch o queria da maneira como Haru queria a enfermeira e com a intensidade de como o estrangeiro gostaria de cuspir em sua cara.

— Hm, sim, prazer. Então... meu nome é Satya. — Foi a única coisa que pensou ser apropriada para dizer.

O Deus riu. De forma bastante cativante, devia dizer, mas tinha um toque repulsivo nisso tudo. Não é Nellike, meu Nelly.

Eu sei quem é você. Estou te observando há meses, sei mais do que seu nome. — Satya estreitou os olhos. Isso dava um outro nível de certeza sobre os possíveis flertes que estava recebendo de Fauch, que agora passava uma perna por sobre as do amiguinho, ficando com uma de cada lado de seu corpo. Sentou-se sobre as coxas magrelas dispostas ali e prendeu Satya contra a parede com um braço. Precisava recuperar o tempo que a ignorância de Nellike havia perdido. — Mas vamos tratar de negócios agora, sim?

Satya estava com o pensamento atrasado demais para conseguir compreender que tipo de negócios se tratava o assunto. Também não gostaria de saber, estava mais interessado em entender o porquê de Fauch, o Deus todo poderosamente cruel, rebelde e desordeiro, ter tomado o controle da criatura mais inocente desse mundo para simplesmente sentar-se no seu colo. Era algo que ninguém acreditaria se contasse. Era o tipo de coisa que apenas um crente muito devoto daria ouvidos, e no momento começou a pensar que talvez era por esse tipo de situação que o professor Rusmindler precisava tanto de sua dose extra de anestésicos.

— Se algum dia já lhe puseram em mãos uma escritura divina, já deve saber meu trabalho, certo? — Fauch virou a cabeça de Satya pelo queixo em sua direção, tentando fazê-lo prestar atenção em tudo que dizia. Realmente, já tinha dado aquele discurso tantas vezes que ficaria bem zangado, bem, bem zangado se tivesse que o repetir sem necessidade. — Então sabe que eu, em minha mais pura natureza, faço de tudo para eliminar os conflitos mundiais e particulares, as malcriações mundanas e a fonte do insolência e estupidez de vocês, mortais, quando se desviam de seu devido caminho, não é? — Falava como se fosse um discurso preparado e decorado para uma criança muito burra. Era exatamente como Satya se sentia no momento.

— Sim, compreendo. — E compreendia mesmo. Havia caído em sua última prova, a qual tinha se saído muito bem. Não, é claro, a parte disso tudo ter a ver com ele. — Mas senhor...

— Pode me chamar de Fauch mesmo. Vamos ficar bem próximos, é bom que já vá se acostumando.

— Próximos. Sim. Claro. — Suas pernas estavam começando a ter caibras pelo poder da gravidade que esmagava Nellike, ou Fauch, ou quem quer que fosse, sobre seu corpo. Fauch agora desabotoava sua camisola de dormir. A camisola de Nellike, no caso. — Mas então, Fauch, eu também ouvi que você meio que foi desordenado de suas funções por ser uma espécie de sádico maníaco obcecado com suas tarefas, que no fim eram impossíveis de serem realizadas porque nossa natureza, como disse, mortal, é ignorante demais para largar do mau caminho e tudo mais...

— Ah, foi uma fase de desentendimentos familiares. Nada que deva se preocupar. — Tirou as mangas da camisola e a deixou cair pela cintura. Começava agora a tirar os panos de Satya. — Quer dizer, não espere um crachá ou distintivo de garantia divina, ou coisa parecida. — Deixou-os cair pela cintura também. — Papai até tirou parte dos meus poderes aquela vez, tanto que agora só trabalho clandestinamente. Deviam me agradecer por isso, mas não, nada de monumento para o pobre Fauch, só para seus irmãozinhos puxa-sacos.

— É, realmente, eu nunca vi uma estátua sua.

— Tudo bem. Garanto que nunca conseguiriam reproduzir toda minha imponência e perfeição em pedra.

— Mas voltando ao assunto, — Satya começava a sentir um terrível calor lhe subindo pelo pescoço enquanto observava o corpo totalmente exposto de Nellike, em particular uma pinta em formato de flor que envolvia o garoto com uma magia complexa demais. Tudo estava adquirindo um ar de sonho que parecia se nublar mais densamente quanto mais pensava ou tentava entender a situação. Falava sem muito interesse em defender sua ideia, sem nem muita crença do que dizia, via ou ouvia. Porém, sabia muito bem que aquela mancha era linda demais para ser natural. Sabia também que devia ter ouvido melhor Annielsia e descansado, ou pelo menos esperado o efeito do remédio ter passado antes de ser atacado por um deus. — eu não acho que possuir clandestinamente meu colega para arrancar, como estou vendo agora, minha vestes, vá evitar uma nova guerra entre Orian e Siphilen, ou coisa parecida, entende? Quem sabe deva falar com Haru, meu outro colega, ele pode entender mais do assunto.

A falta de emoção e diplomacia automática que vinha como reação de Satya estava deprimindo o ego de Fauch. E Fauch odiava quando não reconheciam seu trabalho. Ah, mas não iria desistir tão fácil, já havia sido um trabalho considerável tomar aquele corpo. Só precisava de mais intensidade.

— Escute aqui, gracinha — Fauch esperou sua vida inteira para chamar alguém dessa forma. Esperou séculos para ter um corpo que combinasse com a palavra quando essa saísse dos lábios. Já era sua primeira vitória da noite ver que isso corou ainda mais a face de Satya, mesmo que fosse simplesmente porque o sangue não tinha mais para onde fluir agora que se encontrava completamente sobre o pobre menino. —, você acha que faço meu serviço de qualquer jeito? Tenho toda uma preparação! — Fez um gesto gracioso em direção ao ambiente ao redor. — Você agora pode ser mais lesado que um rasene, mas tem capacidade para fazer algo destrutivamente bem planejado. E sabe quem é o gatilho? — Percorreu as mãos pelo corpo de Nellike, lentamente, para deixar claro. Ficou bem claro. — Nellike, seu adorado Nelly.

— Nelly? — Satya não se decidia se isso era bom ou ruim, mas nunca colocaria um dedo sequer em seu Nellike. Nunca traria um mísero pingo de sofrimento para seu tão querido amigo. Resolveu deixar isso verbalizado. Afirmar coisas ajudariam a coloca-las organizadas, e organização sempre ajudava. — Eu nunca faria mal a Nellike, nunca em toda minha vida faria algo que desagradasse a ele.

— A ele não, eu sei, falei que é bastante lesado agora. Mas justamente por não ter atitude, somada à inocência estúpida desse ruivinho aqui, vocês ficarão para sempre nessa enrolação sem nunca acontecer nada.

Satya teve a nojenta e estranha visão de Fauch como uma fujoshi, rodeado de desenhos indecentes de diversos alunos, decidindo qual deveriam ficar juntos e utilizando de sua falta do que fazer e poderes divinos para realizar suas doujinshis doentias.

— Entretanto ­— continuou —, só porque você não é determinado, não quer dizer que outros não serão. E você pode não fazer nada de mal a essa sua bolinha fofa e sardenta, mas duvido que não arranje problemas bem graves com quem decidir ser mais esperto que você, gracinha. — Satya ia objetar, mas Fauch espremeu sua boca entre o polegar e o indicador. — Olhe bem Haru. Você está prestes a estrangulá-lo e ele nem está a corresponder Nelly.

Aquilo fazia sentido. Menos a parte da possessão. Satya estava começando a apoiar a ideia das mudanças pacíficas, com mensagens de incentivo e encorajamento diárias que teriam mais efeito do que... aquilo.

— Então, decidi que se Nely fosse seu, eu evitaria os futuros problemas que me daria. — Fez uma cara maliciosa. — Agora não precisa mais se conter, não seja tímido.

— Espere.... Está me dizendo que....

Fauch talvez tenha se cansado de dialogar ou simplesmente de ouvir Satya tagarelar expressões incompletas e sem valor por falta de coerência, mas deu sua resposta puxando a cabeça de Satya pela nuca até que os lábios dele encostassem nos seus. Encostar é um termo fraco, na realidade, o deus fez questão de deixar suas intenções bem explícitas no ato, misturando todos os sinônimos de sinuoso, envolvente, quente e levemente brutal, com seu toque de indelicadeza de uma só vez, enquanto invadia mais uma integridade moral e física. Satya mantinha os olhos arregalados sem ver absolutamente nada, com seus outros sentidos adormecidos. Sentia apenas um leve sabor apimentado, que na verdade achou bem condizente com a ocasião e mais importante, com aqueles cabelos ruivos. Contudo, podia ser vermelho sangue, mas não eram longos, nem Nellike. Não era Nellike e a única pessoa daquele mundo que lhe apetecia trocar saliva era unicamente seu Nelly.

Fauch não se demorou muito em um simples beijo, o fez mais por impacto e consolidação do acordo que a partir de então teriam. Afastou-se sem se dar ao trabalho de limpar o irritante e assimétrico fio de incolor e pegajoso sem dono definido que os ligava de uma língua à outra, deixando-o pendendo no ar por tempo o suficiente para fazer os olhos de Satya quase saltarem de suas órbitas. Não é Ne lly, o que está acontecendo?

Quando se jogou para trás, puxando seu novo amante por cima, ficou bastante surpreso até para um deus paranoico ao ver que Satya estava chorando. Estava cada vez mais difícil achar um homem de verdade nos últimos tempos e isso conseguiu deprimir Fauch.

— Oh, por mim, está chorando na frente de Nellike? Não tem um pingo de senso? Agora entendo porque nunca conseguiu nada com ele!

Satya se apoiava com os cotovelos no frio chão de pedra do banheiro, com seu não Nellike sob si, completamente nublado pelas lágrimas que se formavam em seus olhos e escorriam de seu nariz para em queda livre acabar sobre a face rosada do tudo menos Nelly. Não tinha forças para levantar, começava a se sentir febril.

­— Em primeiro lugar — disse entre fungadelas—, você não é Nellike. Em segundo, — Retomou o choro mais infantil ainda. — ninguém usa seu nome em expressões de pedido, nem mesmo para indignação.

— Eu pensei que você fosse o forte e adulto indivíduo dessa relação. — Que aborrecimento.

Satya atirou-se para o lado, rolando até parar em posição fetal, soluçando amargamente.

— Eu sou forte! Para Nelly, só Nelly, mas não há mais Nelly e eu só quero Nelly! — Nelly, Nelly, Nelly!

— Por Mere, estou aqui, por favor se acalme ou vai se machucar, Satya-ya!

Estava deitado em sua cama anterior da enfermaria. Ofegante, queimando em febre e coberto at é o peito, tinha os braços doloridos de tanto se debater e a garganta seca de tanto gritar. Nellike segurava suas mãos para não mais machucá-las, sentado ao seu lado com expressão aflita.

— Acalme-se, Annielsia já vem trazer remédios para ficar melhor, por favor...

Tinha largas bolsas negras sob os olhos e gotas de suor empapando seus cabelos ruivos. Seus curtos cabelos ruivos, um mísero palmo de ruividez que se revoltavam sobre sua cabeça e encaracolavam até os olhos.

— Esses cabelos, não devia ter feito isso! — Começava a chorar novamente, com a cabeça girando e confundindo-se com os acontecimentos anteriores, sejam eles delírio ou sonho, ou a louca realidade distante, bem distante em sua mente, desfazendo-se com as chamas do seu corpo.

— Não fui eu... — Doces e inocentes, porém preocupados olhos o acolheram. Com um gesto de mão habitual afastou o cabelo inexistente para trás do ombro. — Tiveram que cortá-los para fazer o curativo, eu caí no banheiro do quarto. — Deu um sorriso doce e cansado. — Como você.

De fato, Nellike tinha um gigante curativo sobre a cabeça.

— Então é real? De verdade?

Viu a cara de confusão que seu bom e costumeiro, seu real e verdadeiro Nellike sempre fazia franzindo o rosto, como se tentasse juntar boca e nariz aos olhos, que se cerravam sob as sobrancelhas. Suspirou aliviado.

— Ah... a cor — disfarçou —, é mesmo essa? É ruivo?

Nellike caiu em uma risada adorável, batendo os pés e sacudindo a cama inteira consigo. Atirou-se no pescoço de Satya, esquecendo-se de seu estado frágil. Levantou-se com dificuldade, lentamente. Quando esteve longe o suficiente para enxergar os olhos negros e igualmente cansados de Satya, encostou seu rosto no dele, deslizando seu pequeno nariz pela face quente e rubra. E só restou a Satya sentir-se tolo por ter levado a sério um sonho febril como aquele, ou por preocupar Nellike com os efeitos de seu remédio e descuido alheio.

Pôs-se de pé, dando ao seu colega doente e delirante uma sensação morna que não provinha da hipertermia. Afastando-se para dar espeço a Annielsia com seus remédios e panos úmidos, despediu-se:

— Espero que possamos nos sair melhor assim, então. — Deu um último sorriso atrofiado por sobre aquela aura de Nellike de verdade. — Gracinha. — E saiu, deixando Satya gritando e debatendo-se novamente sob os cuidados daquela enfermeira incompetente.

Notas finais
Espero algum dia quebrar essa minha barreira de escrever romances de qualquer tipo. É dificílimo!