Especiarias

3 Todos deviam ter orado mais


Notas iniciais
Este é um epílogo criado no ponto de vista do Haru, que originalmente era o protagonista da história. Só pra não se esquecerem quem ainda manda na firma, tem que ter ponta dele sim.

Bem junto à parede, esquivou-se com um gato de rua pelas sombras do corredor. Ágil, flexível, esguio. Seus pés macios deslizavam sem fazer barulho e seus olhos afiados vasculhavam a área confirmando que não vinha ninguém pelo caminho que cruzava. O caminho que sem muita dificuldade logo decorou, o primeiro que aprendeu a ter sempre em sua mente naquela escola, antes mesmo que qualquer sala, refeitório, enfermaria ou quarto. Era um caminho que podia dizer, em seu mais irônico tom naquela escola religiosa, ser divino.

Nas últimas portas antes de uma dura parede de pedra bruta, se encontrava a porta a qual se dirigia. Deu três batidas rítmicas e esperou. Apalpou os bolsos internos de seu casaco grosso e se certificou que o material de troca se encontrava ali mesmo. Os três frascos continuavam onde os deixara, firmes e fortes, cheios até a rolha que os tampavam.

A porta foi destrancada por dentro e se abriu lentamente. Olhos de um predador selvagem apareceram entre a fresta.

— Trouxe? Você trouxe?

Assentiu. Tirou do bolso o conteúdo e largou sobre a mão grande e trêmula que se estendia vinda como que uma serpente acompanhando aquele olhar sedento. Tudo foi recolhido e a porta fechada. Mas continuou lá fora, já havia se acostumado com o procedimento depois de tantas vezes, sabia que essas coisas aconteciam especialmente depois que passava um longo tempo sem o ver. Dez minutos depois, a porta se abriu novamente, dessa vez totalmente. Serenos olhos, até demais, olhavam para um horizonte à parte e inacessível por outros.

— Haru! Meu bom garoto, que Rempler esteja sempre ao seu lado. — Agarrou seu estudante favorito pela gola e o puxou para dentro, fechando a porta.

— Está cada vez mais difícil conseguir seus analgésicos, professor. — Haru já foi puxando uma cadeira e servindo-se de uma bebida quente que havia sobre a mesa, ignorando o cumprimento maldoso. Papéis amassados e riscados cobriam todo o chão e a cama ao fundo. — Annielsia foi afastada dos seus deveres como assistente na enfermaria depois de passar quase três semanas cuidando de um garoto que de tão febril e delirante teve que ser levado para uma clínica de reabilitação.

— O garoto que via o Deus demoníaco em seu próprio colega de quarto... — Rusmindler cutucava com a unha uma mancha em um canto do vidro. Tinha uma enorme janela em forma de arco com vista para a sua sala de aula: a capela.

— É, mas não tem como culpá-lo. Se um dia te questionarem sobre, o inferno é mesmo vermelho. Uma cascata de vermelho sangue e ardente. — Deu um golinho no chá. Fez uma cara de repulsa e cuspiu o líquido sobre os papéis do chão. Largou o restante dentro de uma caneca com uma rosa morta em repouso na mesa. — Mas o que importa é que culparam Annie pelo fato e agora sou eu quem tenho que pegar as drogas para o senhor.

— Sim, quem ganhou um demônio pessoal agora foi você...

Haru ignorou as falas sem sentido do homem e resolveu procurar ele mesmo o que veio buscar. Era um trabalho não muito fácil diante da bagunça que era o quarto.

— Só para avisar que agora virei com menos frequência, mas deve continuar me dando as revistas. — Olhou nas gavetas do armário e debaixo da cama imunda. — Especialmente agora que Nellike não tem mais ninguém para atormentar além de mim, fica difícil arranjar oportunidade para ir até a enfermaria. — Debaixo dos panos sujos e embolados, do travesseiro sem fronha, ele havia escondido bem desta vez. — Aquela aberração já matou um e enlouqueceu outro em malditos três anos em que estou preso nesta escola. Me pergunto mais quanto tempo vou durar sendo seu último colega de quarto que sobrou.

O professor riu e tirou de sobre sua camisola encardida e desabotoada até a metade do peito três revistas, as que Haru procurava.

— Muito criativo, querido tutor. — Chutou as dezenas de frascos vazios, idênticos aos que tinha trazido, que estavam em seu caminho e arrancou os livros de “leitura espiritual” que sempre pegava emprestado das mãos daquele homem suspeito. — Francamente, consegue ser mais doentio a cada visita minha.

Rusmindler jogou mais duas pílulas de um frasco aberto em sua boca e as engoliu calmamente. Mais lentamente acendeu um cigarro que Haru não sabia dizer de onde tinha tirado, tragou com uma aparência pacífica e olhos prazerosamente fechados. Quando os abriu, soltou a fumaça entre risos roucos, observando Haru encará-lo com os lábios crispados de nojo, mas sem conseguir parar de olhar.

— Vá logo. Não quero provocar a ira divina e se fosse você faria o mesmo. — Soltou mais fumaça sobre o rosto de Haru, fazendo por cima um sinal de boa sorte na testa de seu estudante que sempre soube ser especial, o mais especial de todos. — Nunca mais volte aqui. Nunca mais me procure.

Praguejando e tossindo, o garoto enrolou as revistas e as escondeu por dentro das vestes, como seu professor. Estava louco, ele, doido que não sabia o que falava. Quando faltasse anestésico com toda certeza o chamaria de volta, ou que se matasse em abstinência mesmo, Haru perfeitamente poderia achar outro que lhe vendesse revistas eróticas.

Deu as costas, irritado, e fez rápido em abrir a porta e sair, sem cuidar se alguém o observava. Virou-se na única direção que havia como saída para topar com Nellike à espera, como estava acontecendo com uma precisão assustadora a onde quer que fosse nos últimos tempos, e parecia que só tendia a piorar.

Notas finais
O fim! Espero que tenha agradado a alguma parte do leitor dentro dos leitores.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!