Especial Inner Beauty
13 Capitulo treze - Dezessete Parte V
Notas iniciais
Dezessete
Parte V
Abanei meu rosto controlando minha respiração, não estava calor, só que a tremedeira da minha mão não queria passar e estava corada demais para até mesmo começar a passar maquiagem. Me levantei receosa e muito envergonhada me olhando no espelho vendo aquela lingerie nem um pouco apropriada, bom, talvez apropriada para o que eu ia fazer, mas com certeza não era algo que eu tinha o costume de usar.
Uma lingerie toda branca trabalhada na renda e aquela calcinha não cobria nem um terço do meu bumbum, só de me virar e ver o resultado atrás tornei a ficar nervosa novamente.
Francamente eu estava a um ponto de desistir daquela ideia, porém respirei fundo, controlei meus nervos e me concentrei em fazer o que tinha que fazer. Prendi os cabelos num coque e comecei a me maquiar. Meu vestido já estava pronto e apesar de a Claritta me encher a paciência sobre comprar algo mais ousado preferi ir a esse baile com uma coisa mais simples.
Ele era longo, leve e numa tonalidade verde água. Sem muito detalhe, apesar das costas ficarem um pouco descobertas e achar que meu pai não vai gostar muito disso.
Assim que comecei a me vestir ouvi o som da batida na porta e fui abrindo já imaginando quem era.
— Uau!!! — Exclamou Claritta de boca aberta. Ela usava um vestido curto preto de mangas longas de renda. — Vocês está parecendo uma boneca! — Respirei fundo e cruzei os braços.
— Você disse que ia com o roxo! — Minha amiga sorriu com os lábios cobertos de batom vermelho matte negando.
— Sim, disse, mas foi para você não me encher! Olha, eu também não concordei com esse vestido de princesinha da Disney, para quem vai fazer o que você vai fazer hoje, precisa mais disso... — Apontou para o próprio vestido e depois para o meu. — ...E menos disso! — Apenas rolei os olhos.
— Juro que não entendo toda essa necessidade de roupas se no final o ato é sem elas. — Ela suspirou enfadonha.
— Não começa! Seu par está lá em baixo com o seu corsage e quase dando um troço de medo do seu pai que curiosamente deu para querer acariciar uma cobra de um metro e meio na frente do coitado... — Bati a mão na testa sem acreditar que papai estava fazendo aquilo.
— Vamos... — Antes de chegar a escada segurei o braço dela para parar. — ...Você já falou para ele? — Cochichei e ela negou.
— Claro que não! Estamos falando do James, se eu contar agora ele enfia a cara num buraco de vergonha, mas relaxa que no momento certo eu digo. — Ela ia andando quando a puxei de novo um tanto nervosa.
— Talvez... Talvez, devemos esquecer isso, talvez, eu não esteja preparada... — Soltou da minha mão negando num sorriso.
— Pimentinha relaxa! Vá no baile, dance, se divirta e vai perceber que esse é um processo completamente natural... Tudo vai dar certo. — Engoli em seco assentindo meio que contra minha vontade.
Iniciei a descida na escada sabendo que não tinha mais volta – até tinha, entretanto minha mente estava decidida – achei que o primeiro que fosse ver seria o James me esperando, só que tudo que vi foi minha mãe começar a chorar depois de outro FLASH!
— Mamãe! — Aos prantos ela apenas balançou a mão. Ao lado do meu par estava meu pai segurando a súcubos— ele adora nomes sinistros – dei um longo suspiro. Que família era essa que eu tinha! — Papai, por favor, está assustando o James! — Estava, antes de eu descer e ele ficar com os olhos grudado em mim boquiaberto... O que me deixou corada.
— Fiu-fiu! — Assobiou atrás de mim e levei o maior susto. Ahhh Deus... Ele ia, ele realmente ia no meu baile. Usava uma calça jeans preta desgastada nos joelhos – e não parecia design dela – uma camisa preta com estampa de uma fumaça e um tênis sapato preto com branco. — James, acho que vamos trocar de par, que tal? — No fundo, eu quis muito dizer que topava, porém a pergunta nem era para mim.
— Deixa de dizer besteiras Michael! — Retruquei.
— É isso aí, esqueceu de mim? — Claritta tomou a frente dele que sorriu negando. — Você vai assim? Cadê o terno? — Dessa vez ele sorriu com sarcasmo.
— Maluquinha eu não usei tenro nem no meu baile, vou usar no dos outros? — Ela cruzou os braços nem um pouco contente com aquilo. Ignorei o resto da briga dos dois para me virar para meu par que continuava envergonhado se aproximando com um corsage de rosa vermelha.
— Você está muito bonita... — Falou baixinho colocando o corsage no meu pulso, minhas bochechas deviam estar na mesma cor que as dele ou mais quando:
FLASH!
— Mãe!!! — Abaixei a câmera dela nervosa.
— Não se preocupe Sophie, essa foto eu mesmo queimo! — Se intrometeu meu pai rangendo os dentes.
— Não ouse ou o senhor vai se ver comigo! — Fechei os olhos já impaciente. Segurei na mão do James e acenei.
— Quer saber?! A gente já vai, vamos? — Chamei os dois que acenaram que sim.
— Não se preocupe tio Oliver, eu fico de olho nela para o senhor! — Disse o infeliz do Michael e eu já o fuzilei com o olhar.
— Falou o cara que quebrou a perna pulando a janela e foi preso por invasão domiciliar pela namorada, um exemplo de responsabilidade. — Ironizei passando por ele que ria descontraído.
[...]
A música lenta bem romântica tocava pelo salão repleto de adolescentes bem vestidos, de repente se esqueceram das rivalidades e trivialidades para todos simplesmente curtirem o baile. Nerds, atletas, descolados e entre outras minorias se misturavam em meio a dança e eu tinha que confessar que aquilo era bonito de se ver.
A princípio fiquei sentada apenas observando o ambiente, a decoração era bem modesta, tecidos finos que alternavam de lilas e branco serviam como cortinas cobrindo todo arredor do salão, o forro das mesas brancos, as cadeiras pretas e um singelo enfeite de rosas lilás – artificial, claro – dando um adorável charme. Havia vários enfeites espalhados pelo salão e uma mesa bem decorada num canto com as bebidas e cheia de salgadinhos e doces.
— Péssima notícia! O suco não está batizado... — Resmungou o Michael se sentando ao meu lado. Apontei para a cadeira na minha frente.
— Primeiro: Seu lugar é ali. Segundo: Você bebe demais, está quase um alcoólatra. — Fez careta dando uma golada no suco de uva.
— Estou tentando não dormir, tem uma hora que estamos aqui e não tocou UMA música descente! Só tocou música de menininha apaixonada e eu juro que se colocarem aquela música melosa da Paramore de novo eu vou ali socar alguém! — Revidou num suspiro longo.
— Eu gosto! — O fitei meio surpresa. — Pensei que você fosse mais animado em festa, ia todo dia em uma algum tempo atrás. — Ele deu um sorriso debochado.
— Deixa isso aqui virar uma festa de verdade e vai me ver animado... — Espreguiçou dando um bocejo. — ...E não ia em tanta festa assim, se tratava de outros assuntos, se é que me entende...
— Prostitutas, entendi. — Conclui e ele me fitou perplexo.
— Não! Não tem nada a ver com isso, quero dizer, nem todas as vezes e minhas ex não são prostitutas. — Assenti.
— Tem razão, desculpa, o prostituto é você. — Me corrigi e de início ele ficou nervoso, só que logo deu vez a um sorriso largo.
— Saqueiiiii! Você está zangada comigo por que eu vim com a Claritta, não é? — Rolei olhos suspirando.
— Não. Eu já disse a ela e vou dizer a você, não estou nem aí com o que vocês dois fazem desde que não sobre para mim. — Balançou a cabeça fingindo que acreditava, na verdade nem eu acreditava direito. — Não enche, cadê ela?
— Sei lá, pegou a chave do carro e disse que precisava comprar alguma coisa urgente... Hum... — Falou incerto. — ...Agora que você falou eu fiquei curioso, por que ela disse que tinha comprado errado, mas o que diabos seria? Estamos num baile, o que exatamente se compra errado? Tem bebida e comida aqui... — Eu fui seguindo o raciocínio dele até que a resposta me atingiu em cheio e eu fiquei roxa de vergonha. Coloquei a mão na boca cobrindo meu ‘Ohhh’ involuntário.
— Ah! Não deve ser nada demais... — Ele me encarava bem sério e de certo modo acusador.
— Sophie... Você sabe o que ela foi comprar? — Neguei no mesmo tempo virando o rosto. — Sophieee!
— Eu não sei! Se foi você que falou com ela, como é que eu vou saber? — Ele puxou a cadeira para bem perto de mim e me olhou nos olhos.
— Se for drogas eu conto para o seu pai, tá avisada. — Quando ele disse drogas um alivio bateu nas minhas costas, preferia mil vezes que ele pensasse que eram drogas do que camisinha.
— Ela não mexe com drogas, se tratando de vocês dois ela deve ter esquecido de comprar anticoncepcional. — Repliquei de braços cruzados. Ele ficou cogitando um pouco, suspirou e relaxou na cadeira de novo.
— Estou fora, não quero mais encrenca. Cadê o peixinho? — Pigarreei em desagrado com o apelido.
— Foi tomar antialérgico, ele foi sentir se as flores tinham cheiro e acabou que tinha era poeira. — O idiota do Michael começou a rir.
— Além de tudo é alérgico a poeira, coitado! E se eu fosse ele não tomava, antialérgico dá um sono da porra. — O fitei.
— Como sabe? Você alérgico a nada.
— Meu tio Devan é, certa vez ele comeu doce de amendoim no aniversário da monstrinha e ficou sinistro, deram antialérgico e ele ficou mais bobo do que já era desmaiando no tapete da sala... — Contou entre risos. Eu recordo pouco desse tio dele, sei que é irmão do padrinho, só que eram tãoooo diferentes.
— Ah! É o alto de olhos azuis? Pai daquela menininha loira, né? — Assentiu levemente. — É incrível como duas pessoas crescem no mesmo ventre ao mesmo tempo e uma sai perfeita enquanto a outra... — Achei melhor não dizer nada para não ofender. — ...Coitado do seu tio, deve ter sido uma infância difícil tendo o padrinho como irmão... Imagina?! Todo mundo encantado com o padrinho e sem muita coisa a dizer sobre o seu tio. — De certa forma tinha realmente me dado pena dele, competir com o tio Dillan não devia ser fácil. Quando mirei o Michael sua expressão de espanto misturado com confusão tomava seu rosto.
— Nossa... A visão que você tem do meu pai beira a loucura da minha mãe. — Dei de ombros. — Não sei se notou, mas o padrão de beleza da sociedade é praticamente o oposto do que é o meu pai ou eu. — Franzi o cenho perdida.
— Como assim? — Ele deu um sorriso incrédulo.
— É só você prestar atenção aos contos de fadas ou assistir meia hora de TV, tipo aquele cara! — Apontou para um dos atletas que dançavam, não sabia o nome dele, mas era alto, robusto, cabelos louros, olhos claros e um ar de superioridade irritante.
— Não vejo nada demais nele, e eu nunca fui interessada em contos de fadas ou assistir TV, a não ser alguns programas do Discovery, mas nem todos, ultimamente tem muita idiotice. — Balançou a cabeça rindo.
— É, você é uma exceção à regra para alegria do peixinho alérgico. — Arqueei uma sobrancelha.
— Não entendi, como assim? — Lançou um sorriso torto com uma mistura estranha de charme com ironia.
— Bom, é que, na minha época do colégio ás chances de uma garota como você sair com um cara como ele eram de 0,001% e essa porcentagem se o coitado tivesse dado um rim para ela. — A intenção dele foi esclarecer, porém fiquei mais perdida ainda.
— ‘Garota como você’, como é uma garota como eu? E o que isso tem a ver com o James? Digo, que tipo de cara ele é? — Michael coçou a nuca com semblante de quem falou o que não devia.
— Hum... Como é que eu vou explicar isso?! — Questionou para si. Juntou os dedos em linha reta na altura do rosto. — Isso é um nível! Cada pessoa se encontra num nível especifico, eu por exemplo, me encontro no nível de baixo próximo aos fracassados e delinquentes que não tem volta! — Abaixou o a mão esquerda mostrando distância entre as mãos.
— Que exagero, você não é fracassado e delinquente é demais...
— Não, não, não! Não funciona assim, não se trata do que realmente somos, eu posso ser um santo, mas o nível social ao qual eu fui colocado foi esse, não somos nós que decidimos isso, é a sociedade! Coisas pequenas como, nascer numa família pobre, usar roupas fora da estética padrão, estar fora do padrão de beleza, ter uma personalidade mais fechada... Isso já decide por você em que nível se encaixa. — Apesar de todas as regras que já tinha ouvido no colégio aquilo que ele me explicava era a primeira vez. — É como no Harry Potter com aquele chapéu falante que diz onde vai, você não tem opção, burlar o sistema talvez, só que isso é mais trabalhoso... — Cogitei.
— Está dizendo que meu nível com o do James não condizem? Que por isso não deveríamos estar juntos? Que coisa preconceituosa Michael! — Rebati nervosa.
— Hey! Eu não fiz as regras!
— Mas está impondo elas! Eu posso não ser do mesmo nível social que o James, só que quem tem que se importar é ele não você! — Não sei por que ele começou a rir.
— Não foi isso que eu disse! Quem está lá em cima é você não é ele. — Cruzei os braços o encarando séria.
— Aonde você quer chegar com isso tudo? — Michael se encolheu um pouco dando uma de desentendido.
— Não, em lugar nenhum, eu só comentei por que você me pediu para explicar, não estou dizendo que é errado. — Fiz um bico nervosa.
— Sabe o que eu acho?! Que você está com ciúmes! — Ele arregalou os olhos me encarando assustado.
— O quê? — Aha! Tinha acertado na mosca.
— É, com ciúmes! Por que na sua época do colégio só quem te dava moral eram as garotas do mesmo ‘nível’ que você enquanto queria as do nível acima, mas elas te achavam um fracassado! Agora que você está vendo o James burlar essa regra, está com ciúmes por que com o jeito simples dele ele conseguiu e você com todo seu ‘popularismo’ só ficou com as garotas que te procuravam para irritar os pais delas. — Me deu um sorriso claramente fingido e nervoso. Eu tinha mesmo acertado na mosca – pelo menos em parte.
— Ok, vamos brincar de sinceridade! — Respirou fundo se virando com a cadeira completamente para mim e fiz o mesmo. — Eu não tenho ciúmes desse namorico de merda que vocês tem, é sem graça, é frio e eu suspeito que você está fazendo isso por qualquer outro motivo do que a suposta ‘paixão’ que tem por ele, aliás, deixe me dizer um fato curioso de que você nunca diz estar apaixonada por ele! — Comecei a rir com deboche e um pouco de raiva – mentira, eu estava quase vermelha de raiva por ele ter percebido aquilo.
— Quem é você para julgar meu namoro, Michael? Seus namoros não duram um mês! Eles duram o período em que se entedia pela garota, e suas razões para namorar é puramente físico, não tem que julgar meus sentimentos pelos James por que eu duvido que você usa os seus em qualquer relacionamento que tenha... Se é que podemos chamar seus namoros de relacionamento! — Abriu a boca um tanto ofendido.
— Escuta aqui, e escuta bem sua pirralha arrogante, não pense que eu não... — Calou na hora que o James se aproximou com um sorriso tranquilo.
— Desculpa a demora, é que alguns amigos me pararam ali e queriam conversar. — Devolvi o sorriso.
— Não tem problema, vamos dançar? — Ele concordou no mesmo tempo erguendo a mão para segurar a minha. — Com licença, babaca... — Michael franziu o nariz semicerrando os olhos nervoso.
A música tocando era Magic do Coldplay e tentei concentrar minha atenção para aquele momento esquecendo a briga de pouco instantes atrás. James colocou as mãos na minha cintura e eu pus as minhas envolta do seu pescoço. Ele sorriu divertido como se tivesse ouvido uma piada.
— Parece que eu te tirei de uma discussão... — Sussurrou e eu assenti rindo.
— O Michael é impossível, acho que nunca vamos ficar um perto do outro em completa paz. — Ele tornou a rir me puxando um pouco mais para si.
— Você está realmente perfeita essa noite. — Alisei o terno preto dele sorrindo.
— Você também. — Sussurrei. E um beijo carinhoso durante a música aconteceu o que nos fez apertar um contra o outro. Assim que nos separamos demos um sorriso tímido para o outro e recostei minha cabeça sobre seu peito olhando para o lado.
A música toca lentamente e aos poucos eu fui me convencendo de que não era nenhuma má ideia realmente ficar com ele naquela noite, principalmente por que agora sim eu queria provar meus sentimentos por ele e esfregar na cara do Michael.
Dançamos a música sorrindo um para o outro de vez em quando até que finalmente aquela figura resolveu aparecer lá na nossa mesa e acenou para nós toda empolgada.
— Eu já estava achando que ela tinha arrumado outro cara e sumido... — Cochichou James no meu ouvido enquanto voltávamos e eu ri.
— Pela primeira vez eu aprovaria isso só para o Michael aprender uma lição. — Ele riu.
— Que cruel... — Se calou pois tínhamos chegado a mesa.
— Vocês parecem um casal de comercial de coca-cola. — Comentou ela animada o que fez minhas bochechas corarem. Michael já tinha melhorado o humor ou pelo menos fingindo que estava mais tranquilo.
— O que você foi comprar mesmo? — Perguntou a ela e arregalei os olhos. Felizmente Claritta sabe fingir muito bem.
— Absorvente, quer ver? — Ele fez careta na hora negando.
— Não, obrigado. — Isso me fez suspirar o que foi um erro por que o Michael percebeu e continuou desconfiado. Começou outra música lenta e não sei o que deu no meu primo que se levantou empolgado. — Ahhhh! Até que enfim uma boa! Vem Sophie, dança uma música descente comigo...! — Eu ia negar na hora quando vi o olhar da Claritta acenando com a mão atrás dele para eu ir. James também viu o aceno e achou estranho.
Eu entendi o plano: Tiro o Michael dali, ela conversa com o James numa boa e dá o produto para ele sem que meu primo visse.
— Táááá! Mas só uma música! — Andamos até a pista e não me senti nem um pouco confortável com suas mãos envolta da minha cintura e muito menos em ter que colocar as minhas sobre seu pescoço. — Você gosta mesmo dessa música ou é um pretexto para gente continuar discutindo? — Me deu um sorriso largo.
— Nãoooo, eu acho que entrei num terreno que não me diz respeito, certo? — Inclinei o rosto concordando.
— Digo o mesmo, amigos... — Me afastei para erguer minha mão e apertar a dele. Ele sorriu travesso segurou minha mão e me fez girar e só não caí por que voltei de frente para ele que me segurou.
— Dança direito! — Semicerrei os olhos me sentindo desafiada. Segurei em seus braços e segui o ritmo da música que não era tão lenta quanto a que dancei com o James.
“Tell me just what you want me to be
One kiss and boom you're the only one for me
So please tell me why don't you come around no more...
Cause right now I'm crying outside the door of your candy store
Éramos os únicos dançando mais agitados na pista e os demais ficavam nos olhando meio estranho como se não soubessem se eles ou nós que estávamos dançando errado. Eu ignorei principalmente quando o refrão chegou.
“It just takes a little bit of this
A little bit of that
It started with a kiss
Now we're up to bat
A little bit of laughs
A little bit of pain
I'm telling you, my baby
It's all in the game of love”
A cada little da música ele me girava para um lado e do próximo para o outro, naquele momento em nem parei para pensar que estava rindo e me divertindo. Seus dedos estavam entrelaçados no meu e sempre que o refrão terminava com nosso corpo colado mesmo que por segundos... Fazia toda minha espinha se arrepiar e perder o folego. Mas era divertido, principalmente ver aquele sorriso na minha frente.
“It's all in this game of love
You roll me
Control me
Console me
Please, hold me
You guide me
Divide me
Into what...
Make me feel good, yeah”
Quando chegou a essa parte da música ele me olhou de um jeito estranho, intenso e com um sorriso que eu nunca tinha visto até então e por isso não entendia o que ele queria dizer... Conhecia a maioria dos sorrisos do Michael, só que aquele era diferente, era novo para mim e me dava uma sensação de vergonha e de... Oh, eu não podia estar sentindo aquelas coisas. Foi o combinado! Isso não é nada!
Abaixei o rosto tentando ainda seguir o ritmo da música, mas ele se soltou da minha mão e ao fita-lo percebi que estava sério olhando para trás de mim. E nem mesmo me esperou para sair na frente rumo a mesa, demorei alguns minutos para entender o que se passava... Ele me deixou sozinha na pista com cara de idiota.
Nervosa, puxei o ar e soltei para me acalmar. Envergonhado com alguns olhares sobre mim, voltei a mesa. Claritta mantinha o olhar fixo nos dois rapazes que conversavam agora perto de uma das saídas.
— O que deu nele? Você falou alguma coisa? — Perguntou Claritta. Neguei na hora.
— Não a gente não conversou, o que ele foi falar com o James? — Minha amiga deu de ombros.
— Sei lá, ele chegou aqui e disse: ‘Vem cá um pouquinho’... — Imitou ele. Franzi o cenho.
— O quê? Como assim... — Nem eu nem Claritta vimos o que aconteceu por que estávamos uma olhando para outro, a gente só ouviu o barulho e alguns alunos soltaram sons de espanto.
Ele nocauteou o James. Parecia inacreditável, mas o Michael que parecia todo calmo agora a pouco simplesmente nocauteou o pobre do meu namorado e mantinha um olhar de fúria sobre ele. Corri desesperada até os dois junto com a Claritta vendo o Salmon caído no chão com o nariz e a boca sangrando.
— MICHAEL!!! O que deu em você??? Ficou maluco!!! — Gritei colocando o James no meu colo e abanando o rosto dele para ver se acordava – eu não faço ideia do que se fazer com alguém desmaiado e o que me veio a cabeça foi isso.
— Vai! Vai repete o que você disse se for homem que transformo num sushi... — Sim, ele estava gritando com um cara desmaiado. — ...E você... Ah! Você...! — Apontou para Claritta. — Eu cometi um erro ao aconselhar a Sophie fazer as pazes você! Que tipo de amiga planeja uma armadilha com o namorado dela?!!! — Óbvio que a Claritta não entendeu e pelo visto o Michael tinha descoberto, mas captou tudo errado.
— O quê? Do que você está falando? — Ele abriu a mão e um carretel de camisinha cai da mão dele.
— Disso! Eu vi você colocando algo no bolso dele! — Bati a mão na testa completamente vermelha. Claritta riu e me encarou.
— Michael... — O chamei rangendo os dentes. — ...Fui eu que pedi! — Falei em baixo tom. — Não foi um plano dela, foi meu... — Eu queria ter tido um buraco para me enfiar na hora. A questão era que saber daquilo só deixou ele mais nervoso.
— Como é que é? Você pirou de vez Sophie? Por que vai fazer isso? — Tirei a cabeça do James do colo e me levantei.
— E por que não? — Arregalou os olhos como se a resposta fosse óbvia.
— Por que é você Sophie, não pode fazer isso só por fazer!!!
— E por que não? Ela está namorando ele, os dois se gostam, faz muito mais sentido para ela do que fez para gente... — Ele fez uma careta em desagrado.
— Não tenta se comparar com a Sophie, ela é diferente! — Cruzei os braços o encarando sério.
— Como assim eu sou diferente!? Por quê? — Claritta se colocou do meu lado fazendo a mesma cara.
— É... Como assim ela é diferente? Só por que é virgem? Ela tem que perder uma hora, não é? — Michael olhou para ambas.
— Não hoje, não comigo por perto! Podem ter certeza! E esse assunto já deu! Você não vai fazer isso e ponto final! — Bati o pé no chão com força ficando de frente para ele.
— Quero ver você me impedir! O James é meu namorado e se eu quiser eu faço sim! — Ele semicerrou os olhos e rosnou.
— Quer apostar? — Empinei o nariz batendo o dedo no peito dele.
— Você-não-manda-em-mim...! — Eu não devia ter dito aquilo. Num único movimento o Michael me colocou nos ombros dele e começou a caminhar. — AHHH! Michael! Me solta!!! Me põe no chão!!
— A gente vai embora! — Retrucou num timbre de poucos amigos.
— Nãooo! É o meu baile, me solta agora!!!
— Solta ela seu louco! — Se virou para Claritta com um olhar assassino.
— Não! Esse planinho não vai acontecer hoje e eu quero ver quem vai passar por cima de mim para contestar! — Revidou furioso. Só me restou gritar de raiva e bater nas costas dele sem muito efeito.
Mais uma noite catastrófica. Chegamos em casa e eu só queria matar o Michael que já não respirava fundo e parecia mais calmo... Embora eu estivesse com mais raiva do que nunca.
— ME COLOCA NO CHÃO AGORA! — Berrei quando entramos em casa e meus pais vieram correndo ver o que tinha acontecido.
— Meu Deus! Que gritaria é essa? Por que estão em casa tão cedo? — Perguntou minha mãe preocupada.
— O Michael bateu no James, mamãe! E deixou ele desmaiado lá no chão!!! — Gritei dando murros no peito dele que parecia nem doer. — Seu infeliz, desgraçado!
— Michael! Por que fez isso?! — Questionou mamãe indignada e papai ficou ao lado dela ouvindo atentamente.
— O cara me diz na cara dura que eles vão para um motel depois do baile e não quer levar uma porrada??? Se falar de novo, eu bato nele de novo tia! — Ele contou... Jesus que me protegesse, ele tinha contado na frente do meu pai e eu já o fitei em pedido de clemencia. Os olhos de Oliver Gasnier se tornaram escuros, de repente ficou vermelho e acho que pensou em mil maneiras cruéis de como matar o namorado da filha.
— Aí meu Deus... — Murmurou minha mãe. — ...Oliver, calma... Ela tem dezessete anos...
— Sophie! — Encolhi os ombros. — ...Você só sai de casa sob escolta, e se seu namorado aparecer aqui eu faço ele engoli uma píton goela abaixo! — Rosnei em alto som sem acreditar.
— URGHHHH!!! Está feliz Michael???!!! Você estragou meu baile, estragou minha noite e agora quer estragar o resto do meu ano!!! Eu te odeio!!! — E sai em passos firmes.
— Não pode culpar seu primo por estar certo! — Gritou meu pai, mas nem dei moral.
Me joguei na cama e a raiva era tanta que nem conseguia chorar. Só morder o travesseiro e relembrar o desastre da noite do meu baile com meu namorado desmaiado no chão e todo mundo me vendo sendo carregada para fora da festa. Ainda bem que era o último ano do colégio.
Quando finalmente eu consegui parar de rosnar que nem um cachorro raivoso, me levantei da cama tendo consciência de que tinha que tirar aquela roupa pomposa, a maquiagem e tomar um banho para ver se esfriava o sangue.
— Tcharan! Humm... Ninguém resiste ao meu chocolate quente, hein?! — Apareceu assim que abri a porta. Ele me esperava do lado de fora com um sorriso sem jeito... Minha vontade era de jogar aquele chocolate quente bem na cara dele.
— Se não quer ganhar outro chute naquele lugar ou pior, receber um chocolate quente nele, eu sugiro desaparecer da minha frente. — Falei bem seca. Andei no rumo do banheiro e ele pulou na minha frente.
— Estou tentando me redimir Sophie! Não queria estragar o seu baile, mas você viu que eu fui obrigado a tomar providências! — Abri a boca perplexa.
— Tomar providências? Quem é você? Meu pai? Não tinha nada que se meter naquilo Michael... — Olhei cautelosamente para a porta do quarto dos meus pais.
— Tinha sim! Eu levo minha prima intacta no baile e ela volta sem o lacre de garantia dela, até parece que ia apoiar uma loucura dessas. — Fechei os olhos prendendo a respiração por uns quinze segundos o fuzilar.
— Isso é... Urgh! Seus princípios são completamente controversos Michael! Por um lado eu sou exagerada e isso não é nada demais, por outro fica uma fera por que eu quero fazer e é o cumulo! Me diz, onde está a lógica? — Ofereceu a caneca de novo.
— Vamos conversar sobre isso. — Normalmente quando ouço isso não vou gostar da conversa, mas eu queria uma explicação plausível.
[...]
Ok. Eu admito... Não sei o que ele coloca nesse chocolate quente, mas fica irresistível – mudou até meu humor. Íamos conversar na sala, mas eu estava com medo do meu pai aparecer e não gostar nada do papo: Por que não me deixou transar seu infeliz?
Quando ele finalmente entrou e se sentou na beirada da cama senti um frio na barriga, fiquei com uma expectativa irreal de ouvir algo que nem sabia o que era direito.
— Vamos começar com... — Iniciei. — ...Em que eu sou diferente da Claritta? Ela pode dormir com um monte de caras e tudo bem, enquanto eu não posso dormir com o meu namorado?
— Tá, certo?! Eu vou parecer um pouco rude agora, mas: A Claritta é sua amiga e estou pouco me fudendo para ela, com quem ela dorme, com quantos, a razão disso... Não estou nem aí! A diferença começa aí, eu me importo com você! — Fiquei um pouco sem graça com a resposta. — Enquanto a segunda pergunta...: Dá uma analisada no seu quarto! — Arqueei uma sobrancelha olhando em volta não vendo nada demais.
Eu tinha um guarda roupa branco com verde, algumas fotos comigo junto a uns repteis e três quadros grandes, uma com uma borboleta vermelha, outra com tartarugas marinhas e outro com uma magnifica cobra coral. Também tinha uns dois pôsteres do Dr. Who e uma prateleira de objetos que eu ganho das crianças, e também um pequeno mural que eu fiz com os desenhos delas – nunca tenho coragem de jogar fora.
Tudo bem, eu percebi que meu quarto tinha muitas fotos de animais, e a cor verde clara predominava. Um pouco fora do comum, ainda assim não suficiente para justificar eu não poder dormir com meu namorado.
— Eu não ia trazer o James para cá para fazer isso se é o que pensa... — Ele negou depois dos longos minutos que fiquei averiguando.
— Não, não é isso que quis dizer. — Tomei outro gole confusa. — Por que não tem uma foto ou imagem de gato ou cachorro aqui? — Estranhei a pergunta.
— Você sabe que prefiro repteis, gosto de mamíferos, mas eu amo os répteis. — Ele concordou.
— Por isso acho que não deve dormir com o James. — Ok, a lógica foi embora algum tempo e não percebi?
— O quê? Por que eu gosto de répteis e ele morre de medo?
— Não, por que com a Sophie não tem meio termo ou ela ama com intensidade ou não ama. — Aquilo me calou na hora. — Ela pode gostar, tolerar, só que não faz diferença para ela, em contrapartida quando ela ama alguma coisa... Saí perto, a de quem falar mal das cobras ou do Dr. Who, ela vira o bicho e fica toda vermelha de raiva. — É eu entendi perfeitamente onde ele queria chegar.
— Para de falar de mim na terceira pessoa, é esquisito... — Bebi outro gole mal humorada. — ...Você não sabe dos meus sentimentos pelo James!
— Sei que para você tanto faz tanto fez estar ou não perto dele, então para quê? Me diz? Para ir para cama com alguém pelo qual não sente nada? — Ri debochada.
— E você? Foi para cama com a minha melhor amiga e mal conhecia ela! — Ele assentiu não gostando do assunto.
— Sim, sim! E se você discorda por que quer fazer a mesma coisa? — Abaixei o rosto contrariada.
— Eu gosto do James, ele tem muitas coisas em comum comigo e é sempre paciente, esse sentimento mais forte vem depois... — O Michael negou levemente.
— Não, se fosse assim eu ainda estaria com alguma das minhas ex. — Ele colocou a caneca vazia no chão e suspirou deitando.
— Você nunca sentiu esse sentimento por elas? — Entreguei minha caneca para e ele pôs no chão para mim.
— Hum... Eu gostei muito de uma delas, a Safira, a gente se entendia tão bem e ela era incrível, mas o sentimento não era reciproco e acabou... Resolvendo ficar com um amigo meu. — Fiquei surpresa, não imaginava que ele tinha passado por aquilo. — Eu fiquei muito triste, claro, não na frente deles... — Não estava gostando daquela história. — ...O Montanha me abriu os olhos, me fez perceber que se eu gostasse mesmo dela, pelo menos nessa intensidade que todos falam eu teria corrido atrás, e ele tinha razão, não gostava dela ao ponto de perder um amigo.
— Se a Claritta fizesse uma coisa assim comigo eu não falava com ela nunca mais... — Murmurei ficando ombro a ombro com ele. — Se você não gostava das outras por que namorou com elas?
— Por motivos bobos, pelo menos a maioria, para ter uma ideia eu já namorei uma garota só por conta da irmã dela... — Fiz careta horrorizada.
— Aí Michael, que baixaria... — Ele riu.
— É, eu sei agora, só que quando eu era mais novo não tinha essa consciência... Quando minha mãe descobriu eu levei a maior surra! Um cara de dezesseis anos apanhando da mãe, vergonhoso... — Gargalhei imaginando a cena.
— Bem feito! Coitada da menina. — Cogitei um pouco. — Mas você se arriscou, se eu não tentar como é que eu vou saber? — Se voltou para mim.
— Sophie vai querer mesmo deixar um cara te tocar só para ter certeza dos sentimentos que tem? — Fiquei vermelha na hora. — Se o assunto te constrange imagina o ato... — Resmungou.
— Se o tio Dillan fosse solteiro tudo seria mais simples... — Me lançou um olhar zangado.
— Meu Deus, até quando você vai continuar com esse fetiche pelo meu pai? — Dei um sorriso malicioso só de imaginar.
— Eu vou ter um filho e dar o nome dele de Dillan, então acho que vai durar... — Brinquei rindo e ainda sim ele não gostou.
— Que bizarro! Não basta você achar meu pai mais bonito que meu tio, você também quer dar o nome de Dillan para o seu filho que ainda nem existe! — O fitei incrédula.
— Que absurdo, seu tio não chega aos pés do tio Dillan! O tio Dillan é... — Parei de falar por que finalmente eu entendi o que o Michael queria dizer no início da conversa. Meus sentimentos eram claros como água, quando gostava de verdade de alguma coisa nem eu mesma consigo controlar.
Eu gostava do James, mas não era mesma coisa.
— Tem razão... — Se eu tivesse dormido com o James, no fim ia me sentir culpada ou até mesmo arrependida por ter feito aquilo com alguém cujo sentimentos não eram ideais. Por que no final, a intimidade era algo importante para mim, não dava para dividir sem ter esses sentimentos profundos. — ...Não em bater no James, por que aquilo foi de um exagero extremo, podia ter me chamado num canto e conversado como fizemos agora... Porém, não ia ficar bem se no fim descobrisse que meus sentimentos eram inferiores ao que esperava. — Me encarou indignado.
— Chegou a essa conclusão baseado no que sente pelo meu pai? — Minhas bochechas coraram e um tanto tímida assenti.
— Ah Michael, o padrinho é... — Ele se ergueu sentando na cama.
— Ok! Eu sei que mereço vingança, mas não quero ouvir isso, ainda estamos falando do meu pai e isso é bem esquisito! — Dei de ombros. — Entretanto, fico mais aliviado que você tenha refletido melhor.
— Ainda estou com raiva de você, levou esse assunto de forma muito irracional Michael, bateu no James, xingou a Claritta e me arrastou para casa na frente de todo mundo! — Ficou de pé sem graça.
— Eu sei, desculpa, fiquei nervoso... É que... Quando ele me disse eu perdi a cabeça. — Dei um leve sorriso.
— Coitada da Gaby quando arrumar namorado. — Comentei brincando e não sei por que ele ficou mais sem jeito ainda dando um sorriso falso.
— Namorado... Quero ver que garoto idiota vai querer namorar com ela com o Logan por perto! — Retrucou em desdém. — Sabia que eles ainda tomam banho juntos? Dividem a mesma toalha! — Sorri balançando a cabeça.
— São crianças, não tem malicia! — Ele gargalhou histérico.
— Ahhh é, deve ser por isso que minhas revistas pornôs começaram a sumir e eu peguei os dois lendo juntos! — Arregalei os olhos segurando o riso com a mão.
— Eles leem juntos? — Perguntei entre sorrisos.
— E comentam! Minha irmã tem mil vezes mais malicia que você, pouco antes de eu vir ela perguntou por que minhas revistas eram tão machistas. — Cobri os o rosto com a mão rindo ao mesmo tempo que ficava vermelha.
— A madrinha não briga? — O Michael riu.
— Não, eu contei e ela riu dizendo que começou a roubar as revistinhas dos irmãos dela quando tinha dez. — Me sentei na cama entre risos.
— Deve sentir falta deles... — Tornou a se sentar na beirada assentindo.
— E muito. — Abaixei o rosto lembrando que não falta muito para ele ir embora... Duas semanas.
— Vou sentir sua falta, você é um chato, mas vai ficar um silêncio aqui... — Murmurei sorriso tristonha e ele se aproximou de mim me dando um abraço de lado.
— Ahhh Sophie... Eu vou vir te visitar algumas vezes. — Tornei a sorrir tristonha.
— Você nunca veio antes Michael, nunca nem mesmo ligou, não consigo pensar num bom motivo para isso mudar agora... — Sorriu sem jeito.
— Eu sim... — Murmurou mais para si mesmo. — ...Eu... Érrr... — Pigarreou se soltando de mim e se levantou de novo um pouco inquieto e nervoso. — Vou dormir, está tarde... — Concordei num singelo sorriso.
— Boa noite. — Disse apenas.
— Bo-boa noite. — Estranhei a atitude dele, mas saiu às pressas e não pude dizer mais nada.
Na verdade, eu queria que ele ficasse mais, que quem sabe dormisse ali comigo como quando eu fiquei chorando daquela vez, porém mais uma vez eu disse a mim mesma: Isso não é nada.
[...]
Cheguei em casa com os olhos vermelhos por ter chorado no trabalho, não pela Indila ou algum outro motivo depressivo e sim por que as crianças iam entrar de férias e me deram um presente encantador de despedida. Uma linda pulseira de linhas azul, vermelha e rosa que elas fizeram para mim para dar para minha amiga que tinha perdido, de acordo com elas para quem eu desse a pulseira a amizade duraria para sempre.
— Olha o que as crianças me deram mãe! — Mostrei a ela que fez um ‘ownn’.
— Que fofura, desse jeito você vai precisar de outra prateleira para colocar essas coisas. — Sorri negando.
— Não essa aqui eu vou dar para alguém, elas disseram que faz a amizade durar para sempre e prece de criança é poderosa. — Ela sorriu concordando. — Cadê o papai e o Michael? — Perguntei olhando para os lados e percebendo que a casa estava fazia. Michael era barulhento impossível não notar a presença dele, e meu pai ficava atrás da minha mãe sempre que estava em casa, então era óbvio que não estavam ali.
— Pelo que me disse, hoje é a entrega do relatório final do estágio e o Michael ia ficar até tarde com o professor enquanto seu pai já deve estar chegando. — Explicou.
— Ah sim... Então ele vai mesmo esse final de semana? — Acenou que sim tristonha.
— Pois é, lá se vai meu ajudante. — Choramingou.
— Eu te ajudo mãe, quando eu puder. — Respirei fundo sentindo um aperto no peito. Nem parecia que tinha se passado já os tais seis meses e que no final de semana ele já ia embora.
Eu não queria... Eu realmente não queria que ele fosse, mas não tinha nem como eu falar para ele ficar depois de tanto tempo e nem por que dizer aquilo.
Claritta tomou ódio mortal do Michael por conta do que aconteceu no baile e ter fofocado para o meu pai, e ficou com mais ódio ainda por eu ter terminado com o James. Não foi tão difícil quanto eu pensei e no fim acho que ele entendeu. Apesar disso, desejei que ele encontrasse uma garota que realmente gostasse dele com todas suas qualidades e defeitos, por que estava claro que eu não era ela.
— Graças a Deus ele vai embora! Esse hipócrita do caralho! — Xingou nervosa assim que nos sentamos nos assentamos na mesa da lanchonete.
— Achei que ele era o mister simpatia para você. — Ela rosnou.
— Mister idiota, isso sim! Agora eu entendo por que você odeia ele! Sabe o que disse para mim? — Neguei. — Antes de ontem, fui falar sobre você e o James, e que o que fez foi uma sacanagem e ele me disse que conhece você melhor do que eu e que eu devia parar de enfiar minhocas na sua cabeça! — Rolei os olhos sorrindo, de certo modo ele me conhece mesmo melhor do que ela.
— Estamos em paz agora, acho que foi sentir falta dele me irritar. — Ela balançou a mão.
— Não diga besteiras, enquanto aquele encosto estiver na sua casa vai ser difícil saírmos para as festinhas de novo. — Assenti.
— Claritta, quem me proibiu foi meu pai, não o Michael, e o meu pai vai continuar em casa. — Ela suspirou longamente enfadonha.
— Que família difícil... — Isso era verdade.
A pulseira estava na minha bolsa, abri para pegá-la e entregar para a Claritta, mas de repente eu pensei de novo no Michael e sobre ele ir embora. Recordei os anos em que nos distanciamos e que ficamos um de cara virada para o outro e aos poucos fui percebendo que se tem uma relação que eu quero que dure par sempre... Seria a que eu tinha com o Michael.
Não queria mais voltar na casa da madrinha e estar aquele clima chato entre nós, não ser ignorada ou tratada com indiferença por ele, eu queria que continuássemos assim como estávamos... Amigos. Que gostam um do outro, que faz confissões para o outro e que brinca e discute sem ter guardar raiva um do outro.
Fechei a bolsa e mudei de ideia.
[...]
O barulho na noite me acordou assustada. Ouvi passos, batidas de portas e levantei às pressas e peguei uma tesoura no criado mudo – meus pais tinham saído num encontro e o Michael ainda não tinha voltado. Abri a porta e notei um som estranho vindo do banheiro... Caminhei lentamente e vi a figura de um rapaz debruçado sobre o vazo vomitando horrores.
— Michael? — O chamei preocupada, me fitou meio zonzo fez sinal e por fim não disse nada voltando a vomitar. — Você bebeu, não foi? — Fez sinal de só um pouquinho e vomitou mais uma vez. — Cocei entre as sobrancelha suspirando. — Meu Deus, olha seu estado! Você tem que parar de beber!
— É... É... É... A última vez... Juro! — Fez cruz com os indicadores e beijou falando completamente embriagado.
— Uhum, acredito! Se meu pai te ver nesse estado, vai te fazer assistir três horas de vídeo sobre alcoolismo, viu?! — Me aproximei deixando a tesoura em cima da pia. — Quer ajuda? Eu vou fazer um café para você, que tal? — Negou no mesmo tempo.
— Nãoooo! Eu... Estou... Bem! — Limpou a boca sentado no chão e escorando na parede. — É que eu comi demais... — Andei até o vaso sanitário e dei descarga. — ...Eles... Fizeram uma festinha para mim... Foi bonitinho... Tinha uma garota de lingerie numa caixa de presente... — Contou com a voz engraçada.
— Que horror! Você deve ter aproveitado a ‘festinha’... — Negou com o indicador.
— Eu... Só bebi, eu juro... — Cogitou zonzo. — ...Não, eu comi o bolo, mas a garota eu não comi... — O fitei com desdém.
— Levanta desse chão Michael, toma um banho e eu vou fazer um café...
— Se eu tomar café vomito de novo... — Resmungou. — ...Você vai dar banho em mim? — Fiz careta negando. — Eu deixo você me molestar... — Segurei o riso a voz dele estava muito engraçada e ele estava quase apagando.
— Se você deixar, aí não é molestar mais... — Apontou para mim num sorriso torto.
— Garota experta... — Disse.
— Agora eu sei por que a Claritta diz que dá para tirar proveito de alguns bêbados... — Ele riu.
— E como é que você acha que eu estava quando dormi com ela, sóbrio é que não era... Sophieee! — Foi caindo de lado quando segurei seu ombro voltando ele ao normal. — Me dá um colo, eu estou carente... — Comecei a rir sem acreditar no que ouvia.
— Você vai tomar um banho Michael! Bem gelado! — Fez careta.
— Mas eu não estou excitado... — Segurei os lábios para não rir. Oh minha nossa, que cena deplorável eu estava vendo dele. Como dialogar com um bêbado? Não fazia ideia.
— Se tomar um banho e te dou colo. — Foi o que me veio na cabeça. Se virou para mim surpreso – e zonzo ele estava MUITO zonzo.
— Sério? — Assenti e ele fez de tudo para tentar se levantar, mas no fim eu tive que ajudar. E quando dei por mim o doido bêbado já estava tirando a calça comigo ali dentro.
— Espera! Eu ainda estou aqui, deixa eu pegar sua roupa primeiro! — Gritei tampando os olhos.
— Não... Não tem nada aqui... Que... que você não tenha visto... — E ele já estava dentro do box com o chuveiro ligado. O jeito foi correr até o quarto dele e pegar toalha e o pijama dele, corri e coloquei em cima da pia.
— Está aqui viu?! — Fechei a porta dando um longo suspiro incrédula... — Eu vi o bumbum dele, aí meu Deus, agora sim não falta nada para eu ver... — Murmurei para mim mesma roxa de vergonha indo até a cozinha preparar um café sem açúcar.
Quando subi levando o café ele estava sentado no chão do corredor escorado na parede com os botões do pijama todos soltos. Dei a xicara para ele com cuidado e o induzir a beber.
— Argh... Parece o café da minha mãe... — Dei uma risadinha.
— Consegue levantar?! — Balançou a cabeça sem dizer que sim ou não. — Bebe tudo... — Tomou tudo numa golada tendo um tremelique. Com a minha ajuda se ergueu do chão e o levei até o quarto dele.
Se jogou na cama de uma vez. Sentei na beirada da cama um tanto preocupada com ele, nunca tinha visto o Michael assim.
— Como se sente? — Deixei a xícara embaixo da cama.
— Tudo girando... — Sorri largo.
— Quer alguma coisa? — Comecei a abotoar o pijama dele... E um frio tomou meu estomago ao perceber que meu dedo tocavam a pele dele.
— Fica aquiiii... — Choramingou quando terminei e fiz menção de sair. — ...Amanhã eu vou embora Sophie... — Falou com a voz meio embargada.
— Amanhã??! Eu pensei que fosse final de semana! — Revidei indignada.
— Amanhã de tarde... — Ele se empurrou para o canto da cama e bateu no espaço que ficou nela. — ...Fica aqui comigo... — Seus olhos semifechados e a voz sonolenta, então não vi problema naquilo.
— Você fica tãooo vulnerável bêbado... — Ele sorriu torto com os olhos quase se fechando.
— Acessível, eu fico acessível. — Dei uma risadinha e ele me abraçou de um jeito estranho... Colocou o rosto no rumo do meu pescoço. — Sophieeee... — Mesmo envergonhada o abracei de volta acariciando seu cabelo. Meu estomago parecia estar numa montanha russa, meu coração acelerada e minha respiração estava ficando cada vez mais difícil de controlar. — ...A gente podia viajar no ano novo... — Murmurou perto do meu ouvido sonolento.
— Podemos combinar... Acho que meus pais topam... — Sussurrei em retorno sorrindo. Ele dei uma risadinha abafada e dava para perceber que faltava pouco para cair no sono.
— Eu... Falei... De nós... — Arregalei os olhos sentindo meu coração dar um salto. Eu tive que perguntar para ter certeza que aquilo não era uma ilusão...
— Eu e... Você? Só nós dois? — Questionei baixinho ouvindo outro risinho, dessa vez abafado.
— Uhum... Nós dois... — Mordi os lábios com a cabeça cheia de pensamentos impróprios, o tal famoso calor ia dos pés ao último fio de cabelo e ficar repetindo ‘isso não é nada’ não estava adiantando.
— Seria bom... — Disse depois de algum tempo imaginando que ele já teria dormido.
— Seria bom sim... — E depois disso, literalmente apagou.
Eu mesma só consegui realmente ir quase ao amanhecer do tanto que a noite foi torturante, porém no fim eu conseguir me convencer de que de fato aquilo não era nada. Afinal ele estava bêbado e devia dizer muita bobagem nesse estado.
Acordei mais tarde do que o costume, era uma nove e meia da manhã e acordar no quarto de hospedes com as malas arrumada já na porta me deu um choque. Levantei no pulo, corri para o meu quarto, peguei uma roupa casual e me troquei. Escovei os dentes penteei os cabelos e desci as escadas.
— Que horas é o seu ônibus? — Ele estava sentado na mesa da cozinha mexendo no celular.
— Uma e meia. — Respondeu. Parecia bem para mim.
— Está se sentindo bem? — Colocou o celular de lado me olhando curioso.
— Estou, dei muito trabalho ontem? — Sorri com a mão no queixo.
— Bom, acho que deu menos trabalho do quando está sóbrio. — Falei com sarcasmo e ele riu. — Por que você vai hoje?
— É aniversário do meu avô no domingo, ele dá uma crise existencial se eu não for. — Ah, isso era bem provável o meu tio avô tinha a maior fama de ser um bebe chorão. — Mas não precisa chorar que o natal está aí e a tia já me disse que vocês vão para lá. — Sorri acenando que sim.
— Chorar que nada, vou poder fazer minha yoga em paz isso sim. — Respirei fundo e fui arrumar o meu café.
— Escuta Sophie, eu queria ter... — Minha mãe entrou na cozinha bem na hora e ele parou.
— Consegui enrolar aquele povo e sai mais cedo, tem certeza que quer ir hoje? — Afirmou.
— Sim, tia, eu já falei com a minha mãe. — Ela deu um abraço dele dizendo um monte de palavras de despedidas, só que eu não dei moral... Aquele clima estava me machucando.
[...]
Ficamos sentados durante um bom tempo esperando o ônibus chegar. Mamãe chorou um pouco, mas logo cessou a melancolia e meu pai apenas ligou dizendo que não ia dar para cancelar a aula que tinha. A todo instante eu pensava em coisas para se dizer para ele, só que a coragem não vinha e com a minha mãe por perto isso piorava e muito.
Até que:
— Urgh! Mas que droga, meninos eu vou atender esse pessoal e já volto! Não saiam daqui! — Disse ela se distanciando atendendo no celular.
— Ela fala como se a gente fosse criança a ponto de se perder... — Disse o Michael rindo. Era minha chance!
— Michael! Eu quero te dar uma coisa... — Me levantei procurando a pulseira que as crianças tinham me dado na bolsa. — ...Eu ganhei das crianças... — Comentei notando que ficou de pé também curioso com o que eu procurava. — Achei! — Mostrei a pulseirinha feita com fios azuis, vermelhos e rosas, não era muito masculino, mas não passou pela minha cabeça que ele fosse recusar. Acenei para ele erguer a mão e num sorriso tranquilo ele ergueu. — Elas me disseram para quem eu desse essa pulseirinha a amizade duraria eternamente, não importa distancia ou o que fosse, e você sabe que prece de criança é poderosa e acontece... — Expliquei sorriso contente por estar conseguindo dar aquilo para ele sem ficar envergonhada nem nada. Eu ia amarrar em seu pulso quando tirou a mão.
— Ahh... Nossa... Então, seremos amigos para sempre? — Perguntou num timbre de deboche e confesso... Doeu ouvir aquele timbre.
— É... — Soltei um sorriso sem graça. — ...Você não gostou, não é? — Analisei a pulseira na minha mão e tudo bem que não era bem feita, só não cogitei que ele se importaria com isso.
— Ohh... Não, não é isso Sophie, é uma pulseirinha linda e o simbolismo dela então... Uh! Uma graça! E eu vou ficar muito feliz em aceitar essa pulseira, mas... — Pigarreou e o encarei confusa. — ...Se eu aceitar então seremos mesmo somente amigos, só sempre amigos, entendeu?
Olhei bem no fundo dos seus olhos procurando compreender realmente o significado daquilo. A frase ‘Isso não é nada’ continuava persistente, só que... Estava claro que não era só nada dessa vez. Ele falava de algo mais, e parecia tão improvável que nem consegui responder, apenas continuei com os olhos fixos nele completamente perdida. Até que chegou ao ponto dele se manifestar meio sem jeito...
— Então tá, me dá a pulseirinha, eu fico com ela... — Assim que ele ia tocar nela – que estava suspensa na minha mão – eu fechei a mão involuntariamente com força e a levei até as costas – desnecessário, mas foi involuntário. Michael me olhou sério por uns instantes e aos poucos um sorriso bem malicioso se desenhou no seu rosto. — Vo...
— Aí desculpem a demora! Eu juro que essa família ainda vai me deixar louca! — Resmungou a minha mãe se aproximando da gente e quebrando o clima por completo. Ficou visível a irritação do Michael e eu segurei o riso, sem saber mais o que pensar. — Ah! Aquele não é o seu ônibus querido? — Olhamos os três no mesmo rumo e sim, era o ônibus dele.
— Nossa! É sim! — Abraçou minha mãe se despedindo. — Dá um abraço no tio e diz que vou sentir saudades! — Ela afirmou pegando uma mala dele para ajudar a carregar. E então ele veio até mim... E eu não sabia como reagir, por isso devolvi o abraço que me deu. — Eu vou te esperar lá em casa... — Sussurrou no meu ouvido. E como se meu nervosismo já não fosse o suficiente, ele me deu um beijo nada fraternal no pescoço que me fez arrepiar dos pés à cabeça.
Tudo que me veio à cabeça o vendo se afastar foi: Eu queria na boca.
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