Especial Inner Beauty
22 Capitulo Vinte e um - Dezoito PARTE II
Notas iniciais
Capitulo Vinte e Um
Dezoito parte II
Aquele se tornou um momento de extrema importância no meu relacionamento com o Michael, até mesmo a Claritta havia me dito que quando se apresenta a namorada para os amigos significa que a pessoa estava realmente levando o envolvimento a sério.
Por isso fiquei muito nervosa.
Eu tinha que admitir que meu nível de adaptação social era baixíssima e as chances deles me odiarem eram altíssimas. Só que eu tinha que ao menos tentar me dar bem com eles, seja lá como os amigos do Michael eram. Afinal, tecnicamente nunca tinha conhecido nenhum deles tirando o Montanha e a namorada. Então eu torci muito para que o resto deles fossem mais ou menos amigáveis como ele.
Como se não bastasse esse problema, eu ainda não fazia ideia do que dar ao Michael de aniversário. A única coisa que ele demonstrou paixão foi por comida, mas eu não podia dar um pedaço de bacon para ele no aniversário.
Pensando nisso criei um leque de opções baseada nas dicas que pedi as pessoas perto de mim.
Minha mãe sugeriu uma jaqueta nova, pois de acordo com ela o Michael fica muito bem de jaqueta e a que ele sempre usa está desgastada nos cotovelos – verdade.
Meu pai aconselhou logo que uma camisa com caveira é o melhor presente para se dar ao Michael – verdade também.
Não contei a Claritta quem era, mas as dicas dela para se dar um presente para o namorado obviamente envolvia besteira e eu imaginei que ela sendo tão pervertida quanto ele seria uma boa seguir sua linha de raciocínio.
Meu palpite era algo de comer, então fiquei pensando em algo que todo mundo gosta e é de costume dar de presente.
Esse assunto eu havia encerrado, agora eu tinha um conjunto de presentes perfeito para presentear o Michael com boas chances de ele gostar pelo menos de algum.
Infelizmente, isso ainda não resolvia meu problema com as amizades dele.
[...]
Das vezes que fui acampar com o meu pai as regras eram sempre as mesmas.
Primeiro: respeite a natureza, segundo: muito cuidado onde pisa, terceiro: nunca saia sozinha, quarto: jamais ande sem o equipamento de segurança, quinto: em hipótese alguma jogue lixo no meio ambiente e por último, sexto: leve tudo que trouxer.
Essas eram as regrinhas básicas, óbvio que haviam outros alertas, porém se usar o bom senso esses alertas nem eram necessários serem ditos. Por isso, eu estava preparada! Não queria de jeito nenhum ser a única dando bobeira no meio de uma floresta.
Mas quando o Michael me buscou na rodoviária e fomos direto ao lugar do acampamento – mentira, não fomos direto, ele parou no acostamento no meio do nada só para ‘matar a saudade’ de acordo com ele – meu queixo caiu.
Eu imaginava uma mata fechada, sem contato com a civilização, tomando banhos em rios e coisas do gênero. Entretanto, me deparei com um quiosque grande coberto, uma mesa comprida de madeira no centro, uma cozinha com fogão e geladeira na única lateral com parede, energia elétrica e minha nossa... Grudado no quiosque tinha até mesmo banheiro. Aquela não era bem minha definição de acampar.
Notei duas pessoas dentro do quiosque e outras num campo aberto do lado armando barraca. Mas meu choque me limitou a reparar apenas naquilo construído pelo homem.
— Que cara é essa? Relaxa que o chuveiro tem água quente, viu?! — Arregalei os olhos para ele.
— Água quente?! — Questionei incrédula e ele riu afirmando.
— Por que o espanto?
— Michael, isso não é acampar! É dormir na barraca em um quintal! — Continuou rindo. — Cozinha, fogão, geladeira, água quente... Luz?! Os lugares onde meu pai e eu acampamos não tinha nada disso! Tínhamos que fazer fogo, levar pilhas para as lanternas, tomávamos banhos nos rios, fazíamos buracos para usar como banheiros e tendo que tomar um maior cuidado para comida não atrair os bichos! — Michael gargalhou.
— Sophie, vamos acampar, não é um teste de sobrevivência, isso aqui é só para relaxar. — Balancei a cabeça rindo.
— Cadê o supermercado? — Perguntei com ironia para ele que sorriu e de imediato uma voz feminina surgiu atrás de nós.
— Meu Deus, sua namoradinha acha que aqui tem supermercado? — Girei o corpo surpresa e não sei por que logo de cara já suspeitei que aquela fulana se aproximando com uma mala na mão fosse a tal Safira. Com seus olhos azuis, cabelos castanhos escuros, pouco mais baixa que o Michael e usando roupas curtas para quem vai acampar – se bem que para aquele tipo de acampamento quem estava vestida errada era eu. — Sinto muito lindinha, aqui não tem supermercado e muito menos WI-FI. — Arqueei uma sobrancelha confusa enquanto ela se dirigiu ao Michael num abraço amigável demais para o meu gosto.
— Ah... Perdeu uma chance única de ficar calada. — Zombou o Michael dando um beijo na testa dela. — Sophie estava sendo sarcástica. — A outra sorriu largo me encarando.
— Tá bom, vou fingir que acredito. — Revidou rindo. Engoli o orgulho repetindo em mente o meu mantra pessoal para aqueles dias “Eu vou me controlar”. Devolvi um sorriso forçado gentil. — Então você é a Sophie?! — Assim que assenti ela se virou risonha para o Michael – detalhe importante para justificar meu ódio mortal no momento: Ela AINDA estava abraçada de lado com ele. — Ela parece uma bonequinha de porcelana. — Comentou já não aguentei sorrir mais, só que o Michael riu.
— Provoca ela e vira a esposa do Chuck. — Cruzei os braços nervosa. Toda aquela comparação estava me deixando irritada. — Sophie, essa é a Safira. — Apresentou formalmente e ela estendeu a mão num sorriso.
— Não se preocupe lindinha, vamos pegar leve com você. — Disse quando toquei sua mão. Não havia gostado daquilo, nem mesmo um pouco. — Bom! Deixa eu ir ajudar a Leah, enquanto você acomoda sua bonequinha. — E saiu indo no rumo das barracas.
Demorou um pouco, mas finalmente ele quebrou o silêncio meio sem graça.
— O pior já passou, né? Já conheceu quem não queria conhecer... — Peguei minha mochila no chão e sorrindo forçada novamente.
— Prometi não fazer cena e não vou. — Retruquei e ele me lançou um sorriso.
— Muito maduro... — Debochou. —Vem, vou te apresentar o resto do pessoal e o melhor... Nossa barraca.—Ergueu as sobrancelhas para frisar sua empolgação quanto a barraca.
[...]
Na verdade, não eram tantas pessoas assim.
Peter parecia ser o mais velho dentre eles, alto e de semblante calmo, me deu a impressão de ser o mais ‘normal’ dos amigos do Michael. Era o único sem apelido deles.
Flint era definitivamente esquisito. Tinha um sorriso melindroso grudado no rosto, falava muitos palavrões e pelo visto tinha o posto de comediante do grupo. Piadinhas não faltaram na apresentação, Michael precisou ameaçar ele com um soco para parar. Seu apelido predominante até onde eu notei era Galo — não tenho ideia do por que.
Phil era difícil de julgar a primeiro momento. Não falou muito e cumprimentou rapidamente. Michael o chamava de quatro olhos e fiquei surpresa pelo cara nem se incomodar. Bom, isso antes de eu recordar que ESSE era o amigo do Michael que agora estava com a Safira.
E claro, tinha o Montanha que eu já conhecia e ironicamente não faço ideia de qual o nome real dele.
Das amigas do Michael a maioria eu infelizmente já conhecia. Tinha a Leah que eu conheci no restaurante e ameacei de morte, a Safira que sorria demais ou eu que acabei implicando com ela, a Joy que era namorada do Montanha e por fim uma tal de Pipper que até onde eu pude ver era muito amiga da Safira e ganhou minha inimizade de cara ao entrar na onda de também me chamar de ‘bonequinha’.
MAS eu não ia me dar por vencida! Respirei fundo, engoli o desconforto e preguei um sorriso no rosto. Eu não ia desistir logo no primeiro dia, ao contrário, eu tentaria até mesmo me dar bem com essas garotas! Por mais que meu orgulho gritasse que não.
— Ficou meio afastado das outras barracas, não? — Comentei ao deixar minha mala num canto. Enquanto o pessoal ficaram próximo ao quiosque, Michael tinha montado a barraca embaixo de uma árvore a uns metros de distancias.
— Ficou foi perto, essa distância ainda não é ‘segura’ para gente. — Retrucou num sorriso malicioso.
— Pervertido... — Murmurei baixinho.
Depois de arrumar minhas coisas na barraca, Michael foi ajudar os amigos com as deles e eu achei que fosse uma boa ver se as garotas precisavam de ajuda também já que pelo que entendi elas ficaram responsáveis pela comida – achei machista, só que preferi não opinar dessa vez.
— Posso ajudar? — Perguntei depois de juntar muita coragem para pisar na cozinha e me oferecer para as três garotas que estavam ali.
— Não bonequinha, não queremos que você suje suas delicadas mãos. — Revidou Pipper com um olhar que eu conhecia. Um ataque direto, era como estar de frente para Miss Mine. As outras duas apenas riram.
— Ela está brincando, a gente já tem tudo organizado. — Safira entrou no meio tentando amenizar a piada da amiga. — Você pode... — Olhou para os lados pensando. — ...Ver se o Michael precisa de alguma coisa. — Semicerrei os olhos e por um instante eu quis responder a altura. Porém engoli tudo e sorri.
— Entendi. — Girei o calcanhar e fui saindo passando pela Joy que me fitou confusa – acho que ela estranhou meu olhar de ‘quero matar alguém’.
Minha experiência adquirida no colégio me deu o veredicto do que havia acabado de acontecer. Eu não era bem vinda no grupo, por várias razões irracionais evidentemente. Se tratava de uma matilha achando que não me incluir no grupo iria me afetar ao ponto de me tirar do território.
Para a sorte delas, eu prometi me conter e não iria mostrar quem era o predador dominante da área dessa vez. E claro, com toda certeza eu não ia dizer uma só palavra ao Michael para não criar um clima mais desconfortável do que já estava, tudo deveria estar sob controle ou ao menos parecer.
[...]
Passei o primeiro dia simplesmente dando voltas pelo local, seguindo obviamente as regras do meu pai e cheguei até mesmo a encontrar uma espécie pequena de lagartos. Isso foi extremamente relaxante, fazia tempo que não dava uma boa caminhada pela natureza assim, ou seja, no fim do dia nem lembrava mais do ataque de tarde.
— Que é isso? — Michael perguntou assim que entrei no quiosque. Ele estava sentando com alguns amigos em volta da mesa. Olhei para o que apontou e sorri.
— É uma perneira, equipamento de segurança. — Tirei as luvas grossas da mão suspirando. — Mas não dei sorte. — Fiz um biquinho contrariada. Eu estava louca para achar uma serpente e jogar nas amigas dele.
— Sophie... Isso é ridículo, aqui não tem cobra e nem nada que exija isso. — Disse rindo. Estava pronta para refutar quando intrometeram na conversa.
— Vai caçar ruivinha? — Flint questionou com escárnio passando por mim e se sentando ao lado do Michael que tive a impressão de querer brigar com ele.
— Sim. — Respondi com um meio sorriso. — Tubarão, mas só mais tarde. — É evidente que quem estava sentando ali perto e me ouviu ficou super confuso, no entanto o meu alvo tinha sido acertado. Michael gargalhou deliciosamente o que deixou o pessoal mais perplexo ainda.
— Qual a graça? — Questionou Safira se aproximando com um refrigerante.
— Piada interna. — Falei de forma doce num sorriso vitorioso me sentando perto do Michael. Ela disfarçou, só que eu notei uma irritação no olhar dela e precisei imediatamente olhar para o Phil que a ignorava e encarava o Michael ainda rindo.
Não gostei daquilo, eu estaria mais tranquila sabendo que os dois fossem do tipo melosos, entretanto até o momento nem os vi ficar um perto do outro.
— A comida está pronta. — Disse sorrindo ignorando o assunto anterior.
— Bem que a sua bonequinha podia ter ajudado a gente, né Michael?! — Assim que ouvi isso sair da boca da Pipper eu congelei. Pisquei diversas vezes sem acredita no que tinha acabado de ouvir... Outro ataque! Eu ia me defender quando ele parou de rir me fitando...
— Perai! Me corrija se eu estiver errada, mas ela veio aqui mais cedo oferecer ajuda. — Rebateu a Joy logo atrás da atacante e ela não teve como retrucar.
— É brincadeira Joy... — Defendeu Safira rindo.
— Brinca direito então. — Ecoou uma voz grave no final da mesa e todo mundo olhou para o Montanha que mantinha um semblante bem nervoso. Um longo silêncio que foi quebrado pelo Michael.
— Vamos brincar direito mais tarde, meu cinturinha de donut favorito! — Brincou suavizando o nervosismo não só do amigo, mas da maioria que começou a rir. — Vou te fazer uma visitinha a noite, viu?! Despista essa daí...! — Usou uma voz afeminada acenando para a Joy. Até eu tive que rir, que amizade mais bizarra.
— Tá legal! Vamos parar com a viadagem? Eu to com fome! — Flint interveio rindo.
E ao colocar a comida em cima da mesa eu tive duas certezas: Primeiro, as amigas do Michael sabiam que eu era vegetariana, pois assim que trouxeram olharam direto para mim sorrateiramente. Segundo, eu estava numa mesa de carnívoros, chega deu um aperto no peito ao ver tanta carne sendo colocada.
Fiz careta rapidamente para o tanto de animal morto em cima da mesa, porém num segundo já nem me importava mais ao lembrar que se o Michael não comesse ele desmaiaria de novo. Me virei no rumo dele para colocar metas na quantidade a se comer, mas parecia um tanto irritado.
Se levantou e saiu no rumo das barracas em passos firmes. E mais uma vez o clima ficou tenso, todo mundo se olhando sem jeito sem saber o que dizer, digo exceto Flint que começou a comer ignorando tudo.
— Aqui Sophie... — Joy colocou um prato perto de mim gentilmente, eu sorri buscando as palavras mais doces do meu vocabulário para não parecer que estava fazendo desfeita a comida.
— Ah... Obrigada... — Estiquei o pescoço para perto dela e sussurrar. — ... Eu sou vegetariana. — Contei baixinho tímida acreditando que assim amenizasse o impacto de estar num jantar só com churrasco, purê de batata, refrigerante e cervejas – que foram trazidas em seguida.
Ela ficou pálida sei lá por que depois que contei, mirou o namorado no final da mesa como se tivesse feito algo MUITO errado e pedisse ajuda dele com os olhos.
Eu continuava boiando nessa tensão toda e para ser mais sincera não estava me importando com eles, e sim como Michael que não voltou. Por isso quando todos começaram a comer e já quase nem notava minha presença eu me levantei para procura-lo.
O encontrei dentro da barraca fazendo a maior bagunça na sua mala bufando.
— O que está procurando? — Se assustou a princípio, mas logo fingiu um sorriso.
— Chaves, eu jurava que tinha colocado na mala. — E o susto passou para mim.
— Vai sair? — Bufou novamente se sentando no colchão.
— Certo, coloque na minha balança mais essa... — Soltou o ar dos pulmões com arrependimento. — ...Eu não lembrei de fazer compras para você, digo, eu pedi, mas acho que não veio. — Explicou coçando a nuca. Confesso que apesar dele parecer triste achei aquilo muito fofo, por isso não pude evitar de rir.
— Ah Michael... — Me ajoelhei frente a ele tocando sua perna. — ...Eu amo você, mas uma das regras sensatas do meu pai é: Quando o assunto é sobrevivência, não confie seu estomago a ninguém. — Franziu o cenho confuso e horrorizado.
— Quê? — Dei uma risadinha engatinhando até minha mochila de suprimentos.
Abri o zíper e mostrei a ele os itens dentro. Várias frutas como maçãs, morangos, kiwi, uvas, peras, laranjas, entre outros tudo embalado a vácuo por espécie. Barras de cerais aos montes espalhados. Vários saquinhos de castanhas, amendoim, avelãs, aveia e nozes.
Claro, nada disso poderia substituir um jantar descente, mas fome eu não passaria.
— Alguém veio preparada para o apocalipse zumbi... — Debochou e eu fechei a mochila.
— Não, eu vim preparada para um acampamento, embora isso aqui está parecendo mais colônia de férias. — Segurou meu queixo e puxou contra si me beijando com ternura – até estranhei. — Vá comer, não tenho interesse em caçar tubarões inconscientes. — Tornou a rir.
— Sabe?! Podíamos...
— Nanico?! — Chamou fora da barraca e a voz era do Montanha. Levantou o tecido da entrada e acenei sorrindo quando olhou para mim. — Não acha melhor me trair depois do jantar? — Eu ri.
— Que relacionamento mais aberto... — Comentei fazendo os dois rirem.
— Eu to indo bolota. — Assim que concordou Montanha saiu. Michael pegou na minha mão me puxando com ele de volta para o quiosque.
[...]
Foi um dia cansativo. Não vou dizer desastroso, pois apesar das tentativas das amigas do Michael me intimidarem – não entendia a razão – todas falharam. Aliás, tudo que conseguiram foram deixar o amigo delas completamente irritado e desanimado.
Tão desanimado que me deu certa pena. Olhei o horário no celular e isso me preocupou mais ainda, não era para ser assim.
— Já vai dormir? — Perguntei perplexa assistindo ele se ajoelhar diante a sua mala e procurar alguma roupa.
— Como assim ‘já vai’? É quase meia noite. — Respondeu num sorriso fraco. Era compreensível que ‘eu’, Sophie se sinta sonolenta, meu relógio biológico começava a me puxar para a cama antes das dez e meia da noite. Mas o Michael? O corpo dele não sabe a diferença de dia e noite, para ele é sempre cedo demais para dormir.
— São onze e quinze da noite e se tratando de você, ainda que fosse meia noite seria cedo. — Se ele tivesse vindo com uma conversinha mansa para o meu rumo e lançado aquelas piadinhas sujas, daí sim seria o Michael que eu conheço. Afinal, sexo era uma boa justificativa que ele usava para ir para cama antes do seu horário padrão.
— Estou cansado, aliás, todo mundo está. — Escolheu uma colocando na ponta do colchão, sentou na beirada de costas para mim e começou a tirar os coturnos. Amarrei meus cabelos num longo suspiro notando que pelo visto minha tentativa de ser agradável não adiantou muito.
— Brigou com seus amigos...? — Perguntei um tanto sem jeito, ele deu uma rápida olhada para mim e continuou fazendo força para tirar o coturno do pé esquerdo.
— Ainda não. — Disse tentando disfarçar uma tensão na voz. Me aproximei um pouco mais notando sua nuca a minha frente.— Está com fome? Eu podia ter feito algo para você comer, mas não quis... — Murmurou contrariado. Eu particularmente só ouvi a pergunta, o resto eu ignorei encantada com os músculos da nuca se movendo sempre que mexia o rosto, a curva que estendia para os ombros, os cabelos recém cortados querendo crescer... Nunca tinha percebido o quanto era atraente. Me aproximei um pouco mais e meus olhos se prenderam naquela veia em seu pescoço pulsando quase me chamando.
Ele continuava falando algo sobre eu não levar a sério qualquer piadinha feita pelos amigos, que pela manhã ia fazer algo que não entendi bem o que era, e se não me engano mencionou sobre um supermercado.
Não ouvi nada.
Naquele momento eu apenas pensava em como fazia dias que não o via e se acaso seria possível ter esquecido de apreciar um área tão vulneravelmente apetitosa. Eu estava sob controle emitindo inúmeros ‘uhum’ fingindo que dava atenção ao que dizia, isso até aquela gota escorrer dos cabelos e chocar lentamente com uma pinta abaixo do início do maxilar.
Eu me perguntaria como nunca havia reparado naquilo, porém sem meu autocontrole, os pensamentos racionais – se é que pode se chamar eles de racionais – se foram e me dirigi num impulso nada coerente com o momento.
Foi uma lenta e proveitosa lambida do início da clavícula até o maxilar bem em cima da minha descoberta recente. Um arrepio agradável percorreu meu corpo enquanto sentia o sabor salino da pele dele. Michael se calou abruptamente – o que é plausível diante o que tinha feito – arregalando os olhos numa surpresa que interpretei como apreciada já que logo um sorriso se delineou em seus lábios.
— Uhhh... Isso é um convite? — Perguntou se estremecendo.
— Pode ser, se não estiver muito cansado... — Engatinhei até ficar atrás dele e enlaçando seu pescoço querendo muito repetir o ato.
— Minha nossa... Trocamos de lugar, foi? — Girou o rosto no meu rumo para me encarar. — Normalmente sou eu que digo isso.
— Se for o caso essa deve ser a hora em que arruma um jeitinho para ver meus seios, então tenho que pensar numa estratégia para convencê-lo a isso. — Ele gargalhou deixando todo aquele desanimo para trás.
— Ok, então eu sendo como você, vou fingir timidez e pedir com um biquinho chantageador para que feche os olhos. — Ele realmente fez um bico com uma carinha de cachorro pidão.
— Eu não fiz isso! Se fiz foi só da primeira vez... — E só de raiva avancei no outro lado do seu pescoço da mesma forma que tinha feito anteriormente.
Momento cientifico: Por que será que prende a respiração quando faço isso?
— Isso seria sua estratégia para me convence a tirar a roupa? Parabéns! Está funcionando... — Sorri apertando o enlaço. Voltei meus lábios para a curva do pescoço iniciava bem abaixo de sua orelha esquerda, o beijei lentamente sentido a textura e o sabor da sua pele. Michael ficou imóvel, mais uma vez prendendo a respiração não sei por que.
— Humm... Isso não é bom, você está me fazendo querer abrir uma exceção... — Sussurrei em seu ouvido. Virou o rosto preguiçosamente no meu rumo.
— De quê? — Questionou.
— Comer carne... — Mordi de leve onde havia depositado o beijo e ele começou a rir para variar.
— Minha nossa... Você é a única pessoa que consegue transformar o canibalismo em algo sexy. — Segurei seu queixo apertando com força e o fazendo olhar para mim.
— Se trocamos de lugar, supostamente você deveria aguentar minhas piadinhas idiotas calado, como eu faço.—Colocou a mão no coração fingindo estar ressentido.
— Que maldade! Minhas piadinhas são para te descontrair e são bem legais. — Puxei meus braços de volta para mim o encarando. — Ah! Eu teria desistido tão fácil!
— E eu não converso tanto! — Ele tornou a rir se virando de frente para mim.
— Animo! Conseguiu uma proeza e tanto essa noite!
— Que proeza? — Ele mordeu o lábio rindo.
— Me deixou excitado com uma lambida e fiquei mais ainda depois de dizer que sou a única carne que tem vontade de comer... Me assustou um pouco, mas eu gostei. — Com ele falando com aquele sorriso debochado era impossível acreditar.
— Boa noite Michael. — Ia me virando para deitar, porém segurou meu braço.
— E o prêmio? — Ergui os ombros confuso.
— Que prêmio?
— Seu prêmio, ora. Depois de uma proeza dessa o mínimo que posso fazer é retribuir. — Provavelmente meu libido tinha sido desligado, pois não entendi o que aquele sorriso malicioso e a frase em si queria dizer.
— Retribuir? Como? — Michael se aproximou mantendo o sorriso lascivo.
— Não sei, como eu posso retribuir o seu agrado? — Falou arrastado. Certo... Meu libido retornou com força.
— Hum... Talvez se você... — Não sei por que me aproximei do seu ouvido para concluir a frase que já era sussurrada quando comecei ela. — ...Fizesse aquilo que fez da última vez. — Pedi com as bochechas ardendo e o coração quase saindo pela boca. Para variar o palhaço deu uma risada.
— Vai ter que ser mais especifica, Sophie... — Disse baixinho com escarnio. Eu ia desistir e virando para cama de novo se ele não tivesse segurado meus ombros. — ...Só diga. — Respirei fundo criando coragem e desviando meu olhar com frequência dos dele.
— O bônus, Michael, como no bônus. — Sorriu malicioso o suficiente para me deixar mais envergonhada ainda.
— Ahhh tá! Você quer que eu te masturbe... — Prendi a respiração nos primeiros segundos em que meu rosto ia se preenchendo com uma tonalidade roxa de vergonha. Eu definiria o ato de muitas maneiras, jamais da forma literal.
— Não! — Revidei quase sem voz. — Não fale assim, faz parece obsceno! — Protestei me afastando cobrindo o rosto e ele gargalhou mais uma vez.
— Uhum! E lamber meu pescoço não é nem um pouco obsceno...? — Fiz um bico enorme sem saber o que responder, mas muito zangada para admitir. Me encolhi na cama abraçando minhas pernas. — ...Agora voltamos ao nossos lugares. — Se aproximou de mim sorrindo todo malicioso com a boca quase encostada no meu ouvido. — Quer o seu prêmio ou não? — Questionou baixinho.
— Consegue oferecer isso sem esse sorriso debochado? — Abriu mais o sorriso.
— Não, acho que não consigo não sorrir para você. — Mordi o canto da boca segurando o meu sorriso.
E ele percebeu que após dito aquilo poderia se jogar em cima de mim como queria.
Um longo beijo se iniciou e não demorou muito para entre os beijos as roupas serem despidas, afinal meu prêmio não viria comigo vestida.
Suas mãos deslizaram por todo meu corpo até chegar ao destino pretendido, eu aproveitei para aprofundar meu conhecimento naquela região do pescoço pouco aproveitada por mim durante o percurso que ele precisava fazer até chegar onde deveria estar – mais queria do que precisava.
Ele ainda prendia a respiração sempre que sentia meus beijos sobre aquela veia pulsando em seu pescoço, e soltava a respiração num deleite que me fazia sorrir. E quando meu prêmio começou a ser pago, infelizmente minha exploração ficou de lado, pois esqueci o que fazia e conseguia apenas pensar no que sentia.
Um avanço e tanto pelo menos ocorreu, lembrei de colocar a mão sobre a boca e não gemer tão alto ao ponto dos amigos do Michael ouvirem – o que foi um erro, queria mais que a ex dele ouvisse tudo!
[...]
Balancei as pernas contente como uma criança, o sono não vinha, a sensação persistia e o som da noite com um vento suave batendo contra a copa da árvore me fazia sentir tão bem. Mas o melhor mesmo foi ver o Michael voltar rindo do banho.
Para quem estava irritado e desanimado a pouco tempo atrás, um sorriso daquele não tinha preço.
— Nossa, eu fui espetacularmente bom dessa vez, não é? Está rindo para o teto da barraca! — Brincou num sorriso. Jogou a toalha e suas roupas num canto e pulou na cama ao meu lado.
— Depois de amanhã é seu aniversário, eu não só vou estar com você como também vou ser a primeira a te felicitar! Isso é o motivo do sorriso para o teto da barraca. Seu bom desempenho anterior é mais responsável pelo meu relaxamento muscular e satisfação física. — Semicerrou os olhos e começou a rir.
— Mentira! Você não quer admitir que está feliz por que eu sou bom. Tudo bem, Sophie?! Não é vergonhoso, a minha mãe abre o maior sorrisão quando meu pai faz as vontades dela. — Dei uma risada.
— Não estou mentindo. Não vou ao seu aniversário desde... Desde os dez anos eu acho... — Me virei subindo em cima dele. — ...Eu me lembro de ficar ansiosa sobre para quem você ia dar o primeiro pedaço do bolo, eu lembro de desejar que só uma vez você não tivesse a obrigação de escolher um dos seus avós em cada aniversário para não parecer que preferia um ao outro e que por sorte talvez desse para mim. — Recordei rindo. Ele deu uma risadinha.
— Eu ainda passo por essa pressão emocional, tenho sempre provar que amo os dois lados do mesmo jeito. Só você e meus avós para se importar com um pedaço de bolo idiota. — O encarei nervosa.
— Não é idiota! É o primeiro, é para quem você mais gosta! Antes da gente brigar eu sempre guardava o primeiro bolo do meu para você. — Ele fez uma careta pensando.
— Aqueles bolos que você me trazia era do seu aniversário? — Afirmei tímida. — Ahhh! Isso explica minhas dores de barriga nos dias seguintes, você me dava bolos com seis meses de validade vencida. — Dei um tapa no peito dele enquanto ria.
— Eram bem conservados, eu guardava no congelador seu ingrato! — Revidei nervosa.
— Meu estomago discorda. — Debochou. E o momento contente se foi, na raiva que senti subi de vez em cima dele e comecei a estapeá-lo ainda que ele ria quanto mais eu batia nele.
— Seu idiota insensível! — Falei entre um tapa e outro. — Eu devia ter colocado laxante, daí você ia ver o que era dor de barriga! — E ao invés de se desculpar ele continuava rindo alto. Desisti de bater nele já que não estava surtindo efeito, fui para o lado tornando a fazer um bico.
Aos poucos eu acabei rindo junto, não por que ele é um babaca insensível, e sim por que ele sorria de algum modo por minha causa. Eu não era um incomodo como no passado e não ia permitir que ninguém estragasse o que tínhamos ali.
As amigas do Michael não ia me intimidar.
[...]
Continua...
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