Especial Inner Beauty
23 Capitulo Vinte e dois - Parte III
Notas iniciais
Dezoito parte III
Naquele segundo dia eu tinha um plano. Um plano que deveria começar as duas da tarde quando eu acordasse, e não as nove e meia da manhã quando o som insuportável daquele carro começou a berrar para todo canto.
Meu plano para o segundo dia já tinha começado mal...
As nove e meia da manhã sendo despertada de maneira tão infeliz só poderia resultar no pior de mim. Acordei mal humorada e sem conseguir se quer pensar no meu mantra pessoal para relaxar. Eu fui de: ‘Vou me controlar’ para ‘Se alguém me chamar de bonequinha de novo vou mandar tomar naquele lugar!’
Levantei ao perceber que não conseguiria dormir mais e fui pisando firme até o banheiro para higiene matinal. No caminho pude notar que boa parte do pessoal já estava de pé tomando café – sendo amigos do Michael não era novidade.
Pensei seriamente em comer algo na barraca para não acabar jogando todo o trabalho com o autocontrole fora assim que qualquer uma das ‘senhoritas’ resolvessem me intimidar. Porém, eu já tinha sido vista e acabei ficando sem graça de dizer que preferia tomar café longe daquele pessoal que parecia não fazer outra coisa senão rir.
— Dia... — Michael me cumprimentou com um beijo na testa assim que sentei ao lado dele. Encheu uma caneca de café para mim e aproximou alguns alimentos.
— Obrigada... — Falei baixinho num suspiro.
— Own...! Só faltou colocar na boquinha. — Debochou Piper. Era POR ISSO que eu queria tomar café na barraca.
— Ah! Desculpa, boca de quem? — Revidou o Michael no mesmo tom. — Por que se não for a sua a gente encerra o assunto! — Quase soltei um: ‘GOSTOU ou quer mais?’ em alta voz. No geral o pessoal levou o timbre dele como brincadeira – sei lá como ele consegue dar má resposta sem parecer um grosso aos olhos dos outros.
— Alguém está ficando ranzinza só por que está ficando mais velho. — Disse a Safira rindo.
— Exigente, minha filha, a palavra é exigente. Com o tempo a gente refina os gostos. — Respondeu ele empinando o nariz fingindo um ar esnobe.
— ‘Refina os gostos’? — Repetiu Piper, ela devia mesmo me odiar por que olhou diretamente para mim num sorriso sarcástico. E meu senso de humor lá embaixo, não era um bom momento para ela ficar me zoando.
— Piper... — Leah chamou a atenção dela num sorriso sem graça. A outra girou os olhos com desdém.
— Então... — Safira interveio tentando amenizar mais ou menos o clima. — ...Trouxeram a bebida? — Mudou de assunto se voltando para o Michael e o Montanha.
— Para quê? Tem no freezer. — Respondeu o grandão.
— Qual é?! Só o galo detonou a metade ontem! Achei que tivessem ido no mercado hoje de manhã para isso.— Retrucou a ex do Michael.
— Hey! Não vem querer jogar a culpa toda em mim não, porque as três bonitas beberam também! — Flint se defendeu irritado.
— A questão não é quem bebeu, é se compraram mais por que não vai dar para todo mundo. — Justificou Leah alternando o olhar para ele e para o Montanha.
— Se essa é a questão, melhor vocês irem na cidade, por que a gente não comprou. — Pelo pouco que conheci o Montanha eu percebi que ele pode ser resumido em uma palavra: Prático.
— O que vocês compraram então? — Piper perguntou meio revoltada. Montanha lançou um olhar bem seco para ela revidando no mesmo tempo:
— Por quê? Quer a nota fiscal agora? — Eu não aguentei, estava colocando o café na boca quando o riso involuntário veio e me fez quase cuspir o que tinha engolido. Limpei a boca na blusa tentando ao máximo não rir enquanto todo mundo me encarava como se eu tivesse rindo do holocausto.
— Desculpa... — Pedi baixinho. Continuei fingindo que nem prestava atenção a conversa deles e felizmente eles deram seguimento a discussão sobre a falta de cerveja no estoque – que pessoazinhas beberronas.
— Não quero nota fiscal Montanha, só acho que vocês deveriam ter usado a cabeça e feito uma lista do que estava faltando antes de irem no mercado. Economizaria as viagens. — Explicou Piper séria.
— Eu fiz uma lista Piper. — Joy entrou na conversa. — Coloquei as bebidas, mas o Michael não quis comprar.—Ao meu lado Michael chega encrespou quando o nome dele surgiu na discussão.
— Perae! Também não é assim: ‘O Michael não quis comprar’. O que eu me recusei foi a pagar! Primeiro: Eu não tou bebendo! Segundo: Quem comprou as que tinham aí fui eu, deixem de ser ingratos! E Terceiro: Eu avisei o Montanha que se fosse levar ia ser por conta dele, ele disse não, então não trouxemos e ponto. — Michael apontou o dedo para a cara da Joy. — Joga batata quente no meu colo de novo e você não vê o Montanha por uma semana! — Não sei dizer se a ameaça era séria ou aquilo era piada. Pareceu verídico.
— O que eu quis dizer, foi que não foi por falta de aviso. — Replicou Joy rindo – não sei o motivo, o pessoal daqui ri por tudo.
— E eu não comprei por que vi que tinha. — Encerrou o Montanha não estando nem aí com a questão da bebida.
— Tem pouco Montanha, não vai dar nem para hoje. — Tentou argumentar Safira que também recebeu um olhar seco do grandão.
— Então vai lá e compra criatura. — Felizmente dessa vez eu segurei o liquido na boca junto com o riso.
— Se vocês tivessem me avisado que iam cedo, eu teria me disposto ido junto, ok?! — E então se ouve um riso no fim da mesa, um riso que não é de alguém que achou engraçado, é de alguém com notável deboche e desprezo.
— Claro Montanha, devia ter avisado. Assim ela teria ido e convencido o Michael a pagar. — E essa foi a primeira vez que ouvi de fato a voz do Phil, e não foi num timbre agradável. Pelo visto eu não era a única de mal humor ali. — A nobreza em pessoa, certo?! — E o clima ficou toneladas mais pesado do que o assunto da cerveja. Safira estava visivelmente perplexa com o que o namorado disse e a turma não sabia como relevar a situação.
E durante uns bons minutos ninguém teve qualquer ideia de como quebrar o silêncio colossal na mesa, cada um com uma expressão mais sem graça que a outra.
— Ahm... Michael... — Joy foi quem deu fim ao silêncio. — ...Eu, você e o Montanha na cozinha, pode ser?! —Ele pigarreou acenando.
— Ménage a trois?! To dentro! — Respondeu malicioso. Abri boca horrorizada já negando. Conhecia o significado daquilo e só de imaginar me deu arrepio.
— Ne pas rever! — Ele se virou no meu rumo surpreso e confuso. Mas logo sorriu com malicia.
— Claro que pode ver, mas só ver! — Dei um tapa no ombro dele rindo.
— Idiota.
E eu realmente o segui para a cozinha com o intuito de ajudar no almoço. Não diria que conhecia tudo de culinária, só que eu sabia uma coisinha ou outra que não me deixava virar um estorvo ali.
Com nós quatro na cozinha não demorou muito para tudo ficar encaminhado esperando só o tempo da comida ficar no ponto. Flint aparecia toda hora para beliscar alguma coisa. Querendo fugir do clima pesado que se instalou na mesa Safira vinha com frequência perguntar se precisavam de ajuda. O olhar desesperado dela gritava por um ‘sim’ que não foi dito – tecnicamente ficaria difícil, a cozinha era pequena e mal cabia nós quatro.
Para não atrapalhar a Joy na pia, comecei a fazer o suco de laranja no balcão e era impossível não olhar para os amigos do Michael completamente sem ação no centro do quiosque. Nem as meninas conversavam direito.
— O que você fez? — Perguntei quando Michael escorou no balcão analisando a mesma cena que eu.
— Eu? Por que ‘eu’? — Semicerrei os olhos como se a resposta fosse óbvia. — Isso não é culpa minha. — Apontou discretamente para a turma sentada.
— Vou chutar que você presenteou alguém que não deveria. — Palpitei desconfiada e ele riu.
— Que chute é esse? Da onde tirou isso?
— Phil parecia chateado com o fato de você comprar algo se a Safira pedir, então eu imagino que você deu algo que ela queria e ele ficou zangado. — Michael me voltou uma careta confusa.
— Não viaja! Ele não está chateado comigo, aliás, eu não tenho nada a ver com a briga deles. — Peguei um copo colocando um pouco de suco e experimentando enquanto tentava comprar aquela história.
— Eles não estão juntos, estão? — Perguntei de supetão. Parecia tão explicito, mas o Michael teve a cara de pau de mexer os ombros e fingir que não sabia.
— Como eu vou...
— Michael! Não ouse mentir para mim, não te conheci ontem. — Encolheu os ombros suspirando.
— Ok! Não estão. Mas eu achei que se você soubesse fosse ficar com um pé atrás. — Tive que dar a volta no balcão até ficar de frente para ele, pois falava em um tom baixo.
— Argh! Vai ficar me escondendo as coisas agora só por que acha que não vou agir do jeito que você quer? — Mexeu os ombros.
— Fala baixo. — Me puxou para mais perto sussurrando. — Para evitar que você se sinta desconfortável? Sim, eu vou. — Abri a boca nervosa.
— Ah! Por que você escondendo me faz sentir ótima, não é? — Revidei com sarcasmo baixinho.
— Aparentemente até você descobrir, sim, me parecia ótima. — Cruzei os braços. — Sophie essa briga não é nossa, isso não tem a ver comigo e está claro que você está procurando um jeito de me colocar nela, então vamos encerrar esse assunto aqui!
— Vamos não! Você devia ter dito...
— Não, não e não! Esse assunto se quer é nosso, então eu não tenho por que esclarecer que...
— Que a sua ex quer você de volta e juntou mais duas para me intimidar? — Atropelei sua frase.
— Isso daí já é paranoia! A questão delas com você é por que você é diferente. — Juntei minhas mãos perto do seu rosto como se fossem garras de tanta raiva.
— Diferente?! Diferente! Eu sou diferente para você, agora eu sou diferente para elas, e nem sei o que ‘diferente’ quer dizer?! — Ele suspirou. — Você vai me explicar ou está me preservando mais uma vez?
— Sophie não é mesma coisa! É que... — Ele moveu as mãos na horizontal procurando palavras. Foi quando vi minha chance. Joy estava no balcão e ela resolveria esse dilema.
— Ah! Joy! — Andei até ela e Michael me seguiu negando.
— Sophie perai, não é assim! — Me virei para ele nervosa.
— Você não sabe explicar, talvez ela saiba! — Meio confusa ela me encarou. — Eu sou diferente em quê? Por que o Michael me diz que eu sou diferente, mas não o mesmo diferente pelo qual as pessoas implicam comigo!
— Diferente? Diferente como? — Suspirei, nem ela sabia.
— A gente não devia levar nossas brigas para fora, sabia? — Falou apontando para ela.
— Não estou levando brigas, estou tentando entender os múltiplos significados de ser diferente. — Isso o deixou irritado – mais irritado.
— Eu não disse que você é diferente, como algo exótico, embora seja um pouco, eu falei diferente de significado! — Me virei para Joy desesperada.
— Por favor, me diz que você entendeu?! —Ela negou fazendo careta.
— Você é diferente por que ficaria sempre com o primeiro pedaço do bolo, é isso que quero dizer. — O olhei incrédula.
— Nunca me deu o primeiro pedaço do seu bolo, nem no seu aniversário de doze anos que eu implorei para os meus pais te darem um vídeo game caríssimo! — Ergueu os braços.
— Ah! Isso já é tópico para outra briga! Vamos voltar a coisa do ‘diferente’.
— Doze anos? Você conhece o Michael desde que ele tinha doze anos? — Joy se intrometeu no meio curiosa.
— Não, eu o conheço desde que nasci! — O sorriso dela morreu para uma cara de espanto.
— O quê? Como assim? Você nunca contou para gente que ela era sua amiga de infância! Vocês eram vizinhos? — Fiz careta e encarei o Michael.
— Eles não sabem? — Ele entendeu o resto da pergunta no meu olhar.
— Não, ou esqueceu que foi graças a eles que a minha mãe encontrou a gente em Santa Mônica? — Eu tive que dar razão.
— Que isso Michael? A gente não disse nada, nem sabíamos! Foi a Safira que abriu o bico sobre a coisa do chalé! —Revidou Joy.
— De novo isso?! Eu já falei que foi um acidente, eu não sabia que não devia falar daquilo! — Levei um susto quando a garota dos olhos azuis apareceu atrás da gente.
— Eu digo: “Se a minha mãe procurar vocês, não digam nada” e isso não é informação suficiente para saber que não devia falar nada? — Questionou nervoso retoricamente.
— Michael, escapuliu, eu não sabia que você estava em Santa Mônica com uma garota que sua mãe não aprovava! — Ah! Eu não aguentei ouvir isso.
— Hey! A madrinha me aprova 100%, ela não aprova o Michael que é mulherengo! — Nisso ele me fitou irritado.
— Eu não sou mulherengo! — E nós três o encaramos com desdém. — Não mais, ok?! Tem um bom tempo, aliás! Todo mundo tem que parar de dizer isso.
— Esperai?! Madrinha? Então é por isso que a sua mãe estava uma fera com você Michael?! — Disse Joy rindo. — Você não perdoou nem a afilhada dela! — Eu não entendi a coisa do ‘perdoou’, mas pelo visto o Michael sim e não parecia nem um pouco contente.
— Não, não senhora! A Sophie é diferente, não foi desse jeito que você está colocando! — Joy tornou a rir.
— Ah! Você não convenceu a afilhada da sua mãe a ir com você para Santa Mônica? — Questionou com deboche.
— Não, ele nem me contou para onde íamos. — Respondi tentando ainda entender o contexto do ‘perdoou’ com toda aquela conversa.
— Oh honey, eu estou dizendo que ele levou você na conversinha mansa de sempre, só adicionou um lugar romântico mais caro que o habitual. — Franzi o cenho diante aquilo. Como ela ousa?
— Conversinha mansa? — Mirei Michael que estava evidentemente nervoso. — Deu maior trabalho te convencer a fazer algo, por que todo mundo acha que é você quem faz tudo nessa história? — Me virei para a Joy séria. — Primeiro: Ele não usou conversa mansa comigo, na verdade, ele nunca usou conversa mansa comigo. Sempre que a gente ‘tentava’ conversa eu acabava querendo matar ele no final da conversa. — Isso fez ela abrir a boca surpresa. — E segundo: Santa Mônica lugar romântico? Honey, ele desmaiou e quando acordou me largou sozinha na primeira noite por mais de uma hora para ir beber licor. No segundo dia eu levei um banho de molho de frango, fomos parar na delegacia por que ele saiu na porrada com outra pessoa e ainda passou praticamente o resto da noite rindo disso! De mim, sem a menor sensibilidade! — Me aproximei do balcão e dela. — Então não se atreva diminuir meus esforços! — E o cretino do Michael começou a rir.
— Conta essa história direito! Por que a gente foi para delegacia, mas não foi por minha causa! Alguém andou ameaçando pôr os órgãos internos de outro alguém na Deep Web e essa pessoa não fui eu! — Contou entre risos. Semicerrei os olhos o fitando.
— Isso é conversa mansa para você? — Perguntei nervosa me voltando para Joy que parecia perplexa.
— Ahmm... Primeiro: Largou a garota sozinha na primeira noite? — Michael se virou para amiga quase eufórico.
— Eram seis da tarde e a maluca queria dormir e não foi para fazer ‘coisinhas’, mas dormir realmente! Como? Me diz como que alguém dorme seis horas da tarde?
— Não distorça!!! Você desmaiou e o médico falou para dormir até o dia seguinte, eu não ia sair para você acabar desmaiando de novo! — Ele se virou para mim.
— Eu não ia desmaiar, você me fez comer quinze quilos de carnes de uma única vez! — Cruzei os braços.
— Achei que você fosse vegetariana?! — Questionou Joy.
— Eu sou. Quem comeu foi ele!
— Mas deu carne para ele comer?
— Eu não tive escolha, ele só come carne! — Expliquei como se fosse obvio. Ela pareceu desistir dessa questão e pulou para outra.
— Certo!? E no segundo dia vocês foram presos? — Perguntou ela.
— Michael procurou briga para variar! — Falei.
— Pode parar por aí, eu briguei, é verdade, mas a gente foi para delegacia por que você falou que ia arrancar os órgãos do cara, vender na deep web e cotar os testículos dele num praça! — A amiga dele me fitou horrorizada.
— Você disse isso?
— Disse, mas ele mereceu... E se um dia eu encontrar ele... — Apertei a minha mão com ódio.
— Então Santa Mônica foi um desastre?! — Dessa vez quem perguntou foi a Safira, o que me surpreendeu.
— Bom, se eu for levar em conta todos os desastres que acontecem quando eu estou com o Michael, até que não. — Respondi honestamente.
— Que papo é esse? Que tanto de desastres são esses que eu não lembro? — O fitei perplexa. Ele estava falando sério?
— Já me fez passar o ano novo numa delegacia, você espancou meu namorado no dia do baile e ainda me dedurou para o meu pai, também tem seu envolvi...
— Ok, ok, okay! Alguns episódios infortúnios aconteceram no decorrer do nosso relacionamento. Admito. Mas tivemos momentos bons também! — Falou passando o braço envolta do meu ombro.
— Cite dois em que você não fez por sentir culpa. — Brinquei o tentando e ele riu.
— Ah! Tem vários! Tipo aquela vez que... — Engoliu em seco pensando. Depois de um longo silêncio percebeu que um bocado de gente olhava para ele esperando a resposta e não somente eu. — ...Aquela vez que te levei para acampar no meu aniversário e você ficou finalmente com o primeiro pedaço do bolo! — O que fazer senão rir?
— Achei que não ia ter bolo?! — Disse Joy confusa.
— Ahhh vai! Vai ter bolo, nem que eu mesmo tenha que fazer um! — Brincou e só me restou rir sem acreditar muito.
Para nossa sorte, enquanto aquele papo todo rolava o Montanha tinha ficado de olho nas panelas – ou provavelmente não teríamos almoço.
[...]
O segundo dia no acampamento tinha tudo para dar errado, afinal havia começado de maneira errada. Ainda assim, quase acreditei que por conta daquela pequena interação antes do almoço fosse transformar o relacionamento entre mim e os amigos do Michael.
Mas logo após o almoço, uma ‘brincadeirinha’ mostrou que minha ‘quase crença’ estava errada.
Lá estava a pequena Sophie ajudando inocentemente na limpeza da louça junto com a Joy – que era a mais amigável. Ela me contava inúmeras coisas sobre si, como o fato de querer ser estilista e como conheceu o Montanha sendo que eles não tem muito em comum – aparentemente o Montanha defendeu ela do antigo namorado violento, o que eu achei bem curioso, já que ele tem porte para ser violento.
E então, praticamente caindo do céu aquela pequena criaturinha esverdeada saltou em cima da pia entre a Joy e eu. Nesse curto período em que a moça do meu lado se preparava para fazer um escândalo e eu estava encantada com o fato de um Hilídeo ter aparecido assim do nada, deu para ouvir uma comoção abafada de risos vindo do outro lado da parede, mais precisamente da venda entre a parede e o telhado.
O primeiro impulso que Joy teve foi obviamente soltar um berro suficiente para me deixar sem audição em um dos ouvidos por um período indeterminado. Felizmente para pequena perereca, o meu primeiro impulso foi levar minhas mãos até ela e impedir que ela dessa outro salto.
Com o grito da Joy as risadas se explodiram atrás do quiosque e eu apenas ignorei tentando não machucar meu novo bichinho de estimação evitando fechar a mão com força e procurando um lugar onde colocá-lo.
Claro, os rapazes que estavam sentados tranquilos conversando ao redor da mesa vieram as pressas com a Joy dando tremelique de medo e ficando o mais longe possível de mim depois que eu peguei o anfíbio.
— O que aconteceu??!! — Perguntou o namorado dela preocupado e ela correu até ele se agarrando em seu braço quase chorando – Santo exagero!
— Um bicho nojento amor! Ahhh! Joga isso fora! — Falou apontando para mim. Nisso todos os rapazes me encararam – sim, rapazes, as amigas do Michael não estava ali e o Flint também não.
— É um hilídeo comum... — Contei. — ...Não vai fazer mal a ninguém. — E foi quando o resto do pessoal saiu de trás do quiosque e tentaram fingir que não eram os responsáveis – eles mal conseguiam segurar o riso.
— Nossa, que grito foi esse? — Questionou Flint se fazendo muito mal de desentendido e as outras meninas atrás dele com a mão na boca.
— Ahhh! Foi você, né?! Seu filho da puta! Não teve graça Flint! — Joy avançou nele nervosa.
— Eu o quê? — Perguntou tentando não rir.
— Você jogou aquela coisa na gente... — Nesse momento o Michael se aproximou de mim com os olhos fixos na minha mão. Eu puxei minha mão para fora da vista dele negando.
— Não, não vou jogar fora, é meu! Vai ser a irmã do Mike! — Meu namorado começou a rir. E enquanto isso Joy queria matar o Flint e o Montanha não estava lá muito feliz com a brincadeira. E de repente uma das meninas soltam sem querer:
— Joy, a intenção era assustar a bonequinha não você! — Eu não estava olhando ou prestando atenção, por isso não faço ideia de quem disse aquilo, já que um bocado de gente falava ao mesmo tempo e eu não sabia em quem focar meus ouvidos. Mas ao entender aquela frase me virei para eles.
— Ahhh é?! — Disse bem séria. — Queriam me assustar? — E a Safira riu sem jeito.
— Foi só uma brincadeirinha bonequinha! — Um sorriso enorme brotou no meu rosto – nem um pouco inocente.
— Ótimo, então é minha vez! — E joguei a irmã do Mike bem no rumo das três.
E houve gritos e berros e uma histeria totalmente desnecessária. Eu me senti mal pelo animal, mas assistir aquelas meninas se contorcendo foi uma sensação incrível. E dessa vez quem riu foi o pessoal atrás de mim, inclusive até o Flint começou a rir das amigas o que me fez perceber algo... A questão do Flint é ser engraçado, não interessa de qual lado ele vai estar para causar isso.
Quando o desespero acabou, evidentemente uma delas veio para cima de mim – Piper, claro – e pronta para partir para agressão. E antes que Michael interferisse eu dei um passo à frente encarando ela friamente.
— Se encostar essa mão em mim, vai acordar amanhã com uma cobra entalada na garganta. — Assim como funcionou com a Miss Mine, essa frase também teve sucesso com a Piper. E depois que eu disse aquilo o silêncio pairou. Parecia que ninguém ousava se quer respirar, e o olhar de espanto estava na face de todos, exceto Michael que agora segurava o riso.
— Eu obedeceria, o pai dela cria quatro cobras em casa... — Quebrou o silêncio cotando o fato entre risos. — ...Bom, acho que todo mundo brincou hoje, né?! — Ele segurou meu pulso e ia me puxando para a cozinha novamente. — Vamos lavar a mãozinha de sapo? — O fitei indignada.
— Fique sabendo que os anfíbios são criaturas bem higiênicas, até mais que os humanos. — Ele fez careta de nojo.
— Eu te adoro, mas você tem cada gosto duvidoso... — Semicerrei os olhos fixos nele.
— É... Tenho mesmo né?! — Pelo sorriso debochado dele, entendeu o que eu queria dizer.
[...]
Eu sabia que o segundo dia deveria terminar nisso, seria o apropriado deixar essa história da brincadeira de lado. Porém, quanto mais o dia ia passando mais a lembrança daquelas risadas me incomodavam, e isso chegou ao ponto de me fazer colocar na cabeça de que se não fizesse nada, outras brincadeiras viriam.
No meio da tarde, o grupo de amigos decidiram que são alcoólatras demais para esperar um outro dia para tomar cerveja – claro jogaram a culpa no aniversário do Michael que não podia fazer sem algumas bebidas. Então fizeram uma vaquinha – que a Piper achou que eu tinha obrigação de participar e o meu namorado deu uma dura nela na frente de todo mundo deixando ela com mais ódio de mim – e foram cinco pessoas em um carro, as três meninas que não gostavam de mim, o Peter e o Michael.
Joy e o Montanha disseram que iam tirar um ‘cochilo’ no meio da tarde – definitivamente chegados do Michael. Phil continuava olhando para o tempo e espaço pensando em Deus sabe o quê, mas não eram coisas felizes, e logo ele também sumiu dizendo que ia se deitar um pouco. E o Flint que ficou de bobeira procurando o que comer o tempo todo – incrível como todos os amigos do Michael tem certa semelhança com ele.
E então... A ideia surgiu.
— Você é um amador... — Abordei o rapaz que roubava bolo da cozinha. — ...Assustar duas garotas com um anfíbio? Essa é a brincadeira mais infantil que já vi! Você tem o quê? Dez anos? — Numa mistura de perplexidade e confusão ele fez a exata pergunta que achei que faria.
— E você conhece uma melhor por acaso bonequinha? — Perguntou com certo deboche e eu abri um sorriso com desdém.
— Conheço uma muito melhor...! — Mais uma vez ele ficou confuso e dessa vez um pouco assustado.
[...]
Saí por entre a mata um tanto quanto suada e com os olhos fixos na enorme mancha vermelha na minha blusa. Aquilo não estava bem nos meus planos, mas como o segundo dia se tornou aquele cujo os planos não se seguem à risca, o jeito foi continuar.
O pessoal que tinha ido na cidade estavam todos no quiosque e aqueles que alegaram ir dormir também. Assim que Michael colocou os olhos em mim, correu ao meu encontro antes que eu entrasse de fato no estabelecimento.
— Sophie! Onde você estava? Te procurei por toda parte! — Perguntou em certo tom de desespero e irritação.
— Eu...
— Que isso? — Me cortou antes que respondesse apontando para justamente a enorme mancha vermelha na minha blusa. Entrei junto com ele no quiosque e num longo suspiro enojado revidei:
— Argh! — Remexi ela com náuseas. — É sangue, pegou em mim sem querer. — Frisei bem a palavra ‘sangue’ para que todos ali ouvisse, e claro, todo mundo ouviu e me fitaram assustados. Notei que uma das meninas, Leah, olhava para os lados com insistência e bem preocupada. De repente se levantou com a mão no peito.
— Sangue de quê? — E antes que eu abrisse a boca para explicar a origem, Leah já se pronunciava apavorada.
— Gente, cadê o Flint? — O resto das meninas repetiram a ação dela olhando para o lado preocupadas. Lancei um sorriso divertido para elas e respondi:
— Bom, da última vez que o vi... — Mais uma vez fui interrompida, no entanto, agora por um grito de desespero e dor vindo de dentro da mata, curiosamente justamente da onde eu tinha saído – e eles perceberam. – Dei uma pequena risadinha mexendo os ombros. — ...Ele não gostou muito da ‘brincadeirinha’ que eu fiz.
E novamente o grito ecoou junto a um pedido de “Socorro” que deixou muitos ali me encarando apavorados, isso inclui o próprio Montanha e a Joy. Mas um deles puxou a deixa para sair correndo no rumo da onde vinha o pedido de ajuda, eu me segurava para não estragar a brincadeira.
Achei que todo mundo tinha ido e comecei a andar sem muita pressa de chegar no local e me deparei com o Michael andando do meu lado.
— Primeiro, isso não é sangue fresco e tenho 99% de certeza que nem é humano. — Comentou e mexi os ombros.
— Você é hematologista agora? — Ele riu.
— Segundo... — E antes que ele concluísse seus pontos lógicos uma sequência de gritos femininos soaram por todos os cantos – o suficiente para espantar um monte de pássaros. Ahhh eu tinha que ver aquela cena, por isso larguei o Michael para trás e fui correndo até onde Flint estava.
Numa árvore grande que tomava bastante espaço por conta da sua copa, Flint estava amarrado totalmente a ela. Com um corte sangrento no meio do estomago, sangue escorrendo pela boca e ouvidos, fora os inúmeros hematomas distribuídos pelo corpo.
Ele respirava com dificuldade e antes que alguém se aproximasse cuspiu um punhado de ‘sangue’, o que fez as meninas aumentarem o choro.
— ...Me-me ajuda... — Pediu em um tom dramático e tive que colocar a mão na boca para não rir. E não é que a Safira foi mesmo tentar ajudar ele junto com o ex namorado?! Mas quando foram tentar desamarrar a corda, Flint deu o grito final. — ...AHHHHHHHHHHHHHHHH! — Berrou fazendo os dois caírem de bunda assustados e as garotas que olhavam se unirem a ele gritando também desesperadas.
Durante uns bons minutos todos os olhos se concentravam no pobre rapaz cabisbaixo amarrado a árvore, Phil perdeu o medo e levantou a camisa do amigo que mostrou a farsa do ferimento, um bife com um corte horizontal e bem lambuzado de algum liquido vermelho que definitivamente não era sangue.
— Nossa Flint, muito engraçado! — Falou com ironias se levantando super nervoso. E Flint ergueu a cabeça e começou a rir. Ok, nesse instante eu comecei a rir também.
— Você não está machucado? — Questionou Safira indignada. Ele responderia se conseguisse parar de rir, então apenas negou com a cabeça.
Um monte de pessoas começaram a falar ao mesmo tempo, a maioria nervosa e chocada com o fato da brincadeira ter passado todos os limites. É, eu admito que exagerei na maquiagem nele, ficou muito boa e não critico ninguém por acreditar nas feridas.
E claro, os homens não aguentaram só argumentar o quão idiota era a brincadeira, iam partir para cima do Flint se ele continuasse só rindo da cara de todo mundo.
— Aí, a ideia foi da namorada do Michael! — E todo mundo me encarou e eu sorri largo.
— Você ficou maluca garota? Quase mata a gente do coração! — Safira se colocou na frente brigando comigo.
— Foi só uma brincadeirinha, bonequinha! — Usei exatamente o mesmo timbre que ela tinha usado comigo antes. E o silêncio pairou, ninguém tinha mais o que dizer.
— Michael! Você não vai falar nada para essa daí? — Piper quebrou o silêncio indignada.
— Não, até que foi engraçado... — Comentou rindo. E lancei um sorriso bem satisfeita para ela.
— Engraçado? — Flint se levantou tirando algumas das carnes de dentro da camisa. — FOI HILÁRIO! Meu Deus, eu nunca teria pensado numa ideia tão macabra! Imagina a mente dessa garota no Halloween?! Sua namorada é um gênio! — Se aproximou de nós com um sorriso largo. — No dia que ele enjoar de você e te largar, ruivinha, me procura...! Eu e você daríamos uma... — E antes de completar a fala Michael já tinha socado ele. O coitado foi direto ao chão.
— Devia ter parado em ‘sua namorada é um gênio...’. — Comentou Michael nervoso. Passou o braço envolta do meu ombro e me puxou a caminho do quiosque.
Sei disso... Sei disso... Fui de rejeitada do grupo a odiada – exceto pelo Flint que curiosamente ficou bem amigável comigo – mas eu não me importava.
[...]
Tudo se acalmou ao anoitecer, o pessoal – algumas garotas – ainda continuava nervosos por conta da brincadeira, mas nada que uma rodada de cerveja não resolvesse o estresse deles. Foi só servir o jantar e eles começarem a beber e o humor da maioria mudou para outro – chegou a ser espantoso.
E tive realmente a impressão que pelo menos a noite daquele segundo dia ia ser como eu havia planejado, afinal era algo que estando perto do Michael não mudava.
— Faltam duas horas e meia para o seu aniversário! — Comentei puxando o pulso dele e mostrando em seu relógio. Estávamos distantes dos demais, sentados na mureta na ponta do quiosque. — E dessa vez serei a primeira a te cumprimentar! — Apesar de infantil, eu estava realmente empolgada com essa ideia. E para variar ele riu.
— Que obsessão com meu aniversário, Sophie! Isso é o de menos! — Dei um leve tapa no seu ombro.
— Não para mim. É o primeiro aniversário seu que passamos juntos de verdade e nem sei se vou estar com você nos outros, quero que tenha uma boa lembrança de mim. — E ele me encarou horrorizados.
— Credo! Do jeito que falou parece mais que você vai morrer do que a gente não estar junto... — Deu um tremelique fazendo careta. — ...No meu próximo aniversário eu juro que vou jogar essa desconfiança toda na sua cara, e vai ter que dizer: ‘Desculpa Michael, eu estava enganada’. — Me levantei ficando atrás dele e passei minhas mãos pelos seus ombros deslizando até entrelaçar suas mãos.
— Se ainda estivermos juntos no seu próximo aniversário eu direi isso com muito prazer. — E um beijo profundo aconteceu.
Pensei que depois de três a cincos beijos já daria para inventarmos uma desculpa e ir para barraca. Só que não tinha me dado conta que o segundo dia tinha sido destinado aos planos frustrados e bem propicio as tragédias.
— AHHHH! CARALHO! — Ainda estávamos justamente no segundo beijo quando um grito vindo da cozinha nos interrompeu. Era a voz do Phil. — MERDA! MERDA! — Phil correu mancando em disparada para o mais distante da cozinha possível totalmente apavorado.
— O que aconteceu???! — Perguntou sei lá quem por que todos questionaram algo similar ao mesmo tempo.
— ME PICOU! — Gritou assustado. — ALGUMA COISA ME PICOU! CARALHO, TÁ DOENDO! — Ele sentou desesperado numa cadeira, levantou a barra da calça e tirou a sandália do pé esquerdo. Nesse momento me aproximei para tentar entender, imaginando que podia ser uma brincadeira.
De relance dei uma olhada nos dois furos que sangravam, e sem pensar duas vezes caminhei até a cozinha dando de cara com a responsável por acabar com os meus planos da noite do segundo dia.
Nunca pensei que detestaria tanto uma serpente quanto odiei aquela naquele momento.
Ótimo, agora até a natureza está contra mim.
Continua...
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