Especial Inner Beauty
21 Capitulo Vinte - Dezoito Parte I
Notas iniciais
Dezoito Parte I
Ainda que muitos esperem pela chegada da maioridade com ansiedade, quando completei dezoito anos nada essencialmente mudou. Meus pais não começaram a me tratar diferente, as pessoas que conheciam não me olhavam de forma mais ‘adulta’ e nem mesmo eu me sentia distinta só por causa da idade.
Algumas coisas de fato mudaram, mas certamente não tinha nada a ver com a minha idade. Papai sentou comigo e tivemos uma longa conversa sobre a universidade, ele queria que eu esperasse um pouco até iniciar o curso – na esperança que eu desistisse de pedagogia. Até então eu deveria fazer uns testes vocacionais, conhecer vários outros cursos da faculdade e de acordo com as suas palavras: Me descobrir.
A princípio eu recusei, só que a ideia não era tão ruim, frequentar várias aulas do meu interesse na universidade e analisando cautelosamente o que eu queria fazer para o resto da vida me pareceu razoável.
E claro, naquele ano outra mudança aconteceu que também não era devido à idade, minha fixação com o meu celular. Para quem antes só o usava em emergências ou falar com a Claritta, meu interesse intenso no conteúdo do meu celular começou a chamar atenção.
— Com quem você tanto fala? — Perguntou minha mãe ao me ver não parar de digitar durante o café da manhã. Fiquei em dúvida no que responder, eu não gosto de mentir, mas também não queria confessar que fico até as duas da manhã conversando com o Michael sobre nada.
— Ninguém em particular. — Deixei o celular de lado respirando fundo com o olhar desconfiado do papai sobre mim.
— Estava pensando que você poderia escolher outro idioma e fazer um curso durante esse tempo. — Disse ele mais tranquilo.
— Artesanato reciclável. — Me fez uma careta.
— Não tem algo mais útil que isso Sophie? — Resmungou. — Você não tem que ser 100% ecologicamente correta.
— Não é só por isso, é que para reciclar o custo de material é menor e dá para ensinar para crianças carentes.— Ele jogou a cabeça para trás.
— Eu pago esse se fizer OUTRO curso que não envolva salvar o planeta dos ‘seres humanos’. — Retrucou com muito sarcasmo. Dei uma risada maneando a cabeça.
— Você riu? — Questionou minha mãe perplexa. — Seu pai acaba de brincar com sua ‘ideologia’ e você riu?
— É, eu até arrepiei de medo aqui... Está pensando em assassinar a gente enquanto estivermos dormindo? — Meu pai também ficou pasmo.
— O quê? Não! Que horror pai! Eu ri por que o senhor brincou...
— É! Como eu faço sempre e você fica uma fera me dando lição de moral sobre o planeta estar morrendo. — Debateu. — Você está feliz demais ultimamente, pode parar! Está assustando sua mãe e eu! — Brincou e eu tive que rir. — Meu Deus, é o apocalipse! Ela riu de novo do meu sarcasmo...
— Para com isso Oliver! Deixa a menina! — Brigou minha mãe sem estar séria. Ainda rindo peguei meu celular colocando dentro da bolsa.
— Eu vou indo me encontrar com a Claritta que ganho mais. — Comentei me levantando e seguindo para a saída.
— Ao contrário, meu anjo, encontrando aquela lá você perde neurônios e pudor ao mesmo tempo. — Debochou meu pai e tive que rir de novo o que o deixou mais apavorado. — PARA de rir! Tá me dando medo menina!
Faziam três meses e meio desde que voltei. Essa coisa de mensagem aplacou um pouco a saudade, mas não era tão eficiente quanto parecia. Ainda queria vê-lo e era vergonhoso admitir, só que queria principalmente tocá-lo. Não era mais tão incomum eu sonhar com aquelas noites que passamos juntos ou com noites que não aconteceram e eu queria muito que tivessem acontecido.
Até contei a Claritta que tive minha primeira vez, o que eu não fiz foi contar com quem. O que deixou ela inconformada.
— Eu não vou roubar ele de você. — Mexi os ombros andando pelo shopping ao lado dela.
— Não é por isso, já falei. — Retruquei.
— Por que eu não posso saber, então? Eu não vou contar para o seu pai! — Respirei fundo.
— Eu sei, mas é por outros motivos. Ninguém pode saber sobre a gente até o final do ano. — Mentira, eu não contei para ela por que não conseguia imaginar como ficaria o clima quando descobrisse que era o Michael. Afinal ela dormiu com ele também.
— Ele é alto? Eu já vi ele? Vocês se conheceram como?
— Claritta! — Ela riu.
— Tá bem, tá bem?! — Entramos numa loja de roupas e ela logo me puxou para parte de lingerie. — Já que está sexualmente ativa tem que substituir todos os seus nudes. — Me puxou um sutiã roxo.
— Já tenho o suficiente, obrigada. — Devolvi a ela.
— Nunca é o suficiente, você tem que ter um par perfeito quando reencontrar ele, ou ainda acha que não importa? — Mordi o lábio um tanto vermelha.
— Eu não sei, não perguntei se isso de lingerie incomoda ele. — Claritta gargalhou.
— E nem vai dizer querida! Tem que tomar a iniciativa, se não vestir algo legal para ele, ele não vai se importar em vestir algo legal para você! — Engoli em seco com uma pergunta que surgiu como gancho. Uma dúvida que eu nunca poderia tirar com a minha mãe sem ela descobrir, só que Claritta poderia muito bem tirar. Me aproximei dela e sussurrei.
— Podemos conversar sobre isso? — Ela se surpreendeu rindo.
— Quer conversar sobre meu assunto favorito? Claro! O que quer saber? — Olhei para os lados negando.
— Não aqui, né? — Concordou.
Ainda demos uma longa volta pelo shopping até voltarmos para minha casa e ela decidir dormir por lá. Meu pai ainda não vai muito com a cara da Claritta desde o incidente do James, porém nunca foi do tipo que proibiu amizades desde que elas não dê más influências.
— Aconteceu assim... — Comecei a contar envergonhada. — ...A gente estava lá, se beijando e aquelas coisas a mais e ele me disse meio para tocar mais nele, sabe? — Ela segurou o sorriso o quanto pode tentando me levar a sério.
— Ficou parada que nem uma estátua?
— Não! Digo, um pouco, eu não conseguia pensar direito no que fazer! Eu queria mais... Fiquei mole e, você sabe!? Sem muita mobilidade. — Deu uma risada.
— Uhhh ele é bom, de primeira não são muitos que conseguem essa proeza. — A fitei seca.
— Claritta!
— Você tem que relaxar! Relaxe, sinta e retribua. Retribuir é a palavra chave do sexo. Você deu sorte, dá para contar nos dedos os caras que se preocupam com a satisfação da parceira, a maioria vai lá brinca com os peitos da gente e já manda ver. — Engoli em seco ouvindo aquilo.
— Então pelo seu contexto eu não fui muito boa... — Ela segurou o queixo pensando.
— Num contexto geral, você foi fraca. Escute, o mais importante para o homem é o momento de ‘entrar e sair da toca’, entende? Nesse contexto, você fez seu dever de casa. Não se engane, pimentinha! O cara já teve muita sorte de ter você! Aliás qualquer cara já tem que agradecer muito quando faz sexo com uma mulher, o prazer instantâneo dele nem sempre é o nosso. — Explicou. — Só que não é legal você está com alguém e não recompensar sempre que ele... Faz a coisa certa no ato. — Muito vermelha juntei coragem para dizer.
— Só que eu não... Consigo, entende? Na hora... — Ela negou.
— Consegue! Tente aos poucos que consegue. — Respirei fundo assentindo. — Se quer um conselho de amiga para tudo ir perfeitamente, perca o medo de boquete e a sua vida sexual vai ser uma maravilha. — Fiz careta na hora.
— Está falando de... — Dei um tremelique e ela riu.
— Sexo oral? Sim, senhorita, eu estou falando disso. E pela sua cara ele nunca fez isso com você... — Neguei apavorada. — ...Pelo que já sei do seu namorado secreto ele ainda só não fez isso para não te assustar. E quando fizer... Ahhh Sophie você vai entrar em plena contemplação... E depois disso mais cedo ou mais tarde você vai ter que retribuir. — Neguei freneticamente.
— Não, não! Então eu não vou deixar ele... Fazer isso! Duvido muito que um dia eu vá ter coragem para... — Não dei conta de encerrar a frase. Isso fez ela rir até demais.
— Que besteira! Não é esse horror todo não! Quero dizer... Seu namorado toma banho regularmente? — Fiz cara de nojo não querendo ouvir aquilo.
— Sim, muitos até. — Ergueu os braços sorrindo.
— Pronto! Então não tem problema nenhum! É só nojento se o cara for meio porco e não tomar banho ou nem limpar lá com frequência, saca? Também é meio repulsivo se tiver pelo demais, mas nada que uma penteada nas laterais não resolva, uma vez eu entalei com um...
— Não quero saber disso! — Tapei os ouvidos. — Eu ainda sou iniciante e não estou preparada para ouvir isso! — Ela gargalhou claro.
— Pimentinha, se você gosta mesmo desse cara, eu dou minha palavra que nenhuma caricia que fizer nele vai parecer nojento. Ao contrário, vai ficar feliz de ver que ele se derrete todo quando toca nele. — Engoli em seco. Pelo menos aquilo amenizou meu nervosismo. Respirei fundo comentando.
— Ele se depila... — Minha amiga tornou a rir.
— Tipo o Michael? Melhor ainda! — Fiquei estática por um momento sem saber o que dizer.
— Ele se depila? Não sabia... — Rebati tentando parecer o mais natural possível.
— Se ele descobrir, hein?! Uhhh Adoraria jogar isso na cara daquele miserável hipócrita! — Virei o rosto concordando sem graça.
Não gosto de mentir, mas como eu conto isso?
[...]
Meu trabalho na creche continuava do mesmo jeito, com os mesmos horários. Na verdade, durante o período de serviço em que ficava com as crianças era o único momento em que a saudade do Michael não vinha. Eram tantas para cuidar, a todo o tempo correndo de um lado para o outro que não me sobrava tempo para lembrar se quer do meu celular.
Quando eu dava por mim, a horário de ir embora já tinha chegado e já batia aquela depre buscando mensagens deixadas no telefone. Cinco e meia da tarde e as crianças já estavam prontinhas para voltar para casa. Eu ainda ficava mais um pouco para organizar alguns brinquedos deixados fora do lugar e limpar alguma bagunça esquecida.
Depois disso ia ao trocador tirar o uniforme e vestir minha roupa preparando para ir embora.
Saí dali mexendo no celular notando que a última vez que o Michael tinha entrado foi bem cedo. Andei alguns metros até ouvir um daqueles assobios bobos que os homens fazem para chamar a atenção, de primeira ignorei, porém num segundo momento quando o barulho veio soou mais alto precisei lançar um olhar desaprovador para a figura.
Fiquei parada por um longo período, meu queixo caiu, parei de respirar, meu coração também e não havia palavras prontas para descrever aquela criatura rindo sentado em cima de um carro. Involuntariamente corri jogando o que tinha na mão no chão sem pensar e pulei naquele cretino de braços abertos.
Foi um abraço bem apertado para poder acreditar de fato que ele realmente tinha vindo me visitar. Belisquei ele algumas vezes ouvindo gemidos cheios de risos e antes que começasse a falar eu já estava beijando cada canto daquele rosto sem parar.
Beijei sua bochecha, queixo, nariz, sobrancelhas, os olhos, a boca – repetidas vezes – a testa, pouco abaixo do pescoço e aonde conseguia alcançar ainda agarrada a ele.
— Você... — Tentei dizer sem desgrudar minha boca dele. — ...Devia... — Continuei aos beijos. — ...Ter me dito! — Ele tornou a rir retribuindo alguns beijos.
— E estragar a surpresa? — Finalmente parei um pouco para respirar.
— Não gosto de surpresas! Se você tivesse me avisado eu teria tirado o dia de folga. — Rebati.
— Cheguei agorinha... — Segurou meu queixo mirando seus lábios no rumo dos meus.
Eu diria que de todos os beijos que demos um no outro até então, aquele era o mais longo deles. No momento em que girou o rosto se encaixando os lábios nos meus ficamos ali apreciando o sabor, relembrando a textura, e derretida pela caricia sobre a minha língua. Ahhh eu sentia falta até mesmo do seu cheiro.
Ao separamos eu já ia iniciando outro mesmo um pouco ofegante, no entanto, fui impedida por uma mão que dei um beijo ainda assim.
— Disse ao seus pais que vinha te buscar, então vão achar estranho se demorarmos. — Fiz careta.
— Por que não veio direto para cá? — Ele sorriu negando.
— Minha mãe não está aqui, mas ela está alerta, ligou poucos minutos depois que cheguei para tia Kailyn para ter certeza que não tinha dado uma escapulida com você. — Acenou para entrarmos no carro. — Vamos? — Afirmei já pensando em entrar no carro.
— Ah! Minhas coisas... — Dei meia voltando ruborizada ao lembrar que joguei tudo no chão ao ver ele indo pegar.
Chegamos rapidamente em casa e minha mãe foi logo preparando um lanche para o Michael – eu até queria fazer isso, mas seria estranho. Meu pai... Desconfiou.
— Sabe que se tivesse me pedido eu tinha arrumado as papeladas do estágio para você, não é? — Perguntou depois que o Michael tinha tido que veio buscar uns documentos que faltava que comprovavam o estágio dele.
— Eu sei tio, só que eles tão sempre querendo assinatura, ter que ir em cartório autenticar e para resolver tudo de uma vez eu resolvi vir em pessoa mesmo. — A expressão do meu pai se suavizou.
— É, eu sei como essa burocracia é um porre, mas ainda assim não precisava vir de tão longe só para isso. — Eu gelei completamente quando o Michael olhou para mim sorrindo.
— Até que... Não foi só para isso. — Minha mãe e meu pai me olharam surpresos como se eu tivesse tido algo. — Fiquei me sentindo mal por não ter vindo no aniversário de dezoito anos da Sophie, por isso aproveitei essa oportunidade para além de resolver os problemas, trazer o presente dela! — Aquilo me tranquilizou, porém não parou o tremor na minha mão.
— Ahhh que meigo, Michael! — Disse a minha mãe me dando um tapa para dizer algo.
— Não era-era necessário... — Engoli em seco vendo o Michael se levantar e sair de casa voltando ao carro. Demorou alguns minutos, mas retornou com uma caixa comprida embrulhada em papel presente.
— Aqui, é para você, feliz aniversário atrasado! — Mordi os lábios empolgada. Não lembro qual foi o último aniversário que o Michael me deu algo. E apesar de não me importar com isso, receber um dele naquele ano era quase mágico.
Praticamente rasguei o papel de presente abrindo a caixa e sentindo algo bem fofo nas mãos. Puxei o tecido fofo e de lá de dentro saiu uma iguana verde pelúcia de meio metro. Claro, meu sorriso morreu... Ursinho de pelúcia?
Minha mãe chega me deu um beliscão para que eu agradecesse.
— Awnn se parece com a Indila, Sophie! Que gracinha! — Falou a minha mãe quebrando o silêncio, enquanto meu pai tentava não rir.
— Ahh tia você não sabe o quanto ela se parece com a Xena, puxa a cabeça dela Sophie! — Quando ele deu a ordem fiquei abismada, só que obedeci puxando a cabeça da iguana de pelúcia que descolou o velcro em seguida separando a cabeça do corpo. Meu pai não aguentou e começou a rir alto.
— Que maldade...! — Comentou minha mãe enquanto eu rangia os dentes encarando aquele maldito vermelha de raiva. E ele? Ele ria da minha cara. — Aí Michael, você tem o senso de humor negro da sua mãe! — Esqueci o bom senso e comecei a acertar o bicho de pelúcia nele.
— ISSO-NÃO-TEM-GRAÇA! — Gritei batendo nele. Ele apenas continuou rindo, joguei a pelúcia no chão e comecei a bater de verdade. — Seu idiota! Indila era minha melhor amiga... Isso não tem a menor graça!
— Tem sim, foi bem original, devo dizer. — Retrucou meu pai rindo.
— Ahhh Tá bom, então quando uma das suas serpentes morrer, vou me lembrar disso. — Revidei nervosa.
— Calma, calma, calma... Foi brincadeira! Esse não é seu presente de verdade. — Dei outro tapa na barriga dele nervosa. Ele saiu de casa novamente pegou uma caixinha pequena de madeira cheia de buraquinhos que tinha deixado escondida perto da porta. — Aqui, esse é seu presente. — Me entregou.
Abri a caixinha furada e dentro dela tinha algo que realmente estava na minha lista de apreços. Tinha um animalzinho minúsculo em volta de um laço rajado de cor amarela com marrom.
— Awn... Uma tartaruga. — Comentou minha mãe curiosa do meu lado.
— É um Jabuti. — Disse eu e meu pai em uníssono.
— E tem diferença? — Perguntou o Michael tão confuso quanto minha mãe.
— Tem sim. — Rebatemos papai e eu.
— Bom, esse pelo menos eu garanto que ninguém vai ter medo e ainda assim é um réptil como você gosta. Eu pedi ao cara do PetShop a espécie de menor tamanho, e ele me empurrou esse aí. — Contou.
— Ah querido, a tia Kailyn agradece. — Falou mamãe sorrindo.
— É, e vocês não vão ter que se preocupar dessa tartaruga morrer tão cedo.
— Jabuti. — Repetimos papai e eu. Ele apenas rolou os olhos. Entreguei o bichinho para a mamãe do meu lado durante um tempo só para poder abraçar o Michael.
— Obrigada, Michael. — Ele me abraçou de volta me dando um beijo na testa.
Claro que não houveram momentos carinhosos depois disso por que meus pais ficaram em cima dele com perguntas sobre a família dentre outras coisas. Então aproveitei esse momento para ficar babando de amores pelo o meu presente procurando alguma coisa para ele beber e comer.
Era tão pequenininho que não preenchia se quer a palma da minha mão.
— T-rex! — Levei um susto olhando para trás. Fiquei tão concentrada no bichinho que nem o vi entrando no meu quarto.
— T-rex?
— É, é um nome bem descolado. — Neguei fazendo careta.
— Agradeço a sugestão, mas não. Prefiro Mike.
— NÃO! Você não vai dar meu nome para esse bichinho, eu fico feliz que gostou do presente, só que tartaruga não combina com Michael. Lobos combinam com Michael, raposas talvez, tubarões com toda certeza, mas tartarugas não rola. — O que fazer se não rir?!
— Meu Deus, qual a sua idade mental? Primeiro quer dar o nome de um dinossauro para o meu jabuti e agora categorizou seu nome como pertencente a animais predadores? — Mexeu nos cabelos empinando o nariz.
— Sou um macho alfa. — Gargalhei alto.
— Tá bom, macho alfa, por que não disse a verdade para o meu pai então? — Ele sorriu sem graça.
— Não combinamos de esperar? — Sussurrou e tive que concordar.
— Sim, mas eu não gosto de mentir para o meu pai.
— Ah não? E você contou para ele o que pretendia fazer depois do baile? — Encolhi os ombros.
— Eu ia contar para minha mãe depois, o que dá no mesmo de contar para ele só que quando estivesse de bom humor. — Rebati erguendo o rosto para encará-lo séria. — Quero sair com você hoje à noite. — Arregalou os olhos surpreso e tornou a sussurrar.
— Eu também, só que pelo visto seus pais não vão sair. — Semicerrei os olhos.
— Eles estavam em casa quando dormiu com a Claritta. — Me lançou um sorriso debochado.
— A Claritta não é filha deles. — Voltei meu olhar para o bichinho que encolheu a cabeça para dentro do casco quando encostei nele.
— Lerdo e medroso, vai se chamar Michael, sem abreviação. — Ouvi ele rir beijando o topo da minha cabeça. Se aproximou do meu ouvido para dizer:
— Amanhã cedo a gente toma um café junto na rua, o que me diz? — Concordei sorrindo o beijando.
[...]
Nunca tinha pensando antes que um dia eu acordaria feliz num horário tão infeliz para se acordar. Eu não sei qual é a fixação do meu padrinho e do Michael de gostar de acordar tão cedo, porém naquele dia nem que fosse três da manhã ainda assim me levantaria para ir tomar café com ele seja lá onde fosse.
Meus pais obviamente nem sonhavam em acordar, o que permitiu rolar uns beijos antes de sairmos de vez. Escreveu um singelo bilhete na geladeira e outro colocou na mesa:
“Levei a Sophie para tomar café e comermos um bolo para comemorar o aniversário dela. Ps: Tia o almoço é por minha conta.”
Só que a sequência dos acontecimentos não foram exatamente assim. Havia ficado três meses e meio longe do Michael, o café da manhã poderia muito bem esperar, e o melhor disso é que esse era um sentimento reciproco.
Nem chegamos na porta direito – seja lá onde estávamos – para um atracar fervorosamente o outro. Um beijo intenso atrás do outro, uma apalpada mais forte que a outra e as mãos se enfiando pelas camadas de roupas que estorvava o caminho desejado.
— Humm... Espe... — Tentou dizer e quem disse que eu deixei? — ...So... Sophie a... Fechadura... — Mesmo assim agarrei seu rosto em minha direção o beijando sem querer saber o que aquilo queria dizer. Ele retribuiu, infelizmente não por muito tempo. Afastou apertando as minhas bochechas. — ...Eu sei, também senti MUITA falta de você, mas não vamos exagerar e resolver o problema no corredor, né? — Soltei um suspiro olhando para os lados. Saí da frente para abrir.
— Onde estamos? — Michael deu uma risadinha com a pergunta.
— Agora você pergunta? É um conjunto de apartamentos, estamos próximos da universidade do seu pai. — Arregalei os olhos.
— Como conseguiu um lugar aqui?
— Um amigo do estágio tem uns três apartamentos aqui, e ele estava me devendo uns favores. — Fiquei mais surpresa ainda.
— Eu tenho a impressão de que todos os seus amigos te devem alguma coisa. — Se virou para mim depois de abrir a porta.
— De certa forma, é mais ou menos assim que faço amigos. — Se reverenciou de brincadeira acendo para dentro. — Madame?! — Caminhei uns três passos para dentro o suficiente para ele fechar a porta. Num sorrisinho bobo me virei no seu rumo.
— Mais alguma coisa que queira fazer antes de continuarmos? — Com um olhar desafiador trancou a porta atrás de si. Sua resposta foi um sorriso bem malicioso avançando no meu rumo me colocando em seu ombro e carregando até a cama mais próxima. — Ahhh! Ficou doido...!? — Perguntei após ser arremessada na cama. Ele subiu na cama de joelhos ficando com minhas pernas entre eles, de frente para mim.
— Vamos tirar ímpar ou par! — Fiquei chocada.
— Para quê? — Sorriu travesso.
— Quem ganhar tira a roupa do outro!
— Ímpar! — Gritei de imediato fechando a mão.
— Par! — Ele jogou três e eu joguei cinco. — UHUU! Ganhei!!! — Só então me arrependi terrivelmente por ter entrado naquele jogo por impulso. Ia levando as mãos aos botões do meu vestido, no entanto, o impedi.
— Não! Melhor de três! — Pensei rápido e ele riu.
— De jeito nenhum, eu ganhei! Vamos... Eu teria deixado você se divertir se eu tivesse perdido. — Semicerrei os olhos incrédula.
— Não, não, não! Acontece que eu deveria ter vantagens por ainda estar em estágio de aprendizado! — Michael parou de tentar tirar minhas mãos do caminho e começou a rir.
— Ter vantagens? Considera desvantagem eu começar? — Engoli em seco com o jeito manso que falou aquilo.
— Sim, por que aí você começa e eu perco a noção do que fazer. — Confessei o que o surpreendeu.
— E isso é ruim? — Mordi os lábios sentindo o rosto ferver.
— Não sei... — Deslizou os dedos pela linha da costura do meu vestido, bem onde os botões seguiam.
— Vamos descobrir então... — Disse baixinho desabotoando da minha barriga para cima. Até pensei em segurar sua mão, entretanto, ao senti-la por dentro da roupa me tocando esqueci o que ia reclamar.
Não demorou muito para essa mão acariciando minha barriga subir em uma trilha deleitosa até o rumo do meu sutiã e desfazer o feixe dele expondo o que parecia chamar sua atenção com fervor. Fechei os olhos com o rosto ruborizado sabendo que os olhos dele estavam presos em mim.
Sabia que já não era para se ter tanta vergonha, mas não conseguia evitar de sentir.
Como ele realmente havia ganhado no ímpar ou par, aproveitou a vitória para provavelmente se vingar pela primeira vez em que me permitiu matar minha curiosidade sobre a anatomia masculina. Meu organismo voltou a se descontrolar completamente, minha pressão arterial aumentou, minha respiração alternava entre ficar estática há e respirar rapidamente, fora os impulsos involuntários e o calor que vinha das pontas dos pés e atingia até o último fio de cabelo.
Michael tirou meu vestido junto com a última peça que eu vestia aproveitando o caminho para alisar minhas pernas e rir por eu ficar arrepiada por completa. Beijou minhas canelas, meus joelhos, coxas e vinha subindo para o ventre e ao invés de me jogar na sensação que viria, lembrei estupidamente da Claritta e seus conselhos idiotas!
— Es...! — Tarde demais. Beijou meu íntimo suavemente – ainda bem – o que foi suficiente para eu esquecer e me repreender por ter pensado em impedi-lo. Apertei o lençol da cama sentindo todo meu corpo estremecer e os sons sem sentido saírem sem querer.
Eu fiquei novamente sem ação. Não tinha essa de ‘pouco a pouco’, não havia comandos prontos ao meu cérebro, não existia um raciocínio logico ou uma mensagem que não fosse ‘É tão bom que deve ser errado’. Meu corpo simplesmente se rendeu e eu apenas desejava que ele não cessasse o beijo tão cedo.
Mas precisou ser interrompido. E veio trilhando a linha do meu abdômen enquanto eu tinha dificuldade para respirar conforme se aproximava dos meus seios, porém passou por eles cortar o caminho parando com os beijos bem no meu queixo. Com um sorriso cruel me fitou intensamente.
— E então? É ruim ou não? — Ofegante apenas rangi os dentes em resposta irritada. — Ahhh Sophie... — Beijou minha bochecha indo para o rumo da minha orelha. — ...Como eu senti falta disso... — Sussurrou transformando os beijos nos meu pescoço em chupões leves.
Até parece que eu tinha vocabulário no momento. Só consegui gemer em resposta e com muito custo dizer o nome dele. Não demorou muito e ele já se despiu deixando as preliminares se acumularem para as próximas vezes e satisfez a necessidade emergente do momento.
Não posso reclamar, eu sentia tanta falta de tudo que também não me aguentava de espera, por isso apenas me entreguei na hora sem me importar com mais nada.
E apesar de achar tudo tão magnifico quanto da última vez eu continuava com aquela sensação de ser a única tendo proveito da situação.
[...]
— Tenho um convite para você. — Saio do banheiro ainda se vestido.
— Eu aceito. — Falei antes que tornasse a abrir a boca e dissesse do que se tratava, o que o fez rir.
— Aceita? E se for para irmos numa feira de carne bovina? — Fiz careta.
— Eu vou, mas vai ter que aguentar meus discursos sobre vegetarianismo. — Tornou a rir.
— Vou acampar no meu aniversário. — Contou se sentando na cama. — Normalmente faço isso mais para o final do ano, só que é meu último período na universidade e não acho que vai rolar tempo extra para acampar.— Me surpreendi.
— Quer que eu vá? — Afirmou sorrindo.
— Quero, mas... — Coçou a nuca sem jeito. — ...Meus amigos também vão. — Falou meio subjetivo e não entendi.
— Você quer que eu vá? — Repeti a pergunta só que dessa vez bem séria. — Ou isso é só um convite por conveniência? Não me quer perto dos seus amigos? Por que...
— Não tem nada a ver com isso! Se fosse o caso eu não me daria ao trabalho de te chamar! — Revidou.
— Então qual é o desse ‘mas’? Por que falou que seus amigos vão como se isso fosse ser um problema? — Dessa vez ao invés da nuca coçou a cabeça inteira agoniado.
— O problema é que entre meus amigos tem aquele amigo que namora uma ‘ex’ minha. Esse é o problema.—Franzi o cenho.
— Sua ‘ex’ favorita vai junto? — Questionei perplexa.
— Para de dizer isso! Não existe essa coisa de ‘ex’ favorita! E sim, a Safira namora um dos meus amigos e ele vai, o que significa que ela vai. — Engoliu em seco completando. — E sinceramente Sophie, ela é minha amiga também. — Fechei os olhos entendendo o problema.
Respirei fundo buscando a forma mais racional do mundo para encarar tudo aquilo e dar uma resposta plausível. A questão é que tudo que eu imaginava era uma cena caótica em que uso a natureza para dar um fim nessa criatura odiosa. O que queria dizer que pela lógica eu não conseguia ser racional quanto a isso.
— Eu dispenso então. — Confesso, falei aquilo com muita dificuldade.
— Sério? E aquele papo de vou a qualquer lugar...
— É diferente, não envolve só nós. — Rebati. — E está evidente que você não quer que eu aceite, tem medo que eu faça uma cena e diante as circunstancia é provável que eu faça. — Justifiquei suspirando.
— Se eu não quisesse que você aceitasse não teria te convidado. — O fitei nervosa.
— Se quisesse que eu aceitasse teria me convencido a ir como sempre faz, ao invés disso me enrolou e criou problemas. — Isso o deixou sem graça por que acertei em cheio.
— Tá legal, me pegou. Mas não é por medo de fazer uma cena, nem é por que a Safira vai tá lá, é por que tenho medo que você não goste.
— Como assim? — Ficou cabisbaixo.
— Meus amigos não são... Como as pessoas com quem você está acostumada. Daí eu te levo, você começa a odiar eles e depois fica chateada comigo e lá vai minha balança se encher de coisas ruins de novo. — Dessa vez ele pareceu sincero. Assenti.
— Está bem, Michael. Se isso vai virar um problema, eu não vou. — Falei depois de um suspiro. Não entendi a razão de ainda assim parecer incomodado.
Notei que ia refutar se acaso o celular não tivesse tocado bem naquele momento. Bufou meio impaciente atendendo a chamada.
— Bom dia tia! — Arregalei os olhos preocupada. — Sim, eu estou com a Sophie. — Fez uma pausa e depois riu. — Não, ela ainda não me matou. — O encarei cética. — Já, já, estamos de volta, pode ir trabalhar tranquila.— Procurei meu celular para ver o horário e só então vi que ainda não era nem oito horas da manhã.— Tá, um beijo. — E desligou.
— Fomos rápidos dessa vez... — Brinquei com um sorriso.
— É, mas em minha defesa fiquei três meses brincando no banheiro, foi difícil segurar. Se ao menos você colaborasse quando te ligava e pedia para brincar junto. — Eu sorrir, só que o rosto já estava vermelho.
— Não tem graça!
— Você nem tentou, sua chata. — Fervendo de vergonha neguei.
— Eu não tenho sua imaginação fértil, não tem graça quando... Faço isso sozinha. — Michael deu uma risada perversa se aproximando.
— Ahhh entendi. Você precisa ajuda... — Disse a última parte de forma sedutora baixinho no meu ouvido. Beijou minha bochecha. — ...Vou me lembrar disso. — Completou.
[...]
Tomamos o café da manhã por fim e depois fomos ao supermercado comprar os ingredientes para o almoço. Eu estava amando passar aquele dia com ele e eu tinha que aproveitar, pois no dia seguinte ele já iria embora, pelo menos dessa vez ficaria em companhia do meu novo bichinho de estimação.
— Tio a Sophie pode ir acampar comigo no meu aniversário? — Quase engasguei com a comida quando o Michael pediu isso em voz alta. Meu pai me fitou meio assustado por eu começar a tossir.
— Acampar? Onde? — Perguntou papai.
— É perto da cidade, uns quinze a vinte quilômetros. A Sophie me disse que gosta de acampar, vai ser no período de férias da creche e como atualmente ela não tem nenhum compromisso com escola, curso ou faculdade, queria levar ela comigo. — Eu não sabia se ficava com vergonha, se mantinha meu espanto ou se fazia cara de paisagem diante meus pais me encarando.
— Quem vai? — Questionou meu pai meio sério.
— Vai eu e mais alguns amigos, não vamos ficar muito tempo, é coisa de uma semana apenas. — Explicou e minha mãe sorriu.
— Claro que ela pode! Sophie precisa sair mais...
— Esperai! Também não é assim, Kailyn! — Meu pai interveio.
— Oliver, o Michael vai estar lá! E não deve ser tão perigoso quanto aquela vez que você levou ela para caçar serpente numa reserva florestal! — Revidou mamãe. Ainda assim meu pai não se deu por vencido.
— Michael vai ter bebida, por que se for ter de jeito nenhum. — A minha mãe começou a rir.
— Falou o homem que encheu a cara de saquê mais o meu irmão no festival de cultura japonesa ano passado.— Meu pai ficou muito sem graça no momento, mas mudou logo quando o Michael bateu palmas animado.
— E não me chamaram? Saquê é muito bom! — Nisso o meu pai sorriu.
— E parece leve, não é — Michael concordou.
— Sim, só que tem mais álcool que a cerveja, você fica bêbado sem se dar conta. — Contou rindo.
— Viu só?! A culpa não é minha nem do Dick. — Se defendeu para minha mãe. — Mas, isso não é o caso, e acho que você entende Michael. — Ele assentiu.
— Tio, eu não vou mentir e dizer que nenhum dos meus amigos irão ou não beber, só que eu não vou, isso eu garanto. — Respondeu sério. Meu pai se virou para mim num suspiro.
— Você quer ir? — Um pouco tímida afirmei.
— Ah que ótimo, vamos ignorar o fato dela ter dezoito anos e poder fazer o que bem entender... — Debochou minha mãe.
— Dezoito anos não quer dizer nada. — Retrucou meu pai.
— Diz isso para polícia. — Brincou minha mãe que virou para mim. — Vai e não esquenta a cabeça com o seu pai. — Afirmei sorrindo e olhando para o Michael.
Ele me voltou um sorriso contente sem mais aquele ar incomodado de antes. E vendo isso eu decidi que faria seu medo perder a força, tomei a decisão de que tentaria ao máximo me dar bem com os seus amigos por mais difícil que isso fosse.
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