Especial Inner Beauty
1 Capitulo Um - Onze
Notas iniciais
Onze
Queria muito dizer que estava preparada para aquela mudança tão repentina quanto um bote de uma serpente, mas não é verdade, nem o fato de estar preparada muito menos que foi realmente repentino. Estava acontecendo gradualmente, eu apenas não tive maturidade para enxergar o momento.
Eu tinha onze anos, basicamente três anos a menos do que o meu primo Michael que já atingia os quatorze e apesar de três não serem muito de modo geral, acabei descobrindo mais tarde que para um ciclo biológico humano, três anos podem ter muito significado.
Três anos a mais faz um garoto de quatorze anos querer avançar mais do que a idade pode acompanhar, faz um jovem entrar na puberdade esconder revistinhas adultas dos pais e garotas olharem para os meninos no mesmos interesses fisiológicos.
Três anos a menos faz uma garota de onze não entender as piadas de duplo sentido dos adolescentes mais velhos e faz uma jovem encarar o corpo e se perder nas modificações que ele ainda não sofreu se perguntando quando irá.
Três anos faz toda a diferença na hora de escolher com quem você anda, três anos a menos pode constranger alguém com três anos a mais. Três anos de diferença podem te dividir, te faz fazer escolher das quais três anos atrás você jamais faria... Três anos a mais te dão o poder de decidir por aqueles que possuem três anos a menos.
Eu não via nada disso naquele dia onde os três anos pesaram nas minhas costas finalmente e mudaram tudo.
— Você dois querem parar de correr?! Vão acabar caindo e se machucando!!! — Gritou minha tinha abrindo a porta puxando um fôlego que já não possuíam mais. — Oii! Minha princesinha! — Me abraçou enquanto eu olhava para o corredor da casa dela preocupada com as gritarias anteriores.
— Oi madrinha, o que foi isso? — Ela sorriu cansada dando um aceno para os meus pais.
— Isso meu bem, é o que a madrinha apelidou de tsunami e furacão! — De repente duas crianças correram que aos risos atrás dela fazendo até a saia dela subir com a velocidade. — Gaby e Logan se eu pegar vocês dois eu... Urgh! — Abriu a porta por completo. — Oh céus! Entrem, por favor...
— Você quis ter outro filho, agora aguenta Eloise! — Disse a minha mãe rindo ao lado do meu pai entrando junto comigo.
— Ninguém me disse que se eu tivesse uma filha ia ganhar outro de brinde. — Os risos das crianças se ouviam de longe e dava uma sensação estranha de querer rir também.
— É aquele pestinha filho do amigo do tio Dillan? — Questionei vendo os dois passarem por nós de novo brincando de pega-pega.
— Isso mesmo! Gente... Entra, fica a vontade, o Dillan deu uma saída, mas agorinha está aí. — Não pensei duas vezes antes de sair subindo as escadas direto para o quarto que eu sempre ficava.
— Eu vou para o quarto do Michael! — Disse sem nem ao menos prestar atenção nos protestos da minha madrinha... Tinha um ‘espera’, algo no meio que ela disse envolvia ‘Você não vai...’, mas nada parou os meus pés.
Antes tivesse parado, antes eu tivesse escutado e não apenas agido de forma infantil na esperança que aquele ano fosse idêntico a todos os outros. Aquela época em que éramos melhores amigos, em que o mundo dava inúmeras opções e ainda sim escolhíamos um ao outro como companhia, onde as noites ficavam pequenas para tanto filme que queríamos assistir... Aquele ano não, nem aquele ano, nem nos próximos.
— Cheguei!!! Olha quem eu trouxe para... — Apertei a Indila nos meus braços com o mesmo susto que as duas pessoas naquele quarto tiveram. Eles tinham a boca um do outro colada e se separaram contragosto. Com um semblante nervoso deu para ouvir o rosnar sair da sua garganta enquanto se levantava da cama num pedido de desculpas a aquela garota estranha de cabelos roxos.
— Sophieeee! Não pode entrar no meu quarto assim!!! Ficou louca?! — Tocou meu ombro empurrando para fora. — Mãeee! — Assim que berrou eu despertei do susto que levei ao ver aquela cena.
— Eu-eu trouxe a Indi...
— Tá, tá, tá! Sophie é ótimo te ver e seu bichinho também, mas esse ano você vai ficar com a minha irmã... — E fui me empurrando rumo a um quarto que eu só entrava em caso de emergência que eu forcei meus pés no chão.
— Nãooo! Eu quero ficar com você... — Foi de joelhos tentando ficar a altura dos meus olhos que tudo mudou.
— Me escuta Sophie, eu só vou falar uma vez: Você está proibida de entrar no meu quarto! — Abri a boca perplexa sem nem conseguir respirar. — Você é minha prima e eu gosto de você, mas é muito criança e eu quero fazer coisas da minha idade, com gente da minha idade! Quando eu tiver tempo, eu prometo que brinco com você, mas não vai mais ficar no meu quarto ou me seguir para todo lugar como antes, entendeu? — Se fosse Indila nos meus braços... Acho que eu teria chorado, só que alguma coisa dentro mim me obrigou a não fazer isso.
— Ah meu bem, era isso que eu ia te falar, não vou deixar minha princesinha nesse lixo que seu primo chama de quarto! — Ainda sem acreditar olhei para minha madrinha que sorria sem graça tentando amenizar situação. — Vem com a madrinha... Eu arrumei o quarto da sua prima para você.
Eu não sabia explicar como, ou por que, mas a mesma voz que me disse para não chorar me mandou erguer o queixo e concordar. Mais tarde eu descobri que o nome dessa voz... Era orgulho e que ela me acompanharia pelos próximos anos dificultando tudo na minha vida.
Não detestava a Gabrielle, ela tinha seis anos e mesmo sendo uma menina nunca usava saia ou vestidos, estava sempre de calça ou de bermuda, descalça ou de tênis e vaidade não fazia parte do vocabulário dela. A vida dela se resumia em se divertir sem dar moral se as pessoas a olhavam ou não com bons olhos e para idade dela, isso era até comum.
Ainda sim, mesmo simpatizando com ela, Gaby não era o Michael, não era mesma coisa... E eu não sabia lidar com isso. Mas por orgulho, eu tentei.
— Eu to muiiittttoooo feliz que você vai ficar no meu quarto Sophie! Nós vamos brincar de montãooooo! — Ela não parava quieta na cama usando um pijama cheio de pontinhos rosas com os cabelos parecendo uma juba de leão. — Posso pegar seu escorpião? — Lancei um sorriso torto para ela sem animo.
— É iguana, não é um escorpião. — Os olhinhos castanhos dela brilharam. — Só não se agita muito, está bem? — Coloquei a Indila no colo dela bem devagar e ela alisou mordendo os lábios. — Você gosta de animais? — Afirmou toda empolgada.
— Gosto, mas a mamãe disse que não podemos ter um cachorro por que já temos o Logan. — Não tinha entendido a conexão na época, mas sorri mesmo assim.
— Aquela menina no quarto do Michael é quem? — Ela fez uma careta.
— A namorada do Michael, agora ele só tem tempo para aquela cabelo de uva podre! — Como ela tinha ficado agitada de repente eu achei melhor pegar a Indila. No inicio eu não imaginei a proporção daquela informação, parecia muito vaga e inofensiva.
Mas os dias que se sucederam me ensinaram o contrário, e não era apenas em relação à nova namorada de Michael, pouco a pouco foi perceptível que a mudança dele não era essencialmente culpa da garota estranha de cabelo roso, havia muito mais coisa envolvida no processo.
Um processo biológico que era confuso demais para uma menina de onze compreender e por instinto o ser humano tem medo e repulsa tudo aquilo que não entende.
Por isso eu fiquei ali, aguardando o momento tão esperado dele acabar voltando ao normal e dizer que não queria ter tido aquilo para mim. Pelas frestas das portas, atrás de cortinas e paredes eu assisti com angustia o meu ídolo se tornar uma criatura esquisita que conta piadinhas sem graça para as garotas da sua idade rir, fazer coisas idiotas para divertimento dos amigos recentes e o que mais me doía... Se afastar de tudo aquilo que veio antes do processo dar inicio.
Eu não estava inclusa, só que não sabia.
— Michael! — Ele se virou assustado no meu rumo e tentei dar o meu melhor sorriso para não demonstrar os quão ruins os dias ali estavam sendo.
— Ah meu Deus! Que porra é essa no braço dela? — Exclamou com pavor a menina de cabelo roxo. Apertei Indila dando um passo para trás.
— Não xinga perto dela! Minha mãe vai brigar comigo! — Revidou severo. — Sophie, por que você não vai brincar com a minha irmã e o Logan, hein? Eu vou sair com uns amigos. Quando eu tiver tempo à gente brinca, ok? — Era oitava vez que me mandava brincar com a Gaby e a oitava vez que eu sentia algo partir dentro de mim.
— É... Uma iguana... — Murmurei só para mim. Andei cabisbaixa novamente para perto da dupla tsunami e furacão que tinham seu próprio conceito de brincadeira... Gaby e Logan... Gostavam de tentar se matar em brigas físicas que eu ainda não tinha entendido qual a graça.
Então, o que me restou naquele ano foi ficar sentada quieta com a Indila aguardando o tal ‘tempo’ do Michael chegar. Só que esse tal ‘tempo’ que ele sempre falava quando me via...
Nunca realmente chegou.
[...]
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