Especial Inner Beauty

4 Capitulo Quatro - Quatorze Parte I


Notas iniciais
AHA! Vocês não achavam que eu ia cumprir o que disse né? Viu!? Eu cumpri! Boa leitura e desculpem os erros!

Part I

Aos quatorze anos uma palavra preocupante começou a dominar meus pensamentos: Suicídio. E se eu realmente nunca dei forças a essa palavra com certeza foi por causa dos meus pais.

Minha ida ao famoso Starbucks me condenou.

De repente eu fui excluída do grupo sem direito a qualquer chance de defesa ou oportunidade para mudar as coisas. Nenhum dos integrantes retornavam minhas ligações e eu só vim entender realmente o que estava acontecendo quando o ano letivo começou e percebi que aquele banho de café humilhante foi o inicio de algo muito pior.

Miss Mine me escolheu.

Como um predador escolhe sua presa para devorar a seu modo. Achei que ela nem mesmo me reconheceria, mas a cor avermelhada dos meus cabelos me sentenciaram ao bullying eterno. Desde o primeiro dia de aula em que ela me viu perto dos armários e conectou a cor de meus cabelos com a garota que derramou café nela no Starbucks – tecnicamente eu apenas esbarrei e ela se derramou café, mas duvido que Miss Mine fosse levar isso em consideração – decidiu que como parte da sua rotina me faria lembrar todos os dias daquele evento catastrófico.

Como?

Jogando uma quantidade considerável de qualquer bebida em cima de mim – a parte boa é que as bebidas do colégio não eram quentes. Cinco dias por semana, todas as semanas, sem falta.

Tentei me esconder várias vezes, mas para fazer média com Miss Mine o pessoal da escola costumava me dedurar e contar a ela onde eu estava. E eu aguentei tudo isso durante quatro meses sem dizer uma palavra.

Até que uma palavra começou a brotar na minha cabeça e quando eu percebi... Fiquei envergonhada. Principalmente por ter tudo em casa e ficar pensando besteira como ‘morrer é melhor do que aguentar isso’.

Minha mãe percebeu que todos dos dias depois da aula eu chegava com a roupa suja, seja de suco, refrigerante ou quando não tinha nada Miss Mine colocava terra numa garrafa com água e jogava em mim, fato é que ela resolveu pedir ao meu pai para bater um papo sério comigo — que gerava mais trauma do que resolvia meus problemas.

— Essa não... O que eu fiz de errado? — Perguntei. Fechou a porta do serpentário da universidade com um sorriso travesso. Meu pai tinha seu próprio método de se fazer entender e um gosto estranho de usar serpentes como exemplo para as coisas.

— Vamos ter uma aula de biologia hoje. — Suspirei tirando uma liga do bolso e prendendo meus cabelos. Normalmente eu até gosto desses momentos com meu pai, mas meus dias estavam muito ruins nem fazer o que eu gostava me animava mais.

— Isso não é por que eu não quis ir na casa do tio Dick ver o bebê, não é? — Andou até o cobra completamente negra – que é uma Real Mexicana – abrindo a tampa do terrário e o tirando de lá.

— Provavelmente uma das razões da sua mãe, mas não é uma das minhas. — Explicou com a no braço oferecendo para que eu pegasse. Sem problema algum a peguei deixando ela deslizar suavemente no meu braço. — Acho que esse deveria ser um daqueles momentos em que eu te pergunto sobre a sua vida, você finge que não entende, eu finjo que acredito mesmo sabendo não ser verdade e terminamos tudo com um ‘eu te amo’ no final. — Sentei no banco lhe dando um olhar rápido e logo em seguida me voltando para o animal.

— Resolveu que uma aula de biologia seria mais produtivo? — Apontou para mim num sorriso.

— Isso minha garota! O que está em suas mãos se chama Lampropeltis getula nigrita! — Acenou para a criatura no meu braço como se a venerasse. — É uma das cobras mais dóceis para se ter em cativeiro, a quem diga que não muito sociável, porém ninguém nega que muito fácil de se criar. — Me fez levantar e ir até ele. — Na verdade, essa é uma das minhas espécie prediletas, ela é gentil quando precisa ser... — Tomou do meu braço num gesto de carinho com o animal e andando poucos passos até um terrário de uma serpente que estava enrolada e começou a dar bote assim que nos aproximamos.

— É uma Bothrops... — Comentei num suspiro.

— Isso aí, ela vai fazer isso até cansar, é a forma como se defende daquilo que parece uma ameaça, é agressiva por instinto. — Me virei para ele confusa.

— Onde essa aula de biologia vai dar? — Ele me soltou um sorriso torto abriu a tampa da Jararaca e antes que eu soltasse qualquer som jogou a cobra preta lá dentro. — Pai...! O que você fez?! — Não pareceu muito preocupado... É meu pai é ser um tanto cruel, não podia só falar e me explicar, tinha que me mostrar do pior jeito.

Senti meu coração apetar jurando que a Jararaca iria envenenar a pobre da Real mexicana e matá-la, eu sei que essas coisas fazem parte da natureza, só que eu nunca gostei de ver. Entretanto, o improvável aconteceu, os minutos se passavam e aos poucos quem vencia a disputa era a serpente negra que mesmo após a picada continuou firme.

— As pessoas acham que docilidade é um sinal de fraqueza... — Eu não conseguia tirar meus olhos no terrário. — ...E não enxerga a real força por trás disso. — De repente quando a Jararaca deixou de se mexer e outra cobra começou a devorá-la.

— Você tinha mesmo que matar uma cobra para me dizer que eu preciso ser agressiva? — Perguntei num timbre nervoso o que o fez rir.

Mon petit, não quero que seja agressiva, isso não é da sua natureza... — Se virou de frente para mim sério. — ...Você é gentil, dócil e carinhosa, a questão é que isso não significa que é fraca. — Encolhi os ombros sem jeito. — Duas cobras, uma venenosa e a outra não, me diz... Por que logo a Lampropeltis venceu? Ela não tem veneno.

— Por que ela deve ser imune. — Revidei já nem querendo olhar mais no terrário.

— Exatamente, ela é imune a venenos de serpentes variadas, não vou dizer todas por que isso eu duvido. Porém... — Passou o braço em volta dos meus ombros num abraços. — ...A questão não é essa. Escute, devemos ser gentil quando preciso e sermos agressivos quando necessário. — E esse foi o jeito dele de me ensinar biologia.

— Por que sempre que tenta me ensinar alguma coisa tem que me traumatizar ao mesmo tempo? Não podia só dizer isso? Eu odeio ver animais morrendo papaiii! — Falei chorosa e ele girou os olhos impaciente.

— Ok! Eu vou te ensinar de um jeito que você entenda sem traumas... — Respirou fundo me encarando zangado. — Você pode ficar aqui esperando alguém vir lhe trazer uma solução ou pode resolver isso sozinha, eu creio que a minha filha é inteligente suficiente para colocar os neurônios dela para funcionar, existe uma enorme diferente entre ser gentil e idiota, pelas suas médias altas no colégio eu acho que você não é a segunda opção. — E do nada ele mudou o semblante para calmo e encrencado. — E vamos deixar suas mãe fora disso, certo? — Semicerrei os olhos.

— Certo, mas vai me dever uma. — Suspirou concordando.

— Escuta, sou capaz de matar todas as serpentes da fauna para te fazer entender que você não é pequena como eles querem te fazer parecer, existe uma cadeia alimentar e você está no topo dela, só precisa mostrar isso. — Esse é o modo como ele diz que me ama, sem palavras diretas apenas leves indícios de que mataria os animais dos quais mais gosta só para elevar minha auto estima.

É, minha família é um bocado estranha. Quem vê meu pai falando assim pensa que é cruel e frio... Bom, ele é frio quando o assunto é pessoas de fora da família e normalmente gosta de ser cruel principalmente com a minha mãe, algo relacionado a gostar muito de vê-la vermelha – prefiro ficar de fora dos joguinhos deles.

Porém, é mais complicado do que se imagina, o fato de crescer sozinho ajudou muito, foi para universidade aos nove anos e a coisa por lá foi feia, muito feia para o lado dele. E com pais como meus avós rígidos ao extremo e nenhum pouco carinhosos, acabou ficando assim... Mas ainda sim é um pai incrível.

O que ele quis dizer com aquele conselho nenhum pouco convencional é o que vive me dizendo quando minha mãe não está olhando: Seja um predador.

Nossa... Refletindo sobre isso eu percebo o quanto isso pareceu doentio agora.

[...]

Três semanas e o que eu consegui foi enganar minha mãe levando outro uniforme na mochila escondido e trocando antes de chegar em casa. A ideia de fazer algo com a Miss Mine me assustava, por que ela me assustava, como eu, que mal conseguia levantar a voz direito ia fazer algo contra ela e as amigas dela que mandava no colégio?

Não me sentia capaz disso.

Por pior que fossem as humilhações, eu tinha fé que um dia ela se cansasse e parasse com isso ou que alguém aparecesse e me defendesse.

Mais uma vez... Eu pensei no Michael.

O Michael nunca se deixou ser humilhado e ele não suportava ver valentões se aproveitando dos mais fracos, ia lá e partia para briga – vencia sem muito esforço. Fiquei imaginando se por acaso ele me defenderia se estivesse na mesma escola que eu, quase senti um desejo de perdoá-lo por tudo se realmente fizesse isso.

E foi pensando no Michael que algo surpreendente aconteceu.

— Sophie... — Fechei a porta do armário no susto sem acreditar que James Salmon estava ao meu lado com um olhar cheio de remorso. — Ah Sophie... Eu... — Tenho quase certeza que ele ia se desculpar mesmo que não encontrasse palavras suficientes para isso.

— Vai acabar sendo expulso do grupo também. — Comentei suave, pelo menos ele veio falar comigo, isso já era muito mais do que a maioria fazia.

— Eu nem estou no clube mais Sophie, olha, eu realmente... — Manteve os olhos num rumo atrás de mim sem conseguir se pronunciar mais. — ...Essa não... — Murmurou engolindo em seco e abaixando o rosto. Assim que me virei vi Miss Mine com seu grupo se aproximando com um copo de suco torcendo para dessa vez ser de laranja, pois uva manchava demais. — ...Miss Mine, por favor, já chega! Essa brincadeira perdeu a graça faz tempo! — Não acreditei no que ouvi. Ele tinha me defendido! E isso fez meu coração acelerar comovida, mas certamente não comoveu Miss Mine que riu em deboche.

— Meu Deus, a ferrugem tem um namorado... Que nojo. — Caçou deixando ele sem graça. Ela fez uma expressão curiosa. — Está bem, eu não vou jogar hoje... — James sorriu largo feliz, eu não. O timbre, o olhar, o modo de agir... Ela não tinha mudado de ideia, apenas a aperfeiçoou para algo mais humilhante. — ...Você vai. — Ofereceu o copo agora séria, o deixando assustado no mesmo instante.

— O quê...? — As meninas atrás dela riram adorando a cena.

— Ou você joga nela ou se junta a ela, vai querer receber um banho também todos os dias? — James ficou petrificado. Minerva forçou o copo para frente e por alguns instantes eu realmente achei que ele fosse recusar. Quando a agressora ia afastando dando o silêncio dele como ‘não’ de resposta ele tomou o copo da mão dela... Nunca vi Miss Mine sorrir tão largo quanto naquele momento de satisfação. — Espera! — Pediu antes de jogar dando uma cusparada dentro do suco. — Prontinho. — Disse num sorriso debochado.

Eu achei que James fosse chorar, mas ele aguentou firme tragando a saliva, rangendo os dentes e pedindo desculpas com um olhar. James não tinha nada do Michael, por que o Michael por pior que fosse nunca faria algo assim por mais que ele fosse sofrer depois. O Michael era muitas coisas ruins, só que covarde não era uma delas.

E eu não sei por que fiquei com mais raiva do Michael naquele momento do que do James, na verdade eu fiquei com raiva do James por que ele não era como o Michael e fiquei com ódio do Michael por que ele veio na minha cabeça quando eu desejei que alguém me socorresse.

Com o suco de uva – droga! – escorrendo pelo meu rosto mantive meus olhos fechados. A voz do meu pai dizendo que eu precisava ensinar ao pessoal do colégio um pouco de ecologia e a dor do orgulho ferido se misturaram.

Ninguém ia me salvar naquela merda! Todo mundo ia rir ou correr, eu tinha que ser minha própria salvadora e parar de usar o Michael para tudo que acontecesse. Quando abri os olhos já tinha desistido de ser passiva, soltei um sorriso torto para Miss Mine que junto às outras se assustaram.

Eu vou mostrar para essas insignificantes quem é a filha de Oliver Gasnier e por que elas deviam temer tanto ao saber disso.

[...]

Claro, um plano bem executado deve primeiramente ser bem planejado.

O que eu sabia sobre Miss Mine, fora ser uma completa lunática com mania de grandeza? Nada. E esse era o problema, então eu precisei começar com o básico: Roubando a ficha dela da enfermaria.

Tão fácil.

Nome: Minerva Patel – Ao que tudo indica ela odeia o nome e o sobrenome, uma das razões pela qual obriga todo mundo a chama-la de Miss Mine.

Idade: Dezesseis – Fiquei surpresa ao saber que nossa senhorita Minerva era uma repetente e com notas baixas suficientes para continuar sendo durante os próximos oito anos.

Ter idade acima da média da turma pode ser vergonhoso em alguns casos, porém no dela não, o fato de ser dois anos mais velha do que os demais alunos a faz ser venerada – razão desconhecida para essa idiotice – as garotas parecem olhá-la como se fosse uma veterana – isso ela é – e os garotos como alguém experiente em assuntos que eles ainda não tem prática alguma.

Característica: Atualmente o cabelo que era loiro foi pintado de castanho chocolate – pesquisei e descobri que aquela cor estava na moda – olhos castanhos esverdeados, sua pele tinha um tom quase pálido no inicio do ano, entretanto de um dia para o outro ela apareceu no colégio com uma tonalidade de pele bronzeada – algo também relacionado à moda que todo mundo do colégio resolveu aderir. Sua estatura é um tanto mais alta do que a média, provavelmente por ser mais velha, um metro e sessenta e cinco de altura.

Personalidade: Miss Mine tem sérios problemas mentais, na certa derivados de uma péssima criação que não quis aprofundar o assunto para não sentir pena e desistir do plano. Tudo que se podia dizer sobre ela nessa parte era que Minerva Patel amava, idolatrava e fazia de tudo por atenção. Ela tinha uma necessidade tirana de ser o centro do mundo – uma doença que um psiquiatra poderia diagnosticar melhor do que eu.

E quem diria?! Ela é alérgica a amendoim.

Num bloco de notas eu decidi o destino de Miss Mine para os próximos dias, ela iria o recado de que não se deve pressionar uma pessoa por muito tempo sem ter consequências.

[...]

Quando dei inicio a tudo isso, tenho que dizer que eu era inexperiente, uma criança brincando de infernizar a outra sem maiores danos colaterais. Afinal, eu tinha quatorze anos e era a primeira vez que fazia algo realmente ruim para alguém.

Eu sempre fui um tipo de pessoa que se quer fala mal da outra sem ter certeza dos fatos – tirando o Michael, gostava de falar comigo mesma sobre o quão babaca ele era e o quanto seria legal se as namoradas dele o traísse.

Então os primeiros dias toda a vingança era sutil, tanto que ela devia estar pensando que tudo que acontecia não passava de um azar num dia ruim. Fiz o salto dela quebrar, uma dos condicionadores se abrirem na mochila e estragar tudo dentro dela, passei boas pinceladas de extrato de pimenta em todos os batons dela, escrevi com tinta vermelha um palavrão a ofendendo na porta de seu armário... E a última brincadeira da semana foi aquela que me entregou.

As baratas dentro da mochila dela – ideia idiota!

Não pensei nas consequências, enquanto eu fazia tudo aquilo era divertido ver a expressão furiosa no rosto dela sem saber o que estava acontecendo. Mas as baratas... Eu achei que ninguém se lembrava mais dessa história, ela com certeza não recordava que um dia eu fui a ‘barata de fogo’ por conta de um incidente em que baratas saíram da minha mochila, porém ficou evidente que alguém lembrou e contou a ela.

E o que aconteceu foi o seguinte...

— Não fiz isso! — Exclamei mentindo muito bem para a diretora que se virou para a morena me olhando com ódio.

— Você tem provas de que foi a Sophie que fez isso? — Até eu a fitei nesse instante.

— Ela está se vingandoooo! Todo mundo sabe que essa esquisita mexe com baratas, a senhora não pode duvidar de mim! Foi ela! — Ergui o queixo.

— Você tem provas? Me viu colocando o que quer que fosse na sua mochila? — Girei os olhos fingindo desdém. — Isso é ridículo diretora, ela está tentando sujar meu histórico, na certa se cansou de jogar bebida nos outros e agora quer me prejudicar... — Minha expressão de vitima ofendida ganhou o veredicto.

— Se você não tem provas Minerva eu sugiro que se desculpe imediatamente com a sua colega. — O ‘colega’ soou ofensivo, porém a parte sobre ela se desculpar me fez sentir tão bem que quase saí do personagem. Só que a Minerva estava vermelha de ódio e raiva.

— Eu não vou pedir desculpas para essa nojenta... — Revidou entredentes se levantando.

— Muito bem, então eu acho que a detenção vai lhe ensinar a não acusar em falso e respeitar alunos que realmente vem para a escola para aprender. — Minha nossa, foi o sentimento mais satisfatório que tive nos últimos anos. Segurei os lábios para não sorrir e eu tenho certeza de que Miss Mine notou.

— Urgh!!! — Bateu o pé no chão com força rosnando. — Isso não vai ficar assim!!! — Berrou saindo em passos fundos da sala. Fez se um longo silêncio e eu maneei a cabeça em agradecimento pela diretora.

— Obrigada por ficar do meu lado. — A senhora morena suspirou assentindo.

— Toma cuidado menina, essas garotas não são de brincadeiras. — Um conselho dado tarde demais.

Não sei dizer se tudo que aconteceu no final valeu a pena, talvez tenha me deixado mais forte, só que eu ainda não consigo encontrar coisas boas vindo disso.

Foi como o meu pai disse... Eu precisei ficar agressiva para sobreviver naquele nicho ecológico.

Segunda-feira... Uma das amigas da Miss Mine jogou um copo de suco de morango em mim, rotineiramente andei rumo ao banheiro com a intenção de limpar o rosto e tentar secar um pouco o molhado do uniforme – trocar antes do final da aula era pedir para levar outra copada de suco na cara.

Tudo um plano arquitetado – surpreendentemente para esse tipo de coisa o cérebro dela funciona.

E o que me esperava no banheiro? Minerva Patel e seu grupo maquiavélico – exagero meu – prontas para a vingança por conta da detenção e tudo mais.

— Acabem com ela... — Foi à única coisa que ela disse me fuzilando.

Não deu tempo nem de engolir em seco, muito menos tentar sair dali. Foram socos, murros, chutes, empurrões, puxões e uma sequencia interminável de ofensas que eu preciso não citar. O que deu para fazer quanto a isso foi proteger a cabeça com os braços inutilmente, nem gritar eu conseguia, mas também não soltei uma gota lágrima por mais que tudo aquilo doesse.

Eu não ouvi nada, apenas respirei com dificuldade quando elas pararam e imaginei que tinha acabado. Belo sonho... Miss Mine não estava satisfeita... Puxou meu cabelo com força o suficiente para levantar meu rosto frente ao seu e com o sangue pingando do nariz, boca e alguns cortes consequentes das bancada eu sorri mostrando os dentes vermelhos. Ela me fitou assustada diante a minha risada...

Vamos esclarecer: Eu não sou louca. Estava zonza, sentindo pontadas de dor por toda parte, sangrando e com um orgulho ferido mais machucado ainda, porém eu lembrei das cobras do meu pai. Aquele momento em que achei que a Real mexicana fosse ceder e morrer pelo veneno da Jararaca quando na verdade o reverso aconteceu.

Isso me fez rir, mesmo que não tivesse graça nenhuma.

— Me da uma tesoura! — Pediu Minerva histérica.

— Para quê? — Perguntou uma delas num timbre apavorado, acho que ela pensou a que a Miss Mine ia cortar meu pescoço ou algo do gênero. Impaciente com as amigas ela pegou uma tesoura na mochila e só ouvi porta se abrindo e se fechando – eram as meninas indo embora com medo do que ela ia fazer, não queriam ser cumplices de um assassinato só de um espancamento, ora.

Por mais irrelevante que seja Minerva puxou meu cabelo e só conseguiu cortar um lado dele, pois minutos seguintes um zelador entrou dando um grito a e a assustou. Me deu um último chute e saiu correndo sem nem dar um ‘tchauzinho’ para mim.

— Menina você está bem? — Perguntou o senhor com a voz preocupada e se eu tivesse forças ia gritar um belo: Eu pareço bem para você?????

Busquei ar com dificuldade cuspindo um pouco de sangue no chão, forcei meu corpo a se levantar e a imagem no espelho fez meus lábios tremerem querendo chorar. Eu estava destruída, infelizmente tanto dentro quanto por fora.

Minhas roupas meio rasgadas, dava até para ver uma parte do meu sutiã de enfeite e um dos meus sapatos só Deus sabe onde foi parar... A cena era catastrófica.

Engoli choro com sangue e mesmo minhas pernas doendo muito devido aos chutes que levei eu andei passando por aquele senhor.

— Eu-eu... To-to bem... — Sussurrei sem conseguir aumentar o tom da minha voz. Ele queria me ajudar, porém eu neguei.

Eu nunca vou esquecer daquele dia, não por que levei uma surra bem feia, nem por conta das dores infinitas no corpo, ou o sangue estampado no meu rosto e mãos, não... Esse dia foi inesquecível por causa da minha retirada. Passar pelos corredores ouvindo os murmúrios e olhares assustados dos alunos, acho que alguns até ousaram se aproximar, mas eu só lembro de ficar repetindo na minha cabeça:

Só mais um passo, só mais um passo, só mais um passo...’.

E diante um passo e outro eu cheguei no ponto de ônibus, respirei fundo segurando o choro e abri a mochila pegando meu celular. Não podia nem sonhar em chegar em casa naquele estado assim do nada. Tudo deveria ser cautelosamente estudado antes do próximo passo... Se a minha mãe me visse daquele jeito... Nossa, o estrago seria bem maior nela do que até mesmo em mim.

— Pa-papai... Eu preciso... — Respirei fundo de novo já quase não conseguindo segurar mais as lágrimas.

Sophie?! Você...

— Eu preciso que você venha me buscar... — O interrompi antes que começasse um discurso sobre nada de celular no colégio a não ser em casos de emergências. Ouvi ele soltar um suspiro sofrido.

Oh mon petit, o que aconteceu? — Soltei um gemido choroso.

— Só venha papai... Eu estou no ponto de ônibus a uma quadra da escola, a mamãe não pode me ver... — Claro que minha voz estava estranha, tinha um bolo na minha garganta que a fazia sair cortada e misturada com o desespero eu não precisei de muito para fazê-lo entender que o pior aconteceu.

Não demorou nem mesmo dez minutos para o seu carro estacionar ali e ele sair apressado com um olhar indecifrável... Tinha raiva, pena, tristeza, desejo de vingança e muita culpa. Ia me abraçar forte, porém dei logo um olhar de que não era uma boa ideia, então apenas me ajudou a entrar no carro sem mais estragos.

[...]

Naquele momento eu queria deitar numa cama e dormir, mas aquela segunda-feira seria a mais longa do ano. Passamos no hospital onde fizeram alguns curativos e alguns exames desnecessários para mim, apenas para encargo de consciência do meu pai. Depois fomos a farmácia e ele me deu alguns analgésicos comprando mais curativos, depois queria me levar no cabeleireiro, só que achei exagero e neguei na hora.

Como é que iríamos contar isso para minha mãe? Ela ia chorar só de me ver e esganar o meu pai por me influenciar a causar tudo isso.

— Tudo bem, não vai dar para você ir se trocar, ela está bem ali... — Sussurrou para mim na porta. Mamãe estava no telefone na porta da cozinha que ficava bem próximo a escada que dava para o meu quarto. Missão impossível, então o jeito era acalmar ela antes de contar. — ...Eu vou tentar apaziguar... — E entrou em casa comigo escondida do lado de fora – belo esconderijo ficar na porta da entrada. — ...Nossa... Alguém aqui perdeu peso? — Franzi o cenho batendo a mão na testa, que jeito de apaziguar era esse?

— Eu to no telefone... — Ouvi ela revidar impaciente. — ...Ah! Você desligou?!!! Era uma ligação importante, como pode fazer...

Ma chérie... Amor da minha vida... Eu acho melhor você se sentar... — Mordi o lábio sem pensar sentindo uma dor lembrando que ele estava ferido. Ela ia chorar, ela chorava por tudo e ver ela chorando ia me fazer chorar também.

— Aí meu... O que aconteceu? Não é a minha sobrinha é? Eu fui visitar ela ontem ela parecia...

— Não, não... É a Sophie, aconteceu uma coisinha chata no colégio. — Nossa... Que eufemismo para ‘espancaram ela’.

— Uma coisinha? Você não conversou com ela...? Achei que ia resolver o negocio do bullying? — Alguém estava encrencado.

Mas o que mexeu comigo foi a pergunta dela, ela achava que meu pai ia resolver? Por que ele? Não, isso não estava certo, eu tinha que ter capacidade para resolver meus próprios problemas, se não para que afinal eu servia?

— Pois é, eu... — Foi aí que eu percebi que não tem um jeito fácil de contar o que aconteceu. Entrei em casa com o olhar sério e destemido até minha mãe que me fitou assustada.

— Mãe, eu vou resolver isso sozinha, eu consigo. — Ela nem me ouviu, começou a chorar que nem um bebê vindo para cima de mim num abraço.

— Minha bonequinhaaaa! O que fizeram com a minha bonequinha??? O que aconteceu? Pelo amor de Deus, olha esses hematomas... Oliver que... — Ele balançou as mãos pedindo ela para se acalmar, o que foi inútil.

— Calma, ma chérie... — Disse suavemente o que a deixou mais nervosa.

— CALMA!??? Como eu vou ter calma? Olha o estado da minha filha! Quem fez isso?!!! — Se afastou bufando. — Não interessa quem for! Quem fez isso merece ter todos os ossos do corpo quebrado em mil pedaços com um martelo... MELHOR! Ser colocado de cabeça para baixo e beber urina de cachorro para o resto de vida! — Encarei meu pai preocupada, ela chorava movendo as mãos sem me tocar como se fosse difícil de ficar me olhando. — Cadê aquele veneno escorpião, Oliver, que você usa para fazer pesquisas? Hun?! Aposto que tem efeitos super dolorosos e vai valer pelo que fizeram com a minha menininha!

Me diziam que quando zangada – coisa que quase nunca acontece – minha mãe consegue ser tão sanguinária quanto meu pai, agora eu sei por que falam isso.

Levou horas até meu pai e eu conseguirmos fazer com que minha mãe parasse de chorar e esquecer as ideias malucas homicidas dela. No fim, tomei um longo banho e fui mimada o suficiente para os próximos cem anos. Tive que cortar o cabelo, que dá cintura agora batia as pontas no ombro. Minha mãe dizia que estava fofo, só que eu estava pouco me lixando para o cabelo a essa altura do campeonato.

Meu corpo estava tomado por hematomas, isso incluía o rosto, o cabelo era o de menos nessa situação... Francamente? A aparência física não me incomodava, o que me doía era saber que foi resultado de uma briga que eu perdi feio.

Como a minha mãe não conseguia dormir se eu não estivesse por perto, passei a ficar no quarto dos meus pais por alguns dias. E já na outra semana seguinte ao ocorrido resolvi tudo que seria feito. Pedi aos meus pais para não denunciarem e nem mesmo eu iria reclamar sobre o que tinha acontecido.

Eu não queria que elas fossem expulsas, ao contrário, elas não poderiam faltar aula.

Minerva Patel me deu um passe livre na consciência para fazer o que eu quiser sem me preocupar se estava pegando pesado ou não. Eu ia pegar pesado dessa vez e fiz questão de que ela tivesse completa certeza de que Sophie Gasnier Taylor era a culpada, no entanto, só ela saberia disso.

Continua...

[...]

Notas finais
Hey! Esse é o último dramático, podem acalmar o seus coraçõezinhos que esse é último kkkk Esse era para ser um capitulo só, mas eu tive que partir ele no meio por que ficou grande demais. Eu não queria cortar os detalhes para não ficar confuso D: Ah quem não conseguiu ver a imagem : https://s23.postimg.org/yvgimh50r/Sophiepequena.jpg Até o proximo, se tudo der certo amanhã! o/