Especial Inner Beauty
11 Capitulo Onze - Dezessete Parte III
Notas iniciais
Dezessete
Parte III
Era para ser mais um final de semana comum daquele ano – ou nem tão comum, já que o Michael continuava conosco – tivemos um almoço em família tranquilo, e de tarde meus pais foram ter um encontro sem hora para voltar. O que curiosamente me fez pensar no James.
A ideia de que ele havia me convidado para um encontro me fez sentir estranha, afinal eu nunca tinha tido um encontro assim e comecei a pensar que não seria tão ruim. Ele era um garoto legal, educado e inteligente, eu não conseguia cogitar razões suficientes para dizer com todas as palavras: Não quero ter nada com ele.
Eu entendia sobre encontros com o que vi nos filmes, se tratava de duas pessoas que se gostavam saindo para se conhecer melhor e no final ocorria uns beijos na porta de casa... Mas beijar o James? Imaginar isso era meio estranho.
— SOPHIEEE!!! — Estava quieta no quarto quando aquela criatura me gritou. Respirei fundo, coloquei a cabeça para fora da janela revidei.
— O que é?! — Berrei em retorno. Michael devia estar lavando o carro naquele momento, na entrada da garagem de casa.
— UMA COBRA! EU vou MATAR ela! — Arregalei os olhos com o peito apertado e sem pensar duas vezes sai correndo para impedir tamanha atrocidade
— Nãoooo! Não faz isso Michael! Eu vou tirar ela daí! — Falei aos gritos correndo sem parar até chegar no lado de fora de casa onde ele se encontrava.
Ao chegar ofegante, meu primo estava de bermuda preta com listras amarelas segurando a mangueira e apontou para um arbusto perto dele atrás do carro. Andei devagar olhando com cautela e não tinha nada lá... Eu havia caído numa armadilha.
— Mi-... — Não deu tempo de completar o nome ou mesmo pensar em correr, ele já tinha puxado o gatilho da pistola da mangueira bem em cima de mim. Soltou uma risada estrondosa com seu feito, e na raiva que senti avancei na primeira que vi por perto... Um balde com água e sabão.
— Sophie... Sophie era brincadeira, eu... — Joguei de uma única vez bem na cara dele sem dó nem piedade. Ele esfregou a mãos nos olhos que ardiam e proferiu alguns palavrões baixinhos que eu não ouvi por que era minha vez de rir.
Assim que os olhos pararam de arder me fuzilou de maneira intensa e eu fiz o mesmo parando de rir: A guerra havia começado.
Avancei sobre ele tentando pegar a mangueira, o que foi inútil, me segurou com apenas uma mão e apertou o gatilho jogando mais água em mim, porém não fiquei para trás! Fiz de tudo para mover sua mão e acabou que ele se molhou bastante também. Tinha muitos palavrões rolando naquele momento que eu não recordo muito bem... Mas eu lembro perfeitamente do som da sua risada. As vezes só de fechar os olhos eu consigo ouvi-la claramente.
A graça de tudo veio no meio da guerra de água quando eu tentava tirar a mangueira dele e ele me molhava sem parar... De repente, com um sol alto e quente... Começou a chover. Uma chuva fina e gelada que fez com que eu e o Michael nós olhássemos chocados.
Ele soltou o gatilho boquiaberto, encaramos o sol escancarado no céu e as poucas nuvens que causavam a chuva sem acreditar que estava mesmo chovendo. Não sei dizer ao certo a razão do por que eu ri, entretanto, foi o que eu fiz... Me soltei do Michael e comecei a rir.
Uma guerra que simplesmente acabou com os dois molhados na chuva. Parecia até que Deus tinha mandado um recado dizendo: ‘Pronto, molhei os dois! Parem com isso agora!’
E aí, ele começou a rir também e jogou um jato de água bem na minha cara. Sem tirar o sorriso dos lábios avancei novamente sobre ele querendo me vingar, a guerra virou uma brincadeira de criança.
Era um tanto quanto confuso confessar que eu nunca me esqueci o dia em que meus laços com o Michael se romperam, assim como creio que nunca vou me esquecer do dia em que pensei seriamente sobre a terrível verdade de que nunca vou conseguir odiá-lo.
Como podia uma única tarde de risos e brincadeiras me convencer de que na realidade o ódio que eu sentia pelo Michael era outra coisa?
Era muito confuso.
— Se eu ficar gripada a culpa é sua... — Disse num sorriso recebendo a caneca de chocolate, não um chocolate qualquer, mas o famoso chocolate quente do Michael. Eu estava no sofá depois de ter tomada um banho quente e enrolada na coberta. Ele me deu uma risadinha em retorno.
— Que isso...? Uma chuvinha dessa não gripa ninguém. — Comentou sentando ao meu lado. — Olha que magnifico! — O fitei pelos cantos dos olhos assoprando a bebida. A televisão estava desligada, não tinha nada de magnifico ali.
— O quê?
— Eu e você. Estamos aqui, no mesmo sofá e até agora você não me chutou! — Sorri travessa.
— Está pedindo para ser chutado, sabia? — Brinquei o que o fez rir.
— Não estrague o momento...! — Abaixei meu rosto olhando o meu reflexo no chocolate. — As... — O fitei e ele estava com os olhos no teto. — ...As pessoas são diferentes, sabe? Passam pelas fases de maneira distinta, quando eu era mais novo... — Suspirou lentamente. — ...Sentia uma solidão enorme, ás vezes ainda sinto e a bebida alivia um pouco... — Pisquei confusa diante o que falava.
— Solidão? Você sempre foi rodeado de amigos Michael! — Ele negou num sorriso.
— Não, não, estar envolta de muita gente não significa ter muitos amigos, apenas que consigo chamar atenção. E algumas carências não são preenchidas pelos amigos... — Girei os olhos virando a cara para o outro lado. Achei que tinha entendido tudo, mas ele riu. — ...Certo, mais ou menos isso que imaginou! Eu não era nem um pouco popular com as garotas e como eu queria que ao menos uma me desse moral... — Contou entre risos e não sei por que eu ri também. — ...Eu fiz muita coisa da qual não me orgulho nem um pouco, muitas das vezes tentando ganhar afeição de gente que não merecia, acabei quebrando a cara diversas vezes. — Voltei a encará-lo. — Mas é assim que a gente conhece as pessoas e nos conhecemos. Eu sei que não fiz a melhor escolha quando me afastei de você, estaria mentindo se dissesse que não sabia que ia te magoar, só que não queria você por perto para me ver fazendo besteira...
— Podia ter me explicado! — O cortei. Ficou perplexo.
— Te explicar? Você era uma criança Sophie! Como é que eu ia te explicar que não podia ficar no meu quarto por que tinha revista pornô para todo canto e queria brincar de médico com a minha namorada? — Fiquei corada só de imaginar e virei o rosto. — AH! Está vendo, você com dezessete anos não aguenta a verdade, acha que a Sophie de dez ia compreender?
— Disse ao tio Dillan que eu ia demais na sua casa e que não queria que eu fosse! — Ele suspirou em desagrado.
— Eu estava zangado. Minha mãe ficou me atazanando o dia inteiro para ficar com você, minha namorada reclamando que eu não passava tempo com ela e meus amigos enchendo o saco por que eu tinha esquecido deles! Isso por que não estou levando em questão o fato do Logan ficar dizendo que minha irmã gostava mais dele do que de mim! Eu estava estressado e descontei... Em você. — Explicou sério. Bebi um gole do chocolate. — Eu fui imaturo, mas eu era um moleque...
— Você ainda é um moleque... — Resmunguei e ele riu bagunçando meu cabelo.
— Só para irritar você. — O fitei nervosa – mas não nervosa de verdade. — Quando... Eu fiquei sabendo do bulliyng e te vi naquele estado, de certo modo eu me senti culpado. — Franzi o cenho.
— De quê? Você...
— Eu não sei, imaginei que se talvez a gente estivesse ainda sendo amigos eu pudesse ter ajudado de algum modo... Mas você nem quis chegar perto de mim, daí eu percebi que provavelmente o que eu tinha feito não tinha volta. — Me lançou um olhar meio triste. — A Sophie que me olhava como se eu fosse incrível não existia mais... — Abaixei o rosto sem poder dizer algo reconfortador como: ‘não é verdade, eu ainda te vejo assim...’, só que seria mentira, eu não via ele assim mais.
— Você não é perfeito Michael, mas não é dos piores... — Murmurei num sorriso tímido. Ele passou os braços pelos meus ombros sorrindo largo.
— Essa é a coisa mais gentil que diz sobre mim há anos... — Dessa vez eu ri com vontade.
— Você não mereceu nos anos anteriores! — Revidei empinando o nariz e ganhei um carinhoso beijo na testa que me incomodou mais do que eu gostaria de admitir. Engoli em seco, forcei um sorriso e acenei como se não fosse nada.
Mas foi.
Meu estomago deu uma volta dentro da minha barriga, meu coração acelerou e eu senti um nervosismo dentro de mim fora no comum. Algo estava evidentemente errado comigo quando se tratava do Michael e meu orgulho finalmente permitindo que eu percebesse.
Ele não era como as outras pessoas na minha vida, eu apenas não sabia como posicioná-lo.
[...]
Tomei a tão esperada decisão que a Claritta queria de mim, embora não pelo motivo que talvez ela queria. A razão era tão vergonhosa que evitava até cogitar... Eu queria entender a diferença entre James e o Michael. Esse sentimento esquisito seria normal? Se eu beijasse o James cujo eu gostava – não intensamente, mas gostava – sentiria bem mais do que aquele beijo inocente que recebi do Michael?
No fundo eu sabia que aquela decisão era um tanto injusta como James, eu devia sair com ele por que queria, por que sentia vontade de passar um tempo a sós com ele ou por que meus sentimentos diziam para fazê-lo, no entanto, a necessidade de descobrir o que havia de errado comigo quanto ao Michael era maior até mesmo que o meu bom senso.
Era óbvio que todo esse dilema não saiu da minha cabeça, até a mesmo a Claritta com sua infinita experiência sobre homens não me deu segurança para se discutir sobre o assunto. Mas eu tinha que descobrir qual era a dos meus órgãos internos que pareciam se agitarem todos de um vez por conta do Michael e se eles se sentiriam assim por conta do James.
— Você comprou uma lingerie para mim? Claritta é meu primeiro encontro, não vou tirar a roupa no primeiro encontro! — Me lançou um olhar de desagrado.
— Nunca se sabe! Vai que você se empolga com a coisa? Beijinhos no carro dá liberdade para apalpar e ao apalpar eu sinto muito... Você não vai conseguir parar! — Retrucou empolgada. Apenas girei os olhos. Peguei uma meia calça preta, minha bota e... — Não! Não! Está louca? Para quê esse tanto de roupa? E tudo cor fechada, de jeito nenhum! Você tem que usar umas cores mais vivas que insinue que está feliz, como um presente embrulhado que ele vai ganhar se fizer tudo certo! Com essa roupa o coitado do James só vai ficar se perguntando o que ele fez de errado para você se vestir como uma freira no encontro! — Respirei fundo, a principio não quis ouvir os conselhos dela, mas pensei um pouco e resolvi que por enquanto eu seguiria algumas das dicas malucas dela.
— Está bem... — Abri meu guarda-roupa e ofereci a ela com um convite no olhar de ‘vai em frente, escolha’.
— Uuupiiii! — E começou a mexer com um olhar bem sério mordendo os lábios como se a decisão fosse de extrema importância — Nossa... Parece o guarda-roupa de um caipira, nunca vi tanto xadrez assim na vida. — Voltei para a penteadeira e comecei a me maquiar.
— Só escolhe, Claritta. — Revidei passando um suave lápis preto nos olhos. Depois uma base para esconder algumas das minhas sardas – gosto delas, mas não de todas.
— Ok, ok. Primeiro encontro requer uma saia bem sensual...
— Não exagera, conhece o meu pai, se ele me ver saindo com uma minissaia vou ser barrada na hora. — Ouvi ela rir concordando.
— Ah é, tinha esquecido que é necessário passar pela fiscalização do seu pai! — Dei um sorriso afirmando. Ela pegou uma outra meia calça minha preta e colocou em cima da cama.
— Uhum, faz muita lógica brigar comigo por uma meia calça e então escolher uma meia calça da mesma cor. — Ela deu uma risadinha.
— Pense comigo: Vestido no primeiro encontro é muita inocência, calça jeans é casual demais, então a saia é a melhor opção, não vai te deixar tão séria e nem tão puritana, a questão é que teu pai é um mala e não vai deixar você sair com as pernas de fora, o que significa que uma meia calça preta é necessária... — Ela pegou a meia calça que eu escolhe e colocou ao lado da dela. — Essa é muito escura, enquanto essa já é meio transparente e MUITO sexy! O que significa que vai tampar parcialmente as pernas sem deixar de estar sexy! — Rolei os olhos, tantas regras idiotas.
— Ok.
— Gosto de azul escuro em você, então... — Voltou ao meu guarda-roupa e tirou uma saia florida azul marinho. Até que eu gostava daquela roupa. — ...Certo, agora um contraste, alguma cor que... Uhhh! Que fofo! — Me mostrou uma blusa de mangas longas minha feita no tricô. — Por que nunca te vi com isso? É a tua cara! — Sorri de lado.
— Foi presente da minha avó, eu uso, é que normalmente somente em casa, ele é quentinho, nos dias frios eu custo tirar ele... — Contei e ela sorriu largo.
— Combina horrores com as flores rosas da saia! Para dar um tchã usa uma camisa de gola polo por baixo branca, vai ficar uma fofura! Se o James não quiser te morder essa noite, eu desisto desse cara! — Gargalhei imaginando a cena meio trágica dele tentando me morder. Credo! Morder?
E foi seguindo os conselhos malucos da Claritta que eu me vesti. Confesso que quando fiquei pronta sabendo que o James estava lá em baixo a minha espera meus nervos se agitaram, minhas mãos suavem e tinha uma certa sensação esquisita no peito.
Papai estava ao final da escadaria com cara de poucos amigos com os braços cruzados – ele foi literalmente obrigado pela minha mãe a aceitar o encontro calado e sem regras sem sentido, então era de se esperar que não fosse ficar feliz. Mamãe colocou a mão na boca um tanto emocionada e... FLASH!
— Mãe! — Briguei ficando vermelha.
— É seu primeiro encontro eu quero ter uma lembrança disso! — Replicou empolgada vendo a imagem no celular. Bufei em desagrado e fitei o meu pai.
— Pai, eu vou me comportar, é só um jantar. — Virou no meu rumo com um bico.
— E essa saia desse tamanho? Não tinha uma calça jeans ou uma saia longa, não? — Rolei os olhos sem dar moral. Andei até a sala de estar onde meu par para a noite estava batendo papo com o Michael sobre esporte – Michael não se conformava com o fato do James não saber nada sobre jogo algum.
— São três tentativas para cada jogador! Quando en... — Tentou explicar o bobão do meu primo.
— Estou pronta. — Falei apertando uma mão contra a outra. Assim que me viu James se levantou num pulo e ficou tão vermelho quanto meu cabelo – o que me deixou vermelha também.
— Ah! Uau... Ah... Nossa... — Balbuciou as palavras, mexeu as mãos acenando para mim. — ...Você... Eh... Está... Ah...
— Está bonita...? — Completou Michael o que me deixou mais sem jeito ainda.
— É, é isso. — Concordou meu par que sorriu acenando. Acenei com a mão para irmos e tropeçando nos pés ele veio.
Apesar do desejo de dar uma última olhada no Michael, virei de costas e esperei pelo James segurar minha mão caminhando até a porta ignorando o olhar ameaçador do meu pai. Claritta continuou na escadaria com um sorriso largo e entusiasmado – parecia até que era primeiro encontro dela e não o meu.
— Divirtam-se! — Gritou quando saímos.
— Não se esqueçam que o toque de recolher é as... — Minha mãe deu um peteleco no meu pai antes que ele concluísse a frase e fechou a porta atrás de nós.
— Não se preocupe, ele não vai fazer nada. — Tranquilizei James que parecia meio amedrontado com o timbre de voz do meu pai. Abriu a porta do carro para mim e eu entrei. — Não devia ter concordado em deixar a Claritta lá em casa... — Murmurei quando ele adentrou o veículo e ligou a ignição. James lançou um meio sorriso mais tranquilo.
— Não é possível que depois de tantos avisos seus e com seus pais em casa ela seja louca de fazer algo. — Retrucou e pensei um pouco rindo.
— É, não é? Besteira minha, a Claritta é doida, mas também não é ao ponto de dormir com o meu primo com meus pais dentro de casa. — James tornou a sorrir carinhosamente.
— Ela é sua amiga, dá um pouco de confiança para ela. — E eu concordei no mesmo tempo. Relaxei no banco e num suspiro aliviado me virei para ele.
— Então... Onde vamos? Sugiro sairmos daqui, pois tenho certeza que meu pai está nos espiando da janela. — Ele riu e assentindo.
— Já que você é vegetariana, que tal comida japonesa? — Lancei um sorriso torto para ele.
— Considero carne de peixe tão carne quanto qualquer outra carne, embora me pareça divertido te ver comendo Salmon. — O carro já estava andando e ele começou a rir.
— Nada de comida japonesa então, que tal massa? Você come massa, certo? — Abri um sorriso afirmando.
— Uhum! Massa seria perfeito.
Eu sinceramente não tenho do que reclamar. Foi uma noite bastante agradável, James me contou praticamente tudo sobre a família dele, e ficou muito surpreso quando eu contei sobre a minha. Acho que o que mais impressionou ele eram as brigas constantes que geralmente tinham durante as festas em família, afinal não é muito comum ter um tatame numa festa familiar para alguém quiser sair na porrada com outro da família.
Senti várias coisas naquele encontro, um pouco de nervosismo, ansiedade, minhas bochechas coraram em inúmeras ocasiões como quando o garçom perguntou: “O que os pombinhos vão querer”. Eram muitas sensações, mas não era a mesma coisa.
E eu pensava demais no Michael durante a conversa, como ele seria num encontro, se tentaria me fazer rir – o que era óbvio, por que o Michael era um palhaço – se ele era daquele tipo de cara que mudava de acordo com a ocasião e fosse ficar sério num momento assim, se acaso ele soubesse dizer palavras românticas... Os pensamentos sobre ele se acumularam de um tanto que aos pouco eu olhava para o James e me sentia culpa, sem jeito, ou confusa, como se com isso eu estivesse de alguma forma traindo dele – o que era tolice já que não tínhamos nenhum relacionamento oficializado.
Tentei de todas as formas tirar o Michael da minha mente, mas conforme íamos voltando para casa ficava mais evidente que meus sentimentos pelo James era inferiores, embora eu jamais iria confessar isso... Por essa razão eu tomei a iniciativa de aprofundar as coisas.
— Então... Foi bem legal, não é? — Ele perguntou me levando para a porta de casa. Estava tudo escuro lá dentro, olhei no relógio e já era meia noite meia.
— Foi muito agradável, obrigada. — Disse sem jeito criando coragem para a próxima ação. Respirei fundo assim que paramos, ele levantou o rosto sorridente e gritei na minha mente: É agora ou nunca!
— Quem sabe, no... — É, eu beijei ele. Foi um beijo pouco romântico, por que eu forcei a barra, porém foi um beijo que pelo menos eu quis.
O vermelho passou dos meus cabelos para o rosto quando enlaçou minha cintura correspondendo, e digo que a primeiro momento o beijo de língua me pareceu meio nojento. Até que aos poucos eu me acostumei a sensação de vergonha ficava mais forte e nada parecia tão estranho.
Mas ainda não era a mesma coisa.
— Então tchau... — Falei roxa de vergonha quando o beijo cessou ele ficou me olhando que nem um peixe morte de boca aberta. Acho que ele deve ter se despedido, mas só depois que eu fechei a porta. Coloquei a mão na boca e não acreditei no que eu fiz e pior... Descobri que entre expectativa e realidade existia uma distância enorme. Pelo o que todo mundo falava sobre beijos eu imaginava algo mais descontrolado e intenso, cheguei à conclusão de que talvez eu tenha feito do jeito errado.
Isso mexeu com a minha cabeça, tranquei a porta da entrada subindo as escadas decidida a acordar a Claritta e conversar sobre o assunto que ela mais entendia... Interação sexual. Não era possível que o beijo fosse só uma sensação curiosa e úmida entre duas bocas, tinha que ter mais.
Parei, respirei fundo e soltei o ar num suspiro, assim que minha mão alcançou a maçaneta outra porta se abriu, porta do quarto ao lado e... Destruiu toda a minha noite.
Mantive meus olhos presos na cena caótica da minha melhor amiga rindo saindo do quarto do Michael antes de dar de cara comigo – estava tudo escuro, ela não devia estar me vendo.
— Acho que ela... — Antes de completar a frase nossos olhares se encontraram, não sei qual era o mais espantado o meu ou do dela.
Tentei contar até dez, tentei controlar minha respiração, tentei pensar numa música para me acalmar... Mas tudo que veio na minha cabeça foi a voz do James dizendo ‘Ela é sua amiga, dá um pouco de confiança a ela’. A dura verdade da sociedade é que não dá para confiar em ninguém. Meu orgulho ferido voltou com tudo e tomou conta da situação ou bem provável que eu começaria a gritar e acordar todo mundo em casa. Michael colocou a cara para fora com uma expressão de encrencado e eu fiz a coisa mais sensata que o meu orgulho me ordenou...
Abri a porta do quarto e num olhar bem seco para Claritta disse:
— Sabe onde é a saída, use-a. — Entrei e tranquei a porta antes que pudessem vir com explicações fajutas.
— Pimentinha...! — Ouvi me chamar batendo a porta. — Pimentinha... Calma aí, deixa eu... Vamos conversar sobre o encontro! Hey! — Continuou batendo na porta. Respirei fundo, mantive a calma e abri. Ela sorriu largo, mas diante meu semblante logo fechou.
— É simples, ou sai da minha casa agora ou eu acordo meu pai e conto o que aconteceu, você escolhe. — Falei bem fria. Ela abriu a boca para falar quando Michael se adiantou.
— Sophie, pega leve eu...
— De você eu espero tudo de ruim Michael! Me sinto meio idiota por pensar que poderíamos fazer as pazes, mas está mais do que claro que nunca vamos nos entender! — Revidei o interrompendo. — O problema não é o passado, o problema é quem você é hoje... Um imbecil frívolo nojento que se quer sabe respeitar minha melhor amiga... — Soltei um sorriso debochado. — ...Digo, a melhor amiga que eu pensei que tinha.
— O quê? Ahh! Pimentinha, não exagera, não é como se nós... — Franzi o cenho e cruzando os braços.
— Não é como se o quê? — A atropelei. — Se eu tivesse pedido para não se envolver com a pessoa que eu mais odeio no mundo?! Não, espera! Eu pedi... E olha só no que deu! Sabe... — Engoli em seco sentindo o sabor amargo do ressentimento. — ...Eu sempre achei que as pessoas estavam erradas sobre você, que Miss Mine fez muito mal ao sair espalhando aquelas ‘coisas’ sobre você, mas agora eu vejo que elas tem toda razão... Você não passa de uma prostituta barata... — Mirei o Michael e ela ao mesmo tempo. — ...Se merecem.
Claritta estava estática, com a boca aberta e os olhos cheios de lágrimas, entretanto em não me importei por que minha raiva era bem maior do que a consciência. Ela mordeu os lábios e saiu de fininho cabisbaixa. Tanto eu quanto o Michael acompanhamos ela sumir das nossas vistas e o bater da porta. Engoli em seco me virando furiosa para o infeliz que me lançou um olhar desaprovador.
— Nãoo! Isso não está certo, você exagerou! Vem... — Ele me puxou pela mão rumo as escadas e me soltei de forma violenta dando um tapa bem forte na cara dele – a vontade era de dar muito mais tapas.
— Não toca em mim! — Berrei enfurecida. — Urgh! Nunca mais toque em mim... Eu tenho nojo de você Michael! Dormiu com a minha melhor amiga enquanto podia ter qualquer mulher na cidade e você diz que EU exagerei! Sabe em que exagerei? Eu exagerei ao considerar que tinha alguma coisa boa em você, mas eu me enganei, você... Não um terço do homem que é tio Dillan, é só uma cópia mal feita... — Falei o olhando com desprezo dos pés à cabeça. Quando o encarei estava atônito com a mão esquerda no rosto e bastante abalado.
Entrei no meu quarto e o orgulho me deu um pouco de espaço para chegar na minha cama e chorar. Era como se eu tivesse perdido minha melhor amiga e alguém especial na mesma noite. Se eu tinha algum sentimento pelo Michael com certeza ele foi tomado pelo ódio mais uma vez.
[...]
Claro, os dias que se seguiram foram terríveis. Claritta tentou de todas as formas conversar comigo para se justificar, usou até o James que eu ameacei que se ele trouxesse mais um recado dela eu jurei parar de falar com ele. Michael, esse pelo menos me deixou quieta, não me provocou, não me chateou e nem mesmo falava direito comigo.
Mamãe comentou certa vez que ele parecia triste, só que minha raiva não me deixava preocupar com isso, no fim meu orgulho meu convenceu que tudo não passava de ‘remorso’ da parte dele.
— Vai me ignorar para sempre agora? — Claritta avançou sobre mim séria. — Somos amigas, amigas se perdoam sabia? Eu já disse que sinto muito, eu não sabia que esse ódio seu pelo Michael era tão sério! — Me virei para ela nervosa.
— Não sabia? Eu te pedi Claritta! Eu nunca te peço nada, nunca e a única coisa que pedi a você em todo esse tempo de amizade e você ignorou! — Com os olhinhos cheios lágrimas ela se encolheu.
— Eu sei, eu sei! Me desculpa! Na hora não tinha nada para fazer, ele estava abatido com o fato do time dele ter perdido, tinha cerveja no meio e eu me deixei levar... Poxa pimentinha, não é o fim do mundo! Foi só uma noite! — Girei os olhos mais nervosa ainda por ter ouvido aquilo.
— É como dizem, demora se anos para conquistar a confiança de alguém e segundos para se destruir... — Murmurei caminhando para fora do colégio. — ...Você destruiu em uma noite. — Tornou a se encolher e ficar para trás.
E quando eu pensei que essa situação não iria mais piorar – o que era um erro meu se tratando da minha vida caótica – eis que ao chegar em casa meus pais estavam casa para meu espanto e o Michael também, todos juntos com um semblante de pena.
Meu pai se levantou primeiro com os braços abertos – o que era um péssimo sinal – mordeu os lábios e pigarreou.
— Meu bem, a Indila fugiu... — Arregalei os olhos perplexa negando.
— Não! Nãoo! Eu fechei a tampa e...
— Com certeza não fechou direito, Sophie, por que ela abriu e fugiu... — Coloquei a mão na cabeça num suspiro longo sem acreditar naquilo. Era verdade que desde que tinha brigado com a Claritta eu estava com a mente nas nuvens e era bem provável que não tinha fechado direito.
— Certo, eu vou procurar ela. — Disse séria, mas o olhar de pena da minha mãe entregou que só o fato dela ter fugido não era a notícia inteira. Michael mantinha a cabeça baixa.
— Sophie... Um dos nossos vizinhos encontrou ela no quintal... — Dei um passo para trás deixando a mochila cair. Neguei com a cabeça já sentindo o peito doer... Se um vizinho encontrou um réptil de um metro e meio, não tem outro destino a não ser...
— Ma-ma-mataram a minha Indila...? — Perguntei com a voz falha e chorosa. Minha mãe já se levantou vindo me abraçar assim que meu pai afirmou. — Ahhh... Ahhh... Isso não pode estar acontecendo... — Disse aos prantos sem conseguir me conter nos braços da mamãe que para variar chorou comigo.
— Não, não chore meu amor...
— Onde... Está...? Onde a deixaram...? — Ela fitou meu pai apreensiva e parecia pior do que parecia.
— A Indila está morta e pronto! Esquece esse assunto. — Chorei mais, até ao ponto de mal conseguir respirar.
— Oliver! — Danou minha mãe. — O seu pai enterrou com os outros meu amor, achamos melhor você não ver... — Eu não pensei duas vezes antes de me levantar e ir até onde enterrávamos os mascotes que já tinham ido dessa para melhor – o que deixava minha casa mais assustadora ainda.
Claro que tentaram me impedir, mas eu já estava cavando o buraco com a mão quando me alcançaram e não demorou muito até ver a caixa onde a tinham colocado. A cena que eu nunca vou esquecer, não importa quanto tempo passe... Eu sempre vou me recordar de ter visto minha mascote adorada com a cabeça decepada e o corpo embolado ali dentro.
O ano em que parecia estar tudo se encaixando de repente se tornou o mais devastador de todos... E ele ainda nem tinha terminado.
[...]
Continua...
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