Especial Inner Beauty
17 Capitulo Dezesseis - Final de Ano III
Notas iniciais
Final de Ano
Parte III
Naquela manhã acordei entre bocejos incessantes me esparramando pela cama sem a menor vontade de sair dela. Com os olhos fixos no teto e o quarto completamente escuro, demorei um pouco até ter consciência de tempo e espaço para raciocinar direito. Havia um som suave ao fundo que lembrava as músicas ambientes que geralmente eu usava na yoga para meditar, um vento tranquilo soprando e o som relaxante das marés indo e vindo.
Franzi a face ainda encarando o teto com a palavra ‘maré’ rondando a minha mente, aos poucos girei o rosto analisando ao redor notando móveis nada familiares. Aliás, nem mesmo o teto que fiquei olhando por uns bons minutos era familiar, pois tinha um lustre charmoso pequeno.
Ergui o corpo assustada observando cada canto daquele quarto que apesar de estar remotamente escuro com certeza não era o mesmo quarto ao qual eu havia deitado para dormir na noite anterior. Para começar estava arrumado, o quarto do Michael podia até estar num ‘arrumado’ do jeito dele, mas não era um arrumado organizado como esse. Não havia pôsteres com carros e mulheres seminuas, jaquetas ou calças jogadas num canto ou tênis debaixo da cama – até isso olhei no pânico.
E estar sozinha então, não me deixou nenhum pouco mais calma.
Eu tinha uma vaga lembrança de ver o Michael dirigindo, recordo dele dizer algo como ‘você é muito fácil te sequestrar’ entre um sorriso e outro, um flash de estar numa recepção, mais nada além disso. E só a menção dele ter me largado naquele quarto sozinha já me fez trincar os dentes de raiva.
Respirei fundo e lentamente comecei a andar por aquele quarto sentindo um tapete felpudo nos pés. No canto, havia uma poltrona em cima do tapete e uma TV no outro extremo do quarto, no meio um centro de mesa com um jarro de flor artificial.
Cheguei na cortina onde o som do mar ficou mais forte, a abri de uma vez e o sol alto quase me cegou nos primeiros momentos. A vista do que eu vi em seguida simplesmente apagou minha mente, de repente eu nem mesmo me lembrava do que ou quem estava com raiva.
Um mar imenso num azul denso se estendia pelo horizonte, uma praia logo abaixo, e de longe se podia avistar um píer cujo a roda gigante chamava toda a atenção. Minha boca ficou aberta por uns bons minutos sem que eu conseguisse acreditar que estava num lugar tão lindo – aliás minha maior incredulidade era o fato de estar ali sendo trazida pelo Michael.
A pergunta que tomava minha cabeça era: “O Michael enlouqueceu e me trouxe para cá?”
Ele com toda certeza não era do tipo que fazia essas coisas por nada. Ainda assim, não perdi meu tempo com dúvidas ou pensamentos negativos. Corri para o banheiro, escovei os dentes dando uma rápida lavada no rosto e na ansiedade que eu me encontrava apenas penteei os cabelos com os dedos só para ele ficar mais comportado.
— Aleluia! A bela adormecida resolveu acordar! — Abri a porta do banheiro assim que ouvi o som daquela voz debochada soar. O sorriso no meu rosto se estendeu e não pude conter a vontade de simplesmente pular em cima do Michael contente.
— Onde você estava? Onde nós estamos? — Perguntei espalhando beijos pela face inteira. Ele me apertou contra si dando um risinho.
— Gostou da vista? Viu só como de vez em quando acabo acertando? — Afastei sem desfazer o abraço.
— Um acerto contra trezentos e quarenta e cinco erros, é... Pelos menos está progredindo com a sua balança. — Brinquei e ele fez uma careta.
— Eu tenho uma balança? Minha nossa... — O beijei suavemente rindo. — ...Não dá para dar um reset nela? — Me puxou para a varanda abrindo a porta de vidro acenando para o mar. — ...Isso não te comove a perdoar todos os pecados da humanidade? — Fiquei de frente para ele pensando.
— Vou perdoar o fato de você ter me largados esses dias anteriores sozinha, mas não posso tirar mais do que isso da balança senhor Cooper... São anos de espera... — Murmurei a última parte um tanto sem graça.
— Então só me resta compensar, não é? — Brincou tornando a me abraçar.
— Esse é um ótimo verbo para a sua situação: Compensar! — E aproximou o rosto do meu num beijo carinhoso. De repente me empurrou do nada assustado.
— Ah droga! São nove horas, se arruma para o café por que eles param de servir as nove e meia. — Franzi o cenho confusa, mas não contestei.
— A gente toma em outro lugar se eles fecharem... — Murmurei apenas calçando uma sandália e procurando minha bolsa.
— Sophie, eu quase saí na porrada com o recepcionista lá embaixo para ele incluir o café da manhã na nossa estadia e você vem me dizer para irmos em outro lugar? — Sorri de lado o encarando.
— Você briga por tudo Michael. — Debochei dele indo no seu rumo.
— Para sua sorte, não faz nem ideia da briga que eu vou comprar por ter te trazido aqui. — Saímos do quarto que trancou automaticamente assim que fechou.
— Não vai não, eu vou ligar para o meu pai e ele vai até gostar de passar o final de ano sozinho com a mamãe. — Coçou a nuca caminhando para o elevador apressado. Segurei sua mão para ir com calma. — Michael a comida não vai acabar, sabia? — Brinquei e ele riu.
— Sophie, eu estou a dois dias sem comer direito por sua causa, será que a ‘doninha’ pode entender o meu lado e apressar o passo? — Dei uma risada sendo puxada por ele.
— Como assim por minha causa? — Entramos no elevador e ele apertou o botão do restaurante.
— O que acha que venho fazendo desde que cheguei? Estava tentando te trazer para um lugar bacana, a questão é que um monte de filho da... — Olhou para mim e conteve o palavrão. — ...Resumindo, quase tive que dá a bunda para a gente vir para cá. — Completou sorrindo. Ah é, adiantou muito segurar o palavrão e dizer isso em seguida.
— Não precisava ter feito tudo isso, eu ficaria mais do que contente só de passarmos esses dias juntos. — E era verdade, o lugar nem de longe era a melhor parte daquilo. Me abraçou de lado bem apertado.
— Precisava sim, além disso eu disse que a gente ia viajar no ano novo só nós dois. — Fiquei um pouco vermelha ao recordar o dia que disse isso.
— E você lembra do que faz depois que bebe? — Ele sorriu me apertando mais.
— Uhum, tudinho! Até de você se aproveitando de mim... — Arregalei os olhos negando.
— Eu não! Você que ficou todo meloso e veio para cima de mim, aliás... Precisava mesmo beber daquele tanto? — Fez uma careta coçando o queixo.
— Era uma festa de despedida, eu estava triste e precisando urgentemente fingir o contrário, era beber ou ir bater um papo com a striper do bolo, mas se eu fizesse isso ia me sentir horrível depois... — De repente passei a pensar que a bebedeira não era tão ruim assim. Abaixou o rosto dando um suspiro. — ...Eu acho que preferiria entrar em coma alcoólico do que ouvir você dizer que tem nojo de mim mais uma vez. — Ao ouvir aquilo fiquei surpresa e ao mesmo tempo sem jeito.
— Michael, eu disse aquilo... — Balançou a mão na minha frente rindo.
— Eu sei, eu sei, você estava furiosa comigo e com toda razão, é só que... — Coçou a sobrancelha direita sem graça. —...Sabe, eu escuto esse tipo de coisa o tempo todo desde... Desde sempre, eu acho. — Ele evitava me olhar mantendo os olhos no ponto do elevador qualquer. — ...Diziam que eu era esquisito, feio, briguento, as garotas tinham nojo de mim, os garotos medo, que eu era grosseiro, violento e as ofensas não tinham fim. Digo, isso vinha de toda parte, mas você... — Se virou para mim. — ...Era diferente, desde pequenininha me olhava de um jeito tão... Surreal, como se tudo que diziam era mentira, como se... Eu fosse realmente alguma coisa boa... — Sorri tímida afirmando.
— Eu achava você incrível, corajoso e bonito como o padrinho Dillan e engraçado e divertido como a madrinha Eloise. — Confessei com as bochechas coradas.
— Pois é, e eu me acostumei com isso, todo mundo podia dizer o que quisesse sobre mim, mas você... — Tocou meu rosto. — ...Estava sempre vendo algo bom ainda que não existisse nada disso aqui dentro... — Fez um semblante triste em seguinte. — ...Ouvir a única pessoa que via algo bom em mim por fim dizer que tinha nojo de mim... Me magoou muito, talvez não tanto quanto magoei você mas... — Eu ia beijando ele para acabar com aquele assunto doloroso quando o elevador se abriu. — ...Bacon! — Cortou o clima no exato momento que disse aquilo.
Felizmente chegamos a tempo – não tão a tempo assim, Michael discutiu com um garçom por que ainda faltava cinco minutos para as nove e meia – só que para a infelicidade do Michael o bacon tinha acabado e sobrou alguns mistos quentes e bolos.
Era como se tivessem servido um prato de verduras para uma criança birrenta, o que me fez rir.
— Bacon faz mal à saúde, agradeça a eles por ainda nos trazerem algo. — Fez careta comendo o misto.
— Eu nunca reclamo de comida, juro, uma vez meu pai me levou para um acampamento de sobrevivência e me vi obrigado a matar passarinho para comer! Eu aprendi a dar valor no que tem na mesa. — Explicou revoltado. — A questão aqui é que eu passei duas semanas com o pessoal acampando e tudo era bem dividido, cheguei em casa e tudo começou a dar errado para nossa viajem... — Bocejou chateado. — ...Era para tudo ser perfeito... — Resmungou a última parte. Sorri largo contente.
— Sem sua dieta exagerada de carne e você tem que ficar o tempo todo comigo, quem disse que não está perfeito? — Ele riu jogando a cabeça para trás dando outro bocejo.
— Engraçadinha, vou te lavar numa churrascaria a noite, que tal? — Bebi um pouco do café semicerrando os olhos.
— Senhor Cooper, se eu o conheço o suficiente... — Analisei a figura na minha frente rindo. — ...Diante da magnitude desse lugar e sua ligeira avareza desde que chegamos tenho para mim que tal atitude não é do seu feitio, o que me leva a crer que não, seus planos para a noite certamente não serão numa churrascaria. — Ele se fingiu de ofendido colocando a mão no peito.
— Está me acusando de segundas intenções? — Apoiei os cotovelos na mesa o encarando. Ele jogou um pouco de sal na mão comendo depois de outro bocejo.
— Hum?! Isso tudo é falta do bacon? — Questionei intrigada e ele riu.
— Nada, só para aumentar minha pressão, para eu estar com sono a essa hora só pode significar que deu uma baixada... — Encolhi os ombros um pouco assustada.
— Você tem pressão baixa? — Voltou a sorrir
— Tá tranquilo, quando sairmos daqui eu como algo pesado e passa, você não me respondeu espertinha. — Tentei recordar sobre o que estávamos falando e ao final sorri mordendo o lábio inferior.
— Achei que fosse retórica, até parece que nasci ontem para não saber que não sou a primeira garota que você arrasta para um lugar desse com a evidente intensão de ser compensado a noite. — Abriu a boca para responder, mas foi interrompido pela garçonete que trouxe mais uma xícara de café. Se virou para mim com um sorriso malicioso.
— Primeiro, essa não foi a minha intenção principal, e sinceramente me irrita o fato de você achar que só penso nisso. — Fiz um bico não dando credibilidade ao que dizia. — Segundo, tenho mesmo cara de quem faz isso aqui com frequência? — Apontou ao redor. Olhei em volta e particularmente não conseguia imaginar o Michael levando uma garota num lugar desse só para dormir com ela.
— Hum, me trouxe para se redimir? — Chutei depois de terminar meu café. Suspirou passando a mão na nuca.
— Minha moral com você é extremamente baixa pelo visto... — Eu não podia mentir só para fazê-lo se sentir melhor quanto a isso.
— Bastante, embora ‘extremo’ seja exagero. — Ele me deu um sorriso torto empinando o nariz.
— Ainda assim está aqui comigo...?! — Questionou rindo.
— O que posso dizer? Não consigo não gostar de você, não é definitivamente o Michael que eu idolatrava quando criança, mas ainda é o Michael que eu não consigo odiar. — Dizer isso mudou o humor dele de certo modo e me deixou envergonhada.
— Que jeito meigo e confuso de dizer que me ama não importa o que eu me torne... — Eu até pensei em refutar, só que seria uma mentira negar aquilo. Abri a boca para perguntar se o mesmo poderia valer para ele, só que o celular dele me interrompeu.
— Se prepara por que é a louca da minha mãe. — Dei um tapa na mão dele por falar daquele jeito da madrinha.
— Não fala assim dela! — Riu mexendo os ombros. Colocou o celular no ouvido e em menos de três segundos desligou assustado.
— Puta merda...! — Exclamou surpreso. — ...O X9 do meu pai me dedurou... — Murmurou respirando fundo e retornando a ligação dessa vez em vídeo. — ...Bom dia mamãe! — Tentei entender mais ou menos, mas o áudio estava baixo, porém dava para perceber que ela não estava nem um pouco contente. — A ligação estava falhando, o que você disse? — Ele deu um sorriso tão cínico que sinceramente eu cheguei a entender por que a madrinha estava nervosa. — Menina? A Sophie?! Ela está ótima! — Arregalei os olhos sorrindo pedindo em mimica para passar para mim. — Eu prometo que não vou fazer nada que ela não queira... — Meu sorriso deu lugar a um semblante constrangido, o que ela disse para ele responder isso? — Não se trata só do que eu quero... — O encarei um pouco assustada sobre o que era o assunto e ele balançou mão querendo me tranquilizar. — Só vendo para crer, não é? — Ele riu negando — Já que você está tão preocupada, por que não diz isso para ela? — Fiquei um pouco preocupada, só que achei que era melhor eu tranquiliza-la. Peguei o celular aproximando para ouvir ela melhor.
— Oiii Madrinha! — Acenei para ela sorridente.
— Oi princesa! Como está? — Um pouco envergonhada acenei que bem.
— Estou bem, a senhora não precisa se preocupar. — Ela soltou um sorriso meio nervoso.
— Meu anjo, você não acha que devia ter pedido permissão ao seus pais para viajar assim? — Eu tinha ligado para eles pouco depois que entramos no restaurante.
— Eu já conversei com eles, eles deixaram. E aqui é tão bonito madrinha! A senhora devia vir! — Isso mudou o humor dela na hora que sorriu bem largo concordando. Mas Michael me fuzilou negando.
— Eu adoraria princesa, onde vocês estão? — Michael havia feito sinal de negação, porém como eu falaria isso para ela?
— Ah estamos em... — Ele avançou sobre o celular se virando no rumo dele.
— Um lugar muito longe! Bom mamãe, temos que ir, mais tarde a gente se fala. Te amo mãe! — E desligou. Abri a boca perplexa.
— Por isso ela pega no seu pé Michael, qual o problema dela vir? — Me fitou debochado.
— Sério Sophie? Chamar minha mãe para cá? Será que você lembra da ‘distância de segurança’? — Encolhi fazendo um bico.
— Acabou de dizer que não era sua intenção principal... — Desligou o celular deixando ele de lado.
— Quando estivermos sob quatro paredes e você vier com ‘Oh Michael, você dorme com qualquer uma menos comigo” vou te lembrar de agora... — Virei o rosto ruborizada. Ele não tinha nada que jogar aquilo na minha cara.
— Trezentos e quarenta e seis... — Murmurei num bico enorme. Deu uma risada divertida.
— A tendência é aumentar, não tem noção do quanto adoro te ver irritada. — Mesmo nervosa e vermelha virei o rosto no seu rumo mostrando a língua e em seguida terminando meu café.
Por que tenho que gostar desse imbecil?
[...]
Tínhamos subido para o quarto apenas para que eu trocasse de roupa – uma mais quente já que lá estava frio – saí do banheiro e sentei na poltrona para calçar as sandálias novamente. Levei meus olhos até o Michael que tinha a mão na cabeça e se apoiava na porta do quarto. Franzi o cenho notando ele balançar a cabeça.
— O que foi? Está com sono? — Perguntei e ele me lançou um olhar zonzo.
— So... Sophie... Escuta... — Disse afastando da porta e vindo para o meu rumo quase cambaleando.
— Você está bem? Quer tomar um remédio? — Apertou os olhos e negou.
— Não se assusta... Eu... Es... Bem... — E antes que a frase pudesse ser concluída eu vi a cena mais apavorante da minha vida. Michael caiu praticamente do meu lado no carpete a minha frente.
Meu coração parou de bater, fiquei estática sem conseguir nem mesmo respirar com os olhos presos no rapaz caído imóvel no chão ao meu lado. Meu pai havia me obrigado a fazer um curso de primeiro socorros e eu tinha alguma noção de como manter a cabeça fria e agir diante uma situação dessa...
Mas aquele caído ali era o Michael... Eu jamais estaria preparada suficiente para vê-lo naquele estado imóvel. Quando soltei o ar preso na garganta o desespero começou a bater e praticamente me joguei no chão sem conseguir emitir qualquer som. Com as mãos tremulas e apavorada virei o corpo do Michael no meu colo e dei alguns tapinhas fracos no seu rosto para verse acordava.
Eu não conseguia raciocinar direito.
— Michael... Michael... —O chamei sem forças dando leves toques no seu rosto. — ...Michael por favor... Ah meu Deus... Por favor... Abre os olhos... — Choraminguei tentando pensar em algo útil para fazer.
Tudo que me veio na cabeça foi o telefone no criado mudo e a ideia de ligar para a recepção. Numa ação rápida engatinhei até lá chorando e implorei ajuda para a moça que me atendeu.
Eu tive uma certa sorte – se é que isso seja sorte – o Hotel tinha preparo para situações de emergências em casos de saúde. Por isso havia sempre um médico de plantão para os clientes do hotel. Um senhor de cinquenta e poucos anos num jaleco veio, mandou alguns rapazes que vieram com ele colocar o Michael na cama e me fez umas perguntas.
— Anemia? O Michael come por oito pessoas, como isso pode ser anemia? — O senhor deu um singelo sorriso.
— Eu não posso responder sem ter o histórico médico dele, mas pelo que me disse e pelos sintomas, é quase certo que seja anemia. — Arregalei os olhos sem soltar a mão do Michael. — Provavelmente a pressão dele baixou por falta de nutrientes. — Comentou guardando suas coisas na maleta. — Como posso te explicar de uma forma bem simples... Não adianta ele comer por oito pessoas se ele gasta energia por dez, entendeu? — Afirmei ainda preocupada. — Faça ele comer adequadamente quando acordar e com uma boa noite de sono vai estar novinho em folha pela manhã!
— Obrigada. — Agradeci indo com ele até a porta.
— Qualquer coisa pode ir no consultório ao fundo da recepção. — Acenei mais uma vez como agradecimento o vendo se distanciar. Fechei a porta me virando para o Michael que ainda não tinha acordado.
— Nunca mais vou te criticar por comer demais... — Sussurrei subindo na cama e me deitando ao lado dele.
Tenho que confessar... Aquele foi o dia mais apavorante da minha vida. Ver o Michael cair molenga na minha frente, logo o mesmo Michael que eu nunca se quer vi doente nos seis meses que ficou lá em casa, o mesmo que bebia e bebia e ainda estava inteiro no fim do dia... Aquela certamente foi a pior sensação que já senti na vida. A dor que senti pela Indila, pelo Jean-Jean Vieve ou qualquer outra dor que eu já havia conhecido não se comparava a dor apavorante de vê-lo desmaiar como um cadáver sem vida.
A ideia de perder o Michael... Era mil vezes pior do que a ideia de não ficar com ele. Por mais que o destino nos mantivesse longe, passei a cogitar enquanto vigiava o seu sono que era melhor ter ele longe sabendo que está bem do que tê-lo comigo e o perdendo em seguida.
Foi quando finalmente entendi meu pai e percebi que muitas de suas atitudes super-protetoras eram bastante justificáveis.
[...]
Não vou mentir, quando o último prato que pedi no restaurante chegou eu senti um certo mal estar, mas era só olhar para a criatura deitada na cama e todos os meios se justificavam. Eu desci no restaurante e pedi para levar ao quarto sete tipos de pratos diferentes de comida, tecnicamente o que mais diferenciava eles eram as carnes, muita carne vermelha e branca. E claro, pedi uma porção extra enorme só de bacon... Meu coração doeu ao ver tantos animais aos pedaços espalhados em cada prato... Só que era pelo Michael e como meu pai, eu preferiria acabar com uma fauna inteira do que vê-lo desmaiar de novo.
Meus votos de vegetariana foram quebrados de forma indireta, porém naquele momento nem me importei.
— Mmm que cheiro bom... — Ouvi a voz atrás de mim e fiquei incrédula. Ele tinha acordado com o cheiro da comida? Me virei subitamente o vendo coçar a bochecha confuso e sonolento.
— Michael... — Praticamente me joguei na cama perplexa e contente. — ...Você está bem? Como se sente? — Franziu o cenho olhando em volta dando um longo suspiro se jogando na cama num rosnar.
— Nãooo acredito que desmaiei... — Resmungou meio nervoso, mas eu não me importei indo para o lado dele e tocando sua testa.
— Você se sente bem? Eu chamei um médico e ele disse que você tinha... — Se sentou colocando a mão na minha frente negando.
— Você chamou um médico? — Me interrompeu incrédulo.
— Chamei! Você caiu do nada no chão, o que queria que eu fizesse? — Fechou os olhos negando. — Ele disse que você...
— Eu que tenho pressão baixa e desmaiei por falta de alimentação adequada e blá, blá, blá... Eu sei, eu sei... — Falou bastante chateado. — ...Você nunca viu uma pessoa desmaiar antes, não é? — Neguei. Ele respirou fundo e me encarou. — Ok, escuta... Eu estou bem e o que aconteceu não foi nada, então para de me olhar como se eu tivesse câncer, tá bem? — Cruzei os braços.
— Não foi nada? Você ficou maluco? Você cai inconsciente na minha frente e diz que não foi nada? — Ele se levantou da cama bocejando.
— E não foi nada, sempre que eu não como direito eu desmaio, eu só não quero que você fique preocupada demais e acabe esquecendo de se divertir nessa viagem! — Saltei da cama indo para frente o empurrando contra a cama obrigando a sentar.
— Dane-se a viagem Michael! Eu não preciso de nada disso aqui, preferiria mil vezes ter ficado em casa com você me largando para trás do que ver você desmaiar como aconteceu! — Me fitou suspirando.
— Eu sei... — Ia colocando as mãos sob meus ombros quando dei um tapa estalado nelas nervosa.
— NÃO! Não você não sabe! Não faz menor ideia do quanto fiquei... — E lá se foi meu autocontrole com as lágrimas dominando meus olhos e a voz saindo embargada. — ...Assustada quando você ficou imóvel no chão... Eu achei que você não fosse acordar mais... — A última frase não saiu mais do que um sopro. Ele me olhou com pena me abraçando.
— Ahhh Sophiee... — Afagou meu cabelo e apoiei o rosto no peito dele. — ...Isso era a última coisa que eu queria nessa viagem, tudo deu errado... — Murmurou. — ...Olha para mim... — Levantou meu rosto pelo queixo limpando o úmido do choro. — ...Relaxa, está bem?! Eu tenho esses problemas regularmente, é de família! Meu pai tem, a monstrinha tem, meu avô por parte de pai tem, tio Devan tem, embora o caso do tio Devan seja diferente... — Disse pensativo. — ...Eu não vou morrer, então se acalma. Ok? — Passou a mão pelo meu rosto e eu estava confusa.
— A Gaby e o padrinho também desmaiam assim? — Ele sorriu afirmando.
— Jejum é altamente proibido lá em casa, teve uma vez que a Gaby foi apoiar o Logan num regime, por que ele estava meio balofo e não deu uma semana para ela ir parar no hospital tomando soro. Eu não sei bem o que acontece na família do meu pai, mas não tem um que se salva. — Meu coração apertou na hora.
— Tadinho do padrinho... — Retruquei num bico com pena. Michael me fitou seco.
— É, tadinho do meu pai, né?! — Revidou nem um pouco contente. — Devia dizer ‘tadinho do Michael’, não fazer essa cara para o meu pai. — Comentou e eu semicerrei os olhos.
— Pois é! — Me afastei dele. — De um jeito ou de outro o médico disse que você tem que comer direito e ter uma boa noite de sono! — Apontei o dedo para sua face. — Por isso... Tome um banho, coma e já para cama! — Ele olhou no relógio de pulso.
— Não é nem quatro da tarde Sophie, não exagera... — Apontei agora para o banheiro nervosa.
— Banheiro, comida e cama, Michael! — Falei entredentes.
— Sophiee...
— Ok! Se vai dar uma de teimoso eu ligo para madrinha e digo a ela onde estamos, quem sabe ela te coloca nos eixos. — Ele engoliu em seco negando.
— Não, não! Eu vou tomar um banho, senhora. — E foi levando toalha e um punhado de roupa.
Arrumei a mesinha de centro perto da poltrona para ele comer mais tranquilo e aconchegado. No entanto, quando saiu do banheiro sentou carpete e eu nem precisei ordenar sobre comer, isso ele fazia de bom grado.
Despampou uma bandeja com um prato, depois outra, e depois a outra e foi analisando toda aquela refeição que eu tinha trazido. Eu fui para a saca me sentando do lado da porta sentindo o vento fresco soprar. De repente, depois de observar tudo que eu trouxe me fitou perplexo.
— Meu Deus... Você comprou isso tudo? — Afirmei mostrando de longe uma bandeja menor próxima ao suco.
— Pedi também uma porção de bacon com batata frita, eles não serviam separados então foi o único tipo que achei. — Arregalou os olhos abrindo a bandeja e vendo a refeição.
— Minha nossa... Você... Praticamente trouxe um frigorifico inteiro para mim... — Disse num sorriso incrédulo e eu dei de ombros.
— Coma tudo, faça cada vida tirada nessa mesa valera pena. — Alertei voltando meu rosto para a vista do mar quando ele começou a rir. — Qual a graça? — Perguntei o encarando de novo.
— Me encheu a paciência os seis meses que fiquei na sua casa por conta da carne que comia, tentava me converter num vegetariano sempre que tinha oportunidade e agora me trouxe um açougue inteiro para que eu coma? — Apesar do timbre de deboche o fitei séria e fiz uso das palavras do meu pai.
— Eu te daria toda carne do mundo se isso garantisse não ter que te ver desmaiar de novo...—Falei baixinho num sorriso tímida. Michael me lançou um olhar quase comovido...
— Essa... É a declaração mais estranha e fofa que alguém já disse para mim. — Acenei para a refeição.
— Então coma, não deixe nada em nenhum dos pratos. — Rebati empinando o nariz. Obvio, ele foi direto no bacon e batata frita.
— E você? Não vai comer nada? — Perguntou de boca cheia, sinceramente vê-lo se alimentando me deixou muito, muito feliz mesmo.
— Eu já comi, é tudinho para você. — Ele arregalou os olhos e lançou um sorriso brincalhão no meu rumo.
— Que Deus me ajude então... — Brincou. Palhaço! Desmaiou a pouco tempo e já estava fazendo gracinhas.
Mas pelo menos... Estava melhor.
É, depois de uma hora e meia Michael desistiu de encarar o quinto prato. Eu até brigaria com ele, só que também não queria que ele passasse mal de tanto comer, então aliviei sua barra. Ele se jogou na poltrona já estufado e sem direito a reclamar que não comeu direito pelos próximos dias.
Eu, aproveitei para tomar um banho e vestir meu pijama, já que nem em sonho ia sair dali. O médico tinha dito que ele ficaria novinho em folha depois de uma boa noite de sono, então o passeio na cidade podia esperar. Mas Michael já fez careta assim que saí do banheiro de pijama.
— Está de pijama por quê? São seis horas! — Subi na cama como se fosse óbvio.
— Se estou de pijama é por que pretendo dormir, aliás você também. — Ele deu uma gargalhada negando.
— Nem sonhando eu vou dormir as seis horas da tarde, não depois de ter apagado durante... Sei lá quantas horas. Sophie, estamos em Santa Mônica! A cidade fica linda de noite e temos que ir na roda gigante! — Suspirei negando.
— Nós iremos fazer tudo que você planejou amanhã, hoje você vai deitar e descansar adequadamente. — Bateu a mão na testa bufando.
— Ahhh meu Deus... Que desastre! — Se levantou me encarando. — Sophie eu estou bem! Agradeço sua preocupação, só que isso é exagero! Posso muito bem aguentar andar umas duas ou três horas! Vamos, tire esse pijama, veste uma roupa para sair e vamos dar uma volta. — O fitei séria.
— Não. Amanhã quando estiver 100% como o médico falou, nós vamos onde você quiser, mas hoje não. Michael, por favor, eu sei que é chato para você ficar aqui sem nada para fazer e que não sou a diversão em pessoa, porém só dessa vez... Por mim...! — Usei minha melhor carinha de pidona que não deu muito resultado. Ele deu um sorriso malicioso negando.
— É mais divertida do que pensa, basta a gente brincar da brincadeira certa, hein?! — Eu entendi o timbre e a intenção na frase e já neguei.
— Michael, eu estou preocupada com você! Eu não vou ‘brincar’ de nada, e você vai dormir! — Isso tirou ele do sério por mais incrível que parecesse.
— Ahhh eu não vou não! Eu já disse que estou bem, o que eu tenho que fazer para você acreditar em mim? — Revidou impaciente. Bati a mão ao meu lado.
— Deita e dorme. Isso certamente me fará acreditar que você estará melhor amanhã. — Rolou os olhos muito zangado.
— Nop! Eu não vou ficar trancado aqui dentro depois desse dia ter sido um desastre e todo sacrifício que eu fiz para trazer a gente para cá! Você vai levantar dessa cama, vai se arrumar e nós vamos ao menos dar uma volta do píer, anda! — Tentou puxar o edredom com o qual eu cobria, porém eu puxei de volta. Aquilo me deixou revoltada.
— Não! Se você quer ir, então vai! Saí e vai para onde bem entender, só que eu vou ficar aqui, quer piorar? Pois então faça isso sozinho! — Me deitei me cobrindo ouvindo ele bufar mais nervoso ainda.
— Ah é?! Então fica! Só não vem me encher o saco depois dizendo que eu larguei você sozinha de novo... — Apenas o ignorei em resposta.
O ouvi calçar os sapatos, trocar de camisa e sair em passos firmes. Bateu a porta com força soltando um urro em seguida. Não vou dizer que aquilo não me aborreceu, fiquei muito triste sem conseguir dormir durante o tempo em que fiquei sozinha ali. Cheguei a me levantar e ir no banheiro com uma desculpa qualquer de escovar os dentes novamente na esperança que o tempo passasse e o sono chegasse num passe de mágica.
Só que não me arrependi, não sairia dali por nada no mundo com a menor chance se quer de ver aquele incidente de novo.
Por fim, depois de uns cinquenta a quase uma hora o Michael voltou. Fingi nos primeiros momentos estar dormindo ouvindo os passos mais leves dele até a poltrona onde se sentou. Tirou os sapatos e a camisa dando vários suspiros longos.
Deitou cama e ficou um tempo quieto até se virar para mim me abraçando por cima da coberta.
— Sophie... — Sussurrou meu nome docemente. Apenas soltei um ‘hum’. — ...Desculpa ter gritado com você... — Pediu depois de alguns minutos de silêncio. — ...E por ter te assustado ao desmaiar, só que eu juro que estou melhor. — Me virei de frente para ele.
— Você não entende, não é?! A sensação de perder a Indila, de ser espancada no banheiro da escola, de qualquer coisa ruim que já me aconteceu... Não chega nem perto do que eu senti quando achei que tinha te perdido... — Confessei do fundo do coração. Tanto que fiquei emotiva e comecei a fungar querendo chorar. Ele acariciou meu rosto comovido.
— Poxa Sophie... — Me aconcheguei nele chorosa o fitando com aquela cena se passando inúmeras vezes na minha cabeça.
— Tudo bem se a gente não ficar junto, tudo bem se não gosta de mim, eu nem mesmo ligo se você voltar a me ignorar e a gente não se falar... Mas você precisa existir, tem que estar em algum lugar ao menos para eu... — E lá estava eu chorando de novo. Me abraçou apertado beijando minha testa.
— Shhh... Não fala isso, não vai acontecer, nenhuma dessas coisas... — Segurou meu queixo para olhar para ele. — ...Me escuta, eu te trouxe aqui para você se divertir, para compensar todo esse tempo que eu não estive presente e você não se preocupar com nada. É para você ficar feliz! Eu estou bem, é muito bom ver que se preocupa comigo e até que tenha cuidado de mim, mas, por favor, não deixa isso estragar sua diversão... — Engoli em seco me encolhendo.
— Só hoje, amanhã fazemos do seu jeito. — Suspirou concordando e me beijando em seguida. Afastei o rosto dele no mesmo instante. — Você bebeu! — Ele riu.
— Só um pouquinho de licor de mente, nem é forte?! Vem cá experimentar o quanto é bom...! — E veio para cima de mim em mais um beijo de língua.
— Nãoo! — Neguei aos risos. — Você é alcoólatra sabia?! — Tornou a rir.
— Olha, hoje eu vou me comportar, mas amanhã nós vamos rodar essa cidade inteira e de noite vou te levar num jantar romântico para compensar você por ter cuidado de mim, combinado? — Afirmei sorrindo maliciosa.
— Combinado, embora eu ache que esse jantar romântico vai sair caro para mim quando voltar para cá. — Ele sorriu de lado.
— Sophie se não vai brincar comigo hoje, não vem com esse sorriso para cima de mim. — Puxei o braço dele num abraço.
O dia pode até ter sido desastroso, mas a noite foi certamente uma das melhores e olha que nem aconteceu nada.
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