Especial Inner Beauty
10 Capitulo Dez - Dezessete Part II
Notas iniciais
Parte II
Parecia até uma brincadeira de mau gosto, embora fosse à dura realidade... Em menos de uma semana Michael tinha feito mais amigos do que eu em meus dezessete anos vivendo ali. Vivíamos naquela casa a tanto tempo e nunca fomos convidados para nenhum churrasco ou festa de final de semana... Michael foi convidado para a boda de prata do senhor e da senhora Duran.
Claro, eu sabia que a fama da minha família não era boa pela vizinhança desde que a jiboia do meu pai comeu um dos pugs da senhora Mark no final da rua. Acho que meu pai rindo da situação na cara dela fez todo mundo acreditar que não éramos ‘normais’.
Mas foi o Michael chegar e de repente minha casa estava cheia de gente – perdi a conta das vezes que a filha dos Hughs veio trazer ‘coisinhas que sobraram’ para ele.
E não posso esquecer de mencionar as brincadeirinhas do Michael em cima de mim, sempre que chegava suado me procurava pela casa para um abraço nojento, comia carne fazendo sons incômodos – e como ele come carne, uma vaca por dia seria pouco para o apetite dele – ficava chamando a Indila de Xena, e não perdia UMA oportunidade de me deixar nervosa.
— Minha nossa... — Puxei meu cabelo com força refazendo o rabo de cavalo lançando um olhar irritadiço para Claritta. — ...Não sei o que é mais assustador, você finalmente estar com algum humor que não seja ‘indiferente’ ou a cor da sua pele estar quase da cor do seu cabelo. — Respirei fundo diante a indignação dela.
— É o idiota do meu primo! ARGHH! Como eu odeio o Michael! — Rosnei em resposta e ela fez uma expressão confusa.
— Uau! Alguém que mexe com você realmente merece ser conhecido, quando vai me apresentar? — Fuzilei ela no mesmo tempo.
— Você me ouviu dizer ‘EU odeio ele’? Por que eu iria apresentar minha melhor amiga para a pessoa que eu mais odeio no mundo? — De repente uma imagem nojenta me veio em mente, Claritta promiscua com Michael promiscuo... Fiquei mais zangada ainda com isso. — Não! Você é a minha amiga Claritta, não pode se relacionar com a pessoa que eu mais detesto no mundo seria traição? — Ela abriu a boca perplexa.
— Menina... Eu digo que quero conhece-lo e você já supõe que vou dormir com ele? — Cruzei os braços a fitando seca.
— Coloque dois ratos viciados em sexo numa gaiola e adivinha o resultado? — Isso a fez gargalhar.
— Uhhh! Agora estou mais curiosa ainda! Ele é bonitão? — Semicerrei os olhos trincando os dentes.
— Claritta escute bem: Amigo do meu inimigo é meu inimigo também, então tira essa ideia absurda da cabeça se não quiser acabar no mesmo buraco que nossa conhecida Minerva Patel. — O semblante dela pareceu apavorado por uns instantes e ela riu em seguida.
— Pimentinha... Eu até arrepiei agora! — Mostrou o braço com os pelos arrebitados. — Saquei! Como quiser, eu fecharei minhas pernas nessa ocasião... — Assenti com a cabeça.
— Obrigada. — Saímos do banheiro do colégio e não demorou muito para darmos de cara com o outro integrante do nosso circulo.
— Você está... Vermelha...? — Não entendi se era uma pergunta ou uma constatação. — Ahhh... Seu primo de novo?! — Claritta concordou por mim com a cabeça.
— É, lá se foi nossa teoria de que talvez a pimentinha sofria de uma sociopatia. — Brincou minha amiga enquanto eu me concentrava em manter a calma.
— O que ele fez dessa vez? — Perguntou James e a raiva voltou com força.
— O que ele fez? Você quer saber O QUE ELE FEZ? — Os dois se olharam assustados.
— Não quero mais... — Murmurou amedrontado.
— Eu digo o que aquele infeliz fez! Para variar ele fritou quinze quilos de bacon na frigideira e quando eu fui tentar discursar com o cretino, ele enfiou um pedaço na minha boca!!! — E meus amigos ao invés de me apoiarem começaram a rir.
— Nossa... Que coisa horrível de se fazer... — Debochou Claritta fazendo o James rir mais ainda. Rangi os dentes furiosa.
— EU sou vegetariana desde os nove anos, sabem o que acontece se eu comer qualquer derivado de carne branca ou vermelha? Uma dor de barriga colossal! — Ainda sim riram.
— E pensar que vão ser seis meses, ou vocês dois se amam até o final do ano ou se matam. — Semicerrei os olhos diante a ironia da Claritta.
— É mais fácil eu mata-lo, vai por mim! — Resmunguei indo para dentro da sala junto com eles.
[...]
E não tinha solução, quanto mais nervosa eu ficava mais o Michael pegava no meu pé. Os dias ficaram longos diante tudo isso, eu tentando não estrangulá-lo e ele tentando um jeito de ser estrangulado.
Para os meus pais tudo estava as mil maravilhas, principalmente para minha mãe que de repente achou alguém para fazer os deveres dela dentro de casa. Michael não gostava que ninguém além dele lavassem sua roupa – como se alguém fosse fazer questão disso – mamãe morria de preguiça de lavar roupa e detestava mais ainda acabar de chegar do trabalho e ter que preparar o almoço – já que o café da manhã é do meu pai o almoço sobrava para ela.
Então Michael chegou como uma luz na vida dela, ele não se importava de fazer o almoço – ele preferia fazer por que achava a nossa comida sem vida, óbvio, por que evitávamos comer carne e como eu já havia dito uma vaca morta por dia para ele era pouco – e lavava as roupas sem preocupação, contanto que ninguém mexessem nas dele.
Meu pai estava mais do que feliz, por que com a minha mãe feliz e descansada ele não precisava ficar bajulando ela para conseguir convencê-la a fazer o que queria. Reclamar com eles era perda de tempo, na cabeça de todo mundo eu era a chata da situação enquanto o Michael era o anjo que caiu do céu na hora certa.
A porta dos fundos se abriu e a figura do meu primo insuportável apareceu ofegante tirando os fones dos ouvidos assim que nos viu. Ele tinha um sorriso largo insistente no rosto que parecia existir só para me tirar do sério.
— Bom dia família! — Disse animado e tratei de apontar a ponta da faca bem no rumo dele assim se aproximou.
— Se você me abraçar suado desse jeito de novo Michael, eu juro que... — Falei rangendo os dentes com os olhos cheios de ódio na direção dele. Michael sorriu erguendo os braços e tomando uma distancia segura passando em volta de mim.
— Opa! Calma... Eu vou tomar um banho e depois conversamos sobre esse abraço, ok? — Mostrei o dedo do meio para ele furiosa. Meus pais? Esses só assistiam a cena e riam como se fosse um show de comédia.
— Agora entendem PORQUE eu não o queria aqui? — Nem me deram moral.
— Sim, já ouvimos esse discurso umas oito vezes, querida, vamos pular a nona vez, sim? — Replicou minha mãe num sorriso falso. Cruzei os braços fazendo um bico.
— Ele é um ótimo rapaz, não faz muito tempo que está por aqui e já conquistou metade do campus. — Comentou meu pai num sorriso e depois o fechou enquanto mastigava pensando. — Não sei o que Michael tem, mas desde que chegou um bocado de garotas tem me procurado para perguntar sobre ele... — Contou em baixo tom para o dito cujo lá em cima não ouvir – não sei a razão disso, aposto que o Michael ia adorar saber que é procurado pelas garotas.
— Ahhh Oliver, você ainda não percebeu? — Rebateu mamãe num sorriso divertido.
— O quê? — Questionou entre risos. — Ele realmente tem algo que causa isso? — Minha mãe me olhou pelos cantos dos olhos e eu assenti. Sim, eu também tinha percebido e detesto dizer que talvez muito antes do que eles.
— Uhum. Estereótipo de ‘bad boy’, nenhuma garota resiste ao charme indiferente de um bad boy, meu amor! — Explicou entre risos, acabei rindo por que de certo modo era engraçado a cara do meu pai em confusão. Ele não tem anda de Bad boy, está mais para sociopata incumbido.
— Bad boy?! Não entendi, estereótipo de bad boy não seria aqueles grosseiros que tratam as mulheres mal, são violentos e fazem coisas erradas? Michael não é assim. — Ele me fitou e apenas dei de ombros fingindo que também não sabia.
— Não da forma literal, mas pense: Ele tem sérios problemas com hierarquia, tem uma briga toda semana, é rodeado de garotos que o seguem e tem o típico charme de um delinquente que nenhum pai quer que sua filha se envolva... BOOM! — Acenou com as mãos como se fosse uma explosão. — Os feromônios se espalham e pode se sentir de longeee pelas mocinhas! — Mais uma vez eu ri da cara do meu pai que estava atônito.
— Essa é a coisa mais absurda que eu já ouvi! Não acho que Michael seja classificado como um bad boy, ele é simpático, educado e certo, eu concordo que se veste de maneira inadequada para um universitário... Podia usar camisas com menos estampas de caveiras ou calças menos rasgadas, tem mania de argumentar tudo que mandam, porém estereotipar ele assim? Falta lógica nesse raciocínio. — Mamãe colocou a mão no queixo pensando numa melhor forma de esclarecer o dilema do meu pai.
— Querido, isso tem mais relação com ser rebelde, a independência que ele demonstra, a forma como decide agir ignorando o fator externo, o modo incomum que escolhe suas amizades sem se preocupar com as barreiras sociais...
— Eu fico todo excitado quando você usa termos complexos em frases que nem mesmo entende... — A interrompeu do nada. Até levei um susto. Ao invés de ficar nervosa por ele ter subjugado a inteligência dela, ficou sem jeito.
— Mesmo...?! — Disse toda vermelha.
— Eu ainda estou aquiiii... — Cantarolei indiferente. Me fitaram surpresos.
— Desculpa. — Replicarem em uníssono.
— Sabe, tem alguma coisa de errado com a minha cômoda... — Começou minha mãe dando inúmeros pigarreio, cerrei os olhos sem acreditar que eu tinha dezessete anos e eles ainda faziam essa cena para inventar uma desculpa para subir ao quarto e praticarem coito.
— Quer que eu dê uma olhada...? — Bati a mão na testa e cocei os olhos.
— Se não for te atrasar...
Ambos se levantaram e saíram subindo para o quarto deles, será que eles achavam que eu acreditava nisso? Não importava, pois, eles subiram e o caos em forma de gente desceu já arrumado com um sorriso pronto para me enfurecer.
— Tãooo discretos... — Comentou se sentando com os olhos fixos nas escadas. — ...Seus pais são realmente diferentes dos meus... — Apenas pisquei desinteressada. — ...E aí? Vamos conversar sobre aquele abraço? — Mostrei a ponta da faca no rumo dele.
— Não se atreva. — Apenas riu.
— Vou deixar passar dessa vez. — Disse risonho pegando uma caneca e enchendo de café. Preparou um sanduiche gigante com muito queijo e presunto e manteve sua atenção ao celular nas mãos.
Devo dizer que até mesmo o som da respiração dele me irritava, mas eu não podia pedir para que parasse de respirar só para que pudesse ter um café da manhã tranquilo. Então não me restava muito o que fazer além de enfiar um fone de ouvido nas orelhas e colocar uma música com um mantra bem tranquilo para me acalmar.
Foi aí que lembrei do yoga e de como me acalmava quando eu fazia – havia parado depois que conheci Claritta, coisas demais para fazer e com o tempo esqueci – por um breve segundo consegui liberar um sorriso... Até perceber que estava sendo observada e o sorriso morreu.
— O que foi? — Ele riu mexendo os ombros.
— Eu não disse nada! — Respondeu voltando seu olhar para o celular. Ahhh como podia só a visão dele me deixar meus nervos a flor da pele? — Você é muito nova para ser tão ranzinza, sabia? — Comentou ao mesmo tempo que comia e mexia no celular.
— E você é muito velho para ser tão infantil! — Revidei tomando o meu suco.
— Infantil? Eu? Você vive de bico para mim e o infantil sou eu? — Desfiz o bico no mesmo instante.
— Não fico não! E se fico é por que você vive para me irritar! Tem mesmo que bater na porta do meu quarto toda vez que vai tomar banho? — Ele deu uma risada.
— Tenho! Fez o maior escândalo por que eu não tranquei a porta do banheiro quando tomava banho, eu não quero ouvir duas horas de sermão de novo só por que você não sabe bater na porta e fica toda histérica quando vê alguém pelado. — Meu rosto tomou tons variados de vermelho só de lembrar daquela cena, não que eu tenha visto muita coisa por que em casa tinha box e ele estava todo embaçado, porém minha imaginação tratou de desenhar as partes que faltavam.
— Ora seu... — Rangi os dentes usando minhas unhas como se fossem garras loucas para rasgar aquele pescoço. Por um segundo, respirei fundo, me foquei no som do mantra e me acalmei forçando um sorriso. — ...Tudo bem, eu estou bem, eu sou superior a tudo isso! — Falei para mim mesma vendo aquela criatura diabólica rir.
Bebi o resto do meu café num gole quase engasgando e pegando meus materiais me levantando. Eu não entendi como podia existir alguém tão, tão, tão... Era impossível de descrever.
Para ser mais infantil ainda mostrei a língua para ele antes de sair de casa o que o fez rir mais ainda.
[...]
Havia chegado do trabalho não tinha muito tempo e meu espaço de paz no jardim já estava quase pronto. Peguei minha caixinha de som, conectei ao celular escolhendo uma música bem relaxante para soar ao fundo e acendi um incenso suave de flor de lótus.
O clima estava perfeito, a brisa soprava tranquilamente e não tinha quase nenhum barulho externo para me atrapalhar. Tinha deixado um imenso NÃO ATRAPALHE na porta que dava para o jardim, então nada poderia estragar aquele instante.
Logo minha respiração possuía um ritmo tranquilo continuo, meus nervos estavam calmos, os pensamentos estavam longe e não existiam criancices do Michael que me fizessem mudar de humor.
— FILHO DA PUTA!!! COMO VOCÊ PERDEU ESSA BOLA? — Gritou a voz masculina me tirando do traze. Ele havia chegado. Olhei para a porta contrariada sem acreditar que mesmo estando no fundo do jardim ainda dava para ouvir seus barulhos.
Tentei voltar a meditação profunda ignorando todo e qualquer fator externo.
— Nãoooo! SEU BURRO! Alguém tira esse filho da puta do jogo, pelo amor de DEUS! Vai se fuderr!!! — Berrou a voz novamente. Uma veia começou a pulsar na minha testa de ira. Tive que aumentar áudio do som para ver se assim aplacava os gritos do Michael assistindo um jogo idiota – como os homens podem ser tão estúpidos de berrar com a televisão sendo que está claro que não são ouvidos?
Respirei fundo buscando controlar novamente minha respiração. Por alguns instante parecia estar novamente em um estado brando e imutável de calmaria até...
— AHHH!!! Não acreditoooooo!!! Alguém TIRA esse CÂNCER!!! COMO é que você ERROU essa?! — Não aguentei. Tive que pausar minha música, me levantar e num estado nada calmo ir para a sala pedir por misericórdia para ver se aquele louco fazia um pouco de silêncio.
— Michael! Será que você não consegue assistir esses jogos idiotas CALADO? — Dei um passo para trás com a mão no peito. Engoli em seco vendo aquela criatura quase sem roupa no sofá bebendo cerveja – isso por que ainda não eram nem seis horas da tarde.
— Ele estava na CARA na cesta... SOZINHO! Três vezes!!! E o idiota errou Sophie! Alguém tem que tirar esse palhaço do time, né Xena?! — Se virou para o lado e só então vi Indila no sofá ao lado dele bebendo alguma coisa.
— Não estou nem aí para o seu jogo, por que está de cueca? — Com a latinha de cerveja na boca tomou um gole franzindo o cenho.
— Não estou de cueca, é um calção...! Meu time sempre perde quando uso cueca durante os jogos, dá o maior azar...! — Contou como se fosse a coisa mais normal do mundo. Fiz careta indo até meu pobre animal tendo ouvir esses berros sem sentido dele.
— Será que pode deixar de... — Assim que andei até perto do sofá percebi que o que Indila bebia não era exatamente água. — ...Michael Taylor Cooper o que é isso? — Apontei para a tigela em que a Indila bebia. Estava meio amarelada e não precisei de resposta para adivinhar o que era aquilo. — É cerveja...? Você deu cerveja para minha iguana???!!! — Falei perdendo o ar por alguns instante e de repente todo meu momento de meditação se foi.
— Ahhh deixa de ser histérica! Foi só um pouquinho, ela só fica em casa sozinha sem nenhuma companhia de um iguano macho para bater um papo o melhor a se fazer é encher a cara! — Trinquei os dentes cheia de ódio e mostrando as unhas mais uma vez para ele como se fossem garras.
— Eu vou te matar Michael... EU JURO QUE VOU TE MATAR!!! — Berrei pulando o sofá e voando em cima dele com as mãos no seu pescoço.
— Aíííí!! Isso doí sua maluca! — Resmungou depois que eu arranhei seu pescoço com força. Num movimento rápido se levantou do sofá esfregando o pescoço e não pensei duas vezes antes de pular em cima dele de novo...
É... O plano era pular em cima dele e rasgar seu pescoço até sair sangue da sua jugular, infelizmente a ação não deu muito certo, meu pé prensou nas dobras do sofá e parte do meu corpo foi enquanto a outra parte ficou. Tudo que eu consegui agarrar foi à malha fina do calção do Michael que caiu ao chão junto comigo.
Quando levantei o olhar assustado para a visão de cima o grito foi involuntário – não que fosse fora do padrão, embora nesse ano eu não tivesse muita noção de padrão.
— AHHHHHHHHHH!!! — Gritei dando um jeito de desprendeu meu pé e tapando o rosto com a mão.
— Puta merda... — Retrucou o Michael desesperado e o ouvi vestir o calção de uma vez. Eu devia ter atingido os tons mais escuros de vermelho durante aquela cena.
Era meio apavorante pensar que o primeiro homem nu que eu vi na vida era justamente o Michael, aquele que supostamente eu não queria ver nem pintado de ouro.
— Eu já me vesti, pode tirar as mãos dos olhos se quiser... — Disse entre um riso e outro. Claro, tudo era motivo de graça para ele.
— Oh meu Deus eu não acredito que vi isso... — Murmurei ainda com as mãos nos olhos.
— Ah! Não é novidade, no banheiro...
— EU não vi nada! Felizmente daquela vez estava tudo embaçado... Meu Deus Michael! O que você tem contra roupas intimas? — Me justifiquei inquieta.
— Ora, ora, se eu soubesse que você ia descer o meu calção eu teria vestido uma cueca para melhor comodidade da senhorita... — Debochou o que me deixou mais nervosa ainda.
— ARGH! Você é insuportável! Desde que chegou aqui não sabe fazer outra coisa além de causar problemas, eu tenho uma vida, sabia? Será que você pode, por favor, não destruir ela? — Me fitou enfadonho.
— Insuportável? Eu sou insuportável? Você tem me tratado com antipatia desde que eu cheguei, age como uma criança mimada sempre que eu falo com você e tem um senso de humor do cão que nunca muda e eu que sou insuportável? Olha, eu tenho tentado rebater seu desprezo com brincadeiras para ver se você entende de uma vez que eu não tenho mais quatorze anos, mas ao que tudo indica eu fui o único que amadureci com o tempo. — Me levantei perplexa encarando ele com raiva – até a imagem da cena anterior tinha sumido por breves segundos.
— Claro, afinal você é o mais velho e eu...
— Está vendo! É disso que eu estou falando! — Me interrompeu sério. — Você sempre dá um jeito de voltar lá trás, eu sei que tivemos uma briga no passado, mas por Deus Sophie, isso tem muito tempo e o fato de você levar...
— Eu te idolatrava. — Falei sem pensar tão séria quanto ele. — E você me descartou como se eu fosse um brinquedo fora da sua faixa etária.
A primeiro momento eu fiquei imensamente contente por tê-lo deixado mudo. Peguei a Indila e sai da sala rumo ao meu quarto. Num segundo momento meu orgulho ferido quase me matou de arrependimento por ter confessado que ele fosse importante no passado. No terceiro momento eu não conseguia pensar em mais nada além de ter visto a cena espantosa do Michael nu e com a pergunta insistente e indecente na cabeça sobre a possibilidade do tio Dillan ser parecido com ele ali.
Tia Eloise me mataria se lesse meu pensamento.
[...]
Vergonhosamente eu tive inúmeros sonhos estranhos envolvendo aquela cena e sempre acordava com raiva de mim mesma por isso. Até pensei em contar o que aconteceu para Claritta, entretanto do jeito que ela era eu até consigo imaginar os comentários que ia fazer, então resolvi que o melhor seria guardar tudo para mim.
Meu clima com o Michael não estava dos melhor, mas não estava dos piores, pelo menos o que eu disse fez ele parar um pouco de me provocar.
— Ahhh eu odeio geografia! — Minha amiga jogou a cabeça para trás num sonoro bufo. Tínhamos ido para minha casa fazer um trabalho de geografia junto com o James também que pelo visto também não gostava muito de geografia.
— Ficar dizendo isso não vai fazer o trabalho por você... — Comentei pesquisando seriamente o meu tema, que era processo de formação de relevo.
— Quem se importa com placas tectônicas? Isso aqui é muito chato! — Resmungou empurrando o livro.
— Diz isso por que não tem que falar sobre domínios morfoclimáticos, isso aqui sim é chato. — Dois resmungões.
— Gosto de tudo que envolve o planeta, parem de reclamar. — Disse num sorriso involuntário buscando concentração na minha leitura.
— Cheguei! Alguém em casa? — Meu corpo gelou. Olhei no relógio as pressas e estava muito cedo para aquele idiota chegar. Pensei em alguma forma de impedir ele de ir a cozinha onde estávamos, mas já era tarde demais, ele já tinha entrado. — Ah! Seu pai mandou dizer que vai chegar bem tarde hoje com a sua mãe, então... Oh! São seus amigos ou reféns? — Ambos riram com a piadinha sem graça.
— Já deu o recado, SOME! — Apontei para a porta e sorriu.
— Uhhh você deve ser o primo insuportável! — Claritta se levantou e andou até ele com um sorriso malicioso. Começou...
— Ah que honra, ouviram sobre mim! — Me lançou um olhar divertido e eu realmente quis mata-lo. — Eu sou Michael, e você é...?
— Claritta! — Apertaram um a mão do outro e só me restou suspirar e bater a cabeça na mesa. É o fim!
— Eu sou James, como vai? — Michael apenas acenou.
— Prazer! Vou deixar vocês estudarem...
— OBRIGADA! — Disse em alto tom nervosa o fazendo rir.
— Ela me ama, perceberam? — Rebateu em deboche. Joguei a primeira coisa que tinha na mesa que era minha borracha em cima dele que infelizmente desviou entre risadas.
Um longo silêncio se fez enquanto James e Claritta se encaravam confusos, por fim James se pronunciou receoso...
— Ele é tão...
— Carismático! Ele não é nem um terço do monstro que você pintou, pimentinha! — Semicerrei os olhos furiosa.
— Ele é mil vezes pior e ponto final. — Rebati impaciente. — Vamos fazer esse trabalho de uma vez...
— Eu gostei dele. — Apontei o dedo para a cara dela bem séria.
— Não quero saber, será que podemos terminar o trabalho? — Respirei fundo e voltei a me focar no livro. Provavelmente eu já estava vermelha de novo.
Eu gostaria de dizer que as coisa continuaram assim, meus amigos longe do Michael e o mundo girando como sempre só a espera dos seis meses inteirarem para aquele infeliz sumir. Só que de repente meus amigos começaram a frequentar minha casa e eu sabia que não era só por mim.
— Não gosta de esporte nenhum? — Michael perguntou com a boca cheia para o James que enchia um copo de suco.
— Não, lá em casa são quatro mulheres mais velhas, elas mandam na televisão de modo que eu nunca fui influenciado a gostar de qualquer esporte que seja. — Rolei os olhos, ele não tinha nada que contar essas coisa para o Michael.
— Nossa... Isso explica por que você é tão fresco. — Debochou Claritta entre risos junto ao Michael. Eu queria vomitar de raiva! — Pimentinha... Por que está tão quieta aí no canto? — Lancei um olhar fulminante para ela.
— Por que caso não se lembram estamos aqui para concluir o trabalho de literatura, se querem sair com nota baixa o problemas de vocês, eu não posso ter esse luxo. — Revidei impassível.
— Deixa de ser nerd! Sua média é a segunda melhor do colégio e só perde para Janice por que ela dorme com os professores! — Fiz careta, eu não sabia daquilo, mas a raiva me impediu de querer saber.
— Diz isso para o meu pai. — Rebati.
— Você não concorda comigo, Michael? Não acha que a Sophie precisa se divertir mais? — Óbvio que ele concordou.
— Estou de pleno acordo maluquinha! — Semicerrei os olhos e o fitei com ira. — Para de me olhar assim, você sabe que não pode explodir minha cabeça com a força da sua mente. — Os três riram.
— A gente podia sair... — Comentou uma voz ao fundo e até assustei com o fato do James ter dito aquilo.
— Quando você diz ‘ a gente’ se refere a nós quatro ou vocês dois? — James ficou roxo de vergonha com a pergunta da Claritta cheia de malicia. Parei tudo que fazia esperando ele dizer claramente.
— Eu... Ah... — Balbuciou algumas palavras.
— Uhhh um encontroooo! — Brincou Claritta e só de ela mencionar aquilo eu fiquei um pouco constrangida também. Eu nunca tinha ido num encontro na vida. — O que você responde pimentinha? — Franzi o cenho.
— Ele não me convidou, foi você quem deduziu com a sua mente maliciosa. — Mirei o James que estava muito sem graça com a cabeça baixa. Michael tamborilou os dedos na mesa e num suspiro longo se levantou.
— Bom, meus jovens, meu jogo está para começar e eu preciso me preparar psicologicamente para a vitória...
— Fica longe da Indila! — Ordenei o que o fez rir.
— Pobre animal, nem jogo de basquete ela pode ver mais... — E se retirou.
— Não entendo todo esse ódio, seu primo é...
— Não precisa entender, eu detesto o Michael e ponto final! Eu não fico te questionando sobre a razão pelo qual tem necessidades de estar sempre dormindo com um cara diferente, você faz eu aceito e somos amigas, certo? — Revidei revoltada e sem acreditar que ela estava do lado do Michael.
— Credo pimentinha, do jeito que fala parece até que eu durmo com um cara diferente por dia! — Mirei o James que desviou o olhar querendo muito rir enquanto eu não sabia como responder aquilo.
— Sem comentários. — James não se aguentou e caiu na risada, no fim acabei me deixando levar e rindo também.
— Ora seus... Bando de virgens!
[...]
Continua...
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