Aquele menino ainda a encarava.

Aaron Rangel, como gostava de ser chamado, estava usando aquele moletom azul ridículo e um jeans desbotado. Nádia pensou que tinha se livrado de meninos idiotas assim que Bob foi pra faculdade.

Como ela, ele estava na sétima série. Os dois eram muito distintos, Nádia tinha longos cabelos castanhos e os deles eram loiros esbranquiçados, o que induzia as crianças a o chamarem de velhinha, aquele moleque albino, yeti... e mais incontáveis apelidos maldosos.

Nádia não gostava muito do menino porém sentia pena dele por isso. Ela era pálida assim como Aaron, embora por motivos diferentes. Um que ela não ousaria contar a ninguém.

Ela tivera um sonho no início daquela manhã.

Começou com uma tempestade de gelo. Não sinto frio, ela pensou, e logo em seguida viu a silhueta de um homem, embaçada, por névoa, geada e o ar álgido que quebrava em suas bochechas.

– Uma boréade muito bonita — disse a imagem enuviada — mas será que tem talento?

O homem tinha a voz grave com um sotaque francês

– O que — respondeu Nádia em sobressalto.

Não sabia o que era uma boréade, não sabia de quem era essa voz, mas ficou um pouco mais calma ao se lembrar que era tudo um sonho.

– Um sonho — disse o homem, ainda oculto — Isso não é exatamente um sonho.

Agora ela estava com medo. O sonh... seja lá o que for estava a deixando em pânico, era tudo tão real. A neve serpenteava ao seu redor e a menina notava a sua presença, sentia o frescor dos cristais de gelo e ouvia a aspereza da nevasca.

Era como se estivesse conectada com tudo aquilo.

O homem se aproximou, revelando parcialmente seu rosto e disse:

– Não tema o poder do vento do norte, sou frio e violento mas não a machucarei se aprender a me controlar.

Ótimo, pensou Nádia, Agora estou bem mais calma.

– Pelo menos o sarcasmo puxou de sua mãe — riu o homem.

– Como conhece minha mãe? — perguntou a menina, com uma coragem repentina — Ela é a única pessoa que eu tenho, se você tocar nela eu te arrebento! Agora mostre sua cara.

– Faça a nevasca passar e você vai ver — disse ele, agora com a risada mais alta, eclodindo das paredes gélidas e enevoadas.

A fúria invadiu o seu corpo — sentiu-se mais alerta, como se tivessem a jogado um balde de água gelada — O homem invadiu seu sonho, ameaçou sua mãe, e, acima de tudo, ele riu da sua cara.

Nádia se concentrou na neve que girava a seu redor, na névoa, na friagem e, se concentrou especialmente em ver a cara daquele paspalho.

O que antes a envolvia, agora contornava seus membros. A menina ergueu seus braços para o alto, indistinguíveis a meio do espesso ar azulado e gritou:

– Tome isso, seu pervertido!

A tormenta cessou em um célere vento, dando lugar a montanhas verdes e abaixo dela... Espere, ela estava flutuando?

A menina não havia percebido. Não olhara para o chão em nenhum momento, estava muito atordoada com a tempestade.

– ...C-como? — gaguejou Nádia, a sua coragem repentina havia passado. Com suas pernas trêmulas ela parecia uma galinha botando um ovo, mas ela estava voando, é claro.

A sua frente o homem apareceu, com a mesma rapidez que a tempestade passou — era robusto, tinha um terno branco que parecia neve, cabelo e barba enfeitada por cristais de gelo — e disse:

– É uma massa de ar fri...

– Graças a Deus — interrompeu a menina, em pânico, que se agarrou a ele com um pulo — Por favor me tire daqui, peço desculpas por chama-lo de pervertido. Por favor.

– Tudo bem, já te mostrei o que devia saber.

E foi assim que o sonho terminou.

Depois disso ela acordou, ainda pensando que era tudo um sonho. Mas avistou uma luz azulada sob sua cabeça, o perfil de um homem barbudo com o que parecia ser ventos saindo da sua boca.

Agora ela estava ali, ao do lado de Aaron que não parava de tamborilar os dedos nas dobras do jeans.

– Olá — disse ele, timidamente

– Oi — Nádia respondeu, com o olhar de desprezo que adorava fazer para as pessoas.

Há uma hora atrás ela tinha acabado de implorar nos braços de um cara que ela nunca viu na vida. Poderia não ter passado de um sonho muito real, mas, ela sabia que não era apenas um sonho.

Tinha proucurado ''bóreade'' no Google antes de sair de casa. Viu o simbolo que apareceu acima de sua cabeça e, supostamente era uma filha de Bóreas. Uma semideusa.