Notas iniciais
Não postei antes por causa do Natal, Réveillon e por preguiça (só um pouco)

O ônibus finalmente chegou.
Aaron não aguentava mais aquele silêncio. Poderia não ser a pessoa mais sociável do mundo mas pelo menos não dirigia um olhar fatal quando cumprimentava alguém.
Estava tão aliviado em sair de perto da menina no ponto de ônibus que esquecera que o pior estava lá dentro.
– Fantasma — riu um menino, antes mesmo de Aaron conseguir dar um passo para entrar. Incrível, pensou, Temos um novo recorde. Ele não entendia esses apelidos, não era tão pálido e seus cabelos não eram tão claros, achava que só queriam uma desculpa para atormenta-lo.
Aaron entrou no ônibus , Nádia as suas costas. Não estava irritado, não ficava com muita facilidade.
– Bom dia Sr. Bush — disse ele ao motorista.
Ele obviamente não era casado mas o menino queria ser legal com aquele cara barbudo, não sabia porquê. Talvez porque os meninos também riam a sua custa por causa do seu nome — ''Sr. Bush'' — arbusto poderia não ser um sobrenome comum, Rangel também não era, mas Aaron sabia que não era por esse motivo que o ridicularizavam. Ele tinha déficit de atenção, hiperatividade e não era um dos mais espertos.
Porém algumas pessoas eram legais com ele.
– Senta aqui — disse uma voz abafada no final do corredor. Encostado na janela estava Dylan Oakvalley, o melhor amigo de Aaron — Rápido.
Aaron correu, sorrateiramente, até a cadeira ao lado de Dylan. Se sentou e disse:
– Não precisa fazer isso todo o dia. Não somos foragidos da polícia.
Na verdade ele não estava chateado, adorava que seu amigo fizesse isso.
– Desculpa — disse o menino, agora se encostando mais ainda na janela.
Dylan era aquele tipo de pessoa que consegue elevar seu humor apenas com um sorriso tímido. Ele era um pouco mais baixo que Aaron, usava óculos, tinha cabelos castanhos e sempre estava usando um gorro verde. Devia ter centenas deles.
Ao se acomodar no assento ele viu Nádia, na frente, perto da cabine do motorista.
– Ela me assusta — Aaron deixou escapar.
Dylan assentiu. Era incrível que ele sempre sabia para onde ele estava olhando.
O ônibus já estava quase no colégio. Chelsea Middle School, uma escola antiga perto do Porto. Eram quase férias de verão.
– Mais dois dias — disse Aaron, sorrindo.
– É... — respondeu Dylan — Mais dois dias.
Ao dizer isso seus óculos ficaram embaçados.


O sinal tocou e os dois estavam atrasados para a primeira aula.
Dylan era seu parceiro em química e corria sempre a seu lado na educação física — aquele cara conseguia ser tão rápido quanto ele — A única aula que não faziam juntos era economia doméstica que por um motivo que Aaron não sabia ele era parceiro de Nádia.
Falando no diabo... Ela estava correndo desesperadamente para o banheiro feminino com duas meninas atrás dela, ou estava muito apertada ou...
– Cuidado — gritou Dylan e, com um som tão agudo e cortante como a voz de seu amigo, a porta do banheiro explodiu.
Nádia estava no chão, atordoada com a porta a esmagando contra o piso sujo e polido da escola. Seria uma cena engraçada se não fosse por aquelas duas mulheres... que não eram realmente mulheres, não por completo.
A da direita era uma estudante normal da cintura para cima, mas, nos países baixos — nem ele tinha tantos pelos... também não tinha cascos de bode — A da esquerda rastejava uma calda de serpente ao lado de sua amiga monstruosa. Espere. Essa é a Allyson, Aaron pensou, Ela já flertou comigo.
Sem tempo do garoto ficar com aversão por uma mulher-burro ter dado em cima dele, Dylan tirou as calças.
– Não se aproxime.
Agora Aaron teria mais pesadelos. Seu melhor amigo também era um "meio-burro", pelos castanhos se estendiam até os pés (do qual eram feitos de plástico por sinal) que foram chutados para longe, revelando cascos de bode.
– AAAH — gritou Aaron.
– É...eu sou um sátiro — disse Dylan com dificuldade — Seu sátiro protetor.
– Quem são essas.... Coisas?
Sem dar uma resposta, Dylan saiu em disparada na direção dessas coisas. Aaron, atônito, olhando a cena que se resumia a isso: Uma garota-cobra sibilando e Allyson, a mulher-burro, rindo para Dylan como se ele fosse o capitão do time de futebol. Nádia gemendo, ainda de cara no chão. Tenho que fazer alguma coisa, pensou Aaron.
Antes que ele saísse correndo que nem um idiota, um vulto atravessou o corredor.
Era o motorista do ônibus, o Sr. Bush, que não era muito bem um senhor e também não era exatamente um homem... Ele tinha pernas de bode! Era um sátiro, um ser mitológico.
A cena agora se resumia a quatro criaturas mitológicas tentando se matar.
A mulher-burro avançou, quase cortando Dylan com suas garras.
– Morra sua empousa — disse o Sr. Bush enquanto empunhava a Allyson com uma espada e a reduzindo a pó.
– Uau — murmurou Aaron.
Sobrou apenas a mulher cobra. Ela se esquivou de um ataque do Sr. Bush e quebrou a flauta de Dylan (De onde ele tirou isso?)
– Não pensem que vão se livrar de uma dracaenae tão facilmen...
O motorista de ônibus interrompeu a mulher cobra. Deu um chute no ar com suas duas pernas de bode como em um aviso: Cale a boca!
O sátiro se aproximou e executou a garota inconsciente. Duas pilhas de pó jaziam no meio do corredor.
– Que diabos foi isso? — perguntou Nádia, saindo de baixo da porta do banheiro — Tinha uns monstros... e vocês são bodes.
– Nós somos seus sátiros protetores! — disse Dylan com falso entusiasmo.
– Eu sou um sátiro protetor — o Sr. Bush se aproximava — Você é um protetor Jr...
A falta de entusiasmo de Dylan ficou ainda mais visível.
– ... E nem deveria estar aqui — continuou o motorista — Se não tivesse insistido em ficar. Você deixou a flauta cair. Tive que usar uma arma.
Dylan pegou a sua flauta quebrada do chão em um suspiro. Aaron não suportava ver o amigo assim. Antes que pudesse protestar, o Sr. Bush, ou melhor, o Sátiro Bush apontou para Aaron.
– Você. Por que não fez nada?
– Eu? — retrucou Aaron.
– É claro. Você vai comandar a missão, seu pai já devia ter mostrado como usar seus poderes
Aaron se lembrou do sonho em que voava.
– Que história é essa de missão? — perguntou Nádia, de pé, com a porta do banheiro do lado.
– Nádia — continuou o Sátiro Bush — Que vergonha, você estava consciente esse tempo todo e não moveu nenhum músculo. São esses quem vão realizar a missão dos quatro ventos?
A garota gaguejou alguma coisa. Era esse mesmo o Sr. Bush? Aaron se arrependeu por todas as vezes que ele o desejara bom dia.
O sátiro franziu o cenho.
– Se não estão situados vocês são os filhos de Éolo e Bóreas. Irão integrar esta missão.