Espírito de Revolução
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Notas iniciais
Após o resgate em North Battery, levei Big Dave e Emily à Fazenda Davenport na mesma madrugada, com uma carroça alugada. Após dormirmos na mansão, ajudei-os a se estabelecer numa das casas do vilarejo. Não tínhamos os materiais para ferragem, mas prometi que aos poucos traria os pertences de Dave de volta da sua loja, que agora era a mais nova sucursal da Irmandade em Boston. Ele também prometeu forjar novas lâminas ocultas e armas para a nossa Irmandade.
No dia seguinte retornei à cidade para ajudar Stephane e Duncan a organizar nossa sucursal, e também para aprender a cuidar dos pombos. Pedi a ajuda de Yolanda, que me ensinou a alimentar as aves e prender mensagens nelas. Soltamos todos os pássaros para fora do pombal. Metade deles voou para longe, de volta para seus ninhos, seja lá onde fossem. Os que ficaram eram nativos daquele mesmo pombal, então eram eles que usaríamos para mandar mensagens a Boston.
Falei-lhe sobre a Fazenda Davenport e ela prometeu visitar o vilarejo algum dia, quando fosse capaz de criar uma nova ninhada por lá. Retornei à Fazenda, levando quase todos os pombos, que Achilles não teve dificuldade de manusear. Alguns dias depois, parti novamente, desta vez para o oeste. A presença dos Assassinos em Boston estava garantida, e eu esperava que dali em diante Benjamin Church não fosse passar despercebido. Johnson, porém, ainda estava à solta. Assim, retornei à província de Nova York, levando um par de pombos, e torcendo para que também Atón’wah se interessasse em minha proposta.
Sendo assim, era Janeiro de 1774 quando cheguei a minha aldeia natal, e meus amigos e eu tínhamos que andar com cuidado pela grossa camada de neve que cobria o solo dos bosques em volta de Kanatahséton. Havíamos trazido nossas machadinhas, facas e arcos, e estávamos em busca de cervos para alimentar a vila. Além disso, rumores corriam de uma alcateia que havia atacado diversos Kanienkehá:ka na região desde o início do inverno. Eu havia retornado à aldeia naquela mesma manhã
— Sente algum animal, Ratonhnhaké:ton? — perguntou Kanen'tó:kon.
Concentrei-me em meu sentido aquilino, fechando os olhos. Eu podia ouvir a respiração de meus amigos, mas nenhum som de animal chegou a mim. Até que meu nariz captou um aroma terrível na direção noroeste, e eu soube que estávamos no caminho certo.
— Sinto o cheiro de fezes mais à frente. O animal do qual elas vieram não deve estar longe.
— Ótimo — falou Atón'wah, em tom baixo.
Espreitamos pela floresta com calma, tomando cuidado para emitir o mínimo possível de sons. Após cerca de cinquenta metros, subíamos por um morro adornado por árvores, e ao nos elevar, pudemos observar um cervo solitário comendo folhas em um arbusto. Sem falar nada, sinalizei para que Kanen'tó:kon circundasse o animal de longe, e para que Atón'wah subisse em uma firme rocha no topo do morro. Ao que o primeiro se afastava, o segundo puxou seu arco e mirou para o animal.
— Não consigo mirar um tiro certo — praguejou, baixinho — A mata é muito densa, há muitas árvores na frente dele.
Ao ouvir isso, olhei em volta e percebi uma pequena clareira à nossa esquerda. Disse a Atón'wah que iria atrair o cervo para lá. Agachando-me contra o vento, levantei meu capuz e espreitei em volta da clareira, até ficar de bruços em meio às plantas densas. Olhei para o longe. O cervo se encontrava em meio às árvores, e, ainda mais à frente, eu podia ver Kanen'tó:kon escalando os galhos de uma árvore, escondido em sua copa. Olhei para ele, e ele respondeu com um aceno de cabeça.
Com esse sinal, revirei minha algibeira e de lá retirei uma isca de anchovas, que lancei poucos metros à frente. Completando com um assobio de pássaro, o cervo virou sua atenção para o matagal onde eu estava, e logo captou o cheiro forte de algo comestível. Lentamente, se aproximou de mim, ao mesmo tempo em que eu me afastava um pouco.
Então, antes que o cervo alcançasse as anchovas, a flecha de Atón'wah voou pela clareira, alojando-se em seu lombo. Ele emitiu um alto ganido de dor ao mesmo tempo em que eu me ergui dos arbustos, correndo em sua direção com um grito. O cervo fugiu de mim na direção oposta, correndo rapidamente, e direto para a faca de Kanen'tó:kon, que abateu a presa com um ataque aéreo de cima da árvore. Atón'wah soltou um grito agudo em comemoração.
Saímos cada um de nossos esconderijos, e nos encontramos na clareira.
— Um belo golpe, Kanen'tó:kon — elogiei, analisando o animal — Os músculos do peito parecem intactos.
Ele sorriu.
— Você também fez um bom trabalho se escondendo dele. Incrível como seus passos não fazem um som sequer.
— Pelo visto o tempo e a distância não te enferrujaram, Capuzinho. — Atón'wah brincou, esfregando com força a minha nuca. Afastei seu braço e retirei meu capuz.
— Ora, ainda há o que caçar em Massachusetts Bay.
— Mesmo? Pensei que a selva de pedra já teria te engolido a essa altura.
— Por falar nisso... — comentou Kanen'tó:kon, agachando-se para esfolar a pele do cervo — Como foram as suas buscas em Boston, meu amigo?
Atón'wah sorriu em aprovação.
— Isso, não acredito que esquecemos de perguntar. Você encontrou Johnson?
— Johnson está acabado. Nossa vila está salva.
Os dois comemoraram.
— Isso é excelente! — comentou Atón'wah — Agora com aquele desgraçado fora do caminho você pretende ficar na província?
— Infelizmente não. Devo expandir a rede da Irmandade em Boston. — Ao dizê-lo, lembrei-me da tarefa da qual Achilles me encarregara. — Por falar nisso, Atón'wah, quero falar com você em particular.
Kanen'tó:kon, que a essa hora já esfolava o cervo aos nossos pés, acenou para mim e consentiu.
— Fiquem à vontade. Procurem mais animais enquanto eu cuido da pele.
Afastando-nos de nosso amigo, Atón'wah e eu sacamos nossos arcos e voltamos pela clareira, atentos a quaisquer criaturas que se aproximassem.
— Achilles quer expandir a Irmandade para além de Massachusetts Bay — iniciei, ainda conversando em volume baixo — Ele precisa de alguém que possa informá-lo na província de Nova York.
— Mesmo? É por isso que veio?
— Sim. Eu agradeço muito pela sua dedicação em me ajudar na procura por Johnson. Então eu gostaria que você fosse o nosso contato na região.
— Como assim?
— Você poderia entrar para a Irmandade! — reforcei — Torne-se um Assassino, e ajude-me a proteger nosso povo!
Meu amigo se mostrava cético.
— Talvez. O que você precisaria de mim?
— Estabeleça-se em Albany, e mantenha um ouvido atento à população. Nós encontraremos algum esconderijo para nossa base. Você administraria pombos-correio, e comunicaria para nosso quartel-general em Massachusetts qualquer informação valiosa que encontrasse. Já trouxe alguns pombos que você pode enviar quando for necessário.
— Parece interessante. — Ele ponderou. — E quais informações valiosas seriam essas?
— Qualquer uma sobre o paradeiro dos Templários da região. William Johnson, seu comparsa Jack Weeks...
Atón'wah parou de caminhar, confuso.
— Espere um minuto. — Ele ria, nervoso. — Porque preciso procurar o paradeiro de William Johnson? O cadáver dele está perambulando por aí?
Suspirei.
— William Johnson ainda está vivo, Atón'wah.
— Como!? — Ele exclamou. — Você disse que tinha salvado a vila. Como pode ser isso, com o homem que nos ameaça ainda vivo?
— Eu disse que ele estava acabado. E está mesmo, eu me certifiquei de afundar até a última caixa de chá que pagaria pelas nossas terras.
— Você é idiota, Ratonhnhaké:ton?
— Fale baixo, não queremos espantar os animais.
— Você não ouviu o que eu te disse em John's Town? A Johnson não faltam nem dinheiro nem credibilidade. Se você o poupou, tenha certeza de que voltará.
— Não havia necessidade de matá-lo.
— Nem de defender a sua vila? — Ele bradou, furioso. Apontando para mim, completou com tom ameaçador: — Você tinha apenas uma tarefa, Capuzinho, e eu confiava em você para realizá-la.
Atón'wah em seguida virou as costas para mim e passou a caminhar para longe.
— Aonde você vai?
— Fique com os seus capuzes, Ratonhnhaké:ton! Se lutar pela Irmandade significa que eu não posso proteger meu próprio povo, pode enfiar essa proposta no cu! Se você não matará Johnson, eu mesmo o matarei. E não me siga!
Tentei argumentar, convencer Atón'wah a permanecer para finalizar a caça, mas vi que era fútil. Ele já estava determinado. Caminhei de volta para Kanen'tó:kon, cabisbaixo.
— O que houve? — Ele questionou.
— Atón'wah foi embora. Deve ter voltado à aldeia.
Ele ficou surpreso.
— Ora, mas... Qual era o assunto que vocês tratavam?
— Eu queria convencê-lo a juntar-se à Irmandade, mas ele ficou furioso ao descobrir que não matei William Johnson.
— Vocês pretendiam matá-lo?
— Ele, sim. Eu pretendia proteger a vila a meus próprios modos. — Um silêncio se seguiu por alguns segundos. Kanen'tó:kon terminava de esfolar o animal, e falei-lhe: — Mas ainda preciso de um representante em Albany. Você estaria interessado?
Kanen'tó:kon se desculpou.
— Eu o ajudaria com prazer, Ratonhnhaké:ton. Mas meu lugar é aqui com a vila, não em Albany. Talvez você possa falar com Saksa:ri sobre isso.
— Para se estabelecer em uma cidade colona e manter contato com britânicos em Boston? Ele nunca aceitaria.
— Hm, é mesmo. Saksa:ri nunca muda. — Ele riu.
Com um risinho, pus minha mão em seu ombro e respondi:
— Vamos. Temos uma caça a finalizar, meu amigo.
•
— Ratonhnhaké:ton! Entre, entre! — sorria a Mãe do Clã, pouco antes do pôr do sol daquele mesmo dia. Eu e Kanen’tó:kon havíamos voltado à vila com os espólios de nossa bem-sucedida caça, porém não vimos sinal de Atón’wah ao retornar. Agora eu me encontrava com a Mãe do Clã na casa grande, no mesmo local onde eu recebera a mensagem do espírito tantos anos antes.
— Saudações, Mãe do Clã. É um prazer visitar.
— E é sempre um prazer recebê-lo, embora eu quisesse que fosse com mais frequência.
— Perdoe. Meu tempo é tomado por estudos e negócios.
A velha sentou-se em volta da fogueira e acenou para que eu fizesse o mesmo.
— Fico feliz que tenha encontrado o que procura.
— Não sei se já encontrei. Eu devo proteger a vila, e ela ainda corre perigo.
— Mas decerto você já fez progresso. No verão e no outono, batedores de William Johnson percorriam a região, dizendo querer reconhecer o terreno. Mas eles pararam desde o mês passado.
— Johnson queria tomar as terras de Kanatahséton de nós. Mas com a destruição do chá em Boston, a Companhia das Índias não mais financia ele. Sem o dinheiro para comprar Kanatahséton, estamos seguros.
— Por enquanto. Mas sem dúvida o templo de Iottsitíson ainda atrairá mais deles até nós.
Fiquei curioso com o comentário.
— O que há no templo, Mãe do Clã?
— Nada feito para as mãos dos homens, Ratonhnhaké:ton. Nem colonos nem Haudenosaunees, disso eu sei. O dever de Kanatahséton não é usá-lo, e sim protegê-lo. E fico feliz que você tenha nos ajudado a impedir que Warraghiyagey tomasse controle do templo, mesmo estando tão longe. Porém...
A anciã manteve-se quieta, pensativa.
— Porém o quê?
— Alguns estão preocupados. Warraghiyagey prometeu proteção e segurança, e ele já fez muito pela Confederação. Sem ele, é possível que estejamos sozinhos frente à Grã-Bretanha.
Pensei em Kanensta:tsi ao ouvir isso. Minha mãe adotiva acreditava fielmente em Johnson, e esperava que as terras progredissem sob o seu comando. Ela ficara decepcionada quando lhe contei que, agora que não tinha mais a Companhia das Índias a financiá-lo, Johnson desistiria das nossas terras. Omiti, claro, a minha participação direta na questão.
— E agora, com a notícia das revoltas em Boston... — A Mãe do Clã retomava. — Há outras aldeias que digam em se aliar à Coroa contra os rebeldes.
— Essa é a decisão deles. Nós trilhamos um caminho diferente. Nos mantivemos neutros em todas as guerras intercoloniais.
— Sim. Por muito tempo nos mantivemos afastados dos Haudenosaunee. Dos Kanien’kehá:ka. De todos, na verdade. Não abandonarei nosso dever, mas em alguns dias não posso evitar questioná-lo.
— Há um motivo para nos afastarmos — expliquei — É natural questionar e se preocupar, o meu Credo entende isso. Mas nós devemos permanecer fortes. Se nos mantivemos longe das guerras, isso não é uma restrição à nossa liberdade, e sim um dever que tivemos de assumir.
Impressionada com o que eu acabara de dizer, a Mãe do Clã riu, mostrando os poucos dentes que agora lhe restavam.
— Realmente o mundo está de cabeça para baixo... — disse ela — Quando sou eu quem questiona e você quem conforta.
Sorri de volta para a anciã. Mudando de assunto, perguntei-lhe:
— A senhora viu Atón'wah chegar à vila hoje? Ele foi caçar conosco, mas retornou mais cedo e ainda não o vimos.
— Ah, sim. Ele parecia nervoso, com um pouco de pressa. Chegou aqui, falou brevemente com os pais, pegou seu cavalo e foi embora. Algo parecia perturbá-lo.
— Ele quer ir atrás de William Johnson — lamentei — Droga, eu disse a ele que a ameaça havia passado, mas ele não me deu ouvidos.
— Fico feliz que ele também esteja tentando defender nossa vila. Mas tenho medo de que ele vá ser imprudente.
— Eu também.
— E você pretende impedi-lo?
Ponderei, pensando no que meu amigo havia me dito.
— Não. Atón'wah é livre para tomar suas próprias escolhas. Ele... Ele esperava de mim algo que eu não sou. Se ele deseja derrotar Johnson sozinho, não vejo como poderei convencê-lo a recuar.
— São uns teimosos marrentos, vocês dois. Quando botam algo na cabeça, nada os convencerá do contrário. Principalmente se estiverem um contra o outro. Vocês têm que se concentrar nas semelhanças entre os dois, não nas diferenças.
Eu respondi com uma risada leve, mas não conseguia deixar de lado a preocupação.
— Seus conselhos são bons, Mãe do Clã. Parece que o mundo não está tão de cabeça para baixo assim.
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