Espírito de Revolução
27 O Tiro Fatídico
Após o incêndio que atingiu nossa aldeia no fim da guerra, meus amigos nunca mais brincaram de esconde-esconde. Bem, pelo menos não comigo, pois era eu quem me recusava. A tragédia marcara todos nós, com certeza, mas o impacto de perder minha mãe pareceu ter perdurado mais em mim. A vida prosseguiu e a aldeia eventualmente começou a retomar seu dia-a-dia, mas por um bom tempo depois do incidente nenhuma das crianças tinha vontade de brincar. O tempo passou, o esconde-esconde continuou sendo um tabu para nós, mas não por muito tempo para os meus amigos.
Lembro-me de um dia quando tinha acabado de completar sete anos de idade. Eu e as outras crianças havíamos como sempre nos reunido para brincar entre os bosques, e alguém sugerira esconde-esconde. Mesmo após mais de dois anos, a cicatriz das memórias ainda doía em mim, e protestei. “Brinquemos de outra coisa”, eu disse. Mas se antes eles entendiam a minha relutância, agora me chamavam de estraga-prazeres, e diziam que eu ficasse de fora. Me exaltei e tivemos uma discussão infantil, da qual saí quase lacrimejando. Aborrecido, procurei por algum local distante onde eu pudesse ficar sozinho. Após cair da árvore duas ou três vezes, consegui alcançar uma das plataforma de madeira que os caçadores da aldeia usavam como posto de caça no topo das árvores.
Fiquei lá por alguns minutos, sozinho e me esforçando pra não chorar conforme eu lembrava de minha mãe. Mas não permaneci sozinho por muito tempo. Logo ouvi, não muito longe, um grupo de caçadores se aproximando, carregando arcos e armadilhas. Reconheci um deles como o chefe Oskennon:ton. Não traziam nenhuma pele consigo, então supus que devessem ter acabado de sair da aldeia. Abri os ouvidos para ouvir sua conversa.
— Um tratado foi assinado na Europa — dizia um deles — Os franceses deixarão o continente pra valer.
— Só agora?
— Eles já perderam todo o domínio sob suas colônias há anos — comentou outro.
— A França foi derrotada na América, de fato — retomou o primeiro caçador — Mas a guerra continuou nos outros continentes.
— Eles cederam suas conquistas então? — inferiu Oskennon:ton.
— As pouquíssimas conquistas que fizeram em nove anos de guerra? Sim, mas a Grã-Bretanha manteve as suas. A França manteve apenas uma ilha de açúcar no Caribe e outras duas de pesca na Terra Nova.
— Então agora os britânicos controlam todas as terras ao norte. Me pergunto se ainda haverá espaço para nós e os outros povos americanos.
— Fico feliz com isso — adicionou um caçador que até o momento estava quieto — Sem eles, quem sabe talvez os britânicos parem de nos arrastar para as suas guerras.
O chefe interveio:
— Ah, você é bem tolo se acha que nos livrar da guerra será tão fácil.
— É verdade. Os aliados algonquinos da França nunca partirão. A Confederação Wabanaki está longe, mas continua uma ameaça tão grande quanto antes.
— Não são os Wabanaki que eu temo — retomou o chefe — São os britânicos.
— Ah, para eles todos os povos americanos são iguais. Não saberiam distinguir um iroquês de um pawnee. Eles poderão até nos dominar, mas não creio que chegarão à guerra conosco. A única ameaça com a qual eles se importam são os outros impérios.
— Oskennon:ton tem razão. Os Senecas podem mudar esse estado de paz aparente. Pontiac está se preparando para liderar uma rebelião. Vejamos quão amistosos os britânicos continuarão depois disso.
— Temos a Corrente da Aliança entre nossa Confederação e a Grã-Bretanha. Eles não quebrariam esse pacto, quebrariam?
— Bem, quantos deles se esforçam para mantê-lo? Johnson, Butler e...? São minoria, decerto.
Oskennon:ton mais uma vez interveio com sua voz grave:
— A guerra, meus amigos, é inevitável. Grã-Bretanha e França já travaram quatro guerras nos nossos territórios. Fomos arrastados para todas. Agora um dos lados finalmente venceu, mas isso não quer dizer que a paz chegou para ficar. Mais cedo ou mais tarde, meus amigos, a guerra virá. Se os franceses não os ameaçarem, com certeza os britânicos acharão desculpas para guerrear entre si. E então retornaremos ao nosso ciclo vicioso de conflito.
— Pessoal, acho que temos companhia — interrompeu um dos caçadores. Percebi que ele me avistara no topo da árvore — O que está fazendo aí, garoto?
Desajeitado, acenei para ele, tentando disfarçar meus olhos úmidos.
— Você é o garoto do Saksa:ri, não? Desça daí, nós temos caça a fazer nesse posto.
O homem subiu pelos veios da árvore e me ajudou a descer, dizendo que eu poderia me machucar ao subir àquela altura. Eles disseram-me para voltar à aldeia, e assim o fiz.
Por um bom tempo refleti sobre as palavras do chefe. No fundo eu sempre soube que ele tinha razão. Alianças podiam ser feitas, mas no final das contas isso de nada evitaria o conflito.
A guerra ainda retornaria.
•
E, tantos anos depois, foi um pombo-correio que me avisou a tempo de testemunhar o início. Parti imediatamente da Fazenda Davenport quando li a mensagem.
O dia ainda não havia amanhecido quando cheguei, a cavalo, ao terreno baldio em frente ao morro da taverna Buckman, na pequena cidade fronteiriça de Lexington. Tal como a mensagem dizia, eu avistara tropas e batedores do Exército Britânico pelo caminho. O que eu não esperava encontrar, no entanto, era a milícia já a postos no local. Cheguei para encontrar mais de 70 homens armados com baionetas.
— Mantenham posição, homens! — berrava um homem de quarenta e poucos anos, também com uma baioneta, intercalando seu discurso com fortes tosses, de modo que sua voz saía com apenas metade da intensidade que ele provavelmente pretendia — Não disparem a menos que eles disparem primeiro! Mas se eles pretendem ter uma guerra... Que comece aqui!
Era difícil ouvi-lo em meio à confusão. Os homens estavam muito desorganizados para prestar atenção. Desmontei de minha égua e caminhei até o homem.
— John Parker?
— Quem quer saber? — questionou, mal-humorado.
— O nome é Connor. Sou amigo de Samuel Adams. Onde está ele?
Ele me deu um olhar torto e tossiu. Com a garganta rouca, prosseguiu.
— Revere e Dawes passaram por aqui de madrugada, avisando sobre a marcha. Adams e Hancock já deixaram a cidade e foram levados para o norte. Os outros foram a oeste, para reforçar Concord.
— Os soldados virão mesmo, então?
Ele bufou.
— Ficamos plantados aqui a madrugada toda. Quase achamos que não viriam, pois já tivemos alarmes falsos antes, mas um dos meus batedores os avistou alguns minutos atrás. Eles estão perto demais.
— Você pretende abrir fogo quando chegarem? — questionei — Vocês não estão bloqueando o caminho para Concord.
Ele negou com um aceno de cabeça.
— E nem é a intenção. Não é a primeira vez que os casacos-vermelhos fazem expedições em busca de nossas armas. Eles vão chegar em Concord, não achar nada e voltar, como sempre fazem.
— Então por que a milícia está a postos?
— Temos que mostrar que não estamos de brincadeira. É uma mensagem que queremos passar.
— Então espero que a mensagem tenha efeito.
Ele escarrou um tanto de sangue com uma tosse.
— Também espero, rapaz.
Enquanto Parker tentava manter a ordem de seus homens destreinados, fiquei por perto, em meio às dúzias de homens. Em poucos minutos ouvimos um som alto vindo da estrada a leste. Eram soldados marchando. Por trás da taverna, pudemos avistar uma fileira de uma dezena de casacos-vermelhos armados com mosquetes. Atrás deles, outra fileira. E mais uma e mais outra. Eram mais de quatrocentos. Entre a milícia podia-se ouvir homens praguejando e engolindo em seco.
Com largas e barulhentas passadas, os soldados prosseguiram pela estrada, mas logo viraram à direita, em nossa direção. Um destacamento de uma centena se posicionou em frente à taverna, mais enfileirados e disciplinados do que qualquer um na milícia. Gritos e conversas paralelas tomaram os homens.
Enquanto os soldados mantinham posição, um oficial de cinquenta anos em um cavalo avançou à frente deles. Tentando se fazer ouvido pelos milicianos em meio à bagunça, ele berrou:
— Dispersar! Dispersar! Abaixem suas armas, rebeldes malditos, e dispersem—se!
O sotaque escocês do oficial denunciou-me sua identidade. Era ninguém menos que o major, e Cavaleiro Templário, John Pitcairn. O homem que eu viera matar.
Naquele impasse, no entanto, era impossível me aproximar dele. Com os homens a postos atrás dele, qualquer movimento descuidado em sua direção significaria suicídio. E, a seu modo, John Parker também parecia perceber isso. Fitando a numerosa tropa com pavor nos olhos, ele bradou para seus homens, tentando superar a tosse constante:
— Dispersar, homens! Vamos dispersar e voltar para casa!
A voz fraca de Parker, no entanto, não fez efeito. Muitos dos milicianos sequer ouviram as ordens. Ao que ele tentava reforçar o comando, alguns deles lentamente deixaram o terreno. Nenhum abaixou suas armas como Pitcairn instruíra. Por alguns poucos minutos Parker tentou gritar em meio à confusão, ao passo que o major ficava impaciente. Mais soldados chegavam atrás dele.
Então ouvimos.
O estrondo de um tiro de arma de fogo ecoou pela cidade. Não se sabia de onde o tiro vinha, se era da milícia ou dos soldados. Mas isso pouco importava, pois aquele tiro mudou tudo. Os casacos-vermelhos desorganizadamente ergueram seus mosquetes em resposta, sem qualquer ordem de Pitcairn. O que se seguiu foi um caos de pólvora e fumaça.
A guerra retornava.
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