Espírito de Revolução
28 Meses Lentos
Notas iniciais
No entanto, muito tempo ainda separava a morte de William Johnson e a peleja em Lexington. Após o choque de testemunhar a primeira vítima de minha lâmina, minha mente cogitava apenas um lugar ao qual eu poderia fugir. Mas, mesmo assim, eu deveria tomar cuidado para não ser visto.
Já era noite quando um trio de homens ameaçadores chegou cavalgando em Kanatahséton. Eles faziam perguntas de aldeão em aldeão, até chegar à Casa Grande, de onde a Mãe do Clã os encarava, apoiada em seu longo cajado.
— Boa noite, honorável — disse a ela um dos homens a cavalo, no idioma Kanien’kéha.
Ela respondeu-lhe com um sorriso, e um dos outros não se demorou a interrogar, desconfiadamente.
— Sir William Johnson foi assassinado esta tarde em John’s Town. — Ele anunciou, em Inglês. — Testemunhas relatam que ele foi morto por um Kanien’kehá:ka alto, coberto por um capuz bege. A senhora sabe se algum indício desse homem foi avistado na aldeia?
O homem anterior traduziu tudo à Mãe do Clã, que respondeu-lhe calmamente, com outra pergunta.
— E o que leva os cavalheiros a crer que estaria esse homem em nossa aldeia?
— No momento de sua morte, Johnson negociava a compra deste condado — respondeu, após as devidas traduções — Sabemos que havia quem se opusesse a isso entre o povo, então temos motivos para suspeitar de que ele seja de uma das aldeias da região.
— A morte de Warraghiyagey é realmente uma pena. — A Mãe do Clã respondeu com lentidão. — Mas sinto em dizer que nenhum sinal desse suposto homicida de capuz chegou ao meu conhecimento, ou ao de qualquer um em Kanatahséton. E lhes asseguro de que nenhum dos nossos habitantes cometeria um ato tão macabro. Acho bem possível que fosse um mercenário, vindo de longe.
O intérprete traduziu a frase ao líder, que prosseguiu, desconfiado:
— Mesmo assim, senhora, eu terei de investigar a sua cabana, se me der licença.
Ao que ele se preparava para descer do cavalo e entrar na estrutura, o intérprete o impediu.
— Scotts, esta é a Mãe do Clã da Tartaruga. Seria uma tremenda falta de respeito duvidar da palavra dela.
A anciã meneou com a cabeça, deixando incerto se houvera ou não compreendido a frase na língua estrangeira. O tal de Scotts resmungou e puxou a rédea de sua montaria, dirigindo-se para fora da aldeia. O intérprete despediu-se da Mãe do Clã com uma reverência, e ela se pôs a observar os cavalos deixando o vilarejo. Poucos minutos depois, ela voltou a capengar para dentro da Casa Grande, fechando sua porta de madeira e palha.
— Eles já foram, Ratonhnhaké:ton.
Suspirei aliviado, me erguendo do canto da cabana onde eu tentava me esconder.
— Muito obrigado, Mãe do Clã. — Eu disse. — E... Sinto muito por te ter feito mentir.
Ela riu.
— Ah, a minha palavra é sagrada, meu jovem. Eu nunca minto. Eu disse que não havia visto sinal do homicida de capuz. Isso é verdade, porque você estava sem capuz quando te encontrei. E também disse que nenhum dos habitantes faria isso. Há um bom tempo você não habita esta aldeia.
Não consegui me animar com a resposta. A imagem do rosto moribundo de Johnson ainda estava na minha mente. Seu sangue impregnava meus pensamentos. O quanto Kanen’sta:tsi admirava-o. A tristeza na voz do pequeno George Johnson. O que eu fizera?
— Você acha que eu fiz o que era certo? — perguntei-lhe.
— Você fez o que achava certo, Ratonhnhaké:ton. E nem eu poderia culpá-lo por isso.
— Eu... Eu pensei que isso me traria clareza. Ou uma sensação de dever cumprido. Mas agora, tudo o que eu sinto é arrependimento. Nada disso nunca poderá trazer Atón’wah de volta.
A anciã sentou-se à fogueira.
— Segure firme esse sentimento — confortou ela — Significa que você ainda tem bondade dentro de si. Um homem que mata sem remorso... Esse sim perdeu sua humanidade. Sacrifícios como esses não devem nunca ser leves.
Ponderei, contemplando o ambiente.
— Eu tinha de fazê-lo. Não apenas por Atón’wah, mas por nosso povo e por todos aqueles que Johnson teria machucado.
— E por isso sou grata. A sua tarefa é difícil, mas fico feliz que a realize.
Ela hesitou, e por alguns minutos ficamos em silêncio.
— Você deixará Nova York mais uma vez? — perguntou ela.
Suspirei.
— Meu trabalho ainda não acabou.
— Eu me pergunto se algum dia acabará. O símbolo que você buscou e encontrou é uma marca de coragem e honra, sim. Mas ele promete dor e perdas também.
Funguei. Minha mente foi àqueles que eu havia perdido. Minha mãe. Atón’wah. Eu não conseguiria suportar perder outra pessoa de novo. Principalmente não por minha culpa, por ter me omitido do modo que eu poupara Johnson em Boston.
— Eu carregarei esses fardos, se isso significar que vocês estarão livres. Se significar que mais ninguém se ferirá.
Ela riu.
— Lembre-se de cuidar de si mesmo de vez em quando, rapaz.
Então ouvimos batidas na porta da cabana.
— Mãe do Clã! — chamava a voz de Saksa:ri.
Acenando para que eu me escondesse, a velha ergueu-se lentamente e caminhou até a porta. Ela encontrou um Saksa:ri de olhar tenso.
— Saudações, meu jovem.
— Saudações, Mãe do Clã. — Ele adicionou, em tom baixo: — A senhora viu algum sinal de Ratonhnhaké:ton?
Ela ponderou, quieta. Aproximei-me por trás dela para saudar meu pai adotivo. Ele inspirou em surpresa e olhou em volta. Entrou na Casa Grande com cuidado e me abraçou.
— Deixarei vocês dois a sós — disse ela, deixando o recinto e fechando a porta.
— Como sabia que eu estava aqui? — perguntei a Saksa:ri.
Ele sorriu.
— Eu não sabia. Mas você não achou que eu deixaria de te reconhecer só por causa do capuz, achou? Se você estava de volta à província, parecia natural que viesse à aldeia. — Ele fez uma pausa, para me olhar nos olhos. — Os homens de Johnson ficaram enfurecidos quando você atacou. Tentaram descontar em nós. E a casa da Mãe do Clã seria o melhor lugar de Kanatahséton para alguém se esconder deles.
— Descontar em vocês? Alguém se feriu? — Eu perguntei, preocupado.
Ele ficou nervoso.
— Joseph Brant impediu que os guardas prosseguissem. Mas, quando eles tentaram conter a confusão... Oskennon:ton se rebelou, e... Não conseguimos evitar.
Eu engoli em seco. Outra vida inocente perdida por minha causa.
— Você está bem, Ratonhnhaké:ton? — Ele perguntou ao ver meu semblante pesaroso.
— Eu matei uma pessoa, Saksa:ri. Não sei se consigo ficar bem depois disso.
— Garoto... — Ele parecia escolher as palavras com cuidado. — Johnson era uma ameaça a todos nós. Eu não esperava que fosse fazê-lo, mas... Você fez uma coisa boa hoje.
— Talvez.
— Não sou tão bom com palavras quanto gostaria... Mas eu te apoio, e agradeço pelo que fez.
Deixei uma lágrima escorrer.
— Atón’wah morreu por minha culpa. Se eu tivesse criado coragem e o matado antes, nada disso teria acontecido. Mas o erro não foi reparado.
— Ei. A morte de seu amigo é culpa de Johnson apenas. Nunca se culpe pelas ações de outros. O que importa é que o verdadeiro culpado se foi!
Eu permanecia inconsolável.
— Oskennon:ton e Atón’wah. Nós trocamos dois homens por um, e um deles era um chefe da vila.
— E por isso mesmo nós devemos prosseguir com a luta. Para garantir que os sacrifícios deles não tenham sido em vão. Essa única morte que você causou irá salvar centenas de pessoas. Talvez até mais.
— Mas e se Johnson tivesse razão? Molly Brant e ele diziam que queriam proteger nosso povo de invasores. E agora, rumores de uma guerra civil perturbam Boston.
— Nós estamos longe de Boston, e nossa aldeia permanecerá neutra, como nas guerras anteriores. Continuaremos guardando nosso território.
Meneei a cabeça, pensativo. Saksa:ri nitidamente não acreditava nisso.
— Você apenas quer me confortar, não? — comentei. No fundo eu sabia que se a guerra começasse, poderíamos até não tomar partido, mas um dos lados tomaria partido contra nós.
Saksa:ri pôs seu braço em meus ombros.
— Eu te criei como um filho. É meu dever, não? — Ele soltou um risinho, e adquiriu um semblante confiante. — A aldeia estando segura ou não, Ratonhnhaké:ton, eu estarei aqui. Sempre pronto para protegê-la com você.
Fitei meu pai adotivo, e enfim consegui sorrir.
•
Passei alguns dias escondido na casa da Mãe do Clã. Me doía não poder falar com Kanen’sta:tsi, mas era essencial que eu mantivesse minha presença escondida. Não seria nada bom ligar o povo de Kanatahséton ao assassinato de um diplomata. Além do mais, eu sabia o quanto ela ficaria desapontada se ligasse os pontos e concluísse que a morte de Johnson era minha obra.
Apenas quando Kanen’tó:kon chegou à aldeia com Mabel eu pude ir embora, e ainda assim tive de partir à noite.
Algumas semanas depois, eu me encontrava no porão da Mansão Davenport, encarando os retratos dos líderes Templários pendurados na parede. Com pesar, segurei o retrato de William Johnson e removi-o.
— Um já foi... — comentou Achilles, aproximando-se por trás de mim — Faltam quatro.
Não respondi.
— Você parece incerto.
— Eu... Não sei. E se Johnson tivesse razão?
— A primeira morte sempre é a mais difícil. — Ele confortou, colocando a mão em meu ombro. — O seu trabalho ficará mais fácil com o tempo, mas mantenha em mente o motivo pelo qual você mata. Um Assassino mata porque precisa, nunca por prazer. E você fez o que era preciso. Bom trabalho. Mas para ficarmos realmente livres da influência templária, todos eles devem ser eliminados. — Ele apontou com a bengala para o retrato acima dos outros. — Até mesmo o seu pai.
— Eu sei — respondi, melancólico.
— Você diz as palavras, mas será que acredita nelas?
— Eu acredito — respondi mais para mim mesmo do que para o Mentor — Johnson teria dominado o meu povo, roubado-lhe de sua liberdade, e imposto-lhe sua vontade.
— De fato. Mas você sabe que o trabalho ainda não terminou. Que notícias temos de nossos outros alvos?
Apontei para os retratos.
— Stephane está trabalhando como cozinheiro numa das baterias no norte da cidade. Ele diz que os marines de John Pitcairn estão acampados no parque de Boston Common, mas são muitos homens para uma abordagem direta.
— Um pensamento sensato. Matar um oficial no meio de seu acampamento pode ser a fagulha a acender o pavio de uma guerra. A menos que não se possa ligar a sua morte a um homicídio. Você acha que o Sr. Chapheau poderia ser transferido ao acampamento de Pitcairn e colocar algum veneno em sua comida?
A sugestão me desagradou. Veneno era uma das armas mais desleais possíveis.
— Eu não sei. Os Assassinos não costumavam desaprovar o uso de venenos?
Achilles assentiu com sarcasmo.
— Oh, sim, os Hashshashins de seiscentos anos atrás eram contra o envenenamento. Mas eles também foram dizimados pela horda dos mongóis. Se quisermos vencer, nós não podemos nos dar ao luxo de colocar honra acima da discrição.
— Parece arriscado, o Exército certamente suspeitaria do seu cozinheiro. Mas eu irei... comentar a ideia com Stephane. Mas com Boston ocupada, devemos procurar venenos em outro lugar.
— Faulkner conhece alguns contrabandistas. Ele pode providenciar isso em uma das suas próximas incursões. Mas você também está certo, Connor, devemos avaliar os riscos antes de agir. Uma guerra se aproxima, e sabendo como os Templários só se favoreceriam dela, temos que atrasá-la o máximo possível.
— Não tenho certeza se uma guerra está nos planos da Ordem. Benjamin Church tem se manifestado bastante na Assembleia Municipal, e parece empenhado em fazer um acordo entre os rebeldes e a Coroa.
— Bem, isso de nada me espanta. É difícil manipular uma guerra se não se tiver homens em ambos os lados dela. E ele pode falar de paz, mas Church é só fachada. Se faz de whig, mas queria lucrar com o monopólio do chá que seus compatriotas tanto desprezaram. Temos de desmascará-lo.
— De fato — respondi — Já conversei com Sam Adams a respeito disso. Ele acionou seus contatos, mas até agora não conseguiu reunir nenhuma prova. Diz que suas mãos estão atadas. Duncan Little também está falando com amigos, tentando ligar Church à gangue de North End.
— Entendo. — O Mentor ponderou. — Os Templários não são nada se não engenhosos. Matar Church enquanto aliado dos rebeldes poderia trazer consequências indesejáveis, e iniciar a guerra tanto quanto Pitcairn. Nossa maior esperança é continuar em busca de seus podres. Mais cedo ou mais tarde ele deve se negligenciar. Mas e quanto aos outros? Com a morte de Johnson, Jack Weeks deve ficar quieto por um tempo, mas sabemos que há peixes maiores a pegar.
Fitei a segunda pintura mais ao topo da parede, abaixo apenas da de meu pai.
— O tenente-coronel Charles Lee retornou à América no ano passado. Ele se estabeleceu na Virgínia e está atualmente viajando pelas colônias. Passou alguns dias em Boston mas não conseguimos obter pistas sobre seus planos.
— Hm, decerto que após tanto tempo na Europa ele tem conversas para pôr em dia com seu rito. E assumo que também não temos nenhum sinal do Grão-Mestre?
— Sim — suspirei — Não temos notícia de meu p-... de Kenway desde o Massacre da Rua King. Já faz quatro anos.
— Ele não chegou aonde chegou anunciando seus movimentos. Não se preocupe com ele por enquanto, Connor. Esse é um alvo para outro dia.
— Certo. Qual é o nosso próximo passo então?
Achilles se relaxou na bengala e apontou para as pinturas do médico e do major.
— Apenas continue de olho em Church e Pitcairn.
— Qual deles será meu Alvo agora?
— O primeiro que vacilar.
•
Os meses passaram lentamente naquele limbo pré-guerra, entre a ocupação da cidade e o início das batalhas. A tensão entre a Coroa e seus súditos, apesar de não chegar a estourar, ficava cada vez mais desconfortável, com o Exército avançando sua presença na região de Boston e os rebeldes reunindo suas forças em segredo. Ou, melhor dizendo, suas forças militares eram reunidas em segredo, pois as forças políticas se encontraram de forma bem pública na cidade da Filadélfia para o seu primeiro Congresso Continental, a partir do início de Setembro.
O conjunto de 56 delegados reunidos representava doze das treze colônias originais da Grã-Bretanha, com a ausência apenas da Geórgia. Durante várias semanas, o congresso votou em medidas a serem tomadas em resposta às que eles chamavam de Leis Intoleráveis, embora raramente suas decisões fossem unânimes. Os membros mais conservadores do Congresso queriam chegar a um meio-termo entre Coroa e colonos, eventualmente fazendo com que a Grã-Bretanha anulasse suas leis. Os mais liberais do Congresso, e entre eles Samuel Adams, porém, não viam uma reconciliação como alternativa, e buscavam em vez disso reafirmar as liberdades das colônias, acabando com os abusos da Coroa e mantendo seus direitos como cidadãos.
Enquanto alguns propunham a formação de um corpo legislativo com alguma autonomia em relação ao rei, outros já tomavam o extremo de pregar a independência total das colônias. Sem consenso, o Congresso se contentou em propor um boicote geral a todos os produtos britânicos, pressionando a Grã-Bretanha onde mais lhe doeria: nos bolsos. Além disso, um segundo congresso foi agendado para Maio do ano seguinte, com convites abertos às colônias faltantes da Geórgia e Flórida, assim como às antigas colônias francesas ao norte.
Porém, nesse meio-tempo em que Adams esteve na Filadélfia, a situação em nada se abrandou em Massachusetts. Alguns dias antes do início do Congresso, o governador Gage mandou alguns de seus homens em segredo para confiscar pólvora de uma reserva nos arredores de Boston. Porém, de alguma maneira, talvez furtada ou simplesmente derrubada, a carta com as ordens foi perdida por Gage. A má interpretação da carta fez com que rumores infundados se espalhassem por toda a província, teorizando que uma batalha se aproximava, que tiros haviam sido trocados, vidas perdidas, Boston bombardeada. Cidades do interior, ao ouvir as notícias, formaram suas milícias e marcharam torrencialmente em direção a Boston.
Nada disso era verdade, e a remoção da pólvora ocorreu de maneira totalmente pacífica, mas isso não impediu que os rumores alardeassem toda a população, ensinando aos rebeldes a serem mais cautelosos. Das milícias de Massachusetts foram formadas companhias especializadas chamadas de minutemen, que deveriam estar prontas para a guerra 24 horas por dia, e um sistema de alarmes e cavaleiros foi estabelecido para transmitir notícias ao longo de todo o interior, o que se mostraria bem útil quando a guerra começasse. E, desde então, os rebeldes passaram a armazenar suas reservas de pólvora em locais escondidos, cada vez mais longe da capital, onde Gage concentrava suas tropas após ver que a reação generalizada à sua expedição prejudicaria operações futuras no interior.
E, no mês de Outubro, após a assembleia provincial que se encontrava em Salem ser dissolvida por Thomas Gage (graças à mesma lei que o tornara governador por nomeação do rei), os whigs rebeldes tomaram seu primeiro passo na busca por autonomia: os membros da assembleia deixaram Salem e voltaram a se encontrar na cidade de Concord, a 27 quilômetros de Boston. Lá foi formado o Congresso Provincial, uma organização ilegal que passou a exercer poder em toda a Massachusetts, com exceção apenas de Boston. Em todo o resto da província, o Congresso, com John Hancock como seu presidente, se encarregou de governar o interior, coletar impostos e organizar uma milícia capaz de se igualar ao exército de Gage.
Mas até mesmo este Congresso Provincial rapidamente foi infectado pela Ordem dos Templários. O doutor Benjamin Church foi nomeado como membro do Comitê de Segurança do congresso, assim sendo responsável pelos preparativos para a possível guerra. Com um Templário ao lado de Thomas Gage e outro ao lado de John Hancock, era difícil entender qual lado da guerra mais favoreceria a Ordem. Duncan Little teorizou que talvez nem os próprios Templários soubessem.
— Eles estão apenas aguardando — disse ele — Querem estar dos dois lados só por precaução, pois não sabem qual deles vencerá. Mas assim que um dos exércitos começar a vencer, é nele que irão se concentrar.
Com Sam Adams ainda investigando as verdadeiras intenções de Benjamin após seu retorno da Filadélfia, não havia muito que nossa crescente Irmandade pudesse fazer, e portanto tivemos de nos contentar em esperar.
O outono e o inverno chegaram e passaram, e apesar de ainda estarmos esperando pelo deslize dos Templários, nem por isso meus recrutas e eu ficamos parados. Duncan prosseguiu evitando conflitos entre o exército e a população bostoniana, que se revoltava cada vez mais com seus ocupantes. E graças aos contatos e informações de Paul Revere, percorri o litoral para evitar qualquer derramamento de sangue conforme eu ouvia sobre a movimentação dos casacos-vermelhos.
Em Dezembro, estive em Portsmouth quando os soldados começaram a marchar à cidade para confiscar reservas do Forte William e Mary. Avisando a população com antecedência, auxiliei os whigs a remover as provisões do forte, de modo que nada restava quando os soldados de fato chegaram. E dois meses mais tarde, quando um navio de casacos-vermelhos desembarcou em Salem em busca de armas, ajudei os rebeldes a esconder seus canhões enquanto a população distraía a tropa, que mais tarde partiu da cidade humilhada.
Os rebeldes podiam mover suas armas e o Congresso podia trocar de cidade o quanto quisessem, mas era óbvio que mais cedo ou mais tarde os casacos-vermelhos os alcançariam. Então eu não deveria me espantar quando, numa noite de Abril, tive meu sono interrompido por batidas apressadas na porta da Mansão Davenport.
— Senhor Connor? — dizia a voz de Yolanda. A moça se mudara para a Fazenda Davenport alguns meses antes, tanto para cuidar de nossos pombos quanto para evitar problemas com o Exército ocupando Boston.
Quando abri a porta, encontrei-a com um semblante preocupado e um bilhete na mão. Ao seu lado, na fachada da casa, a machadinha que eu fincara quase um ano antes ainda estava lá. Johnson havia partido, mas com os quatro líderes Templários ainda vivo, a ameaça não estava verdadeiramente acabada, e portanto a machadinha permanecia.
— Yolanda? — questionei, sonolento — O que aconteceu?
— Um pombo acabou de chegar. — Ela explicou. — Uma mensagem de Stephane.
— A essa hora? — Bocejei. — É tão urgente que não pudesse esperar amanhecer?
— Pra falar a verdade, é sim.
Afastei o sono por um segundo e enfim identifiquei o que ela segurava. Não era apenas uma mensagem em papel. Era uma mensagem em papel vermelho, o nosso código de emergência. Qualquer sonolência que eu ainda tivesse deu lugar a apreensão, conforme Yolanda me entregou o papel e eu entrei correndo para acender uma vela e ler o bilhete.
“Os casacos-vermelhos marcharão para as reservas militares de Concord pela madrugada, com o major Pitcairn sob o comando de 300 homens de infantaria leve. 300 granadeiros seguirão. Paul Revere e William Dawes já deixaram Boston para alertar as milícias rebeldes pela província. Sam Adams e John Hancock estão em Lexington, e suspeita-se que Pitcairn deseje prendê-los.”
Praguejei. “É agora”. As reservas da milícia estavam em risco, assim como os dois homens mais importantes da rebelião. Se a guerra não se iniciasse agora, não o faria nunca. E no meio disso ainda estava o major John Pitcairn. Meu novo Alvo.
— Devo enviar uma resposta, senhor? — Yolanda perguntou.
Fiz cálculos rápidos. Lexington estava vinte quilômetros a oeste. Se partisse a cavalo imediatamente, talvez ainda pudesse chegar antes dos casacos-vermelhos.
— Mande seu pombo mais rápido a Boston. Avise a Stephane que estou a caminho de Lexington.
Ao que ela rapidamente saiu pela fachada da mansão, corri ao meu quarto para buscar minhas armas. Com sorte, minhas lâminas iriam provar sangue novo muito em breve.
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