Notas iniciais
Vilarejo da Rama, inverno.

O sino da Igreja anunciava a oração da meia-noite, quando ela sentou na cadeira na varanda da casa. Nestas altas horas da noite, as ruas já desertas e silenciosas deixavam a noite tranquila, preparando-os demais para outro dia de atividade — o momento ideal pro despertar.

Uma neblina densa paira sob o vilarejo, deixando-o com aspecto sombrio e as casas, como nos contos de Edgar A. Poe, fantasmagóricas. Quem avistasse de longe a bela jovem, vestindo um visual dark, diria ser um fantasma, uma alma penada assombrando aquela antiga mansão.

O estilo neogótico da casa, ornado com belas flores num pequeno jardim na frente da casa e uma horta no quintal dos fundos, usados nos chás, poções... revela um pouco sobre o cotidiano dos antigos moradores, presentes em cada detalhe dos elementos da construção a ornamentação.

Assim, tanto o tempo quanto o local deixam-na bem a vontade nesta nova morada para viver uma nova jornada de estudo, mesmo não reconhecendo muitos detalhes sobre a história deles. Ela, nessa noite tranquila, meditando na varanda da casa, é bom um sinal.

Após alguns minutos, atraída pela música newage tocada pelos ventos soprando entre os galhos e folhas das árvores, ela decide levantar-se e descer pela pequena escada da varanda para admirar e sentir o olor das flores do jardim, belamente conservadas durante o inverno.

Não deve ser fácil conservá-las nestes dias de intenso frio, pensava, enquanto admirava-as variadas cores e formas plantadas num pequeno canteiro. De pés descalços, caminhada levemente de um lado a outro do gramado sem se preocupar em ser vigiada pelos pais ou observada pelos demais habitantes.

A presença dos elementais, embalados pela bucólica canção de inverno, logo foi percebida pela jovem. Uma espiral de vento formou um círculo natural de poder e proteção com as folhas caídas no gramado. Vendo isso, ela, rodeada pela neblina, sentiu se muito agraciada pelo convite feito pelos elementais.

Envolta pela presença mágica deles, sendo protegida pelo círculo de poder, ela pega um pequeno galho e levanta-o para convocar alguns dos seus guardiães para assisti-la nessa nova jornada de estudo, mas, antes de iniciar as primeiras palavras, é interrompida pela mãe, observando-a da varanda da casa.

— Tá fazendo o que, minha filha, a essa hora da noite aí sozinha? — vendo a varinha, ironizou – O que vai fazer com esse graveto?

Invocada pela interferência, ela, sem responder as perguntas meio irônicas, refaz o caminho de volta pro quarto. Esta nova casa parece ser ideal pra realizar os estudos e rituais, mesmo, às vezes, sendo interrompida pela sua única companhia.

No quarto, depois de guardar a varinha, ela, decidida a manter a conexão, abre a janela. A bela visão da noite, se tornou mágica, quando avistou uma coruja pousada no círculo de poder, desenhado com algumas folhas e flores caídas no gramado.

Essa visão, presenciada nesta noite solitária, se tornou um sinal manifesto no círculo de poder. Ela, esquecendo da interferência, caminha calmamente pra cama, adormecendo depois de recolher-se no quarto, protegida pelos seres elementais, despertos nessa noite e manifestos nessa morada.


Notas finais
O athame, a varinha ou cajado são instrumentos ritualísticos, utilizado para absorver, potencializar e direcionar energias em rituais.