Notas iniciais
No Caminho da Escola, 07h.

Na manhã seguinte, levantou-se muito cedo, pois precisava estar preparada pra nova rotina. A mente ainda revivia os encantos da noite passada, quando vira a densa neblina pairar sob o círculo de poder. Sinal de que o reino foi desperto nessa nova jornada solitária.

Sem perder tempo, depois de voltar do banho, vestiu uma calça jeans, camisa da Lacuna Coil e calçou os sapatos pretos. Após pegar a mochila na cama e ajustar os fones, passou pelo espelho pra retocar a make e conferir o look — tirou uma foto e saiu.

Passando pela cozinha, colocou um pouco de café na caneca, catou alguns biscoitos e sentou a mesa. Não queria perder muito tempo, pois não sabia o horário certo do ônibus da escola. Assim, lanchou e caminhou rapidamente pelas escadas da varanda.

'Uma bela manhã pra goticar na escola' — pensou ela, enquanto saia do portão de casa. O ponto, onde alguns trabalhadores e estudantes estão esperando o ônibus, não fica distante de casa. Em poucos minutos, já estava atraindo a atenção dos outros passageiros.

Antes de ficar chateada pelos olhares, o ônibus da escola para no ponto, onde alguns alunos embarcam rumo a mais um dia de estudos e trabalhos escolares. Ao entrar no ônibus, a alguns assentos no fundo, avistou alguém acenando e indicando um lugar ao lado.

— Aqui, mocinha! — a inspetora interrompeu, indicando um assento, gasto pelo tempo, no meio do caminho – pode se sentar aqui mesmo.

Caminhando, meio sem jeito, entre os olhares dos outros colegas, ela se ajeita no banco indicado pela inspetora. Logo, ouviu alguns comentários sobre seu visual dark, entrecortados por risos. Pra evitar perder o dia, ela decide colocar os fones e apertar o play.

Aquela paisagem familiar, vista durante anos em sonho, agora, passava pela janela. As imagens criavam um clip da música dark, tocada no player. Sua jornada, dedicado aos estudos nessa escola, esta apenas iniciando, no entanto, já recebera muitos sinais.

Faltam alguns anos pra concluir seus estudos, mas ainda não tinha escolhido uma carreira pra seguir. Essa nova escola poderia revelar-lhe alguma profissão — inspiração, depois dos últimos sinais recebidos na noite passada, certamente não faltará no decorrer dos estudos.

Às 7h30 da manhã, os alunos desembarcaram perto da escola — sem aquele tumulto, vivenciado na troca de turno. Enquanto a inspetora observa-os atravessar o jardim até o portão principal do prédio, o porteiro recepciona os estudantes pro dia de estudo.

— Hey — cutucou uma garota. Quando ela olhou, disse – pensei que não viria hoje. Por que não sentou do meu lado no fundão?

— A inspetora me parou no meio do caminho. — respondeu chateada e pergunta — Você ouviu os comentários dos outros?

— Ouvi alguns! — respondeu Vih, tentando acompanhar os passos da nova amiga, e comenta — pensei que você já estivesse acostumada com isso.

— Às vezes, esqueço que estamos andando entre os mortais. Falando nisso, te chamo pelo nome? Ou pelo seu nick?

— Quando estivermos entre eles, pode usar nosso nome. Que tal usar nosso nick, no meio da galera?

— Combinado, Vih! — confirmou Cris, mesmo achando que não teria problema em ser chamada pelo nick entre os outros.

As duas, quase chegando no portão de entrada da escola, caminham na mesma direção, mas seguiam vertentes totalmente diferentes no underground. Cris curtia a cultura dark, Vih era uma gótica cristã, liberta do mundo trevoso — como costuma falar.

Cris é uma das calouras da escola, porque se mudou a pouco tempo pro vilarejo. Por sorte, num coven online da galera do rock, conheceu Vih. Depois de muito papo no chat, em pouco tempo, se tornou uma best friend no mundo virtual e, agora, na cena local.

Enquanto caminham pelos corredores, encontram alunos novos e antigos, calouros e veteranos transitando de um lugar a outro. Uns procurando o armário e outros, a sala de aula. Elas não passam por isso, pois uma delas, Vih, era veterana ali e conhecia bem.

— Pelo visto — disse ao reparar a expressão e o jeito dela abrindo o armário — o problema não foi só a inspetora!

— E não foi mesmo! — após fechar o armário, Cris revela – É que ontem não terminei uma invocação. Por isso...

— Não tem problema! — confortou a nova amiga antes dela terminar, enquanto colocava alguns livros na mochila – Vamos fazer no próximo festival!

Essa lembrança a reanimou, porque era uma ótima oportunidade para consagrar alguns instrumentos e conhecê-la melhor offline. Quando o sinal tocou, sentindo se bem melhor, as duas caminharam até a sala de aula, onde ficarão boa parte da manhã.


Notas finais
Um ritual é um conjunto de gestos, palavras e formalidades, tendo valor simbólico, cuja performance é, usualmente, prescrita e codificada por uma religião ou pelas tradições.