Escrito nas Estrelas
22 Depois do Jantar
Notas iniciais
Enquanto todos conversavam animadamente, Sara permanecia calada e brincava com a comida. Ainda não havia colocado uma única colherada da apetitosa refeição na boca. Havia apenas bebericado um pouco do excelente vinho que estava em sua taça. Estava sem apetite.
― Não vai comer minha querida? – a madrinha, observando-a de longe lhe sussurrou.
Ainda que estivessem distantes uma da outra, as duas, madrinha e afilhada haviam desenvolvido a prática e a técnica de leitura de lábios para eventualidades como aquela, a de não serem postas perto uma da outra. Não podiam de modo algum manter uma conversa somente as duas sem a participação dos demais. Era impróprio.
― Me desculpe madrinha, porém estou sem fome – ela movimentou os lábios sem emitir som algum.
A bondosa e jovem senhora observou sua afilhada mais atentamente. Lady Catherine conhecia Sara bem demais para saber que havia algo com ela, alguma coisa estava diferente com a moça que criara com tanto carinho. Tentaria descobrir o que era. Não agora. Naquele momento desfrutaria da companhia dos anfitriões da fazenda.
Em voz alta, como forma de respeito aos donos da casa, Sara indagou a sua madrinha:
― Madrinha, posso recolher-me aos meus aposentos? Sinto-me um pouco indisposta.
― Claro, meu bem! – a mulher concordou também em voz alta.
Levantando-se, Sara pediu licença aos demais presentes à mesa e depois saiu.
― Sua afilhada é um encanto de menina, Lady Catherine – comentou o visconde Simon – Parabéns! O homem que se casar com ela será afortunado.
― Obrigada visconde! — agradeceu ela, sinceramente – Sara é uma moça muito encantadora mesmo.
― Ela é realmente muito bela – ouviram o barão Stokes elogiá-la.
― Ela tem a quem puxar. A madrinha é igualmente bela – elogiou-a o futuro visconde, sorrindo-lhe.
Catherine enrusbeceu.
― Perdoe-me o comentário, Lady Catherine, porém não pude deixar de reparar que sua afilhada parece-me apaixonada. Desde que chegou a fazenda não come direito, vive suspirando e sonhando acordada – argumentou a viscondessa.
― Apaixonada? – indagou lady Catherine a qual também já havia levantado aquela suspeita. Fazia uma vaga ideia de quem poderia ser o alvo da paixão de Sara, mas precisava conversar com a menina sobre isso para ter certeza.
Continuaram a tecer elogios sobre os predicados de Sara e a levantar suposições sobre quem teria arrebatado o coração da jovem donzela.
****
Sara subiu as escadas lentamente em direção ao seu quarto. Abriu a pesada porta, deixou-a entreaberta e lançou-se na cama. Aquela noite ela dormiria sozinha, pois Lindsey havia sido convidada por Emily para dormir em seu quarto. Lady Catherine concordou após os rogos incessantes das meninas. Com a concessão, as duas crianças poderiam brincar uma com a outra um pouco mais sem se preocuparem em incomodar ninguém.
Sara pôs-se a pensar em tudo o que vivera até ali, em tudo o que a levara até ali. Seu passado e agora seu presente. Inconscientemente seu pensamento voltou-se para o futuro conde de Nevada. Como ela podia se sentir tão segura nos braços de seu inimigo? É certo que ele não era o culpado, mas o pai era. Levara tanto tempo alimentando seu ódio que se esquecera de como era viver. Havia desperdiçado parte de sua juventude buscando vingança e por conta disso não sabia o que era amar. O pior disso tudo era que leva essa carga sozinha. Não havia contado nada para sua madrinha.
E por obra do destino, ou coisa que o valha, começava a descobrir esse sentimento com o filho do homem que decidira odiar para sempre. Será que era amor? Sabia que sentia uma intensa atração por ele, isso ela não podia negar. Quando estava perto dele, seu corpo inteiro ardia em chamas. Mas amor? Não sabia o que era. Também sabia que ficava toda desconcertada quando o via, ou mesmo quando ouvia sua voz, seu coração parecia sempre falhar uma batida e as pernas tremiam quando ele se aproximava dela... Ela estava confusa. Profundamente confusa.
Perdida em seus pensamentos, ela não ouviu quando a porta de seu quarto foi aberta levemente.
****
Grissom rolou pela cama sem conseguir dormir. O louco devaneio que tivera durante o jantar ainda o atormentava. Cogitou tomar um banho frio, porém sabia que também isso não adiantaria. Provavelmente os outros convidados ainda permaneciam na sala conversando após a refeição. Será que a pequena atrevida também estaria? Com quem estaria conversando? Seria com o esnobe do barão Nick ou com o fedelho Sanders? Não lhe agradava nenhuma das opções. Ainda perdido em suas suposições, ouviu vagamente uma das portas dos aposentos sendo aberta. Quem seria? Não resistiu a curiosidade de saber quem era.
Ele abriu a porta de seu quarto e de onde estava pôde observar que a porta que se abrira fora a de Sara e viu quando uma parte de seu vestido sumia pela alcova. Seus pés pareceram adquirir vida própria e se viu indo em direção ao quarto de sua pequena diaba.
Ficou parado por alguns minutos contemplando-a pela porta entreaberta. Ela estava deitada em sua cama e parecia perdida em pensamentos. Estaria pensando nele? Vendo-a ali, tão perto, tão ao seu alcance e ao mesmo tempo tão distante e tão real, com aquele perfume que o deixava louco, não sabia o que fazer. Ela era linda! E sim, sabia que estava apaixonado por aquela pequena criatura atrevida.
Ela o fazia se sentir o mais afortunado dos homens. Sabia que com ela sua vida não seria monótona. Pelo contrário. Sabia que a vida ao lado de Sara seria repleta de surpresas. Ela sempre o surpreenderia de uma maneira ou de outra. Sabia que na cama também ela seria uma tigresa, uma aprendiz ávida por aprender os segredos da arte sexual, como dar e receber prazer.
Ele suspirou profundamente e não hesitou em entrar no quarto da moça. Abriu a porta lenta e suavemente. Também não se preocupou que alguém os pudesse flagrá-los juntos. Estava louco por estar junto a ela mais uma vez, sentir seu perfume de perto, provar novamente seus lábios deliciosos.
Dirigiu-se até a cama de Sara. Agachou-se e sem aviso prévio, acariciou-lhe a face.
― Meu amor! – ele sussurrou.
Ele a olhava fixamente. Investira tudo naquele olhar. Queria transmitir a ela através dele todo o seu amor. Tantas palavras em um breve sussurrar. Paixão assim não acontecia todo dia.
Sara ao sentir o toque em sua face assustou-se. Como num passe de mágica seu pensamento tornou-se real. Grissom estava ali. Ela apressou-se em sentar.
― Como entrou aqui? – ela perguntou rispidamente.
― A porta estava aberta – ele respondeu.
― Como ousa entrar no meu quarto sem ser convidado? – ela o interrogou.
Ele não respondeu. Apenas voltou a acariciar sua face.
― Bela! Você é estonteantemente bela – ele sussurrou.
Ela era cheia de charme. E sentia um desejo enorme de se aventurar novamente naquele corpo tão macio e de tomar aquela boca suculenta sob a sua. Lentamente aproximou seu rosto do dela, sua boca da dela e colou seus lábios aos dela.
Os lábios dele estavam mais macios que durante a tarde às margens do Lago Mead, mas ainda firmes e insistentes. Movimentou os lábios, escavando mais fundo, pressionando e abrindo seus lábios. Ele colocou a língua para fora, provando e provocando os lábios dela, e deslizou para dentro da boca, movendo-se com a maciez de veludo em torno da língua dela. Uma de suas mãos foi parar no cabelo da moça, enroscando o dedo em uma mecha. Perdeu-se entre seus cabelos, em sua pele e nos seus lábios tão macios.
― Não resista meu amor. Nós dois ansiamos por isso – ele balbuciou entre os lábios dela.
Perdidos entre carícias, eles não souberam que alguém os observava.
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