Escolhidos.

6 Capitulo 6


Há pessoas para todo lado, é sempre assim no sétimo dia. O almoço está sendo servido e vou para o refeitório. Entro e me deparo com Kelly e Joyce sentadas na mesa de sempre, elas me encaram e cochicham. Dou um sorriso e elas retribuem.

Pego minha comida e vou me sentar, vejo que Rose está com ela. Rose é da minha turma e vive dando em cima dos meninos e não gosto da atitude dela. Ela não é bonita, mas tem seios fartos e uma bunda grande e muitos meninos admiram isso nela, não acho que isso seja uma qualidade. Fico parada encarando a mesa das meninas pensando se devo sentar lá. Decido me sentar com elas, mesmo sabendo que vou me arrepender. Vou caminhando até a mesa, mas no meio do caminho vejo Amera acenando para que eu vá se sentar com ela e a sua turma. Minha cabeça se enche de dúvida, mas prefiro sentar com Amera a sentar na mesma mesa com Rose.

Passo pela mesa das meninas e cumprimento-as, elas apenas me encaram e me seguem com os olhos. Ao sentar com Amera e seus amigos posso imaginar a reação de Kelly e Joyce. Não olho para trás, pois sei que elas estarão com os olhos colados em mim e sei que a reação não vai ser boa.

Penso em Bryan, será que ele está me vendo agora? Quero procurar por ele, mas decido não me mover para olhar as outras pessoas, sei que terei que olhar pra trás e é o que estou evitando fazer. Tento relaxar e apreciar o almoço com novas companhias. Sinto um pouco desconfortável, pois ainda não me acostumei com eles, mas se me chamaram pra sentar com eles é porque farei parte do grupo deles agora.

Amera é muito simpática com todos e está sendo muito simpática comigo, sinto que devo retribuir.

Pela primeira vez não faço esforço para gostar de alguém ou ser gentil, não sei como, mas sei que Amera me motiva a ser simpática e carismática. Com eles eu consigo sorrir, brincar e dialogar naturalmente.

Amera está sentada a minha frente, ao seu lado está May e Luca. Pietro está sentado ao meu lado. Olho para Amera e vejo Bryan passando no corredor ao fundo. A principio fico imóvel, mas ele balança a cabeça e esboça um sorriso. Retribuo o sorriso e ele ri. Acho que está tudo bem com ele, mas não sei se posso dizer o mesmo das minhas companheiras de quarto.

– Ficaram sabendo da festa?

– Que festa? – May pergunta pra Amera.

– A que vai ter no terraço, hoje. – Luca diz mastigando sua comida.. – Convidaram muitas pessoas.

– Com certeza vai ser ruim, vão estragar a festa. – May cutuca as narinas com os dedos e puxa um metal envergado com duas bolinhas na ponta. Acho nojento, pois nunca tinha visto aquilo.

– O que é isso? – Pergunto apontando para seu nariz.

– Um piercing. – Ela responde cutucando e deixando o metal torto no seu nariz.

Encaro ela sem entender o que seja, ela ri e dou uma risada abafada aguardando uma resposta.

– Piercing é uma perfuração que tem o objetivo de inserir fragmentos metálicos no corpo. – Responde Pietro. – Algumas pessoas da escola usam.

– Os mais radicais. – May diz.

– Eu mesmo tenho um... No mamilo. – Pietro diz com um olhar de safado.

Acho que ter um piercing é realmente radical. Só de imaginar o metal atravessando minha pele me dá arrepios.

– Legal. – Digo sem nenhum tom de animação.

– E então... Você vai a festa? – May está me olhando e percebo que a pergunta foi pra mim.

– Eu? – Minha expressa ode assustada está nítida. – Acho que não sou uma convidada.

– Qual é, você está com a gente. – Amera senta ao meu lado e pega na minha mão. – A partir dessa noite você será uma de nós, vamos te batizar.

– Batismo. É a coisa mais legal de uma festa, faz tempo que não há um batizado. – Luca tem animação nos olhos. Ele me pareceu ser mais sério, mas acho que estou enganada.

– Bom... Talvez eu vá.

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Estou no quarto de Amera, ela pega umas roupas e joga na cama. Estou animada, mas não sei exatamente como me vestir, mas só espero não passar vergonha embora serei a única caloura na festa dos avançados.

– Se importa se eu me trocar de roupa na sua frente? – Balanço a cabeça dizendo que não mesmo sendo esquisito, mas já passei por essa experiência de ver outras meninas nuas na minha frente. Sim, estou me referindo a Kelly e Joyce.

Amera tira suas roupas ficando apenas de calcinha e sutiã, sua calcinha é vermelha e chama minha atenção. Ela tem um belo corpo. Vejo que ela tem um desenho preto na costela. È uma âncora.

– O que é esse desenho?

– Ah, é uma tatuagem. – Ela diz passando a mão sobre o desenho. – Tatuagem é um desenho permanente na sua pele.

– Permanente? Nunca mais vai sair? – Pergunto espantada.

– É... Vou tê-la pra sempre.

– E por que uma âncora? O que ela representa? – Sou bastante curiosa e quero aprender novas coisas.

– Significa segurança. Âncoras eram usadas no mar para deixa o barco firme e parado em algum lugar.

Fico maravilhada, mas não sei se o significado de âncora serviria pra mim, não sou muito segura nas minhas atitudes. Sorrio pra ela e vejo que ela está colocando a calça preta colada e em seguida veste uma blusinha curta mostrando a barriga e o umbigo. Seus seios não são tão fartos então a blusa não fica um pouco larga. Vejo ela usar algumas coisas no rosto e logo decifro que é maquiagem. Uma vez lembro ter usado um batom que minha mãe tinha. Foi a única vez que passei uma maquiagem.

– Esse é só o básico, lápis de olho e batom, tudo que você precisa. – Ela aplica a maquiagem e fica mais bonita. Seus olhos ficam chamativos com contorno preto que ela acaba de fazer, seu batom é vermelho bem chamativo.

Pra finalizar ela coloca um coturno que bate na canela dela e uma jaqueta preta. A jaqueta é linda e até brilha. Seu cabelo está embaraçado, ela prende ele fazendo um coque mal feito o que combina com seu estilo.

Nunca me importei pra essas coisas, mas sinto que seja a hora de dar um pouco de valor pra minha aparência, não para os outros, mas acho que vai me fazer bem.

– E qual é sua roupa? – Ela me pergunta. Eu olho pra ela de cima a baixo e fico boquiaberta.

– Acho que não tenho uma roupa pra festa.

– Como? No dia da roupa você vai comigo. – O dia da roupa é um dos dias que eu menos gosto aqui na escola. É o dia em que podemos escolher novas roupas, a escola fornece muitas roupas de vários estilos e podemos pegar dez peças e dois pares de sapatos novos. Estou na escola há pouco tempo, cerca de dois messes e só teve duas vezes o dia da roupa.

– Está bem. – Dou um breve sorriso.

– Bem, você tem calça preta certo?

– Acho que todas minhas calças são pretas.

– Isso é bom, mas é bom você ter um jeans azul. – Amera parece ser especialista em moda. Gostaria de saber onde ela aprendeu. – Você vai vestir uma calça preta sua e vai usar essa camisa.

A camisa é de uma malha gostosa, ela é toda preta e é regata.

Vamos para meu quarto que é dois andar abaixo do andar do dormitório dos alunos avançados. Entro no quarto com Amera e vejo Kelly e Joyce conversando. Elas param de olham para a porta.

– Não queria interromper. – Amera me acompanha e vamos até a minha cama no fundo do quarto. As meninas nos acompanham com os olhos.

– Oi, sou Amera.

– Eu sou Joyce, muito prazer. – Joyce fala com uma empolgação. – E Essa é a Kelly.

– Oi. – A saudação de Joyce é curta e ela não mostra interesse em conversar.

– Prazer meninas. – Acho incrível como Amera consegue sorrir e ser simpática com todos. – Andy, se apresse, preciso ver como você vai ficar.

Pego minha melhor calça preta e entro no banheiro. Visto a calça e depois a blusa. Ela é agarrada e fica justa no meu corpo. Olho-me no espelho e vejo que tenho um corpo bonito. Dou uma escovada no meu cabelo e saio do banheiro.

– Então?

– Nossa. Você está gostosa. – Amera morde o lábio inferior e fico constrangida.

– O que?

– É um elogio dos meninos, você nunca ouviu?

– Não. – Digo calçando minhas botas.

Minha bota é de um tecido gostoso e ela é pequena. Ela tem uns pingentes de metal atrás e isso dá um charme.

– Uma botina de cano curto. – Encaro Amera e ela bufa. – É o nome dessa bota.

– Ah, agora entendi. – Acho que preciso ser mais compreensiva.

Joyce está de olho em nós, seus olhos de admiração me deixa assustada. Kelly nem se importa com nossa presença, ela apenas está deitada lendo um livro.

Tenho a pele branca e o batom vermelho de Amera fica muito chamativo em meu rosto. Ela passa o lápis no contorno dos meus olhos e me sinto incomodada. Não é legal quando alguém fica com a mão no seu rosto, ainda mais quando a pessoa está pintando seu olho, ele pode te deixar cega. Vou para o espelho ver se estou bonita como Amera, mas acho que não. Não dá pra comparar a beleza da Amera com a minha, até porque não sei se sou bonita.

– Agora estamos prontas? – Pergunto.

– Não. Falta algo pra você vestir. – Ela olha minhas roupas e tira uma jaqueta jeans escura. Nunca usei essa jaqueta, nem sei porque tenho ela. – Vista isso.

Coloca por cima da camisa e começo a abotoar, mas Amera me interrompe e diz pra deixar aberta.

Acho que estamos prontas. Não estou muito confiante de que serei aceita, mas vou tentar ser simpática.

Saímos do quarto, mas antes que eu feche a porta Kelly me chama e eu olho pra ela.

– Podemos conversar a sós por um momento? – Assenti com a cabeça e acompanhei ela até o banheiro. Sei que Kelly não é muito amigável, mas ela não me intimida, pois temos a mesma idade.

– Diga...

– O que você está fazendo?

– Estou mudando, pois está na hora. – Digo cruzando os braços.

– Não, você está evitando suas melhores amigas. Você me abandonou e abandonou Joyce pra andar com esse povinho. – Ela não está contente, mas não dou a mínima. – Quando falei que você devia mudar eu estava me referindo a nós.

– Como assim?

– Era pra você mudar em relação a mim e a Joyce. Era pra você ser mais comunicativa com a gente. – Minha vontade era de não estar ali.

– Acabou?

– É só isso que tem a dizer em sua defesa?

– É. – Passo por ela e saio do quarto furiosa, mas não posso deixar isso me afetar. Não quero ficar chata.

Caminho em direção da escada, pois usar o elevador não é uma boa idéia. Amera me disse que a festa é secreta, a direção não sabe que eles fazem essas festas que são mais um encontro.

– May e o resto do povo já estão lá em cima. – Diz Amera começando a subir as escadas.

– Todo sétimo dia tem isso? Quero dizer, tem essas festas?

– Não, só quando conseguem bebidas suficientes para fazer. – Continuamos a subir. – Você podia fazer algo com seu cabelo em vez de deixar ele solto.

– Por exemplo? – Pergunto passando a mão nele.

– Um coque.

– Mas você já está de coque, eu estaria imitando você. – Não sei se deveria dizer isso, pois esse é um tipo de atitude que Kelly faz, ninguém pode estar com uma roupa parecida com a dela.

– Que inocente você. – As palavras me deixam mal, mas foi momentâneo. – Claro você só tem quinze anos. Não podia esperar que você fosse uma puta e bêbada. – Suas palavras têm um peso grande e me afetam ainda mais.

Acho que usar palavreados feios como dizia minha mãe é comum entre Amera e seus amigos. Se eu for andar com eles terei que me acostumar.

Chegamos no terraço e há cerca de uma dúzia de pessoas. Todas com roupas diferentes. Minhas roupas são parecidas com a deles e me sinto mais a vontade em relação a isso.

– Andy, bem vinda ao mundo alternativo.

– Mundo al o que? – Droga, preciso prestar mais atenção e ser mais rápida pra entender as coisas.

– Mundo das pessoas diferentes. – Ele diz sem paciência.

– Eu entendi.

Nos aproximamos das pessoas e eles estão com cinco garrafas de bebida. Tem um menino ao lado de Pietro que está com um canudo na boca. O canudo é diferente, ele é todo branco e solta fumaça. Quando o menino tira o canudo da boca ele solta fumaça pelo nariz e pela boca. Será que é um truque de mágica? Pois é uma das coisas mais bizarras que eu já vi.

– Tabaco. – Diz Pietro.

– O que? – Percebo que estou sendo ingênua e lerda de novo. – Ah, isso é tabaco, sim... Eu sei.

– Sabe o que é tabaco? – May pergunta.

– Sim, já vi algumas vezes com meu pai.

– Seu pai tinha tabaco?

– Tinha. – Minto. Nunca tinha visto aquilo e não queria mais parecer à desentendida.

– Impossível. – Diz Amera. – Só os escolhidos tem acesso a tabaco.

Sinto um arrepio na espinha, eles deveriam saber que estou mentindo. Amera sabe que meu pai já foi um escolhido, ela até me interrompeu quando estava falando disso. Penso no que responder, mas nenhuma palavra sai da minha boca.

– Enfim, não me importo como seu pai tem tabaco. – May completa a frase dando um gole em uma das bebidas.

Sinto-me aliviada. Deverei ser mais cautelosa antes de falar algo.

Essa é minha primeira festa, e não sabia que era desse jeito, todos sentados rindo e conversando, bebendo e usando tabaco. Isso realmente me parece mais um encontro de amigos.

Fico calada e só os observo conversando. Dou risada de algumas coisas, mas não sou muito parcipativa. Minah intenção não era ficar calada, mas acho que já falei merda demais.

Pietro se aproxima com uma garrafa.

– Quer tentar mais uma vez?

– Não. Eu passo. – Digo torcendo a cara.

Ele se afasta, mas fica me olhando e isso me incomoda um pouco.

– Caloura você fuma? – O menino do tabaco me pergunta, mas sua pergutna não faz menor sentido pra mim. Fico olhando pra ele e todos ficam me olhando esperando uma resposta.

Sinto meu rosto arder e vontade de chorar de vergonha, mas acho que pessoas normais não fazem isso. Se eu começar a chorar mostrarei que sou infantil e covarde.

– Vem comigo, Andy. – Amera levanta e pega minha mão para me ajudar a levantar. Sigo ela até o outro lado do terraço. Estou nervosa, acho que ela vai brigar comigo. – O que está acontecendo?

– Nada, eu só estou...

– Tentando ser quem você não é. – Andy é simpática, mas também é sincera. – Não precisa se fazer de entendida. Seja você mesma, você é nova, não é sempre que uma caloura anda com a gente. Na verdade você é a primeira. – Ainda tenho vontade de chorar, mas sei que não devo. – Aproveite o momento.

Sinto um peso nas minhas costas com as palavras de Amera, pois sei que tudo que ela falou é verdade. Voltamos pra perto dos outros. Vou ficar um pouco reprimida, mas vou tênar me soltar mais. Era pra ser uma noite divertida, não uma noite de constrangimento.