Escolhidos.

5 Capitulo 5


Após o café resolvemos andar pelo lado externo do prédio. Infelizmente não podemos deixar o complexo. Termos que ficar confinado aqui durante três anos, só podemos sair se formos designados a uma missão.

Caminhamos pela parte da frente. Estamos em frente do portão onde há dois guardas nas torres que ficam ao lado. A entrada central é enorme e também há guardas d lado de fora.

– Será que dá pra fugir daqui? – Diz Jonathan olhando o portão de metal fixamente. Ouvir essas palavras da boca de Jonathan é muito estranho, não imagino que ele possa ter uma mente maligna.

– Jonathan... Que pensamento é esse? – Pergunto o encarando.

– Pode me chamar de Johny.

Nunca pensei que Jonathan pudesse ter uma outra mente, ele que sempre foi quieto, mas talvez ele não seja, pode ser apenas um momento ou uma duvida.

Prosseguimos a caminha e a pergunta dele permanece na minha cabeça, será que é possível passar pela segurança? Se tiver um jeito eu gostaria de saber. Não quero deixar a escola, pois gosto daqui, mas tenho vontade de sair para ver meus pais, receber o carinho que eles me davam. Daria de tudo para ter um dia com eles.

O tempo ainda estava nublado. O jardim fica mórbido sem o sol, mas prefiro um dia nublado em vez de um dia ensolarado.

Particularmente, acho o sétimo dia da semana chato. Não gosto de ficar sem atividades, infelizmente faço as lições de casa rápido demais e não sobra nenhum exercício para fazer em momentos como esse. Estar com meu irmão e seu amigo é bom, mesmo pensando que não pertenço ao grupo deles. Sou compatível com Bryan, mas não muito com Jonathan, não sei o motivo. Talvez eu tenha vergonha, mas ele deve ter mais vergonha do que eu.

Decido entrar e fazer alguma coisa que me agrade. Não encontrei Kelly nem Joyce, talvez elas nem queiram minha companhia.

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Subo ao terraço novamente e sei que dessa vez não vou encontrar Roger. Quando chego ao local escuto risos. Nunca imaginei que muitas pessoas viriam ao terraço, pois é um lugar sem ter muito que fazer. É a primeira vez que venho aqui no sétimo dia da semana e pensei que o local estaria solitário como sempre. Dou alguns passos e vejo umas pessoas na mureta onde costumo sentar. A única diferença é que eles estão na mureta da direita e eu sento na mureta de frente pra porta da escada. Uma menina está em cima da mureta. Fico assustada e penso se há possibilidades dela se jogar. Ela me nota e me encara, desvio o olhar e vou para a mureta que sempre fico.

– Hei. – Diz ela e seus outros amigos olham pra trás e me encaram. Além da menina há mais três pessoas, um menino com a lateral do cabelo esquerdo raspado e o resto do cabelo arrepiado. Tem um outro menino careca e uma menina de cabelo azul. – O que faz aqui? Você é caloura não é?

Olho para a menina e ela pula da mureta e vem em minha direção. Fico imóvel e olho para os lados desejando que alguém aparece, mas sei que ninguém vai aparecer.

– Eu sou. – Minha voz quase não sai.

– O que?

– Sou. – Falo com potencia na voz. – Digo, sou uma caloura.

– Ah... – Ela me olha de cima a baixo. Ela é ruiva com muitas sardas no rosto. – E o que trás você aqui caloura?

–Venho aqui, às vezes. – Respondo aliviando a tensão que está sob meu corpo. – Mas nunca vim no sétimo dia, é a primeira vez.

– Isso é notável, nunca vimos você aqui. – Diz o jovem careca e todos riem.

Analiso bem cada um e noto que eles são mais velhos. Todos eles devem ter dezoito anos e isso significa que são do estágio avançado, eles já podem sair em missão. A curiosidade de saber se algum deles já saiu em missão é grande. Por um instante imagino como séria viajar a procura de novos lugares.

– Como se chama? – A menina ruiva me pergunta.

– Andy.

– Prazer, sou Amera.

– Sou Luca. – Diz o rapaz careca.

– Pietro. – Se apresenta o menino com a lateral da cabeça raspada. – Encantado. – Eles pega na minha mão e beija-a.

– Sou a May, satisfação. – Diz a menina de cabelo azul. Ela me parece um pouco estranha, mas tento não me intimidar.

– Prazer pessoal. – Digo acenando.

– Quer se juntar a nós? – Pergunta Amera. Olho na mão de Pietro e vejo que ele está com uma garrafa de vidro que contar um liquido, água.

– Claro... – Digo com a voz falha.

Ando com eles até a mureta onde estavam e todos nós nos sentamos. Luca encosta-se à mureta e pede a garrafa para Pietro. Por um instante penso na possibilidade de ser jogada lá embaixo, mas creio que isso não é possível.

– E então... Está gostando? – Pietro pergunta.

– Do que? – Olho pra ele assustada e todos riem.

– Calma princesa, não vamos te fazer mal. – Diz May. – E ele perguntou se está gostando da escola.

– Ah, sim... Claro. É ótima. – Respondo dando um sorriso.

– E qual foi sua reação ao saber que é uma de nós. Que é uma escolhida. – Pergunta Amera.

– Bem... Eu já sabia que tinha possibilidade de ser uma escolhida, pois meu pai era um e...

– O meu também. – Amera me interrompe e não se desculpa apenas continua falando. – Na verdade meus pais eram, porém quando eu tinha quatro anos eles saíram em uma missão e nunca mais voltaram.

Suas palavras soam com uma tonalidade de tristeza e fico imaginando como seria não voltar de uma missão. Mas talvez eles não estejam mortos. Todos aqueles que não voltaram, talvez possam estar explorando, ou abrigados em um lugar, ou voltando para Dallas com uma quantidade absurda de pessoas.

– Quer um pouco? – Luca estende a garrafa em minha direção.

– Qual é Luca, ela não vai querer. – Pietro fala olhando pra mim. Eu estou com sede e um pouco de água não seria nada mal.

Pego a garrafa da mão de Luca e dou um gole. Ao sentir o líquido na minha boca, sinto um gosto diferente, algo um pouco amargo e quente. Algumas gotas descem queimando minha garganta. Cuspo o líquido tossindo e percebo que todos estão rindo. Faço careta e o gosto ruim está na minha boca e por mais que eu cuspa, ele não sai.

– O que é? Que água é essa? – Todos riem ainda mais.

– Não é água docinho, é álcool. – Pietro diz pegando a garrafa da minha mão e dando um gole na bebida. Ele nem faz cara feia ao engolir o líquido.

– Álcool?

– Sim. Vodca, uma bebida alcoólica. – Já tinha ouvido algo sobre a respeito dessa bebida, mas não lembro direito.

– Bem que o Pietro avisou. – Diz Amera deitando.

Começo a achar que sou um motivo de chacota. Sou uma espécie de bobo da corte para eles. Aprendi na aula de Tempos Antigos que o bobo da corte servia para alegrar o rei e era o que eu estava sendo, o motivo de riso dos outros.

– Bem, acho que vou... Descer. – Digo me levantando.

– Por que? Não gostou da gente? – May pergunta olhando pra mim.

– Não... Digo, gostei, é só que...

– A impressão que está sendo zoada. – Amera diz se levantando. – Relaxa Andy, somos loucos mesmo, não temos intenção de fazer você de boba ou algo assim. Você ainda está conhecendo as coisas, coisas que a cidade não revela.

– Como o que?

– Como a vodca. – Diz Luca.

Eu o encaro, mas sei que ele falou a verdade. Quando era uma cidadã, nunca tinha visto vodca, nem bebido. Embora queria lembrar de onde tinha ouvido essa palavra, vodca.

Sinto que eles estão querendo ser amigáveis e talvez eu possa tentar ser, mudar um pouco. Lembro da voz de Kelly dizendo que preciso mudar e isso me motiva a ficar conversar com eles.

O assunto sou eu, sobre o que eu gosto, o que faço nas horas vagas e qual aula mais gosto. Não sei o que responder, gosto de poucas coisas, não faço quase nada e não sei qual é minha aula favorita. Talvez seja a aula de luta, mas não pela luta.

Tento ser comunicativa, mas está sendo bastante difícil, mas continuo ali me mostrando interessado. Rio quando todos riem e até faço algumas perguntas. Como foi a iniciação deles e como é estar no último estágio.

Amera é a mais simpática, Pietro é bonito, May parece ser a mais louca dos quatro e Luca o mais sério. Cada um com personalidade diferente. Talvez esteja na hora de saber minha personalidade. Talvez eles me ajudem a descobrir. Mas será que em um dia consigo descobrir isso?

Decido ficar um pouco mais com eles, acho que será legal passar o resto da manhã com eles.

– Vocês já saíram em missão? – Pergunto tímida.

– Apenas Amera. – Fala a May.

– Foi há um tempo atrás. Não foi bem uma missão, mas pelo menos eu saí do complexo. – Ele se levanta e olha pra mim. – Fui com outras pessoas distribuir água e alimento. Alguns cidadãos estão começando a plantar e isso ajuda bastante, as ainda temos que distribuir alimentos para eles e ajudá-los com remédios, roupas e coisas necessárias.

Não era o que eu queria ouvir, mas só de pensar que ela já deixou o complexo eu a considero foda. Eu ia gostar de sair às ruas, só pra fazer alguma coisa, nem se fosse para limpar o chão, assim eu poderia encontrar meus pais. Isso me deixaria feliz.

Vejo que Pietro tem um relógio de pulso, não é comum alguém usar um desses. Pergunto que às horas e ele me informa que é quase meio dia. Resolvo descer para tomar um banho.

Passar uma parte da manhã com a galera mais velha foi legal. Pode ser que eles sejam o grupo que eu pertenço, mas posso estar enganada.

Desço as escadas, até o andar dos iniciados, não é tão longe, por isso consigo descer de escadas.

Chego no corredor e vejo Roger andando por ele, paro e respiro ao vê-lo. Mas o que ele faz aqui? Tento andar sem fazer barulho, mas não sou uma pessoa cautelosa. Ele vira e me olha. Ele sorri e tento retribuir, mas apenas torço o lábio fazendo uma careta em vez de sorrir. Continuo andando e ele vem ao meu encontro. Coloco a mão na maçaneta da porta do meu quarto e ele me aborda.

– Então esse é seu quarto?

– Não. – Digo sem pensar.

– Então por que vai entrar nele?

– Ah... Sim... Meu... É... Ele... Quarto. – Sinto um arrepio na nunca.

– Tenho impressão que você tem medo de mim. – Minha bochecha queima e não sei o que responder. – Tudo bem, não precisa ter medo, vamos começar do zero. Oi, eu sou Roger.

– Eu sei. – Não penso antes de falar novamente. Encaro o chão para não sentir tanta vergonha. Ele ri.

– Acho que não vamos recomeçar. – Dou um uma risada de leve. – Acho que agora sim estamos nos entendendo.

– Desculpe, não sou sociável. – Eu levanto a cabeça olhando para ele de baixo pra cima.

– Que sensual. – Nunca fiquei tão sem graça. Não era minha intenção ser sensual, nem sei fazer isso. Dou um breve sorriso tímido e abro a porta do quarto. – A gente se vê depois, Andy.

A suavidade da voz dele me fascina. Ele volta a andar pelo corredor e eu entro no quarto. Meu coração está batendo forte, isso não é um bom sinal.