Escolhas
3 Sonhada faculdade.
Janeiro de 2005
Com os dedos nos teclados do notebook, esperando a minha mãe voltar da cozinha com a xícara de café, estávamos nervosas por que hoje sai o resultado do ultimo vestibular que fiz, estudei bastante para estas provas de vestibulares e esperei pra ver os resultados todos no mesmo dia.
— Anda logo mãe! Quero ver logo esses resultados, pra não confirmar que sou um fracasso total! – disse ansiosa.
— Para de gritar com a mamãe, ela esta tão nervosa quanto você. – disse minha irmã, Helena, roendo as unhas do meu lado.
Minha mãe apareceu na soleira da porta e ficou nos olhando, minha irmã já havia saído da casa dos nossos pais dois anos antes, apesar de ela morar a duas ruas da nossa casa, minha mãe sente como se fosse a anos luz daqui. Ela sentou do meu lado com sua xícara de café, ela sempre diz que café serve pra ocasiões de nervosismo.
— Pronto! A pressa é inimiga da perfeição, sabe disso, então não fique me apressando quando estou fazendo café. E agora já pode ver estes benditos resultados – disse mamãe.
Sei que minha mãe esta nervosa e ansiosa tanto quanto eu, me inscrevi para o ENEM e também fiz a inscrição de ingresso pelo histórico escolar, para entrar em uma universidade bem aclamada na região sul, que fica na cidade de Tubarão. Porque tentar duas formas de ingresso nesta universidade? Por que talvez, só talvez, eu queira entrar nesta universidade mais do que nas outras, além de que com o ENEM posso conseguir uma bolsa de estudos, se minha nota foi boa.
Essa universidade fica à 1 hora de carro da cidade onde moramos, Araranguá, isso significa que eu teria de me mudar para outra cidade e prosseguir com os estudos, mas eu também me inscrevi para a Universidade Federal que fica onde moramos e para o vestibular Acafe para um curso numa universidade de Criciúma, o que ficaria mais próximo.
— Vamos primeiro para a universidade mais próxima, que nervoso. — eu disse procurando o meu nome na lista de aprovados.
Fiquei procurando meu nome na longa lista de nomes, me inscrevi para o curso de Ciências Contábeis na Universidade Federal eu gosto muito de lidar com números e cálculos, sempre fui boa em matemática fiquei duas vezes em primeiro lugar nas olimpíadas de matemática que aplicam nas escolas.
— Não passei! Imaginei que aconteceria isso, a prova estava muito difícil, e tinha muitos inscritos pra poucas vagas — disse pesarosa.
— Mas você tem mais duas opções, não desanima na primeira. – disse minha irmã me cutucando.
— Eu sei, eu sei- falei revirando os olhos — mas é uma pena porque seria tudo pago, afinal é federal, só se estuda. Vamos para a próxima.
Entrei no site da Acafe para ver se havia passado neste vestibular, queria deixar o resultado do ENEM por último, através do ingresso pelo histórico escolar eu já tinha procurado os resultados e eu consegui, mas não falei nada com minha mãe, apenas para a minha irmã. Eu e Helena sempre fomos muito confidentes uma da outra, mas acredito que eu conto mais a ela sobre minha vida do que o inverso.
Isso tudo me deixa nervosa, porque ir pra longe, mesmo que nem tanto, significaria muitas mudanças. Não acredito que esteja preparada para morar sozinha, mas quem está? Quando se sabe que está na hora de sair de baixo da barra da saia de sua mãe? Aos 20 anos ainda não sei. Passar na Acafe pode significar continuar morando aqui com a minha mãe, até pelo menos eu me formar.
— Olha o seu nome ali — Apontou Helena entusiasmada.
— 12º lugar, hm hm, parabéns filha, vai ser Nutricionista – falou minha mãe acalorada.
Gosto de números e cálculos, mas Nutrição é um curso importante, ensina as pessoas a terem uma boa alimentação e ter qualidade de vida. Escolhi fazer o vestibular para este curso depois que meu pai faleceu de infarto, nossa família se alimentava mal e meu pai vivia dizendo que a alimentação não tinha nada a ver com o coração dele, que era fraco por que era da genética dele. Desde que ele faleceu minha mãe, eu e minha irmã decidimos mudar a nossa alimentação, claro que às vezes “rola” um X-salada, uma lasanha ou um cachorro-quente, mas não somos de ferro né!? Eu tinha 16 anos e me lembro exatamente como eu soube que ele tinha falecido, ainda dói quando penso nisso.
***
Abril de 2001
Aula chata de geografia. Ouço a professora falando e é só blá blá blá. Reviro os olhos quando a branquela da Suzana faz uma pergunta estúpida para a professora. Levanto e vou jogar o chiclete que estou mascando no lixo, volto pro meu lugar. A professora ainda ta falando, não consigo prestar atenção, tem algo me incomodado, deve ser TPM. Silêncio. Olho para frente e vejo a moça do apoio aos alunos falando com a professora. Alguém ta encrencado.
— Maya, você está sendo chamada na diretoria. – diz a professora.
Que? como assim estou sento chamada na diretoria, não fiz nada de errado, na verdade me acho uma aluna exemplar, apesar de as vezes não prestar muita atenção na aula. Mas fazer algo de errado, não! Levanto e vou em direção à porta.
— Pegue suas coisas — diz a moça do apoio.
Meu Deus vou ser expulsa. Calma respira, você não fez nada digno de uma expulsão. Volto para o meu lugar e vou colocando meu caderno e estojo dentro da mochila, percebo os olhares dos meus “amigos”, sem contar os cochichos das meninas que não vão com a minha cara. Termino de guardar minhas coisas e coloco a mochila nas costas, vou em direção à porta. Saímos da sala e a moça do apoio me acompanha até a direção.
— Eu fiz alguma coisa? – pergunto
— A diretora vai falar com você. – disse ela com tom calmo.
Sinto meus pelos se eriçarem, aconteceu alguma coisa. Quando é algo complicado é a diretora quem resolve, caso contrário o secretario é quem conduz. Sento onde a moça diz para eu aguardar, a diretora estava com outro aluno na sala da direção. E ele saiu da sala chutando a lixeira que estava perto da porta, esse sim está encrencado. Ela pede para que eu entre e me sente na cadeira a sua frente.
— Oi, Maya – diz ela olhando para mim – eu sinto muito, mas tenho uma noticia triste para te dizer.
Engulo em seco. O que aconteceu, sinto meus olhos se encherem de lagrimas mesmo antes de ela me dar a noticia.
— Seu pai, ele... ele teve um infarto fulminante no trabalho – comunica ela – ele não resistiu e faleceu, sinto muito.
Meu pai o que? As lagrimas tomam conta do meu rosto, não consigo me controlar e desabo na frente da diretora, que estende lenços de papel pra mim. Começo a soluçar e vejo na minha frente um copo com água que ela me trouxe. Tomo um gole e tento me acalmar, sinto meu corpo todo tremendo. Respiro fundo, de novo e de novo. Não consigo acreditar. Vou me acalmando e percebo que a diretora fechou a porta da sala, me dando privacidade. Agora que parei de soluçar ela me informa que tenho 4 dias de suspensão e que posso ir para casa.
***
Janeiro de 2005
— Mãe não se empolga, ainda tem o outro pra ver o resultado. – digo
— Pra que? Já passou nesse que é bem perto, você pode ir e voltar com o carro que era do seu pai. – falou mamãe, ríspida.
— Mãe, ela fez as três provas para olhar os três resultados! – disse minha irmã, tentando acalmar os nervos.
Procurei meu nome na lista de aprovados no ENEM, me inscrevi para o curso de Ciências Contábeis, achei meu nome bem rápido, passei em terceiro lugar com uma pontuação ótima. Ficamos paradas olhando atônitas para a tela do notebook, sabíamos o que significaria, eu podia não estar mais morando ali com minha mãe em poucas semanas, teria de procurar logo um lugar para morar em Tubarão, pensar como ia trabalhar para poder me manter.
— Que bom que você passou neste também. – falou a minha mãe, saindo da sala.
— Ela não gostou nenhum pouco de eu ter passado neste, mas ela tem que entender que isso significa que posso concorrer a uma bolsa de estudos. – falei, eu e Helena sozinhas na sala.
— Você tem duas opções, fica aqui e faz a faculdade em Criciúma ou vai morar em outra cidade, fazer sua própria vida, e fazer uma faculdade muito mais a sua “cara”- disse Helena com um ar de eu sei que você já sabe a resposta. Minha irmã sempre fora mais decidida que eu, saiu de casa aos 23 e hoje está muito bem empregada, casada e com um filho lindo de 4 meses, que neste momento deve estar com o pai em casa.
— Eu vou pensar no que vou fazer, mais tarde eu falo com mamãe. Tá afim de um sorvete? – pergunto.
***
Cheguei em casa já estava noite, minha irmã me deixou aqui e foi para sua casa, ela sabia que eu devia conversar sozinha com a minha mãe.
— Mãe? – gritei da porta de entrada
— Oi! Estou aqui na cozinha fazendo um café! – grita ela em resposta.
Viciada, pensei. Vou tomar um banho e trocar de roupa, quero tomar coragem de falar para ela que decidi deixar a sua casa, seu aconchego para ir para outra cidade. No banho começo a pensar em tudo o que pode acontecer depois que sair de casa, no rumo em que as coisas podem tomar e em como vou me virar sozinha, se vou morar sozinha ou dividir uma casa, e emprego? Como vou fazer sem um? Acho que não devo ir, mas acho que devo, tomei a decisão certa? Essa indecisão e incerteza do futuro me deixam com urticária.
Saio do banho coloco um shorts e uma camiseta confortável que uso para dormir, saio com a toalha na cabeça, vou em direção a cozinha e vejo minha mãe já sentada na bancada esperando com duas xícaras de café fumegantes. Respiro fundo e me junto a ela. Acho que ela já sabe o que decidi, afinal mães sabem de tudo, e ela sabe que gosto muito mais de contabilidade do que de nutrição. Ela me oferece o café.
— Oi, mãe! – digo tomando um gole – andei pensando e conversei com a Helena e decidi fazer faculdade fora dessa cidade, em Tubarão.
Ela fica me olhando toma um gole de café e percebo seus olhos ficando vermelhos e marejados.
— Tudo bem mãe, também vou senti falta daqui, mas preciso ir em frente e eu sempre vou ligar para saber como vão as coisas, e visitar você e a Helena – disse, antes que ela chorasse. Ela enxuga uma lagrima que teimou em cair e percebo que uma escorreu pelo meu rosto também.
— Se é isso que você deseja tem todo o meu apoio – diz ela em resposta e se levanta para me abraçar.
***
Estou exausta e com 7kg a mais desde que eu comecei a estudar para os vestibulares, eu me desregrei totalmente e para ajudar- ou não- tinha a TPM, eu sei bem típico colocar a culpa na TPM, mas eu simplesmente não consigo me controlar, geralmente tenho uma alimentação regrada, essa ansiedade que parece sempre dizer “coma, que você não está satisfeita, coma, coma tudo o que vê pela frente”. O engraçado é que eu dou ouvidos a ela, patético, agora quero perder esses kilinhos a mais, estar acima do meu peso ideal não é saudável, preciso voltar a minha rotina regrada.
Essa semana foi muito corrida, fui atrás de muita papelada para poder ingressar na universidade, copias e mais copias de documentos, um calhamaço de papeis para poder me matricular no curso. Com ajuda da minha irmã encontramos uma moça – através do facebook – que estava locando um quarto na casa dela e do irmão, ela foi bem simpática e disse que me esperaria e que o quarto era meu, foi minha melhor opção até que eu me instale corretamente. Minha mãe não esta muito “gostosa” com toda essa situação, apesar de ela dizer que me apoia em qualquer decisão minha, eu não a culpo por não estar tão feliz, afinal era apenas eu e ela em casa. Eu mesma não sei se tomei a decisão certa, as vezes penso que devia ter ficado em casa e fazer uma faculdade mais próxima, ou até mesmo nem fazer faculdade e optar por um curso técnico, onde eu ficasse mais perto da minha mãe, mas, estou indo em frente com o que decidi.
— Essas são as ultimas caixas, nossa quanta tralha você tinha naquele quarto! — disse minha irmã, segurando uma caixa com miniaturas de personagens.
—Amo meus mini personagens sua ridícula, não chame eles de tralhas. – disse cutucando Helena, enquanto carregava duas caixas para o carro.
Minha mãe estava segurando uma caneca de café nos observando colocar as coisas no carro, vou levar o carro do meu pai, ele estava dentro da garagem só pegando poeira, e assim eu posso ir para a faculdade com ele e evitar estar pagando transporte coletivo. Ela me ajudou a encaixotar as coisas mas se recusou a coloca-las no carro, acho que de alguma forma, assim, ela adie a despedida.
Coloquei a ultima caixa no carro, e não tinha tantas caixas, bolsas e malas assim, couberam todas no porta malas, bancos traseiros e de passageiro do Fiesta Hatch, minha irmã é uma exagerada. Fiquei do lado do carro olhando para minha mãe e minha irmã, vou sentir saudade delas, sei que não é tão longe assim, não é como se fosse para outro País, mas vou sentir falta da minha mãe todos os dias de manhã me chamando para acordar, sentir falta do café delicioso dela e até das brigas.
— Então gente, tá na hora de eu ir!- falei indo em direção a elas, que me esperavam na calçada.
— Minha maninha está indo morar sozinha, como crescem rápido. – disse Helena, fingindo um choro, me abraçando.
— Helena — falei revirando os olhos — fala serio né, fingindo chorar, sei que vou sair e você vai estar se acabando em lagrimas, hahaha– sei que ela não choraria, ela já saiu de casa e sabe que não é um bicho de sete cabeças e que todo mundo faz isso.
— Dona Rosa, não vai chorar pooorr favor — odeio gente chorando do meu lado, só me faz ter vontade de chorar – só depois que eu tiver entrado no carro, não vou pra longe, e vou estar aqui todos os finais de semana – disse, talvez não consiga vir todos os finais de semana, mas é uma mentirinha boba para ela não entristecer.
— Ta bom minha filha, vai com Deus, me liga assim que chegar lá, sempre que precisar, e também quero saber de tudo! – disse minha mãe com a voz embargada.
— Chegou é, a mãe quer um boletim semanal sobre a vida da Maya agora, haha- disse Helena, como sempre deixando o clima mais ameno.
Nos abraçamos fortemente, fui para o carro. Dentro do carro espero alguns segundos que parecem horas, estou sentindo um certo embrulho no estomago, um nervosismo incomum, não é que eu vá morar longe de casa, mas será uma mudança em tanto para mim. Vou morar com pessoas diferentes que nem sei como chamam, se são organizados ou se só aparecem na casa para dormir mesmo, não que eu seja antissocial, mas não é com toda pessoa que simpatizo. Ligo a ignição e olho pelo retrovisor, vejo minha mãe e minha irmã abraçadas de lado, minha mãe chorando é claro, sabia que ela choraria, pelo menos cumpriu com o acordo.
Dou partida no carro e vou rumo a Tubarão, vejo minha mãe e minha irmã através do retrovisor, elas vão diminuindo de tamanho na mesma proporção em que o nó na minha garganta aumenta. Engulo o choro que está por transbordar e vou seguindo meu rumo. Ligo o som, coloco o meu cd preferido – Ana Carolina perfil – e vou cantando alto pra disfarçar e enxotar o sentimento de tristeza.
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