Escolhas
4 Sem sentidos
Janeiro de 2010
— Vou... atrasada.. bater o ponto.. atrasada – balbuciei.
Porque ninguém esta me entendendo? Vou chegar atrasada no meu trabalho. Minha cabeça está latejando de mais, estou tentando falar, sinto um gosto metálico na boca. Uma luz vem em direção aos meus olhos e escuto uma voz meiga falando comigo, mas não compreendo por que ela está cegando os meus olhos!
— Vai ficar tudo bem, será atendida logo – já ouvi essa voz antes. – Já chegamos no hospital querida.
Hospital? Mas senhora eu preciso trabalhar vou chegar atrasada, está louca, hospital, por favor. Por que não me ouve? Tentei me mexer, mas algo esta segurando os meus braços e percebi que estava com uma dor na perna, tentei mexer ela, mas estava presa também.
— Ela esta com uma fratura fechada na perna esquerda, com sangramento vaginal e algumas escoriações no rosto! Verifique os documentos dela e ligue para família, ela esta acordada, mas parece não entender a situação.
Senti que me elevaram, olho de um lado para outro, sem entender como vim parar aqui, vejo alguém chegando perto com uma seringa na mão dizendo que não vou sentir mais nada, meu corpo começou a adormecer e ficou tudo escuro.
***
Bip, bip, bip. Acordo com este som estranho, primeiro acho que é meu celular despertando, mas assim que tento levantar minha cabeça lateja e me deito de novo, percebo que não estou na minha cama e muito menos no meu quarto, meus braços estão com fios e meu dedo está com algo parecido com um prendedor, estou num hospital é isso, mas como eu vim parar aqui?
Olho pro lado, me sentindo enjoada e vejo Helena olhando para mim com uma cara estranhamente seria.
— Oi! – digo com uma voz rouca e um pouco apreensiva, ainda não lembro o que aconteceu.
— Oi, tu é atrapalhada mesmo né !?– disse ela mudando o semblante e voltando com a cara de brincalhona que é.
— Nossa minha cabeça tá doendo muito, to tonta! – falei enjoada.
— Posso chamar o enfermeiro bonitão ou medico gostosão se você quiser!- disse Helena, com um tom sensual- Você ainda não sabe quem eles são, está dormindo quase um dia.
— Quase um dia? E o meu trabalho? – falei e de repente me lembrei dos fatos, metade deles na verdade.
— Foi por causa do seu trabalho estúpido que você foi parar aqui, não se lembra? — perguntou ela.
— Me lembro de estar indo rápido pro trabalho, me desviar de uma moto e ver uma claridade na minha direção, só! — falei, ficando brava com Helena por estar julgando o meu trabalho que paga minhas contas.
— Esse clarão que você viu não era um anjo te chamando não, e não adianta ficar brava comigo, seu trabalho não te acrescenta em nada no que você estudou 4 anos. – falou ríspida — Um carro bateu em você, pelo que parece, e você estava atravessando um cruzamento igual uma louca, agora sei que era pra chegar no seu precioso trabalho de recepcionista, segundo os médicos foi sorte sua o carro estar indo devagar.
— Você falou com a mamãe? Ela já está por aqui? – perguntei, lembrando que ela pode estar muito preocupada e ignorando os argumentos de Helena sobre o meu trabalho.
— Ela não conseguiu vir hoje, mas amanhã ela estará aqui na hora de visita – respondeu ela.
Senti que minha perna esquerda latejando também, tento mexer o que fez que eu sentisse uma dor aguda, olhei para baixo e tirei o lençol que tapava minhas pernas, minha perna esta enfaixada do pé a altura do joelho, devo ter quebrado ou torcido.
—Quebrei minha perna? – perguntei.
Vi um médico entrando no quarto e minha irmã tinha razão ele é gostosão mesmo, pelo menos parecia através de seu jaleco branquíssimo que realçava o tom da sua pele negra e brilhosa de sol, deve ter passado o final de semana na praia, achei que médicos não tinham tempo. Atrás dele vinham uma enfermeira e mais dois médicos, pra que tantos, pensei.
— Olá Maya, que bom que acordou, eu sou o Doutor Figueiredo — falou dando um sorriso para mim, mas logo se voltou aos outros, o que me deixou irritada — Pessoal essa é Maya, 26 anos, chegou hoje pela manhã com escoriações no rosto, uma fratura fechada na perna esquerda e sangramento vaginal, foi levada para emergência e direto para cirurgia – falou se dirigindo aos outros médicos como se eu não estivesse ali ou como se eu estivesse a sabendo de tudo– Maya, estes são dois dos residentes deste hospital, que vão acompanhar o seu caso.
— Sangramento vaginal? – Perguntei um tanto confusa, do que ele estava falando? Por que aconteceria isso?
— Sentimos muito senhorita Maya, você é jovem e pode tentar de novo daqui a alguns meses. – falou o médico gostosão, que estava perdendo o encanto para mim.
— Como assim tentar de novo? – perguntei atônita.
— Por que você não nos contou que estava grávida?- disse Helena um tanto surpresa e um tanto com raiva.
Sinto meu sangue subir, meus ouvidos tamparem, uma náusea tomando conta de mim. Como eu ia falar sobre isso se nem eu mesma não sabia? Eu mal me lembro do ultimo cara com quem transei. Pousei a mão instintivamente sobre meu ventre, mas tirei rapidamente. Eu grávida? Grávida e perdi, grávida e perdi, essas palavra fiam matutando na minha cabeça, eu nem sabia, como fui deixar isso acontecer? Minhas mão tremem, escuto Helena repetindo a pergunta e me seguro para não explodir.
— Talvez eu não tenha falado, por que não sabia! – falei, quase gritando, um enjoo estava tomando conta de mim, misturado com raiva e confusão, os acontecimentos dos últimos meses estavam vindo na minha mente, tentei lembrar com quem transei, se eu tinha sintomas de gravidez, eu não sei.
Os médicos e a enfermeira, que estava ali mexendo no meu soro, me olharam ao mesmo tempo, assim eles prestam atenção ao paciente. Meu sangue parece que vai ferver, estou muito nervosa com essa situação toda, gravidez? Sangramento? Perna quebrada? Eu não estou conseguindo pensar direito, minha mente está girando, tentando lembrar do acidente, das ultimas transas, de como tudo me levou a isso. Me apoio no encosto da maca, quase deito, mas não quero me derramar agora.
— Pedimos desculpas Maya, achamos que você estava a par da situação, você chegou hoje cedo ao hospital e logo entrou na sala de cirurgia devido a sua fratura na perna esquerda, como havia sangramento suspeito e chamei a Dra. Peres que a examinou e detectou a sua gravidez, devido à colisão com o carro você acabou perdendo o bebê, sentimos muito. – disse o médico, com seus súditos me olhando como se fosse um objeto de pesquisa.
— Pois é acharam que eu sabia, devia ter vindo se certificar disto primeiro — disse com meus olhos marejados, estava com raiva, não quero eles aqui me olhando e sabendo de coisas que eu nem fazia ideia – Não quero falar com você neste momento, quero que saiam do meu quarto!
— Tudo bem, voltaremos daqui a alguns minutos para conversarmos melhor – disse o médico Figueiredo. Fui um pouco rude, mas estou pouco me importando para isso, ele é quem veio no meu quarto me jogando esses acontecimentos sem nem ao menos me perguntar se me sinto bem.
Fiquei olhando eles saírem pela porta, o doutor parecia uma mamãe pata com seus patinhos atrás, se esses são residentes mal olham para os pacientes como serão bons médicos? Agora que eles não estão mais aqui os pensamentos vieram em maratona, lembro de sair de casa de bicicleta e passar pela senhora do cachorro que me xingou, do cruzamento que passo todos os dias para chegar ao trabalho, uma luz, depois vozes e lembro de rostos desconhecidos acima de mim falando comigo, o que eles diziam? Me dou conta de que minha irmã ainda está no quarto e olho para ela, sei que ela quer algumas respostas por perguntas que ainda não fez.
— Não fica me olhando com essa cara, eu não sabia que estava grávida! — falei séria.
— Como não sabia? Não percebe que a sua menstruação não veio? Você toma comprimidos anticoncepcionais como pode ter engravidado? A não ser que tenha esquecido de toma-los. – disse ela com um tom de voz alto, quase gritando.
— Helena! Pode falar mais baixo por favor?! – falei entre dentes, olhei em direção aporta e percebi que uma enfermeira bisbilhoteira havia parado para ouvir — Eu tomo meus comprimidos corretamente, posso ter esquecido um dia ou dois — menti, lembro da minha cartela de comprimidos em cima do criado mudo com vários dias pulados, mas não ia dizer isso a ela.
— Então o que foi que aconteceu? Você não deve ser tão fértil assim para engravidar esquecendo um ou dois dias – disse ela, sabendo que eu estava mentindo — Você pelo menos sabe quem seria o “pai”? Depois que você terminou seu namoro com o Rodrigo, saiu igual uma louca bebendo e transando com cada um que aparecia na sua frente.
— Para de ficar me julgando! Não, eu não sei quem foi o ultimo cara com quem transei e eu não devo ter usado camisinha, e nem percebi que minha menstruação não veio! – falei sentindo meu rosto ficar vermelho, estou nauseada, quero que Helena vá embora, percebo que estávamos gritando.
Andei tão ocupada com meu trabalho, não faço apenas recepcionar as pessoas no prédio, lido com alguns papéis administrativos e trabalho alguns dias à noite em um pub na cidade, o que me facilitava encontrar homens para “sair”, transar mesmo. Estava preocupada com as contas pra pagar, fazia até alguns finais de semana que eu não estava saindo com homens e nem para beber, estou atrás de outro emprego também, um relacionado a minha profissão, que não percebi que minha menstruação atrasou.
— Estou indo lá fora, com você deste gritando desse jeito não dá pra conversar! – disse ela se levantando e saindo do quarto.
Viro para o lado e fico aliviada por ela ter saído do quarto, não quero ela aqui me julgando, eu não sabia do bebê e pronto! O que ela quer que eu faça fique chorando por que perdi uma coisa que nem sabia que existia? Me sinto cansada, exausta, vou ficar aqui esperando o medico vir e esclarecer o que aconteceu comigo, ou melhor o que está acontecendo comigo. Meus olhos estão pesando, será que ele vai demorar a voltar? Não devia ter expulsado ele desse jeito, mas ele vem cheio de dedos e exclamações. Que sono, pisco meus olhos com força, não quero dormir quero esperar o medico voltar e falar comigo sozinha, não quero julgamentos. Pisco por alguns segundos, abro os olhos e não tem ninguém aqui ainda, pisco pesado de novo, abro os olhos e a enfermeira esta colocando algo no meu soro, fecho os olhos e apago.
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